{"id":44004,"date":"2017-09-04T00:02:21","date_gmt":"2017-09-04T03:02:21","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=44004"},"modified":"2017-10-05T04:56:40","modified_gmt":"2017-10-05T07:56:40","slug":"entrevista-charles-gavin-primavera-nos-dentes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2017\/09\/04\/entrevista-charles-gavin-primavera-nos-dentes\/","title":{"rendered":"Entrevista: Charles Gavin (Primavera nos Dentes)"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>Entrevista por <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/gil.luizmendes\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Gil Luiz Mendes<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Existem v\u00e1rios desafios quando se ousa pegar uma obra popular e consolidada dentro da m\u00fasica e se tenta fazer uma releitura. O risco de soar piegas e apenas copiar o que j\u00e1 foi feito \u00e9 grande, assim como tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil errar na m\u00e3o e desconstruir algo que se tornou comum aos ouvidos. H\u00e1 ainda quem afirme que certos trabalhos s\u00e3o sagrados e o melhor a fazer \u00e9 n\u00e3o toc\u00e1-los.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Charles Gavin, ex-baterista do Tit\u00e3s e um profundo pesquisador de m\u00fasica popular brasileira, foi movido pela vontade de voltar a assumir as baquetas de uma banda e fazer um tributo para um dos grupos que mais o influenciou. Dessa inquieta\u00e7\u00e3o nasceu o Primavera nos Dentes, quinteto formado como um tributo ao Secos &amp; Molhados, um dos grupos mais inovadores que j\u00e1 aparecerem no pop nacional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acompanhado por Paulo Rafael (Ave Sangria e <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2016\/07\/06\/download-tributo-a-alceu-valenca\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Alceu Valen\u00e7a<\/a>) na guitarra, <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/08\/01\/entrevista-duda-brack\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Duda Brack<\/a> no vocal, Pedro Coelho (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2014\/09\/18\/teatro-cassia-eller-o-musical\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">C\u00e1ssia Eller \u2013 O Musical<\/a> \/ Dona Joana) no baixo e Felipe Ventura (Baleia \/ X\u00f3\u00f5 \/ C\u00edcero \/ Vitor Ara\u00fajo) no violino e na guitarra, Gavin pescou 11 faixas dos dois \u00e1lbuns do grupo de Jo\u00e3o Ricardo, Ney Matogrosso e G\u00e9rson Conrad, e ap\u00f3s um ano e meio de ensaios e rearranjos das m\u00fasicas apresenta \u201cPrimavera nos Dentes\u201d, o \u00e1lbum.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cA obra do Secos &amp; Molhados sempre esteve relacionada a minha carreira\u201d, conta Charles Gavin em entrevista por telefone. Ele ainda explica como surgiu a ideia de gravar can\u00e7\u00f5es do grupo, a escolha das m\u00fasicas, poss\u00edveis shows e como os integrantes do Secos &amp; Molhados receberam essa homenagem: \u201cO Ney falou que pegamos uma m\u00fasica pop brasileira e transformamos em um disco pesado. Enquanto baterista \u00e9 isso que eu sei fazer. Sou um baterista de rock\u201d, diz Charles. Confira o bate papo.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/ivS7NfBo6vc?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como surgiu a ideia de montar o Primavera nos Dentes?<\/strong><br \/>\nO plano inicial era voltar a tocar. Eu sa\u00ed dos Tit\u00e3s em 2010 para repaginar a minha vida, mas o baterista continuava vivo. N\u00e3o me aposentei e nem nunca disse que n\u00e3o iria mais tocar. Passei um tempo recompondo a minha vida e depois comecei alguns projetos. Comecei a banda <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/07\/24\/entrevista-panamericana\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Panamericana<\/a> com o Dado Vlla-Lobos e o Toni Plat\u00e3o, fizemos alguns shows, gravamos um disco que n\u00e3o conseguimos lan\u00e7ar, depois o Dado seguiu em turn\u00ea com a Legi\u00e3o Urbana, o Toni foi fazer o seu disco solo e eu continuava querendo tocar. Antes de pensar com quem fazer, o pensamento era \u201co que fazer, que m\u00fasica tocar?\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E por que fazer esse tributo ao Secos &amp; Molhados?<\/strong><br \/>\nPor uma s\u00e9rie de raz\u00f5es. Para mim \u00e9 uma m\u00fasica que faz parte da minha vida desde que foi lan\u00e7ada em 1973 e 1974. Eu tinha 12 para 13 anos. Profissionalmente, eu me relacionei com essa m\u00fasica. Os Tit\u00e3s tamb\u00e9m tinham uma rela\u00e7\u00e3o muito forte com o Secos &amp; Molhados. A gente chegou a colocar \u201cSangue Latino\u201d como cita\u00e7\u00e3o em uma das nossas m\u00fasicas do disco \u201cDomingo\u201d (1996). O clipe de \u201cEu N\u00e3o Aguento\u201d \u00e9 uma homenagem a capa do primeiro disco do Secos &amp; Molhados. A obra deles sempre esteve relacionada a minha carreira. Eu pensei: se pra mim foi importante, para os outros tamb\u00e9m deve ser. Ent\u00e3o quis tocar esse som e ir para estrada com esse repert\u00f3rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como foi para juntar os m\u00fasicos?<\/strong><br \/>\nFalei com o Paulo Rafael e falei com a Duda, que foi indica\u00e7\u00e3o do Felipe Abreu, irm\u00e3o da Fernanda Abreu, que \u00e9 preparador vocal. A Duda trouxe o Felipe, que \u00e9 da banda Baleia. O Paulo Rafael chamou o Pedro Coelho, para fazer o baixo. Quando a gente come\u00e7ou a exercitar esse repert\u00f3rio, tentando tocar os originais, n\u00e3o estava soando bem na nossa m\u00e3o. S\u00e3o arranjos incr\u00edveis, mas a gente tentava executar e n\u00e3o estava se sentindo a vontade.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/0qg7oEj13hc?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Foi por isso que optaram por vers\u00f5es e n\u00e3o por covers?<\/strong><br \/>\nPara mim o legal e o relevante \u00e9 ouvir o disco original. Com aquelas pessoas, com aqueles timbres, com o som da \u00e9poca. Ficou muito claro para n\u00f3s que o desafio era se lan\u00e7ar sobre essa obra e ter uma abordagem autoral sobre aqueles arranjos. N\u00e3o se distanciar para ser diferente, mas se distanciar porque o original \u00e9 incompar\u00e1vel. Foi um processo para mim, que queria ir logo para os palcos. Ficamos um ano e meio fazendo isso no meu home studio. Ensaiando, debatendo e ouvindo esses discos \u00e0 exaust\u00e3o. N\u00e3o havia ainda um disco nosso planejado, a ideia era apenas botar isso na estrada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E como tudo isso se transformou nesse \u00e1lbum?<\/strong><br \/>\nAlgumas pessoas souberam que a gente estava ensaiando. Uma delas foi o Rafael Ramos, que soube atrav\u00e9s do Paulo Rafael. Ele foi a segunda pessoa, fora a gente, que ouviu as nossas demos. Ele gostou e quis estar no projeto e nos convidou para gravar na Deck. Isso foi em dezembro do ano passado. Por conta dos outros projetos de cada um, s\u00f3 foi poss\u00edvel gravar em abril deste ano. Como n\u00e3o t\u00ednhamos press\u00e3o nenhuma para entregar esse trabalho, isso nos ajudou bastante. Encaramos esse desafio enorme que era pegar uma obra que \u00e9 extremamente conhecida e relevante para m\u00fasica brasileira. Uma obra que quebrou barreiras e costumes de \u00e9poca. Colocou v\u00e1rias quest\u00f5es em debate.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como foi selecionar as 11 can\u00e7\u00f5es que est\u00e3o no disco?<\/strong><br \/>\nA gente considerou os dois discos de igual para igual. O segundo \u00e9 t\u00e3o relevante quanto o primeiro, e dentro dele h\u00e1 algumas can\u00e7\u00f5es que para mim s\u00e3o conhecidas, mas para algumas pessoas elas passaram batidas. Depois de quase 45 anos que essas obras foram lan\u00e7adas e mesmo com a vinda da internet, as pessoas ainda dependem muito da indica\u00e7\u00e3o de algu\u00e9m para ouvir algo. Por isso que o r\u00e1dio \u00e9 t\u00e3o importante, porque ele toca a m\u00fasica para voc\u00ea. Agora procurar m\u00fasica, mesmo que seja em streaming, d\u00e1 algum trabalho. Acho que \u00e9 por isso que na m\u00fasica brasileira a gente tem tanta m\u00fasica boa que pouca gente conhece. Por que? Porque ela n\u00e3o \u00e9 tocada no r\u00e1dio e nem na televis\u00e3o. Por isso temos uma arca do tesouro inesgot\u00e1vel na m\u00fasica brasileira. Considerando isso, \u00e9 ineg\u00e1vel que o segundo disco do Secos &amp; Molhados \u00e9 menos conhecido do que o primeiro. O \u00e1lbum de estreia deles, da primeira m\u00fasica do lado A at\u00e9 a \u00faltima do lado B, a gente sabe tudo. Nossa escolha passou tamb\u00e9m por esses crit\u00e9rios e tamb\u00e9m pelas m\u00fasicas que estavam encaixando melhor quando est\u00e1vamos tocando. Foi um processo basicamente experimental. Teve m\u00fasica que a gente vai ter que tocar ao vivo e que a gente ainda n\u00e3o chegou a lugar nenhum com ela, como, por exemplo, \u201cAssim Assado\u201d e \u201cMulher Barriguda\u201d.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/videoseries?list=PLTaRWr5sdDvlmqRRQmhTWmmfwNDaE-X9s\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como foi o feedback do Ney Matogrosso e dos outros integrantes do Secos &amp; Molhados sobre o Primavera nos Dentes?<\/strong><br \/>\nEm fevereiro eu li que o Ney iria se apresentar com a Na\u00e7\u00e3o Zumbi no Rock in Rio. Fiquei muito preocupado porque est\u00e1vamos h\u00e1 um ano e meio ensaiando e corria o risco de acharem que est\u00e1vamos sendo oportunistas. Por isso eu liguei para o Ney Matogrosso para explicar o que a gente estava fazendo. Ele foi t\u00e3o receptivo e nos incentivou a tocar o projeto. Paulo Mendon\u00e7a, que \u00e9 o compositor de \u201cSangue Latino\u201d, tamb\u00e9m estava sabendo e disse que o nosso trabalho estava interessante e diferente. Quando o disco ficou pronto, fizemos um encontro em S\u00e3o Paulo para mostrar em primeira m\u00e3o as m\u00fasicas na casa da jornalista Patr\u00edcia Palumbo e chamamos o G\u00e9rson Conrad e o Willly Verdaguer (que tocou baixo na forma\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica da banda). N\u00e3o foi um evento oficial, mas um ato de respeito por essas pessoas. O Ney n\u00e3o compareceu por estar em turn\u00ea, mas mandei um CDR para ele. E todos adoraram. O \u00fanico a quem n\u00e3o conseguimos apresentar foi o Jo\u00e3o Ricardo. Tentei levar ele uma vez no Som do Vinil esse ano e ele n\u00e3o aceitou o convite. Bem, o disco daqui a pouco vai estar na internet, talvez ele ou\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Os arranjos deram certo peso as m\u00fasicas do Secos &amp; Molhados&#8230;<\/strong><br \/>\nO Ney falou que pegamos uma m\u00fasica pop brasileira e transformamos em um disco pesado. Enquanto baterista \u00e9 isso que eu sei fazer. Eu amo m\u00fasica brasileira e tenho algumas atividades que chegaram atrav\u00e9s disso, como um programa na R\u00e1dio Globo, O Som Do Vinil. Mas eu sou um baterista de rock. N\u00e3o sou uma baterista de jazz, apesar de querer ser. Tem o Paulo Rafael que tem toda aquela pegada do Ave Sangria. Ele tem um p\u00e9 em Caruaru e outro p\u00e9 em Londres. \u00c9 um tipo de guitarrista muito raro, que transita pela m\u00fasica brasileira, mas tem um know how muito grande de rock. Junto isso tem o Felipe que toca no Baleia, que \u00e9 tamb\u00e9m uma banda com um som pesado, a Duda tem um disco extremamente denso e Pedro Coelho tamb\u00e9m vem de bandas de rock. S\u00f3 podia dar no que deu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea falou que montou a banda para voltar a tocar. Quando e como p\u00fablico ver\u00e1 o Primavera nos palcos?<\/strong><br \/>\nEu estou com muita vontade de voltar para os palcos. Essas m\u00fasicas v\u00e3o render bastante ao vivo. O disco foi arranjado para ser ao vivo, apesar de termos investido nas cordas. A gente tem show marcado no final de outubro no Rio de Janeiro e tem a possibilidade de tocar antes disso em Fortaleza. Queremos contemplar o que era um show do Secos &amp; Molhados. \u00c9 um termo que n\u00e3o gosto muito, mas que agora vem bem a calhar: os shows do Secos &amp; Molhados eram uma experi\u00eancia. Basta ver na internet aquela apresenta\u00e7\u00e3o no Maracan\u00e3zinho. Era muito impactante. Nos anos 1970 era muito comum esse tipo de espet\u00e1culo, misturando poesia e m\u00fasica, como fazia a Maria Bet\u00e2nia, por exemplo. O nosso grande desafio agora \u00e9 montar um espet\u00e1culo. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 ir l\u00e1 e tocar.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/NKCrYCObq1E?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><span class=\"curator-description\">\u2013 Gil Luiz Mendes (<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/gil.luizmendes\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">https:\/\/www.facebook.com\/gil.luizmendes<\/a>), jornalista, 32 anos, viveu boa parte da vida no Recife e hoje mistura a sua loucura com a de S\u00e3o Paulo. Tem passagens pelas r\u00e1dios Jornal do Commercio, CBN , Central3 e tem textos publicados no IG e na Carta Capital. \u00c9 skatista e m\u00fasico quando d\u00e1 tempo. A foto que abre o texto \u00e9 de Kaio Caiazzo \/ Divulga\u00e7\u00e3o.<\/span><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"&#8220;O Ney Matogrosso falou que pegamos uma m\u00fasica pop brasileira e transformamos em um disco pesado. 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