{"id":43284,"date":"2017-06-22T11:19:57","date_gmt":"2017-06-22T14:19:57","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=43284"},"modified":"2017-07-19T17:07:26","modified_gmt":"2017-07-19T20:07:26","slug":"scream-yell-recomenda-andres-correa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2017\/06\/22\/scream-yell-recomenda-andres-correa\/","title":{"rendered":"Scream &#038; Yell recomenda: Andr\u00e9s Correa"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/leovinhas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Leonardo Vinhas<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Existem no mundo muitos cantores e compositores como o colombiano Andr\u00e9s Correa. Adolescente t\u00edmido, Andr\u00e9s cresceu para tornar-se um adulto ainda t\u00edmido, mas capaz de se expressar pelas suas can\u00e7\u00f5es. Lan\u00e7ou-se na m\u00fasica de forma independente, experimentou em formatos mais \u201cplurais\u201d antes de se decidir pelo intimismo de arranjos despojados e letras confessionais. Dito assim, o colombiano parece ser apenas mais um entre os muitos tipos que insistem no formato voz-e-viol\u00e3o para entregar can\u00e7\u00f5es que mais parecem exerc\u00edcio de constru\u00e7\u00e3o e desconstru\u00e7\u00e3o pessoal do que para fazer boa m\u00fasica. Mas a verdade \u00e9 que existem no mundo poucos cantores e compositores como Andr\u00e9s Correa. Pouqu\u00edssimos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A depura\u00e7\u00e3o mel\u00f3dica e po\u00e9tica que Andr\u00e9s atingiu em seus mais de 15 anos de carreira \u00e9 algo raro. Todos os seus discos est\u00e3o liberados para download gratuito em <a href=\"https:\/\/andrescorrea.bandcamp.com\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/andrescorrea.bandcamp.com<\/a>, e do que se escutava em seu primeiro \u00e1lbum, \u201cUt\u00f3pico de Cancer\u201d (2003), resta muito pouca coisa. Sua busca cancioneira teria momentos mais roqueiros (o \u00e1lbum de estreia e tamb\u00e9m \u201cSocios Ociosos\u201d, de 2007, em parceria com o m\u00fasico Pala), pop (\u201cPrueba y Error\u201d, 2005) e psicod\u00e9licos (\u201cCorrea Ram\u00edrez Andr\u00e9z y Los Aut\u00e9nticos Water Resist\u201d, de 2008), at\u00e9 come\u00e7ar a tomar rumos mais verdadeiros e particulares a partir de \u201cUn Lugar\u201d (2010). Ainda que ele tenha v\u00e1rias experimenta\u00e7\u00f5es r\u00edtmicas, sobrando espa\u00e7o at\u00e9 para o reggae (a faixa-t\u00edtulo) e a bossa nova (\u201cMedias Nuevas\u201d), esse j\u00e1 trazia a marca compositiva mais forte do compositor, em especial no lirismo dolorido de \u201cMascota\u201d, sua can\u00e7\u00e3o mais popular em seu pa\u00eds natal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O grande salto, por\u00e9m, viria com \u201cAurora\u201d (2014), \u00e1lbum que concentrou suas influ\u00eancias de jazz, can\u00e7\u00e3o colombiana, MPB, Elvis Costello e rock argentino de maneira inequ\u00edvoca e irrepreens\u00edvel. \u201cAurora\u201d \u00e9 daqueles discos que merece nota 10, que fica na mente e no cora\u00e7\u00e3o como refer\u00eancia permanente de um \u00e1lbum \u00edmpar, um momento (ou uma s\u00e9rie de momentos) em que a m\u00fasica encontra a dosagem exata dos ingredientes \u2013 digamos assim \u2013 vis\u00edveis e invis\u00edveis necess\u00e1rios para torn\u00e1-la inesquec\u00edvel. E feita de maneira que nenhum outro poderia fazer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cAurora\u201d, por\u00e9m, passou batido (\u201cEm parte por minha causa, que n\u00e3o trabalhei direito na divulga\u00e7\u00e3o do disco\u201d, diria seu autor em v\u00e1rias ocasi\u00f5es). Da frustra\u00e7\u00e3o com o disco, das muitas viagens feitas pelo continente sul-americano para tocar (muitas vezes em condi\u00e7\u00f5es bem abaixo das ideais) e das mais variadas experi\u00eancias pessoais (relacionamentos que come\u00e7am e terminam, dificuldades financeiras, conquistas pessoais, essas coisas), nasceu Ocaso, seu \u00faltimo \u00e1lbum, que \u00e9 um passo adiante depois da conquista art\u00edstica de \u201cAurora\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ou um passo atr\u00e1s, a depender do ponto de vista, j\u00e1 que Correa deixou para tr\u00e1s a banda que o acompanhava para fazer quase tudo sozinho nesse disco, decantando os arranjos de modo a n\u00e3o deixar muito mais que voz e viol\u00e3o. Por\u00e9m, se compara\u00e7\u00f5es s\u00e3o necess\u00e1rias para que fique evidente que n\u00e3o \u00e9 mais disquinho insosso e metido a folk, pense em Mark Kozelek e seu Sun Kil Moon, no qual o ex-Red House Painters se coloca confessional ao ponto da vulnerabilidade, e encontra a transcri\u00e7\u00e3o musical adequada para isso. \u00c9 por essa linha, evidentemente \u00e0 sua moda e sem nada de folk norte-americano, que o colombiano vai.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Durante o processo de feitura desse disco, tive v\u00e1rios encontros com Andr\u00e9s Correa, pessoalmente (em festivais de m\u00fasica) e por conversas via Skype e Messenger, j\u00e1 que ele atuou como co-curador do \u00e1lbum \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/11\/24\/download-tributo-aos-paralamas-do-sucesso\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Caleidosc\u00f3pio \u2013 Um Tributo Ibero-Americano aos Paralamas do Sucesso<\/a>\u201d, lan\u00e7ado pelo selo Scream &amp; Yell em novembro de 2015. Em um desses encontros, inclusive, o artista declarou que provavelmente n\u00e3o gravaria mais discos, \u201cporque n\u00e3o quero investir dinheiro para depois ficar acumulando CDs embaixo da cama\u201d, e que preferia usar o er\u00e1rio que lhe sobrasse para melhorar sua horta (!). Por\u00e9m, em algum momento Andr\u00e9s recuperou o \u00e2nimo e a autoconfian\u00e7a, e n\u00e3o s\u00f3 \u201cOcaso\u201d foi gestado como veio ainda uma nova edi\u00e7\u00e3o de \u201cAurora\u201d, com arte de capa que dialoga com a do novo \u00e1lbum.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A edi\u00e7\u00e3o f\u00edsica de \u201cOcaso\u201d saiu apenas em CD, em c\u00f3pias serigrafadas individualmente, de modo que cada disquinho \u00e9 uma pe\u00e7a \u00fanica. A explica\u00e7\u00e3o para essa decis\u00e3o est\u00e9tica \u00e9 impar: \u201cEu n\u00e3o posso escutar meu disco em CD porque n\u00e3o tenho um reprodutor dessa m\u00eddia. Mas sinto que o livro \u00e9 um bom condutor de palavras, e quando apareceu a oportunidade de fazer em serigrafia, eu juntei as duas coisas. Porque se voc\u00ea n\u00e3o quiser escutar as can\u00e7\u00f5es, pode ler as letras, e acho importante que elas possam ser lidas.. O livro tem sentido, o CD talvez n\u00e3o sirva para nada, mas \u00e9 bonito, um luxo contradit\u00f3rio. E no fim, a m\u00fasica est\u00e1 ali tamb\u00e9m. Al\u00e9m disso, queria algo concreto para dar a algumas pessoas muito especiais para mim. Quem compra o disco est\u00e1 comprando esse capricho de eu poder presentear algumas pessoas que quero muito que tenham o CD\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse \u00e9 Andr\u00e9s Correa, uma figura \u00fanica, em sua primeira entrevista longa para um ve\u00edculo brasileiro.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/qhmu0Bto4lY?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quando voc\u00ea se deu conta que o seu lance era escrever can\u00e7\u00f5es?<\/strong><br \/>\n(hesita) Olha&#8230; \u00e9 louco porque desde muito novinho eu fazia par\u00f3dias. O que eu fiz com \u201cMarambaia\u201d, fazia com os comerciais de televis\u00e3o. Compunha can\u00e7\u00f5es meio que como piada. Mas na adolesc\u00eancia conheci [a musica de] Fito Paez, e foi uma cis\u00e3o, isso me virou a cabe\u00e7a. Depois vieram Charly Garc\u00eda, [Luis Alberto] Spinetta, e a\u00ed tomei a decis\u00e3o de fazer can\u00e7\u00f5es, e isso foi algo super consciente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea j\u00e1 tocava viol\u00e3o ent\u00e3o?<\/strong><br \/>\nToco viol\u00e3o desde os 12 anos. N\u00e3o me lembro agora qual foi a primeira can\u00e7\u00e3o s\u00e9ria que fiz, mas me lembro muito de fazer as can\u00e7\u00f5es como brincadeira, e da surpresa que \u00e9 se ver capaz de compor uma can\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea falou de m\u00fasicos argentinos: Fito, Charly, Spinetta. Mas voc\u00ea tem seus her\u00f3is de outros pa\u00edses, como o espanhol Pedro Guerra, que est\u00e1 em \u201cOcaso\u201d, em uma releitura de \u201cAurora\u201d.<\/strong><br \/>\nExato. Eu escutava Fito Paez e Charly Garc\u00eda, mas era dif\u00edcil me relacionar com eles, porque os dois s\u00e3o pianistas. Spinetta \u00e9 um grande guitarrista, que fazia acordes extremamente dif\u00edceis, harmonias muito intrincadas, que ainda me custam muito entender. Pedro tem alguma influ\u00eancia de Fito, mas tem tamb\u00e9m das Ilhas Can\u00e1rias, da \u00c1frica, e gravou seu primeiro disco no Brasil. Ele tem essa influ\u00eancia da can\u00e7\u00e3o argentina, da brasileira, da espanhola, tomo todas essas linguagens, e ele me aparece como um muso que est\u00e1 um pouco mais ao meu alcance (risos). Eu aprendi a tocar a guitarra mesmo com um livrinho com os acordes das can\u00e7\u00f5es de Pedro Guerra. E ele era mais acess\u00edvel do ponto de vista emocional. Fito Paez era uma estrela de rock enquanto Pedro se apresentava como uma pessoa t\u00edmida, inclusive em cima de um palco. Ele foi um passo intermedi\u00e1rio, algu\u00e9m que estava entre o meu sonho do rock argentino e algo ao meu alcance, que eu podia aprender.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/hhZ1SBBsvI8?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>H\u00e1 pouco, entrevistei o argentino Edu Schmidt, que disse que a m\u00fasica o salvou de ser antissocial. Voc\u00ea acha que esse \u00e9 seu caso, ou a m\u00fasica te deixou mais antissocial ainda? (risos)<\/strong><br \/>\nBem, eu realmente agrade\u00e7o muito \u00e0 m\u00fasica. Eu nunca fui totalmente antissocial, mas n\u00e3o era exatamente soci\u00e1vel. Realmente n\u00e3o tinha amigo algum no col\u00e9gio, n\u00e3o era capaz de expressar muitas coisas, tampouco tinha a pretens\u00e3o de montar uma banda de rock ou um grupo de teatro ou algo assim. Mas se eu for contar todos os poucos amigos que fiz na vida, eu devo isso \u00e0 m\u00fasica. Se n\u00e3o fosse por ela, eu teria pouqu\u00edssimas possibilidades de ter compartilhado e vivenciado v\u00e1rias coisas na minha vida. Inclusive as mulheres que passaram pela minha vida vieram do ambiente da m\u00fasica (ri, visivelmente encabulado). \u00c9 estranho, mas a m\u00fasica foi minha maneira de me relacionar com o mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A m\u00fasica te permite criar uma rela\u00e7\u00e3o mais social, e isso aparece agora em \u201cOcaso\u201d com os convidados e parceiros do disco. O nome mais evidente nisso \u00e9 o de <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2016\/03\/07\/conexao-latina-fargus\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Ariel Migliorelli<\/a> (nota: m\u00fasico argentino que toca nas bandas Fargus e Aveim\u00e1n, al\u00e9m de ter carreira solo e acompanhar o uruguaio Diego Drexler), que \u00e9 parte do som do disco. Ele conseguiu mixar e masterizar o \u00e1lbum de modo que n\u00e3o soe lo-fi, mesmo com arranjos m\u00ednimos. Al\u00e9m dele, est\u00e3o Pedro Guerra, sua namorada Lizeth Le\u00f3n (autora da capa), e outros nomes que te ajudaram a viabilizar o disco. Como \u00e9 poss\u00edvel que o processo tenha sido simultaneamente t\u00e3o individual e t\u00e3o coletivo?<\/strong><br \/>\nEssa \u00e9 uma boa pergunta. Esse \u00e9 um disco que nasceu na casa de amigos. Geralmente, eu precisava da solid\u00e3o da minha casa para compor, s\u00f3 que nesse caso eu fui para Mendoza para a primeira can\u00e7\u00e3o, e de l\u00e1 para Santiago (Chile), e ent\u00e3o Rio, Porto Alegre (para o festival de El Mapa de Todos), C\u00f3rdoba, Ros\u00e1rio, Buenos Aires, Chaco&#8230; Nessas viagens, as can\u00e7\u00f5es foram \u201ccozinhadas\u201d, e s\u00f3 foi assim gra\u00e7as aos amigos, porque eles me estenderam a m\u00e3o para que eu chegasse a esses lugares e pudesse vivenciar coisas diferentes l\u00e1, passar um tempo nesses lugares. Em Ros\u00e1rio, Ariel j\u00e1 acordava e me dizia: \u201cLevanta, vamos remar, fazer ioga, vamos para o est\u00fadio\u201d&#8230; (risos) Assim como ele, v\u00e1rias pessoas, cada qual em sua cidade me puxou para v\u00e1rias coisas, e seguramente as conversas e os momentos ali vividos entraram no disco. Quando voltei a Bogot\u00e1, conheci Alejandro G\u00f3mez Garz\u00f3n, que foi o produtor do disco, e que foi essencial para manter a unidade e trazer din\u00e2mica em um \u00e1lbum que \u00e9 essencialmente voz e viol\u00e3o. H\u00e1 muitas outras pessoas que colaboraram \u2013 Juan Carlos Jaramillo (cantor e guitarrista), Milthon Pi\u00f1eros (guitarrista), Lucio Feullet (que toca tiple, um instrumento de cordas colombiano) \u2013 e a verdade \u00e9 que esse \u00e9 meu disco em que h\u00e1 mais participa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sempre que voc\u00ea fala de \u201cAurora\u201d, diz que n\u00e3o investiu energia para promov\u00ea-lo, lembra que n\u00e3o aconteceu nada, em termos de imprensa e p\u00fablico&#8230; Por\u00e9m, \u201cAurora\u201d \u00e9 um disco \u00edntimo e muito pessoal \u2013 na verdade, o primeiro disco em que se escuta claramente o compositor Andr\u00e9s Correa Ram\u00edrez sem nenhuma refer\u00eancia direta de outros artistas. Ainda assim, voc\u00ea n\u00e3o se sente confort\u00e1vel com ele \u2013 e com \u201cOcaso\u201d, t\u00e3o ou mais \u00edntimo quanto, est\u00e1 confort\u00e1vel e feliz. O que diferencia, emocional e artisticamente, ambos os momentos?<\/strong><br \/>\n\u201cAurora\u201d saiu em um momento muito delicado da minha vida, de muitas e muitas mudan\u00e7as, e eu n\u00e3o me sentia bem comigo. Eu assumi a produ\u00e7\u00e3o dele e sinto que tive que impor muitas coisas. Eu estava muito seguro quanto \u00e0s vozes e sabia que queria chegar a algum lugar, mas n\u00e3o sabia bem aonde. Apesar disso, h\u00e1 algumas can\u00e7\u00f5es ali das quais gosto muito, como a pr\u00f3pria \u201cAurora\u2019, que sinto como uma de minhas melhores can\u00e7\u00f5es, sen\u00e3o a melhor. Mas sentia que havia algo em minha autoestima que n\u00e3o estava favor\u00e1vel para esse disco. E logo que ele saiu, fui viajar para outro pa\u00eds (a Argentina, no caso), ent\u00e3o \u00e9 como se o disco nunca tivesse sa\u00eddo. De todo modo, Aurora n\u00e3o \u00e9 um disco f\u00e1cil de escutar. Tem harmonias que s\u00e3o bastante complexas, h\u00e1 can\u00e7\u00f5es longas, e sinto que eu n\u00e3o estava suficientemente forte para dizer: \u201cSim, esse sou eu e isso \u00e9 o que h\u00e1 [para agora]\u201d. Depois, sentia certo inc\u00f4modo com a banda, com a produ\u00e7\u00e3o, com a maneira como capturei minha voz. Por isso decidi que no disco seguinte teria que gravar primeiro o viol\u00e3o e a minha voz, entender esse som e entender do que eu seria capaz. Com isso eu seria capaz de acrescentar um baixo e uma bateria. Porque, claro, quando voc\u00ea grava a voz por \u00faltimo, tem que competir com os harm\u00f4nicos dos outros instrumentos. \u00c9 como se voc\u00ea tivesse que encontrar um lugar para a voz ali. S\u00f3 que nesse disco n\u00e3o houve isso. De qualquer maneira, s\u00e3o dois discos que foram feitos sem dinheiro. O problema era comigo mesmo. S\u00e3o poucos os artistas que conseguem se colocar sem medo, como Lisandro Aristimu\u00f1o, por exemplo. Em \u201cAurora\u201d, eu estava muito temeroso.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/videoseries?list=PLPzejhhjk0RI5h2XglAj5hlsBHr2dq7k2\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Durante o <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2016\/05\/03\/festival-brasileiro-de-musica-de-rua-2016\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Festival Brasileiro de M\u00fasica de Rua de 2016<\/a>, voc\u00ea me disse que preferia usar dinheiro para melhorar sua horta do que \u201cgastar em discos que v\u00e3o ficar embaixo da cama\u201d (risos). E agora voc\u00ea est\u00e1 super apaixonado por essas can\u00e7\u00f5es! O que aconteceu para dar uma mudan\u00e7a t\u00e3o grande de \u00e2nimo? Por que a horta n\u00e3o \u00e9 mais prioridade? (risos)<\/strong><br \/>\nAcho que muito disso tem a ver com Liz (Lizeth Le\u00f3n). Acompanhei o processo de feitura do livro dela, \u201cFachadas Bogotanas\u201d (com desenhos sobre fotos da arquitetura tradicional da capital colombiana). Vi o quanto ela \u00e9 detalhista, o quanto ela \u00e9 capaz de repetir 50 vezes uma coisa at\u00e9 que saia do jeito que ela considera o ideal. Um pouco do esp\u00edrito dela, de como ela tratava sua obra, me contagiou. A primeira edi\u00e7\u00e3o de \u201cAurora\u201d \u00e9 diferente dessa, que foi feita sem press\u00e3o. Eu tinha, na primeira edi\u00e7\u00e3o, essa coisa de \u00e0s vezes n\u00e3o saber dizer exatamente o que eu queria, ent\u00e3o um m\u00fasico fazia algo que n\u00e3o era o que eu queria e eu simplesmente dizia, \u201cok, vamos em frente\u201d. Agora em \u201cOcaso\u201d fui mais meticuloso tamb\u00e9m. At\u00e9 porque posso me comunicar melhor comigo mesmo do que com um baixista virtuoso (risos). Se eu sei qual \u00e9 a nota que quero, posso buscar essa nota at\u00e9 conseguir. Acontece o mesmo com a sonoridade, e eu e Alejandro est\u00e1vamos muito conectados. Por tudo isso, e por eu ter mais essa confian\u00e7a, as coisas flu\u00edram mais naturalmente. E sim, tamb\u00e9m teve a quest\u00e3o de dinheiro, porque \u00e9 disso que estamos falando, e eu consegui um tanto para a produ\u00e7\u00e3o, para a divulga\u00e7\u00e3o. Porque eu realmente n\u00e3o quero que eles fiquem embaixo da cama. Tamb\u00e9m estou muito tranquilo porque \u00e9 s\u00f3 eu e meu viol\u00e3o, n\u00e3o? Ent\u00e3o \u00e9 mais f\u00e1cil viajar, toco em lugares menores, onde as pessoas podem me escutar.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/RQf6EE6gg40?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Nesse disco, h\u00e1 duas can\u00e7\u00f5es que chamam aten\u00e7\u00e3o especial. A primeira \u00e9 \u201cAutorretrato\u201d, que \u00e9 um retrato muito depreciativo, que n\u00e3o parece estar t\u00e3o de acordo com esse bom momento que voc\u00ea est\u00e1 vivendo (risos). \u00c9 bastante agressiva e ir\u00f4nica. Como ela surgiu?<\/strong><br \/>\nEssa \u00e9 uma can\u00e7\u00e3o do ano passado, que n\u00e3o \u00e9 parte da camada principal do disco. Costumo dar oficinas de can\u00e7\u00e3o, e um dos exerc\u00edcios \u00e9 escrever uma can\u00e7\u00e3o falando diretamente para algu\u00e9m. Eu estava em uma pra\u00e7a de alimenta\u00e7\u00e3o por volta das quatro da tarde e comecei com essa coisa, fazer eu mesmo esse exerc\u00edcio, s\u00f3 que escrevendo para mim. Desde o come\u00e7o sabia que seria um autorretrato e que eu tinha uma ou duas coisinhas pendentes para dizer a mim mesmo (risos), e realmente cada uma das coisas que aponto ali me d\u00f3i. O primeiro verso era \u201cg\u00eanio idiota\u201d, e eu mudei para \u201cpobre diabo\u201d, porque tinha lido um artigo sobre [o escritor mexicano] Juan Ruffo, a quem pediram para se descrever em tr\u00eas palavras, e ele disse \u201cpobre diablo\u201d. Foi um grande gesto, porque sobrou uma palavra ainda, e porque era Juan Ruffo, que levou uma vida muito dura! Ent\u00e3o eu quis fazer essa concess\u00e3o, mas as outras coisas que digo ali realmente eram dolorosas. Ela \u00e9 uma can\u00e7\u00e3o que, do aspecto violon\u00edstico, est\u00e1 no disco, mas n\u00e3o faz tanta parte do universo po\u00e9tico. Mas acho que cabia ali, antes de \u201cLuciana\u201d, porque era assim que esse sujeito se sentia antes de ela aparecer (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A outra can\u00e7\u00e3o \u00e9 \u201cLa Dicha\u201d, que come\u00e7ou como uma vers\u00e3o de \u201cMarambaia\u201d, para o disco \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2016\/12\/07\/download-brasil-tambien-es-latino\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Brasil Tambi\u00e9n Es Latino<\/a>\u201d, e acabou se transformando em algo diferente. O que te tocou tanto a can\u00e7\u00e3o original a ponto de voc\u00ea buscar algo seu ali, e criar algo novo?<\/strong><br \/>\nEstava falando com um amigo m\u00fasico que viveu um tempo no Brasil, e perguntei a ele sobre can\u00e7\u00f5es e ritmos que perduram h\u00e1 muitos anos no Brasil. \u201cMarambaia\u201d era uma delas, porque ela parece que est\u00e1 a\u00ed at\u00e9 hoje, foi cantada por Moreno Veloso e Marcelo Camelo, que s\u00e3o influ\u00eancias claras para o que fa\u00e7o. Quando participei do \u201cCaleidosc\u00f3pio\u201d (o tributo aos Paralamas do Sucesso lan\u00e7ado pelo Scream &amp; Yell), fiquei com uma d\u00edvida, porque embora a can\u00e7\u00e3o (\u201cEl Vampiro Bajo el Sol\u201d, gravada com o m\u00fasico brasileiro Otavio Bertolo, ex-Sereialarm) fosse dos Paralamas, era uma parceria com Fito Paez, que ele tamb\u00e9m j\u00e1 havia cantado. N\u00e3o tinha esse lado t\u00e3o brasileiro. Al\u00e9m disso, por minha timidez, eu n\u00e3o consegui levar a vers\u00e3o para adiante, n\u00e3o consegui levar minha voz ou a can\u00e7\u00e3o para mais longe. O Andr\u00e9s Gualdr\u00f3n (l\u00edder da banda colombiana Animales Blancos) conseguiu fazer uma vers\u00e3o totalmente nova e louca [de \u201cAlagados\u201d] e eu n\u00e3o. N\u00e3o queria fazer algo t\u00e3o louco, mas \u00e9 uma can\u00e7\u00e3o da qual eu gosto muito e te pe\u00e7o desculpas novamente por n\u00e3o ter conseguido ir mais longe nela (nota: Correa estava t\u00e3o inseguro que cogitou desistir de participar no tributo, e foram necess\u00e1rias muitas conversas para convenc\u00ea-lo do contr\u00e1rio). Enfim, eu falava com esse amigo sobre ritmos do Brasil e da Col\u00f4mbia: quais seriam parecidos, quais teriam mais coisas em comum. E tive essa ideia de talvez traduzir n\u00e3o uma letra, mas sim um ritmo do Brasil para uma constru\u00e7\u00e3o mais colombiana. Traduzir a sensa\u00e7\u00e3o, a paisagem musical&#8230; E tamb\u00e9m trazer para a minha realidade, tamb\u00e9m. Ent\u00e3o, se a personagem da can\u00e7\u00e3o tem uma casa na praia&#8230; eu n\u00e3o moro na praia, e sim na montanha, ent\u00e3o vira a \u201ccasa na montanha\u201d. Se fala da \u201cminha morena\u201d, a minha namorada n\u00e3o \u00e9 assim, ela \u00e9 branca \u2013 \u201ccachaca\u201d, como se diz por aqui. E ela n\u00e3o se senta para cantar comigo, e sim para desenhar. Tamb\u00e9m falo dos p\u00e1ssaros, das \u00e1rvores que est\u00e3o aqui perto de casa. E a experi\u00eancia que tenho em fazer par\u00f3dias tornou tudo isso muito f\u00e1cil, muito prazeroso. Acabou que, com tudo isso, ela n\u00e3o ficou muito parecida com a original, e sim com uma can\u00e7\u00e3o minha.<br \/>\n<em>(nota: a interpreta\u00e7\u00e3o de Elis Regina, que tornou \u201cMarambaia\u201d nacionalmente conhecida, junta na verdade duas can\u00e7\u00f5es. A cantora Carmen Costa gravou, em 1942, \u201cS\u00f3 Vendo que Beleza\u201d, que no mesmo ano seria \u201creimaginada\u201d como \u201cCasinha da Marambaia\u201d pelos mesmos autores, Henric\u00e3o e Rubens Campos.)<\/em><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/IyN6wqEsMGo?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>J\u00e1 que voc\u00ea citou isso: sua rela\u00e7\u00e3o com o Brasil e a m\u00fasica local \u00e9 muito profunda, muito intensa.<\/strong><br \/>\nTenho essa m\u00fasica muito interiorizada, est\u00e1 no sentimento, na maneira de tocar o viol\u00e3o, de usar as palavras. \u00c9 uma coisa muito emotiva. Como artista, estar no Brasil \u00e9 um palco no qual tantas coisas lindas foram ditas&#8230; Quando viajo a lugares do Brasil, vou com a \u201cdesculpa\u201d de mostrar meu trabalho, mas s\u00e3o lugares que me falam atrav\u00e9s das can\u00e7\u00f5es. Eu fui para S\u00e3o Paulo e tive que ver a Ipiranga com S\u00e3o Jo\u00e3o, por causa da can\u00e7\u00e3o do Caetano Veloso, entende? Sinto que me incluo. Queria saber falar melhor o portugu\u00eas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cAurora\u201d \u00e9 assinado com seu nome, mas \u00e9 um disco de banda, como foi seu disco com os Water Resist. H\u00e1 ainda o \u201cS\u00f3cios Ociosos\u201d, assinado juntamente com o Pala. Sei que voc\u00ea gosta de colabora\u00e7\u00f5es, mas falamos aqui que \u201cOcaso\u201d foi um disco de afirma\u00e7\u00e3o da sua identidade. Ent\u00e3o, a pergunta \u00e9 se, depois dessa experi\u00eancia, te interessa seguir assim, mais intimista, ou a coletividade das bandas ainda te interessa?<\/strong><br \/>\nOlha s\u00f3, com esse disco est\u00e3o acontecendo algumas coisas bem bonitas, e h\u00e1 uma sensa\u00e7\u00e3o de algo definitivo em cada coisa que venho fazendo com ele. Estou muito contente com o disco, est\u00e1 muito bonito, mas parece que a escrita que empreguei nela est\u00e1 chegando a um ponto ao qual n\u00e3o vai me interessar mais. Assim, n\u00e3o tenho em meus planos fazer outro disco de voz e viol\u00e3o. Nunca vou fazer. Ou melhor, n\u00e3o digo \u201cnunca\u201d, mas certamente n\u00e3o de imediato. De fato, quero fazer o pr\u00f3ximo disco com banda. Vai ser muito pop, com banda \u2013 j\u00e1 tenho as can\u00e7\u00f5es. Pensei at\u00e9 em ter uma cantora, e eu ficar mais atr\u00e1s, s\u00f3 compondo e tocando. Pode at\u00e9 funcionar como um momento de relaxamento para mim, por n\u00e3o ter que estar t\u00e3o \u00e0 frente, mas n\u00e3o decidi isso ainda. O que \u00e9 certo \u00e9 que, na composi\u00e7\u00e3o, o pr\u00f3ximo disco n\u00e3o ter\u00e1 nada a ver com Ocaso.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/WpPSCBN7j7c?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>\u2013 Leonardo Vinhas (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/#%21\/leovinhas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@leovinhas<\/a>) assina a se\u00e7\u00e3o Conex\u00e3o Latina (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/tag\/conexao_latina\/\">aqui<\/a>) no Scream &amp; Yell.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"&#8220;Com esse disco est\u00e3o acontecendo algumas coisas bem bonitas, e h\u00e1 uma sensa\u00e7\u00e3o de algo definitivo em cada coisa que venho fazendo com ele&#8221;, conta Andr\u00e9s ao Scream &#038; Yell\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2017\/06\/22\/scream-yell-recomenda-andres-correa\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":6,"featured_media":43285,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[906,45],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/43284"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=43284"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/43284\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":43288,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/43284\/revisions\/43288"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/43285"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=43284"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=43284"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=43284"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}