{"id":44321,"date":"2017-09-22T11:20:42","date_gmt":"2017-09-22T14:20:42","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=44321"},"modified":"2017-10-26T10:43:30","modified_gmt":"2017-10-26T12:43:30","slug":"entrevista-guilherme-arantes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2017\/09\/22\/entrevista-guilherme-arantes\/","title":{"rendered":"Entrevista: Guilherme Arantes"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/daniel.tavares.96343\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Daniel Tavares<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Guilherme Arantes est\u00e1 de volta. Quatro anos ap\u00f3s o elogiado \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/08\/15\/rod-stewart-clapton-guilherme-arantes\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Condi\u00e7\u00e3o Humana<\/a>\u201d (2013), o m\u00fasico retorna com &#8220;Flores e Cores&#8221;, um disco &#8220;pra cima&#8221; que reflete o bom momento pessoal de Guilherme, vivendo na Bahia, com uma voz renovada e, aos 64 anos, t\u00e3o apaixonado pela esposa como se tivesse 16. O pr\u00f3prio m\u00fasico define &#8220;Flores e Cores&#8221; como &#8220;um disco luminoso&#8221;. &#8220;As pessoas est\u00e3o gostando porque n\u00e3o \u00e9 uma coisa for\u00e7ada, n\u00e3o \u00e9 um romantismo comercial. \u00c9 uma coisa vivida, que tem uma leveza. \u00c9 o que voc\u00ea vai encontrar, por exemplo, no Vin\u00edcius do \u2018Tarde em Itapu\u00e3\u2019, porque ele estava vivendo um momento assim&#8221;, define Guilherme Arantes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seu 27\u00ba \u00e1lbum da carreira, 21\u00ba disco de in\u00e9ditas, &#8220;Flores e Cores&#8221; n\u00e3o apenas se junta \u00e0 extensa discografia do compositor, mas se apresenta como uma obra rica, uma polaroide do momento que n\u00e3o se esquiva de reverenciar o passado, os locais onde o artista morou, o pop dan\u00e7ante dos anos 80. Lan\u00e7ado pelo selo do pr\u00f3prio m\u00fasico, o Coaxo de Sapo (selo pelo qual sa\u00edram seus tr\u00eas bons \u00e1lbuns anteriores: \u201cL\u00f3tus\u201d, de 2007; \u201cPiano Solos\u201d, de 2011; e \u201cCondi\u00e7\u00e3o Humana\u201d, de 2013), \u201cFlores e Cores\u201d mant\u00e9m o grupo coeso que gravou o disco anterior: Gabriel Martini (bateria), Willy Verdaguer (baixo) e Alexandre Blanc (guitarra) com Luiz Carlini solando em 5 das 12 faixas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No convidativo papo abaixo, Guilherme fala da vida na Bahia (\u201cAcabou fazendo muito bem para minha voz\u201d), recome\u00e7os (\u201cCriei meus filhos e todos se foram. De certa forma, a minha vida sofreu um recome\u00e7o\u201d), o \u00e1lbum \u201cFlores e Cores\u201d (\u201c\u00c9 um disco que traz o romantismo de um amor verdadeiro\u201d) e grandes amigos (\u201cEu ia pra casa do Belchior pra tomar vinho e fumar charuto\u201d), critica o excesso de interatividade dos dias atuais (\u201cA pessoa n\u00e3o larga aquele aparelho\u201d) e espeta a rela\u00e7\u00e3o \u201cdoentia\u201d de alguns artistas de sua gera\u00e7\u00e3o com a Internet: \u201cEle precisa do clipe. Mas o clipe n\u00e3o basta. Ele precisa de teasers. Mas os teasers n\u00e3o bastam. Ele precisa emitir pensamentos, ele precisa postar fotos, tem o Instagram, isso n\u00e3o \u00e9 natural\u201d. Confira o bate papo.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/tVAsJd5M8-s?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>&#8220;Flores e Cores&#8221; acabou de sair. Como est\u00e1 sendo a recep\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nEst\u00e1 muito boa, positiva, porque ele \u00e9 um disco que traz uma luz, \u00e9 um disco luminoso. Pelo menos tentei trazer isso. E a resposta das pessoas tem sido essa. \u00c9 um disco que traz o romantismo de um amor verdadeiro. N\u00e3o \u00e9 uma coisa for\u00e7ada. \u00c9 uma coisa sa\u00edda de dentro mesmo, o que estou vivendo. \u00c9 um jeito tamb\u00e9m de fazer reflex\u00f5es coerentes sobre o amor, algumas conclus\u00f5es de quem j\u00e1 tem um pouco mais de viv\u00eancia, porque j\u00e1 estou com 64 anos. E estou vivendo um momento muito amoroso, muito afetivo. E pra mim ficou f\u00e1cil compor, porque eu estava inspirado mesmo numa sensa\u00e7\u00e3o quase que adolescente. \u00c9 interessante que esse ano fui em busca de coisas que trouxessem uma inspira\u00e7\u00e3o para alegria, para certas palavras que permeiam esse disco, como pureza simplicidade, cumplicidade, a inoc\u00eancia&#8230; S\u00e3o coisas que acho que est\u00e3o presentes no meu dia a dia hoje. Criei meus filhos \u2013 eu tenho cinco \u2013 e todos se foram, a mais nova est\u00e1 fazendo faculdade, a mais velha est\u00e1 com 37. Ent\u00e3o, de certa forma, a minha vida sofreu um recome\u00e7o. Ano passado me casei. A gente est\u00e1 junto h\u00e1 quinze 15 anos e resolveu viver o nosso amor, o nosso relacionamento. E ao fazer as m\u00fasicas, comecei a ver que eu estava bem afiado para escrever sobre esse assunto. Tentei fazer um disco com alguns achados po\u00e9ticos, alguns del\u00edrios assim l\u00fadicos, porque o poeta tem que estar com esse lado l\u00fadico, brincalh\u00e3o com a l\u00edngua \u2013 porque a l\u00edngua \u00e9 muito rica, em voc\u00ea achar sinapses, liga\u00e7\u00f5es entre as palavras&#8230; certos achados po\u00e9ticos que esse ano ficaram f\u00e1ceis. Ficou um disco fluido, n\u00e3o sei por que. Ent\u00e3o, a resposta (do p\u00fablico) est\u00e1 sendo muito boa. As pessoas est\u00e3o gostando porque n\u00e3o \u00e9 uma coisa for\u00e7ada, n\u00e3o \u00e9 um romantismo comercial. \u00c9 uma coisa vivida, que tem uma leveza. \u00c9 o que voc\u00ea vai encontrar, por exemplo, no Vin\u00edcius do &#8220;Tarde em Itapu\u00e3&#8221;, porque ele estava vivendo um momento assim. E isso acaba permeando os poemas, as letras e as m\u00fasicas. Esse foi um ano em que eu fui me reconciliar com o pop dos anos 80, um pouco com a sonoridade tradicional do meu pop, que \u00e9 uma mistura de bossa, com jovem-guarda e com pop rock bem peculiar, bem Guilherme Arantes. Consegui formatar um disco como se eu estivesse em 1982. Fiz um disco na \u00e9poca (com as can\u00e7\u00f5es \u201cLance Legal\u201d e \u201cO Melhor Vai Come\u00e7ar\u201d) que era como esse, um disco inspirado, alegre, leve e brincalh\u00e3o com as palavras. Acho que h\u00e1 uma liga\u00e7\u00e3o entre \u201cFlores e Cores\u201d e esse disco de 1982. E acho disco novo ainda melhor. Ele traz a maturidade de algumas coisas, baladas antigas que s\u00e3o um resgate da utopia mais ancestral, l\u00e1 dos anos 70. \u00c9 um disco bem com a minha cara de hoje, um disco atual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Qual sua can\u00e7\u00e3o preferida entre as 12 do \u00e1lbum, a que mais tem a ver com o que voc\u00ea est\u00e1 sentindo nesse momento?<\/strong><br \/>\nAcho que \u00e9 &#8220;Semente da Mar\u00e9&#8221;, uma m\u00fasica forte porque ela marca poeticamente um estranhamento com as quest\u00f5es desse mundo moderno, do indiv\u00edduo. Como \u00e9 que o indiv\u00edduo se sente perante um mundo convulsionado de costumes&#8230; o que chamo de refugiado, mas n\u00e3o \u00e9 bem o refugiado da coisa coletiva, da di\u00e1spora, que seria um processo coletivo. Esse termo est\u00e1 recorrente nessa safra atual de lan\u00e7amentos. Essa palavra apareceu no disco do Chico (Buarque), no disco dos Tribalistas&#8230; \u00c9 um tema, uma palavra recorrente em todo o jornalismo, em toda a informa\u00e7\u00e3o sobre o mundo, est\u00e1 no centro dessa convuls\u00e3o que o mundo apresenta hoje. E eu digo assim: esse indiv\u00edduo que est\u00e1 ali estranhando o mundo sou eu. Sou eu, n\u00e9? Basicamente sou eu olhando as minhas viagens, olhando virtualmente, visitando os lugares onde passei ao longo desses 40 anos de carreira. Tem um peda\u00e7o da minha vida que ficou em Londres, tem um peda\u00e7o da minha vida que ficou no Rio, tem um peda\u00e7o da minha vida que ficou em v\u00e1rios lugares. Tem peda\u00e7o da minha vida no Recife. \u00c9 engra\u00e7ado. Quando a gente olha a vida retrospectivamente, eu tive v\u00e1rias encarna\u00e7\u00f5es. Eu tive uma encarna\u00e7\u00e3o no bairro de Pinheiros, em S\u00e3o Paulo, eu tive uma encarna\u00e7\u00e3o no bairro da Vila Mariana, depois no Alto da Lapa, depois me mudei pra Copacabana. Da\u00ed \u00e9 uma encarna\u00e7\u00e3o em Copacabana. Depois me mudei pra Barra da Tijuca. \u00c9 outra encarna\u00e7\u00e3o. Tem um peda\u00e7o da minha vida que est\u00e1 em Los Angeles, que ficou l\u00e1, porque eu fiquei nove meses em Woodland Hills&#8230; Ent\u00e3o isso tudo, virtualmente, faz voc\u00ea viajar pela tela do computador e voltar l\u00e1 no lugar. Voc\u00ea v\u00ea o lugar. E voc\u00ea come\u00e7a a olhar a sua vida no mundo. \u00c9 uma vida que n\u00e3o pertence a uma tabazinha, uma aldeiazinha. N\u00e3o \u00e9 estacion\u00e1ria. A vida de todos n\u00f3s est\u00e1 muito din\u00e2mica. \u00c9 nesse sentido que falo desse olhar. Essa m\u00fasica &#8220;Semente da Mar\u00e9&#8221; me identifica at\u00e9 pela can\u00e7\u00e3o, que \u00e9 mais progressiva, com influ\u00eancias do Vangelis, do Jon Anderson (Yes), e traz uma beleza estranha de uma era do rock progressivo, que \u00e9 uma das minhas maiores influ\u00eancias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea est\u00e1 inclusive morando na Bahia, j\u00e1 faz um tempo, n\u00e9? O que te fez sair do eixo Rio-S\u00e3o Paulo e vir pra c\u00e1, morar no Nordeste?<\/strong><br \/>\nVim para a Bahia por uma escolha, por causa do c\u00e9u, do ar oce\u00e2nico, que acabou fazendo muito bem para minha voz. Acabou fazendo muito bem pro meu aquietamento, para respirar fundo, para ter uma coisa assim mais pausada, porque j\u00e1 tenho uma vida longa, entendeu? Olho para tr\u00e1s e minha vida foi muito movimentada. E estou aqui na Bahia tamb\u00e9m muito em fun\u00e7\u00e3o de estar com a minha mulher, num relacionamento j\u00e1 bastante duradouro e que n\u00e3o tem trinca, n\u00e3o tem rachadura. Ele est\u00e1 num estado original de novo. E isso \u00e9 uma coisa preciosa! J\u00e1 tenho uma boa experi\u00eancia para saber que isso \u00e9 um dom: &#8220;Inoc\u00eancia \u00e9 um dom maior de um sentimento a se guardar&#8221;. Assim come\u00e7a o disco. E esse disco fala de muitas coisas que, de uma forma leve, de uma forma pop, assim divertida, s\u00e3o coisas importantes como a liberdade individual. N\u00e3o s\u00f3 o direito da liberdade, da pessoa ser como quer ser, mas o dever dela lutar pelo direito das pessoas, porque n\u00f3s estamos numa \u00e9poca que \u00e9 uma \u00e9poca em que h\u00e1 um risco de supress\u00e3o de direitos, supress\u00e3o de conquistas da sociedade e retrocesso a um estado de exce\u00e7\u00e3o, um estado de vigil\u00e2ncia sobre o indiv\u00edduo. Tudo isso acaba refletindo nas m\u00fasicas. Agora a Bahia me fez bem especialmente pra voz, pra minha voz, porque, como \u00e9 um ar oce\u00e2nico, \u00e9 um ar muito \u00famido, acaba t\u00e9pido e favorece as cordas vocais. Ent\u00e3o voltei a cantar nos tons originais das m\u00fasicas. Estou com um alcance vocal legal, uma emiss\u00e3o timbrada, cortante. \u00c9 importante isso. H\u00e1 30 anos que eu era totalmente rouco. E descobri que morar no Nordeste acaba fazendo muito bem pra voz. Isso \u00e9 uma aquisi\u00e7\u00e3o interessante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea tamb\u00e9m mencionou suas influ\u00eancias do rock progressivo. O que voc\u00ea tem ouvido de rock progressivo atual?<\/strong><br \/>\nAh, n\u00e3o tenho ouvido rock progressivo de hoje. Nisso sou ultrapassado e nost\u00e1lgico. E tamb\u00e9m n\u00e3o ou\u00e7o tanta m\u00fasica como eu ouvia quando era mais novo. Ouvir m\u00fasica n\u00e3o \u00e9 uma coisa que eu esteja fazendo o tempo todo. Gosto de muitas coisas atuais, do pop mundial, por exemplo da Sia, gosto de pessoas criativas. Mas ou\u00e7o mais m\u00fasica do Brasil. Gosto muito do Vanguart, uma banda legal que tem um del\u00edrio interessante. E gosto muito dessa nova corrente da m\u00fasica folk, AnaVit\u00f3ria, esses meninos novos, Tiago Iorc, Ana Vilela, \u00e9 um meio folk, meio existencial. E existe uma corrente das bandas psicod\u00e9licas, o rock lis\u00e9rgico est\u00e1 na moda, mas eu mais ou\u00e7o falar do que paro pra ouvir. Ainda mais nesse per\u00edodo de um ano pra c\u00e1 que tive que me fechar, porque n\u00e3o adianta eu ficar ouvindo: eu mesmo tenho que emitir! Sair fazendo as minhas m\u00fasicas, do meu jeito. Ent\u00e3o, esse momento agora \u00e9 o momento em que n\u00e3o estou ouvindo nada. Estou em off.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"750\" height=\"422\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/-SsuFJqWqnU?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea tem consci\u00eancia de que a sua m\u00fasica foi e \u00e9 importante na vida das pessoas. &#8220;\u00caxtase&#8221;, por exemplo, \u00e9 uma can\u00e7\u00e3o que muita gente namorou ouvindo&#8230; eu j\u00e1 vi um v\u00eddeo em que voc\u00ea brincou que pessoas, inclusive, foram concebidas com ela. Voc\u00ea deve ter raz\u00e3o e \u00e9 at\u00e9 um pouco pai dessas pessoas. Como \u00e9 que voc\u00ea lida com isso? Como \u00e9 estar dentro das casas, da vida das pessoas?<\/strong><br \/>\n\u00c9 um mist\u00e9rio, mas ao mesmo tempo \u00e9 muito gostoso voc\u00ea saber que marca ou marcou vidas. Brinco mesmo que isso \u00e9 uma coincid\u00eancia geracional. Acho que \u00e9 porque, como as m\u00fasicas s\u00e3o muito existenciais, falam da exist\u00eancia, acho que acaba sendo um caminho natural de significado. N\u00e3o \u00e9 uma brincadeira, uma coisa de paquera. \u00c9 uma m\u00fasica falando do mundo interior. Isso \u00e9 uma conquista pra mim, um privil\u00e9gio muito grande fazer parte da vida das pessoas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Hoje as redes sociais s\u00e3o uma ferramenta importante de intera\u00e7\u00e3o entre artistas e f\u00e3s, muito mais do que, por exemplo, nos anos 80, quando voc\u00eas, artistas, n\u00e3o estavam t\u00e3o pr\u00f3ximos de n\u00f3s, meros mortais. Como \u00e9 que voc\u00ea v\u00ea essa intera\u00e7\u00e3o maior entre os f\u00e3s e os artistas e como \u00e9 que voc\u00ea interage com seus f\u00e3s, que comentam no seu Facebook, etc.?<\/strong><br \/>\nEu vejo que a cada dia que passa isso vai se tornando mais e mais importante, n\u00e9? Mas sou um pouco antiquado, um pouco arcaico pra esse mundo, porque n\u00e3o tenho tanta paci\u00eancia de ficar postando, lendo e postando, postando e lendo&#8230; Eu, realmente, olho as pessoas hoje em dia e acho que h\u00e1 um excesso de intera\u00e7\u00e3o. Pra minha gera\u00e7\u00e3o isso n\u00e3o faz muito sentido, sabe, voc\u00ea ficar lendo e respondendo, lendo e respondendo&#8230; (Essa conex\u00e3o) Talvez seja a fun\u00e7\u00e3o mais importante da atualidade na liga\u00e7\u00e3o com o p\u00fablico, mas ainda sou de uma era em que n\u00e3o havia tanta troca assim. Eu interajo com prazer, mas \u00e9 limitado. A minha gera\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem tanto saco de ficar trocando figurinha. Fomos criados de outro jeito. Voc\u00ea tinha os seus pensamentos, voc\u00ea publicava os seus pensamentos e depois o mundo respondia lendo, escrevendo um pouco pra voc\u00ea, ou atrav\u00e9s dos shows, mas n\u00e3o existia essa linha direta. E confesso que \u00e9 um pouco for\u00e7ado pra minha gera\u00e7\u00e3o acompanhar todo esse pingue-pongue da rede. \u00c9 algo extremamente penoso. A gente prefere ler um livro, fazer outra coisa. N\u00e3o tenho esse interesse espec\u00edfico t\u00e3o grande, uma \u00eanfase t\u00e3o grande no pingue-pongue com o p\u00fablico. Por\u00e9m, vejo meus colegas, artistas e tal, eles fazem o trabalho deles, mas aquilo n\u00e3o basta. E acho que isso j\u00e1 est\u00e1 beirando, em minha opini\u00e3o, uma coisa doentia. Ele precisa do clipe. Mas o clipe n\u00e3o basta. Ele precisa de teasers. Mas os teasers n\u00e3o bastam. Ele precisa emitir pensamentos, ele precisa postar fotos, tem o Instagram, tem n\u00e3o sei o qu\u00ea, tem milh\u00f5es de formas de voc\u00ea ficar realimentando uma rede que pra minha gera\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 natural. Talvez seja natural pra gera\u00e7\u00e3o mais nova. Mas a gente tenta acompanhar&#8230; com dificuldade. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil. Primeiro porque a minha gera\u00e7\u00e3o \u00e9 prolixa, n\u00f3s n\u00e3o somos monossil\u00e1bicos. A gente n\u00e3o consegue colocar drops de pensamentos. E precisaria ser assim. Precisaria voc\u00ea n\u00e3o fazer grandes tratados. Como estou aqui fazendo com voc\u00ea nessa entrevista. Voc\u00ea est\u00e1 vendo que sou prolixo. A cabe\u00e7a d\u00e1 uma volta&#8230; e isso na Internet n\u00e3o funciona porque a Internet \u00e9 movida a drops de pensamentos, p\u00edlulas de emiss\u00f5es. Ent\u00e3o, essa cultura fragmentada \u00e9 altamente suspeita pra minha gera\u00e7\u00e3o. A minha gera\u00e7\u00e3o \u00e9 a gera\u00e7\u00e3o do livro, do \u00e1lbum, publica um neg\u00f3cio, a gente n\u00e3o tinha essa interatividade. N\u00e3o sei&#8230; acho que \u00e9 uma coisa geracional. E eu n\u00e3o me adapto muito bem n\u00e3o. Me sinto cansado. N\u00e3o consigo ficar postando coisas. E teria que postar muito mais. Eu sou muito cobrado, n\u00e9? A gente \u00e9 muito cobrado. \u201cN\u00e3o, voc\u00ea teria que fazer ao menos uns 20 posts por dia pra voc\u00ea manter a alimenta\u00e7\u00e3o da sua rede\u201d. Isso \u00e9 um absurdo. Voc\u00ea n\u00e3o pode esperar que Jos\u00e9 Saramago v\u00e1 agir dessa forma, que o Jo\u00e3o Ubaldo Ribeiro v\u00e1 agir dessa forma, ou que o Jo\u00e3o Cabral [de Melo Neto], ou o [Ariano] Suassuna v\u00e1 ficar postando pensamentos na rede. Acho que perten\u00e7o a uma escola antiga, entendeu. E junto comigo tem muita gente que n\u00e3o se adapta muito. N\u00e3o sei se isso \u00e9 uma doen\u00e7a, talvez, coletiva atual. Porque a pessoa n\u00e3o larga aquele aparelho, fica o dia inteiro lendo e postando, lendo e postando. Acho inacredit\u00e1vel. Para o meu jeito de viver, n\u00e3o consigo n\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Vou confessar uma coisa. At\u00e9 eu, quando acaba o cr\u00e9dito do celular, ou quando acaba a bateria, eu acho bom tamb\u00e9m.<\/strong><br \/>\n\u00c9 incr\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Tem uma pergunta que sempre fa\u00e7o para todo mundo que entrevisto. \u00c9 sobre os m\u00fasicos do lugar. Voc\u00ea est\u00e1 morando na Bahia, mas eu queria saber que m\u00fasicos voc\u00ea gosta, que participaram da sua vida como voc\u00ea participou da vida de outras pessoas, que tenham vindo do Cear\u00e1.<\/strong><br \/>\nPoxa vida, o principal \u00e9 o Belchior, um grande mestre, um grande amigo, colega l\u00e1 do come\u00e7o da carreira. Posso contar muita coisa sobre nossa conviv\u00eancia, sobre o in\u00edcio das nossas carreiras, que foi junto, simult\u00e2neo \u2013 ele come\u00e7ava a dele, eu come\u00e7ava a minha \u2013 e a luta da gente no Rio de Janeiro, nas gravadoras. Depois a gente foi pra Warner, que era a mesma gravadora, do Andr\u00e9 Midani&#8230; as nossas andan\u00e7as pelo Rio, os papos&#8230; Eu ia pra casa dele pra tomar vinho e fumar charuto. Muitos papos sobre poesia, literatura&#8230; O Belchior era muito vers\u00e1til, versado, uma figura muito querida, n\u00e9? Esse talvez seja o mais presente na minha vida porque a gente andou muito junto nos primeiros anos. Depois eu fui morar no Rio de Janeiro, e a gente se desligou. N\u00e3o tivemos mais contato&#8230; Mas at\u00e9 1979, 1980, eu ainda estava bem presente na vida dele e vice-versa. Belchior \u00e9 uma pessoa a quem guardo um carinho especial. Agora, a minha fam\u00edlia \u00e9 do Cear\u00e1. Isso eu preciso contar! Tem uma parte da minha fam\u00edlia, que s\u00e3o os Lima Verde, do Crato (nota: Crato \u00e9 um munic\u00edpio brasileiro do interior do estado do Cear\u00e1 que situa-se no Cariri cearense, conhecido por muitos como o \u201cO\u00e1sis do Sert\u00e3o\u201d). E no Crato tem o conservat\u00f3rio, que era do meu bisav\u00f4, o Tel\u00eamaco Lima Verde. Essa fam\u00edlia Lima Verde (ou Limaverde, como \u00e9 grafado algumas vezes) \u00e9 muito importante na m\u00fasica brasileira. Foi da\u00ed que veio o meu cromossomo musical, do Cear\u00e1. Recentemente estive no Crato, fiz uma apresenta\u00e7\u00e3o e at\u00e9 uma homenagem \u00e0 fam\u00edlia. Acho que Ednardo tamb\u00e9m, n\u00e3o sei se a esposa que \u00e9 Lima Verde ou se ele que \u00e9 Lima Verde, tamb\u00e9m \u00e9 ligado \u00e0 fam\u00edlia (nota: Joana Limaverde, filha de Ednardo com a psic\u00f3loga Rosane Limaverde, \u00e9 tataraneta de uma irm\u00e3 do citado Tel\u00eamaco Lima Verde, bisav\u00f4 de Guilherme. Os dois cantores s\u00e3o, portanto, primos distantes). E n\u00f3s temos um primo, o Solano Ribeiro, jornalista e produtor musical, que foi o maior produtor de festivais da m\u00fasica brasileira, desde o festival do &#8220;Arrast\u00e3o&#8221;, l\u00e1 com a Elis Regina [I Festival de M\u00fasica Popular Brasileira, 1965], depois quando teve &#8220;A Banda&#8221;, &#8220;Disparada&#8221;, com o Chico Buarque, o Geraldo Vandr\u00e9, e depois no ano seguinte com &#8220;Roda Viva&#8221;, &#8220;Ponteio&#8221;, &#8220;Alegria, Alegria&#8221;, &#8220;Domingo no Parque&#8221;. Eu estava no audit\u00f3rio por conta desse primo da minha fam\u00edlia, que \u00e9 dos Lima Verde, o Solano Ribeiro. \u00c9 um primo em segundo grau. Solano foi diretor tamb\u00e9m do Festival Internacional da Can\u00e7\u00e3o, os FICS, no Maracananzinho, onde se revelaram Milton Nascimento com &#8220;Travessia&#8221;, o Walter Franco, com &#8220;Cabe\u00e7a&#8221;, ou mesmo Tony Tornado com &#8220;BR-3&#8221;. Teve &#8220;Sabi\u00e1&#8221;, o Geraldo Vandr\u00e9 cantando &#8220;Pra N\u00e3o Dizer Que N\u00e3o Falei de Flores&#8221;, o Taiguara tamb\u00e9m, o Ivan Lins, que surgiram nessa mesma \u00e9poca dos FICS, os Festivais Internacionais da Can\u00e7\u00e3o. Esse clima \u00e9 muito importante. Falar da m\u00fasica, os parceiros, o pessoal da m\u00fasica popular do Cear\u00e1 que tangenciou a minha vida \u00e9 falar do Solano Ribeiro. Ele foi muito importante pra mim. Atrav\u00e9s dele foi que conheci um monte de gente da m\u00fasica, como o Rog\u00e9rio Duprat, Jorge Mautner, Walter Franco&#8230; Essa gente eu conheci atrav\u00e9s do Solano. Belchior e Solano s\u00e3o duas pessoas (importantes). Outro amigo antigo \u00e9 o Raimundo Fagner. A gente j\u00e1 fez shows juntos, j\u00e1 gravamos juntos e tenho uma amizade com ele, quero muito bem, \u00e9 uma pessoa que me ajudou tamb\u00e9m num momento em que eu precisava de uma ajuda para me estabelecer no Rio de Janeiro. Foi ele quem me ajudou numa hora em que eu estava indo para a CBS, a antiga CBS, que hoje \u00e9 a Sony Music. O Fagner \u00e9 sempre um amigo que a gente reencontra e eu o quero muito bem, admiro demais. Agora, quem mais? Tem tanta gente. Jorge Mello&#8230; Jorge Mello \u00e9 cearense n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Vou ter que descobrir (nota: o compositor, m\u00fasico e repentista Jorge Mello \u00e9 do Piau\u00ed).<\/strong><br \/>\nAcho que \u00e9. Dessa turma tamb\u00e9m. Esses s\u00e3o os mais presentes.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/PSvYoB2a4wE?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/wkXR3Zt8wvw?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/TGnshHqpoKQ?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/uL5e_Uh5v0A?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>\u2013 Daniel Tavares (<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/daniel.tavares.96343\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Facebook<\/a>) \u00e9 jornalista e mora em Fortaleza. A foto \u00e9 de Vania Toledo \/ Divulga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><br \/>\n&#8211; <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/08\/15\/rod-stewart-clapton-guilherme-arantes\/\">\u201cCondi\u00e7\u00e3o Humana\u201d \u00e9 o que Guilherme Arantes precisa agora<\/a><br \/>\n&#8211; <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/06\/04\/guilherme-arantes-e-o-sentido-da-vida\/\">O sentido da vida num show de Guilherme Arantes<\/a><br \/>\n&#8211; <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/03\/10\/guilheme-arantes-e-a-amnesia-do-pop\/\">Guilheme Arantes e a Amn\u00e9sia do Pop<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Ele est\u00e1 de volta. Quatro anos ap\u00f3s o elogiado \u201cCondi\u00e7\u00e3o Humana\u201d, o m\u00fasico retorna com &#8220;Flores e Cores&#8221;, um disco &#8220;pra cima&#8221; que reflete seu bom momento atual\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2017\/09\/22\/entrevista-guilherme-arantes\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":10,"featured_media":44322,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[102],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/44321"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/10"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=44321"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/44321\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":44325,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/44321\/revisions\/44325"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/44322"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=44321"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=44321"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=44321"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}