{"id":43438,"date":"2017-07-10T23:06:19","date_gmt":"2017-07-11T02:06:19","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=43438"},"modified":"2017-10-26T10:40:08","modified_gmt":"2017-10-26T12:40:08","slug":"entrevista-mulamba","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2017\/07\/10\/entrevista-mulamba\/","title":{"rendered":"Entrevista: Mulamba"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por <a href=\"https:\/\/twitter.com\/leovinhas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Leonardo Vinhas<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">No <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2017\/06\/23\/saiba-como-foi-o-vento-festival-2017-em-sao-sebastiao\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Vento Festival 2017<\/a>, em S\u00e3o Sebasti\u00e3o, uma banda estreante conseguiu chamar a aten\u00e7\u00e3o do p\u00fablico em meio a um line up extenso que inclu\u00eda nomes como Francisco El Hombre, Met\u00e1 Met\u00e1 e Ava Rocha. A Mulamba, um sexteto curitibano, chegou ao festival por escolha popular, resultado da iniciativa Open Mic, uma esp\u00e9cie de competi\u00e7\u00e3o online em que as bandas podiam se inscrever e, ap\u00f3s serem pr\u00e9-selecionadas por um j\u00fari, receber votos, com a campe\u00e3 da seletiva sendo escalada para tocar no festival. A Mulamba n\u00e3o s\u00f3 foi eleita, como chegou com expectativa do p\u00fablico \u2013 n\u00e3o eram poucas as pessoas que cantavam as can\u00e7\u00f5es junto com as vocalistas Amanda Pac\u00edfico e Cacau de S\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Antes disso, a banda j\u00e1 gozara de um consider\u00e1vel estouro online, com centenas de milhares de visualiza\u00e7\u00f5es do clipe de \u201cP.U.T.A.\u201d, uma can\u00e7\u00e3o com letra densa e direta sobre estupro e a cultura violenta acerca da exposi\u00e7\u00e3o do corpo feminino. No v\u00eddeo, todo em preto e branco, n\u00e3o h\u00e1 apelo a imagens visuais: o choque acontece todo pela letra, embalada em um arranjo folk grave e crescente. \u00c9 curioso como uma banda que come\u00e7ou como um \u201ctributo a C\u00e1ssia Eller\u201d tenha evolu\u00eddo para um repert\u00f3rio autoral em t\u00e3o pouco tempo (elas se juntaram no come\u00e7o de 2015), ainda mais considerando que esse repert\u00f3rio est\u00e1 sendo constru\u00eddo em torno de uma proposta ideol\u00f3gica espec\u00edfica. Por ora, apenas tr\u00eas can\u00e7\u00f5es est\u00e3o dispon\u00edveis nas plataformas de streaming: \u201cProv\u00e1vel Can\u00e7\u00e3o de Amor para Estimada Nat\u00e1lia\u201d (em vers\u00e3o de est\u00fadio e ao vivo), \u201cMulamba\u201d e a j\u00e1 citada \u201cP.U.T.A.\u201d. A conquista do Open Mic render\u00e1 a grava\u00e7\u00e3o de um EP, bancado pela Red Bull Academy, com lan\u00e7amento entre o fim do segundo semestre de 2017 ou come\u00e7o de 2018.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A sonoridade da Mulamba tem seus eixos bem identific\u00e1veis: melodias delicadas, arranjos majoritariamente ac\u00fasticos com poucas explos\u00f5es, o poder vocal de Amanda e Cacau (que ora somam as vozes, ora as alternam, ora as contrastam), os detalhes instrumentais que podem vir do cello de Fer Koppe, do baixo roqueiro de Na\u00edra Deb\u00e9rtolis, da guitarra \u201climpa\u201d de Nat Fragoso ou da inventiva simplicidade da baterista Caro Pisco. O resultado dessa combina\u00e7\u00e3o, pop em ess\u00eancia e agressiva na atitude, funciona a favor de uma bandeira feminista assumida. Como se nota nessa entrevista ao Scream &amp; Yell, realizada logo ap\u00f3s o show delas no Vento Festival, a \u201cmensagem\u201d \u00e9 assunto recorrente \u2013 e ineg\u00e1vel \u2013 nas conversas com a banda.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/353TNXIcUrA?feature=oembed\" frameborder=\"0\" gesture=\"media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Nas primeiras entrevistas, a banda falava muito da \u201cmensagem\u201d que queria passar. O quanto o discurso \u00e9 importante? Ele est\u00e1 em p\u00e9 de igualdade com a m\u00fasica, ou est\u00e1 acima dela?<\/strong><br \/>\nNa\u00edra: A gente descontruiu pra caramba o discurso que t\u00ednhamos antes, e construiu um repert\u00f3rio 100% autoral.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fer: O discurso \u00e9 um grito, uma fala. \u00c9 uma linguagem, e a m\u00fasica \u00e9 outra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Amanda: A m\u00fasica \u00e9 a ferramenta com a qual levamos essa mensagem. Podia ser outro tipo de arte. \u00c9 a que a gente escolheu, ou foi escolhida por ela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cacau: Eu estou passando minha mensagem pela m\u00fasica, mas se eu descobrir uma forma de passar minha mensagem de maneira mais r\u00e1pida, eu largo a m\u00fasica. \u00c9 isso. A gente est\u00e1 se vendo cada vez mais como um instrumento de mensagem, de amor, de revolta \u2013 de tanta coisa! S\u00e9rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Amanda: E se a gente foi escolhida pela m\u00fasica para passar essa mensagem, que cada uma fa\u00e7a isso da melhor maneira. Cada um dentro do seu instrumento tenta melhorar para transmitir melhor o que queremos transmitir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cacau: [Nossa m\u00fasica] \u00c9 um produto que vamos vender? \u00c9, claro, porque a gente precisa comer. Mas n\u00e3o \u00e9 um produto vazio. Tudo bem a m\u00fasica como entretenimento \u2013 amamos isso. Mas que \u00f3timo quando ela consegue ser um instrumento maior, consegue dar voz a n bocas, a corpos que s\u00e3o massacrados&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas o quanto essa mensagem entra naturalmente? Voc\u00ea acabou de falar em \u201cgrito\u201d, mas h\u00e1 muita sutileza mel\u00f3dica, h\u00e1 um convite \u00e0 escuta&#8230;<\/strong><br \/>\nNa\u00edra: A gente falou sobre isso ontem. Principalmente \u201cP.U.T.A.\u201d, a melodia dela n\u00e3o \u00e9 nada agressiva. \u00c9 totalmente sutil na estrutura, na constru\u00e7\u00e3o&#8230; At\u00e9 chegar no grito, \u00e9 tudo sutil, e ainda assim ela \u00e9, pra mim, a nossa m\u00fasica mais agressiva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Amanda: A Ju [Strassacapa], da Francisco El Hombre, nos disse que \u201cP.U.T.A.\u201d j\u00e1 ganha a gente na melodia, disse que voc\u00ea escuta a introdu\u00e7\u00e3o e j\u00e1 sabe que vai vir algo que vai ter que parar para ouvir. A can\u00e7\u00e3o te ganha para depois te dar uma porrada, um tiro na cara.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/ZdpZ-93uUnY?feature=oembed\" frameborder=\"0\" gesture=\"media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><strong>Inclusive, vejo semelhan\u00e7as entre voc\u00eas e a Francisco El Hombre. Claro, voc\u00eas s\u00e3o muito mais mel\u00f3dicas, e eles muito mais r\u00edtmicos&#8230;<\/strong><br \/>\nNa\u00edra: Mas a gente t\u00e1 aprendendo um monte de coisa com eles (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>&#8230;mas do mesmo jeito que \u00e9 percept\u00edvel que a Francisco n\u00e3o \u00e9 um personagem para o palco e para os clipes, que eles s\u00e3o quem s\u00e3o independentemente do meio que usam voc\u00eas tamb\u00e9m passam isso. A milit\u00e2ncia vem da a\u00e7\u00e3o, da postura de voc\u00eas.<\/strong><br \/>\nNatalia: A gente descobre isso militando. Acho que cada uma aqui, quando sai de casa, sabe que t\u00e1 representando a Mulamba. Sei que o que eu fizer, o que eu falar, vai representar a Mulamba, esteja eu onde estiver.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00eas tocaram em dois festivais maiores: o Coolritiba e o Vento, sendo que nesse \u00faltimo chegou por voto popular. Considerando que a banda tem um ano e meio de exist\u00eancia, \u00e9 uma presen\u00e7a bastante significativa. O que tem proporcionado esse crescimento, na vis\u00e3o de voc\u00eas?<\/strong><br \/>\nAmanda: Tamb\u00e9m tocamos no Noites Morrostock, em Porto Alegre. Acho que vale falar disso, porque foi um palc\u00e3o, que \u00e9 o Opini\u00e3o, que representa um divisor de \u00e1guas para a gente em termos de desenvolvimento e estrutura. E a gente abriu pra Linn da Quebrada tamb\u00e9m, que \u00e9 uma artista com tudo a ver com nosso discurso. O que faz o nosso crescimento \u00e9 saber que tem pessoas que se sentem representadas pelo nosso discurso, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 chegar e tocar uma can\u00e7\u00e3o que fizemos em casa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na\u00edra: Acho que foi quando \u201cP.U.T.A.\u201d estourou que nos demos conta de que est\u00e1vamos representando muita gente. Precisamos parar, respirar, ver o que estava acontecendo. O que chegou de mensagem&#8230; A mulherada desabafando mesmo, hist\u00f3rias ver\u00eddicas&#8230; Foda pra caralho! Eu li umas que, meu Deus do c\u00e9u! Eu n\u00e3o passei por isso [viol\u00eancia sexual], mas teve umas que eu li e senti em mim, sabe?<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/XId_xH6WlYY?feature=oembed\" frameborder=\"0\" gesture=\"media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como est\u00e1 a cena em Curitiba agora? J\u00e1 houve jornal\u00e3o dizendo que Curitiba \u00e9 a \u201cGoi\u00e1s do Sul\u201d, tamanha a presen\u00e7a do sertanejo. E socialmente, a cidade tamb\u00e9m \u00e9, no m\u00ednimo curiosa, com pequenos focos progressistas em meio a um forte conservadorismo geral.<\/strong><br \/>\nCacau: A gente est\u00e1 com um sarau, o primeiro teve j\u00e1 200 pessoas. O sarau agrega outras almas, outros artistas, fomenta a cena e a coisa do buscar-se. Une as almas que tem esse mesmo pensamento de liberta\u00e7\u00e3o que a gente tem. A cidade est\u00e1 sendo muito reprimida pela prefeitura atual, com bares sendo fechados, shows sendo cancelados, gente perdendo trabalho. Mas tamb\u00e9m tem uma resist\u00eancia muito forte, h\u00e1 gente cantando na rua. Voc\u00ea consegue caminhar na rua e ver uma \u201cCuritiba lado B\u201d que n\u00e3o est\u00e1 nos palcos, n\u00e3o est\u00e1 nos bares requintados, mas est\u00e1 acontecendo, est\u00e1 fervilhando. A cidade est\u00e1 crescendo, recebendo migrantes, outras cabe\u00e7as, outras vis\u00f5es. Acredito que isso vai deixar a cara da cidade mais male\u00e1vel no futuro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Amanda: Nossos pr\u00f3prios amigos m\u00fasicos n\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 curitibanos, e isso fez um esquema de criar novos espa\u00e7os para se promover, tocar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na\u00edra: Mas olha, eu sou de Porto Alegre. A cena de l\u00e1 n\u00e3o se compara, a de Curitiba \u00e9 muito mais movimentada. De cinco shows que a gente fez em Curitiba, em pelo menos tr\u00eas tinha mais de 500 pessoas. Isso \u00e9 demais pra uma banda independente que s\u00f3 tinha duas m\u00fasicas lan\u00e7adas. Ent\u00e3o acho que \u00e9 uma cena que resiste.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Amanda: Mas a gente era novidade, e a novidade enjoa f\u00e1cil. Por isso que tem que cuidar. Ao mesmo tempo, tinha gente de l\u00e1 que achava que a gente era de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Vamos aproveitar a deixa e falar de est\u00fadio, ent\u00e3o. Voc\u00eas est\u00e3o preparando um disco completo, novos singles?<\/strong><br \/>\nAmanda: Estamos focando no audiovisual. Estamos fazendo uns clipes, o de \u201cMulamba\u201d t\u00e1 por vir, e est\u00e1 maravilhoso. Vai ser tiro tamb\u00e9m, porrada na cara. A Virginia de Ferrante \u00e9 a diretora, e fizemos uma din\u00e2mica para que convers\u00e1ssemos com as mulheres que participaram e conhec\u00eassemos a hist\u00f3ria de cada uma. Espero que as pessoas que assistem descubram que o que estamos mostrando est\u00e1 al\u00e9m da m\u00fasica. Mas n\u00e3o vou dar spoiler (risos).<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/_ADupcvxwHk?feature=oembed\" frameborder=\"0\" gesture=\"media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>\u2013 Leonardo Vinhas (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/#%21\/leovinhas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">@leovinhas<\/a>) assina a se\u00e7\u00e3o Conex\u00e3o Latina (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/tag\/conexao_latina\/\">aqui<\/a>) no Scream &amp; Yell. Foto que abre o texto por Leticiah Futata\/HAI studio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"O resultado da sonoridade do Mulamba, pop em ess\u00eancia e agressiva na atitude, funciona a favor de uma bandeira feminista assumida\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2017\/07\/10\/entrevista-mulamba\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":6,"featured_media":43439,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[2056],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/43438"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=43438"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/43438\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":44839,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/43438\/revisions\/44839"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/43439"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=43438"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=43438"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=43438"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}