{"id":44186,"date":"2017-09-14T11:01:40","date_gmt":"2017-09-14T14:01:40","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=44186"},"modified":"2017-10-04T11:28:20","modified_gmt":"2017-10-04T14:28:20","slug":"entrevista-arthur-nogueira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2017\/09\/14\/entrevista-arthur-nogueira\/","title":{"rendered":"Entrevista: Arthur Nogueira"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/renan.machadoguerra\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Renan Guerra<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">O paraense Arthur Nogueira chega ao seu quarto disco, chamado \u201cRei Ningu\u00e9m\u201d e lan\u00e7ado atrav\u00e9s do edital Natura Musical. De pouca idade e carreira longa, Arthur j\u00e1 foi gravado por Gal Costa e produziu um disco completo em homenagem aos 70 anos do amigo Antonio Cicero, poeta e fil\u00f3sofo recentemente transformado em imortal da Academia Brasileira de Letras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em seu novo disco, Arthur vivenciou uma experi\u00eancia de grava\u00e7\u00e3o distinta de seus trabalhos anteriores, que resultou em um repert\u00f3rio mais org\u00e2nico, com o acompanhamento de uma banda que conta com Allen Alencar (guitarra), Filipe Massumi (violoncelo), Jo\u00e3o Paulo Deogracias (baixo e sintetizadores), Richard Ribeiro (bateria) e <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2017\/02\/13\/musica-delirio-de-um-romance-a-ceu-aberto-ze-manoel\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Z\u00e9 Manoel<\/a> (piano e teclado).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com participa\u00e7\u00e3o da musa Faf\u00e1 de Bel\u00e9m e de Z\u00e9 Manoel, \u201cRei Ningu\u00e9m\u201d \u00e9 um disco que cria um cen\u00e1rio bastante delicado para a voz et\u00e9rea de Arthur e para seu universo po\u00e9tico, onde distor\u00e7\u00f5es de guitarras e o dedilhar de um piano conversam de forma natural, compondo um universo de bela maturidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para entender o processo criativo desse trabalho, papeamos mais de uma hora com Arthur Nogueira via Skype. Falamos sobre Antonio Cicero, Rimbaud, Bob Dylan, Faf\u00e1 de Bel\u00e9m, Z\u00e9 Pedro e outras muitas hist\u00f3rias. Arthur declamou poemas e quando vimos a conversa rendeu um bocado. Confira abaixo a entrevista:<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/im2XYULmO6A?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O novo disco foi produzido atrav\u00e9s do Edital da Natura Musical, em sua edi\u00e7\u00e3o paraense. Como foi produzir pela primeira vez um disco com uma grande marca por tr\u00e1s?<\/strong><br \/>\n\u00c9 muito importante, por dois motivos: meus dois \u00faltimos discos, &#8220;Sem Medo Nem Esperan\u00e7a&#8221; (2015) e &#8220;Presente&#8221; (2016), s\u00e3o eletr\u00f4nicos. N\u00f3s fizemos esses discos sem necessariamente ir para um est\u00fadio \u2013 eu geralmente ia para o est\u00fadio apenas para fazer as vozes definitivas do disco, mas a parte musical ela era feita em casa. Exatamente por ter um or\u00e7amento reduzido, essa possibilidade que a tecnologia oferece hoje em dia \u00e9 muito boa de podermos produzir num esquema alternativo, ent\u00e3o meus discos foram gravados dessa maneira, metade aqui em S\u00e3o Paulo, uma guitarra aqui, um m\u00fasico l\u00e1 de Bel\u00e9m, o Antonio Cicero gravava no Rio, eram discos assim. E a\u00ed, quando eu tive a possibilidade de ter esse patroc\u00ednio da Natura, de ter pela primeira vez uma grande empresa patrocinando um disco meu, eu fiquei muito animado com a id\u00e9ia de tocar, que era algo que nos outros discos n\u00e3o acontecia, a gente programava uma base, depois vinha algu\u00e9m e gravava um baixo em cima, mas tocar todo mundo junto, isso s\u00f3 aconteceu no show, quando a gente ia ensaiar. Nesse sentido, foi muito bacana pra mim, por que ent\u00e3o decidi que era o momento de tocar, e \u00e9 por isso que esse disco \u00e9 t\u00e3o diferente dos outros. Esse disco foi feito ao vivo, praticamente. Acaba que a produ\u00e7\u00e3o do disco \u00e9 minha, por que algu\u00e9m precisava assinar, a verdade \u00e9 essa. Mas a verdade \u00e9 que eu escolhi os m\u00fasicos, eu escolhi o repert\u00f3rio, eu pensei todo disco, ent\u00e3o a produ\u00e7\u00e3o foi minha, mas a cria\u00e7\u00e3o do disco foi totalmente coletiva com a banda, era uma coisa que eu queria, encontrar os m\u00fasicos, eu queria olhar pros m\u00fasicos, ouvir o piano, tudo tocando junto e ao vivo, que era uma experi\u00eancia diferente dos meus outros discos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Para isso voc\u00eas fizeram uma experi\u00eancia de imers\u00e3o durante a grava\u00e7\u00e3o do disco em est\u00fadio, n\u00e3o?<\/strong><br \/>\nSim, selecionei esses m\u00fasicos e n\u00f3s fizemos uma semana de ensaios aqui em S\u00e3o Paulo primeiro. A gente se encontrava todo dia e eu chegava com as m\u00fasicas, dizia \u201colha, a m\u00fasica \u00e9 assim\u201d, tocava e a\u00ed a partir desse momento do viol\u00e3o a gente ia encontrando os arranjos, uma cria\u00e7\u00e3o totalmente coletiva, nesse sentido, a partir da sonoridade que eu queria. Que tamb\u00e9m, pra ser diferente dos outros discos, eu queria o mais ao vivo poss\u00edvel, ent\u00e3o esse disco \u00e9 bem menos eletr\u00f4nico que os outros, ele \u00e9 um disco mais de can\u00e7\u00e3o, talvez. Ele \u00e9 um disco pop, mas \u00e9 um disco de can\u00e7\u00e3o, ele n\u00e3o \u00e9 um disco eletr\u00f4nico, como os outros, que a gente praticamente tinha m\u00fasicas que n\u00e3o tinham harmonia, era mais base, sintetizador e voz. E essa minha vontade de ir pro ac\u00fastico tamb\u00e9m veio da minha parceria, do meu contato com o Z\u00e9 Manoel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Que tamb\u00e9m integra a banda que lhe acompanha nesse disco&#8230;<\/strong><br \/>\nSim, ele toca piano e teclado. Ent\u00e3o por isso mesmo eu pensava muito no piano do Z\u00e9 com o cello do [Filipe] Massumi, os dois absolutamente ac\u00fasticos. Fizemos esse ensaio de uma semana e fomos pro interior de S\u00e3o Paulo, pro est\u00fadio, que \u00e9 uma fazenda, um \u201cest\u00fadio para\u00edso\u201d. Brinco que a gente fez um disco no para\u00edso, por que foi realmente uma das experi\u00eancias mais bonitas que a m\u00fasica j\u00e1 me proporcionou. O est\u00fadio tem v\u00e1rias salas, ent\u00e3o cada um ficava numa sala, guitarra numa sala, piano numa sala e eu numa sala de voz, ouvindo tudo. Ent\u00e3o era assim: \u201cvamos gravar tal m\u00fasica, t\u00e1 bom?\u201d e todo mundo gravando junto. E isso tem uma coisa, uma quentura, uma espontaneidade, por mais que a gente tenha ensaiado, por mais que tudo aquilo seja pensado, surge, no momento da grava\u00e7\u00e3o, uma espontaneidade qualquer que acontecem coisas que a gente n\u00e3o previa e que s\u00e3o muito legais. Ent\u00e3o a gente passou esses dias nesse esquema, a coisa foi t\u00e3o fluida que todas as bases do disco, inclusive a minha voz, foram gravadas em dois dias. Depois a gente ficou s\u00f3 ouvindo&#8230; ah, na verdade, o cello n\u00e3o gravou junto, foi depois e o sintetizador tamb\u00e9m a gente gravou depois. Mas ficamos s\u00f3 ouvindo, escolhendo os takes, decidindo o que ficava e o que n\u00e3o ficava. Enfim, foi um disco praticamente gravado em dois dias e isso tamb\u00e9m \u00e9 absolutamente novo pra mim. Foi uma experi\u00eancia linda de acordar e dormir junto com os m\u00fasicos, conversando, rindo, essa flu\u00eancia, essa fluidez. M\u00fasica, para mim, na verdade \u00e9 isso: \u00e9 tocar, estar junto com as pessoas. Ent\u00e3o esse foi o disco mais musical que eu j\u00e1 fiz. Essa talvez seja a grande diferen\u00e7a e a Natura, voltando a sua primeira pergunta, entra como a possibilidade de isso acontecer, por que sem esse patroc\u00ednio n\u00e3o seria poss\u00edvel fazer o que a gente fez.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Nesse caso do edital da Natura voc\u00ea teve um prazo de produ\u00e7\u00e3o do trabalho, como foi compor com esse tempo limitado?<\/strong><br \/>\nTamb\u00e9m foi muito bom. Se voc\u00ea pensar assim: eu tenho um disco de 2009, \u201cMundano\u201d, que o Felipe Cordeiro \u00e9 o produtor e \u00e9 um disco que quase ningu\u00e9m conhece, por que na \u00e9poca n\u00e3o tinha Spotify e, como eu n\u00e3o gosto de passado [risos] \u2013 eu gosto do disco e tal, o problema nem \u00e9 o disco \u2013 n\u00e3o tenho muito isso de dedicar o meu tempo ao passado, n\u00e3o me anima, ent\u00e3o nunca botei esse disco no Spotify (<a href=\"http:\/\/www.mundo27.com\/arthurnogueira\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">mas ele est\u00e1 dispon\u00edvel para download gratuito aqui<\/a>). O Arthur Kunz, que produziu os outros dois discos, gravou bateria no \u201cMundano\u201d, ent\u00e3o \u00e9 um disco seminal de tudo que fiz depois. Mas esse disco \u00e9 de 2009! At\u00e9 o \u201cSem Medo e Sem Esperan\u00e7a\u201d (2015) foram seis anos, e nesse meio tempo eu fiz uns EPs, fiz coisas que botei na internet, mas disco mesmo s\u00f3 o \u201cSem Medo e Sem Esperan\u00e7a\u201d. Ent\u00e3o nesses seis anos tive muito tempo pra compor, selecionar repert\u00f3rio, por isso acho que o disco \u201cSem Medo e Sem Esperan\u00e7a\u201d tem essa cara de uma reuni\u00e3o das melhores coisas desses seis anos. Depois fiz o \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2016\/09\/12\/musica-antonio-cicero-arthur-nogueira\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Presente<\/a>\u201d (2016), que n\u00e3o \u00e9 um disco autoral, n\u00e3o fiz m\u00fasicas pra ele, mesmo \u201cOnda\u201d \u00e9 uma faixa desses seis anos, que n\u00e3o tinha entrado no \u201cSem Medo Nem Esperan\u00e7a\u201d e que achei que tinha mais a ver com o \u201cPresente\u201d. Ent\u00e3o era assim: primeiro a surpresa da aprova\u00e7\u00e3o no edital: \u201cuau, fui aprovado!\u201d, \u201ctenho que fazer\u201d, \u201co que vou fazer? Eu n\u00e3o tenho um disco\u201d. O Z\u00e9 Pedro [da gravadora Joia Moderna] ria muito, brincava comigo: \u201c\u00d4 veia, voc\u00ea tem que gravar um disco\u201d. E eu dizia: \u201cSim, eu tenho que gravar um disco\u201d. E ele: \u201cMas cad\u00ea as m\u00fasicas? N\u00e3o existe esse repert\u00f3rio\u201d. E eu morria de rir: \u201cRealmente n\u00e3o existe esse repert\u00f3rio, n\u00e3o existe o disco\u201d. Mas \u00e9 incr\u00edvel que quando entendo o que tenho que fazer, quando crio na minha cabe\u00e7a o que o disco representar\u00e1 pra mim, que caminhos ele dever\u00e1 percorrer, parece que as can\u00e7\u00f5es aparecem. Primeiro pensei o que tinha que ser esse disco, e comecei a ter as ideias. Depois veio a vontade de fazer com o Z\u00e9 Manoel e o Massumi, unindo com os m\u00fasicos dos meus discos anteriores, o Allen [Alencar] e o Jo\u00e3o [Deogracias]. Primeira coisa que propus foi: \u201cZ\u00e9, vamos fazer uma m\u00fasica?\u201d. Ent\u00e3o as coisas come\u00e7am a se encaixar umas nas outras. Resumidamente, vou te dizer que&#8230; eu vou fazer 30 anos, e alguns amigos meus riem, eu tenho amigos mais velhos, e eles sempre come\u00e7am a gargalhar quando eu falo isso, como se fosse assim: \u201c\u00d3, grande coisa\u201d, mas pra mim tendo sa\u00eddo de casa, de Bel\u00e9m, toda barra que isso significa&#8230; Eu senti que envelheci 10 anos com essa experi\u00eancia, por que voc\u00ea ganha uma bagagem da vida pr\u00e1tica, das coisas. Ent\u00e3o, ter sa\u00eddo de casa, ter feito esses dois discos, o reconhecimento que o meu trabalho teve, a possibilidade de homenagear o [Antonio] Cicero quando ele fez 70 anos. Todas essas coisas me fizeram ter muita tranquilidade a respeito de quem sou, da minha m\u00fasica. Vejo que a gente vive um momento de muita informa\u00e7\u00e3o, de muito conte\u00fado toda hora e n\u00e3o sou uma pessoa que me encaixo nisso, eu tenho meu tempo e comecei a entender que apesar das dificuldades e dos desafios, consegui, de alguma maneira, compor no meu tempo, porque a minha m\u00fasica vive pelo que ela \u00e9. N\u00e3o estou urgente pra querer a capa da revista, eu estou querendo fazer o que a minha m\u00fasica me diz. E isso est\u00e1 muito ligado a coisa da poesia. No livro novo \u201cA Poesia e a Cr\u00edtica\u201d (2017), o Antonio Cicero at\u00e9 fala sobre isso de uma maneira muito bonita, perguntando por que \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil ler poesia hoje em dia? Porque a poesia ou voc\u00ea esquece tudo e se dedica a ela, se doa aquele poema, sai desse tempo e se d\u00e1 ao tempo do poema ou voc\u00ea n\u00e3o vai apreender, fruir aquele poema. Aquele poema n\u00e3o vai te dizer nada. Porque a poesia tem essa capacidade de te tirar dessa nossa temporalidade do dia a dia, que \u00e9 utilit\u00e1ria, corrida, pro tempo do poema. Entendo um pouco a minha rela\u00e7\u00e3o com a m\u00fasica, com as coisas que eu fa\u00e7o, dessa maneira: elas t\u00eam o tempo delas. Ent\u00e3o acho at\u00e9 que consigo fazer isso com certa responsabilidade e objetividade, sendo que fa\u00e7o muita coisa, fiz todos esses trabalhos em pouco tempo, mas a minha m\u00fasica tem um tempo dela. Entendo que esse disco fala sobre o fato de que as coisas come\u00e7am e acabam, mas essa id\u00e9ia do acabar n\u00e3o \u00e9 de um modo triste ou que talvez possa estar ligado a fracasso, com a morte, na verdade significa um recome\u00e7o, por que tudo que acaba \u00e9 pra que algo novo tenha lugar. A \u00faltima can\u00e7\u00e3o do disco, que \u00e9 s\u00f3 minha, fala disso, diz assim: \u201c\u2019\u2019N\u00e3o pense\u2019, diz o cora\u00e7\u00e3o \/ sobre o passado sobre o futuro \/ \u00e9 tudo uma quest\u00e3o de tempo \/ e \u00e9 sempre aqui: \/ h\u00e1 tanta vida passando por mim; \/ gente que veio e se foi; \/ um rosto lindo no metr\u00f4, passou.\u201d. Ent\u00e3o resumidamente \u00e9 isso. Quando entendi essa tranq\u00fcilidade para poder situar a minha m\u00fasica, pra poder fazer o que eu queria, como eu queria, como eu acreditava. Resolvi ter essa tranq\u00fcilidade em rela\u00e7\u00e3o a quem sou, as coisas que me formam, que vivi, as rela\u00e7\u00f5es que tive, que acabaram e que tudo bem, acabaram na hora certa. Tem outra m\u00fasica, que \u00e9 in\u00e9dita, minha e do Cicero, que diz assim: \u201cCertas coisas acabam na hora certa, mas essas s\u00e3o t\u00e3o raras\u201d e fala sobre coisas que continuam mesmo depois de mortas, em estado de decomposi\u00e7\u00e3o e que isso n\u00e3o \u00e9 bom. \u00c9 bom quando as coisas acabam por que elas se realizam plenamente na hora certa, ou seja, quando elas come\u00e7am e acabam quando tem que acabar. Fui entendendo mais claramente e essas coisas foram surgindo, tamb\u00e9m tive uma clareza de que esse disco deveria perseguir novos caminhos, ent\u00e3o tem duas m\u00fasicas minhas com o Cicero, mas tem outros poetas, tem Rose Ausl\u00e4nder, tem Eucana\u00e3 Ferraz, tem uma homenagem ao Ferreira Gullar, tem uma vers\u00e3o do Bob Dylan&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>No caso do Edital da Natura, a sua sele\u00e7\u00e3o foi na edi\u00e7\u00e3o regional do Par\u00e1&#8230;<\/strong><br \/>\nSim, ter sido selecionado no edital Par\u00e1 tamb\u00e9m foi uma coisa muito legal, um artista que nunca foi identificado com o Par\u00e1, apesar de ser de l\u00e1, isso \u00e9 muito importante pra mim. Mas tamb\u00e9m gosto do sentimento desterrado. Nesse disco eu quis entender o que eu tinha do meu lugar, tanto que tem a Faf\u00e1 que, pra mim, \u00e9 a voz mais importante do Par\u00e1, a servi\u00e7o de uma can\u00e7\u00e3o minha e que me faz voltar. Ent\u00e3o encontro a Faf\u00e1, ela fala \u201c\u00e9gua\u201d, fala de coisas de Bel\u00e9m e a gente tem essa troca que pra mim \u00e9 muito prazerosa. Mas tamb\u00e9m tem a m\u00fasica t\u00edtulo do disco, que chama \u201cNingu\u00e9m\u201d, e onde tem a express\u00e3o \u201crei ningu\u00e9m\u201d, que fala exatamente sobre essa liberdade de voc\u00ea poder ser o que quiser e de onde quiser, a autoridade pra negar ao rei ningu\u00e9m, voc\u00ea ser soberano em sua liberdade. Rei Ningu\u00e9m praticamente uma palavra anula a outra n\u00e9? Rei [pausa] Ningu\u00e9m. Adorei, \u00e9 de uma poeta de l\u00edngua alem\u00e3, chama Rose Ausl\u00e4nder.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea falou de algumas parcerias, mas no caso de alguns poetas, o que voc\u00ea faz \u00e9 musicar seus poemas, isso?<\/strong><br \/>\nAh sim, \u00e9 verdade. O disco tem parceiros em que fiz a letra e ele fez a m\u00fasica. C\u00edcero, por exemplo, \u201cA Hora Certa\u201d \u00e9 um poema que ele me deu para fazer. A m\u00fasica que a Faf\u00e1 gravou tamb\u00e9m \u00e9 um poema que o C\u00edcero me deu, s\u00f3 que ela \u00e9 a \u00fanica m\u00fasica que n\u00e3o \u00e9 nova, apesar de eu nunca t\u00ea-la gravado. O C\u00edcero h\u00e1 muito tempo, em 2011, acho, me deu essa letra e eu nunca consegui fazer. Acabou que n\u00e3o fiz e ele a publicou no livro \u201cPorventura\u201d [2012], mas estou com essa letra h\u00e1 muito tempo, ent\u00e3o digamos que tamb\u00e9m \u00e9 uma parceria, nesse sentido, por que n\u00e3o musiquei do livro, musiquei do que ele me deu, mas realmente voc\u00ea tem raz\u00e3o. A Rose at\u00e9 por que ela j\u00e1 morreu. Eu musiquei o poema traduzido do alem\u00e3o pelo Erick Monteiro de Moraes, que \u00e9 um poeta que \u00e9 do Rio, amigo&#8230; ele tem tipo 20 anos, fiquei impressionado pela idade. Ele come\u00e7ou a traduzir a Rose, essa poeta judia que nunca foi publicada no Brasil, e sempre me manda, por que estudo alem\u00e3o e gosto muito e o Cicero tamb\u00e9m fala alem\u00e3o. O Erick j\u00e1 traduziu muitos poemas, a id\u00e9ia \u00e9 fazer um livro, em algum momento, mas ainda n\u00e3o saiu. Eu fiquei encantado com esse poema \u201cRei Ningu\u00e9m\u201d, que o t\u00edtulo \u00e9 \u201cNingu\u00e9m\u201d. E como o Erick \u00e9 muito bom&#8230; gosta de estudar idiomas, por exemplo, estudou latim sozinho, ele \u00e9 realmente um geniozinho. E convidei-o tamb\u00e9m pra fazer comigo a vers\u00e3o do Bob Dylan, porque fazer vers\u00e3o \u00e9 uma coisa complicada, ainda mais do Bob Dylan, que \u00e9 um grande letrista, ent\u00e3o voc\u00ea verter aquilo pra outro idioma, uma can\u00e7\u00e3o, acho que tem que ser feito de uma maneira rigorosa. E o Erick tem esse rigor da poesia escrita, ele gosta de contar as s\u00edlabas, gosta da forma, quase Jo\u00e3o Cabral, ent\u00e3o chamei e n\u00f3s fizemos juntos a vers\u00e3o. O Erick \u00e9 outro poeta parceiro mesmo, nesse sentido que \u00e9 importante.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Ez2hQZHraIY?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Qual \u00e9 a faixa do Bob Dylan que voc\u00ea adaptou?<\/strong><br \/>\n\u201cVou Ficar T\u00e3o S\u00f3 Se Voc\u00ea Se For\u201d \u00e9 uma vers\u00e3o de \u201cYou&#8217;re Gonna Make Me Lonesome When You Go\u201d, que tem uma hist\u00f3ria: eu estava em Londres em setembro do ano passado, e nessa \u00e9poca eu estava lendo a correspond\u00eancia completa do Arthur Rimbaud. A \u00fanica vez que o Rimbaud e o Verlaine conseguiram viver juntos de fato, foi em Londres. E pensei: \u201cCaramba, onde \u00e9 essa casa?\u201d. Vi no livro o endere\u00e7o e fui atr\u00e1s, ver se tinha um museu, alguma coisa, mas n\u00e3o tinha, era uma casa, mas eu quis ir. Um dia eu acordei, estava um dia como hoje aqui em S\u00e3o Paulo, um dia bem londrino, frio, um pouco nublado, um pouco de chuva. Eu desci em Camden Town e fui andando at\u00e9 a casa. E eu fiquei muito emocionado por que eu imaginava o Rimbaud e o Verlaine naquelas cal\u00e7adas, por ali. Demorei pra encontrar a casa, por que a pessoa plantou uma hera na parede, ent\u00e3o essa hera cobriu a placa \u201caqui viveram os poetas Arthur Rimbaud e Paul Verlaine\u201d. E realmente n\u00e3o \u00e9 nada, \u00e9 uma casa, nem tive coragem de bater, se a placa est\u00e1 tampada, significa que a pessoa n\u00e3o est\u00e1 muito receptiva as pessoas que v\u00e3o ali falar desse assunto. Sa\u00ed de l\u00e1 e fui prum caf\u00e9 e imediatamente me lembrei dessa m\u00fasica do Dylan, por que ela fala, em portugu\u00eas: \u201cNosso caso particular n\u00e3o d\u00e1 nem pra comparar com o de Verlaine e Rimbaud \/ as coisas sempre acabam mal \/ tudo \u00e9 t\u00e3o triste no final \/ vou ficar t\u00e3o s\u00f3 se voc\u00ea se for\u201d. E na hora pensei: \u201cVou fazer uma vers\u00e3o aqui mesmo\u201d. Peguei o meu caderno pra fazer uma vers\u00e3o, mas achei que n\u00e3o dava pra fazer de qualquer jeito, tinha que ser uma coisa s\u00e9ria. Ent\u00e3o resolvi fazer quando eu voltasse pro Brasil e convidei o Erick pra me ajudar nesse sentido. Como o Erick mora no Rio e eu moro em S\u00e3o Paulo, a gente fez algumas noites por Whatsapp. Foi um exerc\u00edcio bacana. E essa m\u00fasica abre o disco e eu acho engra\u00e7ado tamb\u00e9m porque ela tem um mist\u00e9rio qualquer, quando voc\u00ea come\u00e7a a se dedicar parece que as coisas se encaixam e acontecem naturalmente, ent\u00e3o essa m\u00fasica diz assim: \u201cVi o amor dobrar a esquina \/ ele nunca esteve t\u00e3o perto \/ nunca foi t\u00e3o simples ou t\u00e3o certo\u201d; por\u00e9m no final ele diz assim: \u201cEu sei, voc\u00ea vai me deixar \/ mas vou lhe buscar no azul \/ onde o c\u00e9u encontra o mar \/ ou no olhar de um novo amor \/ ou vou ficar t\u00e3o s\u00f3 se voc\u00ea se for\u201d, ou seja, ele n\u00e3o ignora que certas coisas acabam na hora certa. E quando me toquei, essa m\u00fasica tem tudo a ver com o que estou falando naturalmente. \u00c9 engra\u00e7ado, mas no fim significa que inconscientemente minha cabe\u00e7a estava com essa mesma ideia, essa m\u00fasica do Dylan tem um verso que diz: \u201cN\u00e3o consigo nem imaginar \/ outra vida inteira sem voc\u00ea\u201d e a \u00faltima m\u00fasica do meu disco diz assim: \u201cDe repente era a vida inteira \/ agora \u00e9 tarde demais pra n\u00f3s\u201d. Ou seja, o disco tem esse conceito muito bem fechado e que \u00e9 proposital, mas que tamb\u00e9m me surpreendeu em muitos momentos. Parece que voc\u00ea est\u00e1 ligado, sentindo as coisas t\u00e3o fortes, que aquilo meio que se revela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea citou a participa\u00e7\u00e3o da Faf\u00e1 de Bel\u00e9m, como foi esse encontro de paraenses? Voc\u00ea que convidou ela para cantar?<\/strong><br \/>\nEngra\u00e7ado porque a gente n\u00e3o se conhecia. A Faf\u00e1 fez um disco pela Joia Moderna, que \u00e9 a minha gravadora tamb\u00e9m. Ent\u00e3o quando do lan\u00e7amento de \u201cDo Tamanho Certo Para o Meu Sorriso\u201d (2015), eu fui convidado, assisti, mas n\u00e3o conhecia a Faf\u00e1. Ent\u00e3o a gente se viu algumas vezes assim, e a Faf\u00e1 tem uma coisa que admiro muito que tem a ver com a m\u00fasica dela, com a carreira dela, ela se joga, ela \u00e9 apaixonada, acho isso incr\u00edvel. Quando ela vai cantar, ela vai como se fosse a primeira vez, n\u00e3o tem um ran\u00e7o da idade, n\u00e3o tem um ran\u00e7o do nome Faf\u00e1 de Bel\u00e9m. Ela encara tudo, quando ela gosta, est\u00e1 apaixonada, como quando a gente se apaixona por algu\u00e9m, que a gente larga tudo e se joga naquilo de cabe\u00e7a, a Faf\u00e1 \u00e9 assim em tudo. Rolou essa coisa tamb\u00e9m por eu ser de Bel\u00e9m, tamb\u00e9m tem uma coisa um pouco maternal, no sentido de gostar de mim, do que eu fazia, de querer um pouco me proteger em S\u00e3o Paulo, como algu\u00e9m que j\u00e1 passou por isso, ent\u00e3o senti que tem um pouco isso tamb\u00e9m e a gente se aproximou, mas n\u00f3s ficamos amigos mesmo depois dessa hist\u00f3ria. Fui ver um show que ela fez, no Sesc Pompeia, de voz e piano, e ela cantou \u201cDona de Castelo\u201d, do Jards Macal\u00e9 e do Waly Salom\u00e3o, e fui pego de surpresa, nunca imaginei que a Faf\u00e1 cantasse essa m\u00fasica, e ela cantou muito, parecia que a m\u00fasica tinha sido feita pra ela. Foi muito bonito, fiquei muito emocionado. E entendi que Faf\u00e1 e Waly nesse ponto eram parecidos, por que Waly tamb\u00e9m era essa pessoa que n\u00e3o tem nada de cool ou blas\u00e9. Ent\u00e3o achei incr\u00edvel Faf\u00e1 &amp; Waly, fiquei com aquilo na cabe\u00e7a, e consegui que&#8230; quando o Cicero escreveu essa letra, ele me ligou e disse assim: \u201cArthur, voc\u00ea sabe que fiz um poema diferente das minhas coisas, parece coisa do Waly at\u00e9\u201d. Por que era muito cheio de palavras, de coisas e ele achou que parecia coisa do Waly, imaginou o Waly dizendo aquilo tudo. S\u00f3 que como eu disse, eu deixei essa letra (na gaveta), e s\u00f3 consegui dar a m\u00fasica por terminada de verdade depois desse dia em que vi a Faf\u00e1 cantando Waly. Ent\u00e3o liguei pro Cicero e disse assim: \u201cVamos fazer uma homenagem pro Waly?\u201d, j\u00e1 que ele \u00e9 um poeta t\u00e3o importante pra mim e ele foi t\u00e3o amigo do Cicero. E o arranjo tem uma coisa latina que eu adoro na m\u00fasica cubana, por exemplo, o piano do Z\u00e9 Manoel me lembra Buena Vista Social Club, por que ele fez um piano bem salsa, e a levada me remete por outro lado ao brega do Par\u00e1. Ent\u00e3o acho que essa m\u00fasica foi tudo que eu queria, uma letra do Antonio Cicero pensando em Waly Salom\u00e3o, numa m\u00fasica que me lembrava o meu lugar, com a Faf\u00e1, que \u00e9 a voz que a abriu as portas pra todos n\u00f3s, pra todo mundo que vem de l\u00e1. A Faf\u00e1 passou por muita coisa sendo mulher, sendo fora do padr\u00e3o de beleza e ainda assim sendo s\u00edmbolo sexual. E tem outra coisa que eu gostei: Cicero e Faf\u00e1 se conheciam assim: \u201cOl\u00e1 Faf\u00e1, Antonio Cicero\u201d, mas eles nunca tinham se encontrado, Faf\u00e1 nunca gravou nada de Antonio Cicero. E eu tamb\u00e9m fiquei feliz com isso por que Faf\u00e1 e Cicero, pra mim, s\u00e3o as duas pessoas mais deliciosamente bo\u00eamias que eu conhe\u00e7o. Sair com eles \u00e9 demais, por que eles s\u00e3o engra\u00e7ados, gostam de falar besteira, gostam de beber, gostam de comer, adoram a noite. S\u00e3o muito bo\u00eamios, festeiros, animados, o C\u00edcero tem esse jeito dele mais t\u00edmido, mas quem conhece na intimidade sabe que ele \u00e9 uma pessoa muito expansiva, engra\u00e7ada, e a Faf\u00e1 tamb\u00e9m. Ent\u00e3o a participa\u00e7\u00e3o da Faf\u00e1 \u00e9 muito simb\u00f3lica por todos esses aspectos pra mim.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/XQP3ElPYW7s?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/6LD-rQqUyV4?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/ld7Sy3JT7uA?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>\u2013 <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/renan.machadoguerra\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Renan Guerra<\/a> \u00e9 jornalista e colabora com o sites <a href=\"http:\/\/www.aescotilha.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">A Escotilha<\/a>. Escreve para o Scream &amp; Yell desde 2014. A foto que abre o texto \u00e9 de Ana Alexandrino \/ Divulga\u00e7\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"O paraense Arthur Nogueira chega ao seu quarto disco, \u201cRei Ningu\u00e9m\u201d, vivenciando uma experi\u00eancia de grava\u00e7\u00e3o distinta de seus trabalhos anteriores, que ele conta em detalhes aqui\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2017\/09\/14\/entrevista-arthur-nogueira\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":3,"featured_media":44190,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[1226],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/44186"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=44186"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/44186\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":44207,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/44186\/revisions\/44207"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/44190"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=44186"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=44186"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=44186"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}