{"id":43321,"date":"2017-06-28T23:39:02","date_gmt":"2017-06-29T02:39:02","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=43321"},"modified":"2017-08-21T21:15:34","modified_gmt":"2017-08-22T00:15:34","slug":"entrevista-luli-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2017\/06\/28\/entrevista-luli-2\/","title":{"rendered":"Entrevista: LULI"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por <a href=\"https:\/\/twitter.com\/brunorplisboa\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Bruno Lisboa<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lu\u00edsa Gontijo \u00e9 conhecida entre os produtores culturais e artistas de Belo Horizonte devido ao seu trabalho desenvolvido na cena independente. Ap\u00f3s anos de dedica\u00e7\u00e3o nos bastidores da cena, Lu\u00edsa, agora LULI, resolveu estar a frente dos holofotes e se lan\u00e7ar artisticamente em formato solo. Seu EP de estreia, \u201cDeserto\u201d, \u00e9 composto por quatro faixas, todas de autoria da cantautora, onde ela investe na linguagem dream pop com letras melanc\u00f3licas em ode ao cotidiano. Para a produ\u00e7\u00e3o deste disco, Lu\u00edsa contou com o apoio de Nobat e Leonardo Marques (Transmissor).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na entrevista abaixo, LULI fala como se deu a transi\u00e7\u00e3o dos bastidores para a carreira como cantora (\u201cComecei a sentir muito orgulho das m\u00fasicas que vinha criando e a vontade de apresent\u00e1-las foi crescendo a cada dia\u201d), o processo de cria\u00e7\u00e3o e grava\u00e7\u00e3o de \u201cDeserto\u201d, fornece dicas para quem est\u00e1 come\u00e7ando (\u201cVoc\u00ea confia no seu trabalho? Se sim, corra atr\u00e1s, fa\u00e7a com quem as pessoas cheguem at\u00e9 voc\u00ea, que ou\u00e7am seu som e que fiquem por perto\u201d), fala sobre feminismo na cena musical brasileira, os desafios de ser um artista independente e mais. Com voc\u00eas, LULI!<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/videoseries?list=PL0S6Xr9K8PdHaTuyK7m0J2Xye3KZa3we1\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ap\u00f3s anos de dedica\u00e7\u00e3o e trabalho nos bastidores esta \u00e9 a sua primeira incurs\u00e3o como cantora? Como se deu o processo de transi\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nNa realidade, o trabalho com produ\u00e7\u00e3o cultural foi circunstancial. Cresci num ambiente cercado por m\u00fasica, meus pais tocam viol\u00e3o e possuem uma cole\u00e7\u00e3o imensa de vinil. Ambos me aplicaram essa paix\u00e3o: meu pai com seu h\u00e1bito de ouvir m\u00fasica 24h por dia (ele dorme com o r\u00e1dio ligado) e minha m\u00e3e me dando meu primeiro viol\u00e3o aos oito anos. Ainda na escola, abordei v\u00e1rias amigas pra tentar formar uma banda, coisa que nunca aconteceu. Aos 13, em 2003, conheci o Los Hermanos e o seu \u201cVentura\u201d e enlouqueci. Pela primeira vez me identifiquei com uma banda como se aquelas m\u00fasicas tivessem sido feitas pra mim. Naquele per\u00edodo rascunhei as primeiras composi\u00e7\u00f5es, ainda que bestas. No ensino m\u00e9dio conheci o Nobat, meu marido, um compositor extremamente talentoso e f\u00e9rtil que me inspirou muito a voltar a compor. Eu era (e sou ainda) muito t\u00edmida e pra estar pr\u00f3xima da m\u00fasica sem que precisasse colocar a minha cara \u00e0 mostra criei um blog chamado Retalho Cult que, al\u00e9m de entrevistar artistas como Milton Nascimento, Mallu Magalh\u00e3es, Wado e muitos outros, resenhava shows que passavam por Belo Horizonte, minha cidade. Com o tempo a grana come\u00e7ou a apertar e partimos, eu e meus parceiros do Retalho, pra produ\u00e7\u00e3o de shows e festivais. Certa \u00e9poca comecei a sentir muito orgulho das m\u00fasicas que vinha criando e a vontade de apresent\u00e1-las foi crescendo a cada dia. Explicitei meu desejo ao Nobat, que j\u00e1 tinha gravado tr\u00eas discos, e ele me auxiliou em todo o processo, do in\u00edcio ao fim, acompanhando tudo de perto. Ficamos um tempo procurando algu\u00e9m que pudesse dividir com ele a produ\u00e7\u00e3o deste trabalho, colaborando em sua consist\u00eancia. Havia o desejo em um terceiro pilar pra levantar a obra. Nos deparamos com o trabalho do Leonardo Marques, produtor e m\u00fasico mineiro que tem uma hist\u00f3ria imensa na m\u00fasica e vinha produzindo excelentes discos. Foi quando decidimos: \u00e9 hora de gravar \u201cDeserto\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E como foi o processo de grava\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o poderia ter sido melhor. O Nobat j\u00e1 estava, desde o lan\u00e7amento d&#8217;\u201dO Novato\u201d, em 2015, com um disco pronto na cabe\u00e7a. Foi extremamente gentil em mergulhar no processo de pr\u00e9-produ\u00e7\u00e3o e concep\u00e7\u00e3o do \u201cDeserto\u201d, jogando pra frente a grava\u00e7\u00e3o do seu pr\u00f3prio \u00e1lbum, \u201cEsta\u00e7\u00e3o Cidade Baixa\u201d, que est\u00e1 sendo gravado neste momento tamb\u00e9m em parceria com o Leonardo Marques. E n\u00e3o s\u00f3 por isso, a dedica\u00e7\u00e3o com o trabalho foi de encher os olhos. Ele me antecipou muitas quest\u00f5es, me orientou em todos os passos, sentou comigo v\u00e1rias tardes pra construir os arranjos da base que levamos \u00e0 Ilha do Corvo, est\u00fadio do Leo. E l\u00e1 fomos recebidos de bra\u00e7os abertos por uma figura que nos surpreendeu bastante. Conhec\u00edamos o trabalho do Leo, mas pouco a pessoa. Fiquei admirada com o quanto Leo me deixou \u00e0 vontade e segura num momento t\u00e3o fr\u00e1gil que \u00e9 gravar um disco e se desnudar aos olhos do mundo. Os dois criaram rapidamente uma afinidade e trabalharam juntos nas camadas das faixas. Al\u00e9m disso, a Ilha do Corvo \u00e9 um oasis pra qualquer m\u00fasico: instrumentos vintages espalhados por todo uma atmosfera acolhedora. Foi uma experi\u00eancia incr\u00edvel que anseio repetir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Em &#8220;Deserto&#8221; voc\u00ea une dream pop com letras melanc\u00f3licas em ode ao cotidiano. Como foi o processo de composi\u00e7\u00e3o do EP?<\/strong><br \/>\nSinto em \u201cDeserto\u201d uma unidade est\u00e9tica que n\u00e3o foi intencional no momento da composi\u00e7\u00e3o. \u201cMadrugada\u201d, terceira faixa do EP, \u00e9 a m\u00fasica mais antiga das quatro, compus h\u00e1 muitos anos, enquanto as outras tr\u00eas s\u00e3o de dois anos pra c\u00e1. Por n\u00e3o ter uma pretens\u00e3o consciente \u00e0 \u00e9poca, n\u00e3o compus pensando em um disco, eram m\u00fasicas soltas, inspiradas em momentos vividos. \u201cDeserto\u201d e \u201cNunca Mais\u201d eram can\u00e7\u00f5es que eu depositava muita f\u00e9, que me orgulhavam bastante, e elas acabaram ditando o universo do registro. J\u00e1 penso em um pr\u00f3ximo trabalho e pra este pretendo me lan\u00e7ar a uma atmosfera num momento prim\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ent\u00e3o o nome art\u00edstico LULI pode ser compreendido como um alter-ego ou \u00e9 uma extens\u00e3o de sua personalidade?<\/strong><br \/>\nLULI certamente \u00e9 uma extens\u00e3o da minha personalidade, o auge da minha sensibilidade. Sou sens\u00edvel, qualquer coisa me provoca, me esquenta, me esfria, me constrange. Tenho os poros muito abertos, uma intui\u00e7\u00e3o muito grande, e isso ora me fortalece, ora me machuca. LULI expandiu meus horizontes e me entrega pap\u00e9is em branco toda manh\u00e3 pra eu rabiscar o que quiser.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O lirismo de suas letras acaba por estabelecer um di\u00e1logo aparente com a literatura. Procede?<\/strong><br \/>\nDas artes, a literatura talvez seja a que menos tive contato direto. Tenho meus livros preferidos e, claro, eles me tocaram muito e mudaram minha rela\u00e7\u00e3o com a l\u00edngua. Por\u00e9m, absorvo tamb\u00e9m o lirismo da pr\u00f3pria m\u00fasica de figuras como Adriana Calcanhoto e Caetano Veloso, artistas que usam o portugu\u00eas (e o ingl\u00eas, no caso do Caetano) como ningu\u00e9m. Os autores que tenho lido bastante s\u00e3o Jorge Amado e Fernando Pessoa. Tenho o grande desejo de me aprofundar na escrita feminina, nesse olhar mais pr\u00f3ximo da minha realidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Devido a sua experi\u00eancia como produtora cultural, quais as dicas voc\u00ea daria para quem est\u00e1 come\u00e7ando?<\/strong><br \/>\nAcredito que publicar uma obra \u00e9 um gesto sem volta. Posto no mundo aquilo n\u00e3o \u00e9 mais s\u00f3 seu e voc\u00ea n\u00e3o tem controle de onde aquilo pode chegar. Por causa disso, preferi pensar bastante o que eu realmente queria com m\u00fasica antes de me ingressar na aventura. Deixei pra gravar quando senti que aquilo me representava e me dava orgulho. Acho que esse \u00e9 o primeiro passo. Prefiro sentir que \u00e9 a hora de fazer alguma coisa pra n\u00e3o se arrepender depois. Se n\u00e3o for pra dar o meu melhor, prefiro n\u00e3o fazer. Mas, claro, isso \u00e9 pessoal. Entendo e admiro a magia acerca do &#8220;do it yourself&#8221;, de fazer acima de qualquer coisa, ainda que mal feito. Mas falo de confian\u00e7a. Voc\u00ea confia no seu trabalho? Se sim, corra atr\u00e1s, fa\u00e7a com quem as pessoas cheguem at\u00e9 voc\u00ea, que ou\u00e7am seu som e que fiquem por perto. Produzir conte\u00fado (videoclipes, fotos, singles), trabalhar bem as redes sociais, fazer novos amigos e tocar bastante por a\u00ed \u00e9 uma receita que costuma trazer bons frutos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ano passado rolou uma iniciativa <a href=\"http:\/\/diariodonordeste.verdesmares.com.br\/cadernos\/caderno-3\/um-mapa-para-a-musica-delas-1.1588022\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">de mapear a cena musical feminina brasileira<\/a>. At\u00e9 o presente momento s\u00e3o mais 300 bandas cadastradas, mas ainda sim um n\u00famero pequeno recebe a devida exposi\u00e7\u00e3o. Na sua opini\u00e3o, o que falta para fazer com que essa lacuna seja preenchida?<\/strong><br \/>\nInfelizmente, o machismo e a misoginia est\u00e3o muito enraizadas na nossa cultura. Isso exige posturas constantes e olhos sempre abertos da nossa parte. Nos unir tem sido um caminho vi\u00e1vel na busca da expans\u00e3o do nosso territ\u00f3rio. De maneira geral, tenho visto mulheres contratando apenas mulheres para servi\u00e7os os mais diversos e isso \u00e9 genial! Se n\u00e3o nos d\u00e3o espa\u00e7os que n\u00f3s nos demos. Choramingar no quarto nunca levar\u00e1 ningu\u00e9m a lugar algum. Na m\u00fasica \u00e9 um orgulho assistir a ascens\u00e3o de poderosas como a Karol Conka, a Salma (Carne Doce), a Tulipa Ruiz e tantas outras. Confesso que minha torcida \u00e9 ainda maior quando \u00e9 mulher porque sou e sei o que \u00e9 ser, sei quantas portas seguem fechadas pra n\u00f3s, sei que a m\u00e9dia exigida a troco de qualquer respeito \u00e9 muito maior.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>De uns tempos para c\u00e1 a m\u00fasica independente tem conquistado espa\u00e7o maior por diversos fatores. Voc\u00ea e Nobat tem estabelecido uma rela\u00e7\u00e3o de di\u00e1logo n\u00e3o s\u00f3 com artistas locais, mas tamb\u00e9m firmado parcerias para al\u00e9m das Minas Gerais. O caminho para que a cena cres\u00e7a \u00e9 este?<\/strong><br \/>\nOs desafios movem a humanidade. Tocar na sua cidade \u00e9 fundamental, mas \u00e9 pouco. H\u00e1 sempre pessoas que se interessariam pelo seu trabalho, seja ele qual for, e elas est\u00e3o espalhadas pelo mundo. E poucas coisas s\u00e3o mais ricas que a troca humana, principalmente para os compositores, que vivem de hist\u00f3rias e inspira\u00e7\u00f5es. Sair da sua cidade, do seu estado e do seu pa\u00eds pra apresentar uma coisa t\u00e3o \u00edntima que \u00e9 sua m\u00fasica expande todas as suas possibilidades. Vivi isso de muito perto com o Nobat. Sou sempre a primeira pessoa a ouvir uma composi\u00e7\u00e3o nova e assistir \u00e0quela m\u00fasica tocada no quarto ainda de pijama atravessar o oceano e desembarcar em Portugal, por exemplo, foi de um orgulho sem precedentes. Foi emocionante mesmo. N\u00e3o digo que \u00e9 este o caminho, acho que ele \u00e9 composto por uma s\u00e9rie de fatores, mas como disse Milton Nascimento: &#8220;Para cantar, nada era longe&#8221;.]<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/luli1.jpg\" \/><\/p>\n<p>\u2013 Bruno Lisboa (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/brunorplisboa\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">@brunorplisboa<\/a>) \u00e9 redator\/colunista do <a href=\"http:\/\/pignes.com\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Pigner<\/a> e do <a href=\"http:\/\/www.opoderosoresumao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">O Poder do Resum\u00e3o<\/a>. As fotos de LULI s\u00e3o de Rafael Sandim \/ Divulga\u00e7\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"&#8220;LULI expandiu meus horizontes e me entrega pap\u00e9is em branco toda manh\u00e3 pra eu rabiscar o que quiser&#8221;, diz Lu\u00edsa Gontijo ao Scream &#038; Yell\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2017\/06\/28\/entrevista-luli-2\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":4,"featured_media":43331,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[2074],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/43321"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=43321"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/43321\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":43323,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/43321\/revisions\/43323"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/43331"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=43321"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=43321"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=43321"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}