{"id":43225,"date":"2017-06-16T13:37:16","date_gmt":"2017-06-16T16:37:16","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=43225"},"modified":"2018-07-03T22:40:55","modified_gmt":"2018-07-04T01:40:55","slug":"9o-festival-in-edit-brasil-alguns-filmes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2017\/06\/16\/9o-festival-in-edit-brasil-alguns-filmes\/","title":{"rendered":"Alguns filmes do 9\u00ba In-Edit Brasil"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>por Marcelo Costa<\/strong><\/h2>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/maliblues.jpg\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cMali Blues\u201d, de Lutz Gregor (2016)<\/strong><br \/>\n***<br \/>\nEntre os anos de 1200 e 1600, Mali, o s\u00e9timo maior pa\u00eds da \u00c1frica, foi um dos maiores imp\u00e9rios do continente. At\u00e9 hoje, o pa\u00eds \u00e9 o terceiro maior produtor mundial de ouro, mas a posi\u00e7\u00e3o n\u00e3o se transforma em bens para o povo, com cerca de metade da popula\u00e7\u00e3o vivendo abaixo do n\u00edvel de pobreza e cidades como Timbuktu, Kidal e Gao controladas pelo Estado Isl\u00e2mico, que impuseram a sharia, proibindo, entre outras coisas, a m\u00fasica (na terra que deu ao mundo Salif Keita, Ali Farka Toure e Toumani Diabate), o que fez com que artistas da regi\u00e3o tivessem que abandonar a \u00e1rea com medo de serem presos, torturados e mortos. \u201cMali Blues\u201d acompanha a rotina de quatro m\u00fasicos malinenses, alguns deles exilados em seu pr\u00f3prio pa\u00eds: o guitarrista Ahmed Ag Kaedi, o mestre de ngoni Bass\u00e9kou Kouyat\u00e9, o rapper Master Soumy e a guitarrista Fatoumata Diawara, que vive na Fran\u00e7a, e retorna a Mali para se apresentar em um festival. A c\u00e2mera flagra tanto a pobreza quanto a beleza do pa\u00eds enquanto o roteiro versa sobre ex\u00edlio, ruptura e medo. Em um dos trechos fortes do document\u00e1rio, Fatoumata retorna a sua aldeia de origem e toca para as mulheres uma can\u00e7\u00e3o que questiona a <a href=\"http:\/\/ultimosegundo.ig.com.br\/mundo\/2015-04-23\/desmaiei-de-dor-lembra-top-model-da-somalia-sobre-mutilacao-genital.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">mutila\u00e7\u00e3o genital<\/a>, \u201c<a href=\"http:\/\/www.pordentrodaafrica.com\/default\/circuncisao-feminina-se-a-cultura-fere-o-seu-corpo-por-que-manter-esse-costume-diz-ativista-fardhosa-mohamed\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">tradi\u00e7\u00e3o<\/a>\u201d em v\u00e1rios pa\u00edses da \u00c1frica, que nada mais \u00e9 que a remo\u00e7\u00e3o das partes &#8216;impuras&#8217; da vagina, procedimento que, para os homens, torna as meninas &#8216;limpas&#8217; e &#8216;bonitas&#8217;, e que \u00e9 defendido por grande parte das mulheres (inclusive no filme). Gregor busca apenas mostrar a situa\u00e7\u00e3o no pa\u00eds em um document\u00e1rio interessante e correto.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/docesbarbaros.jpg\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cOs Doces B\u00e1rbaros\u201d, de Jom Tob Azulay (1978)<\/strong><br \/>\n*****<br \/>\nEm 1976, para comemorar 10 anos de carreira, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Maria Beth\u00e2nia e Gal Costa planejaram uma turn\u00ea conjunta formando, para isso, Os Doces B\u00e1rbaros. O diretor Jom Tob Azulay acompanhou as primeiras datas da tour, e o que seria um document\u00e1rio simples de 30 minutos para a TV transformou-se num longa ap\u00f3s os eventos que ocorreram em Florian\u00f3polis, quarta parada da trupe. Gil e o baterista Chiquinho Azevedo foram presos por porte de maconha, e a not\u00edcia virou manchete nos principais jornais do pa\u00eds. \u201cOs Doces B\u00e1rbaros\u201d, o filme, s\u00f3 chegou aos cinemas em 1978, mutilado pela Censura, mas foi relan\u00e7ado em sua vers\u00e3o integral em 2004 (e em DVD em 2008) transformando o registro de um show num poderoso documento de \u00e9poca. As cenas em que se desenrolam a pris\u00e3o de Gil at\u00e9 seu julgamento s\u00e3o imperd\u00edveis (do delegado contando o \u2018macete do p\u00e9 na porta\u2019 at\u00e9 o advogado de acusa\u00e7\u00e3o culpando o cantor pelo uso da \u201cerva maldita\u201d), retratos envelhecidos de um momento particular da hist\u00f3ria do pa\u00eds. Isso tudo sem contar os momentos brilhantes do show como a poderosa vers\u00e3o de \u201cF\u00e9 Cega, Faca Amolada\u201d, de Milton e Ronaldo Bastos, da batida sincopada e os riffs fortes da guitarra de Perinho Santana. Em outro grande momento, \u201cAtiraste Uma Pedra\u201d, de Herivelto Martins e David Nasser, Caetano abre o caminho para que Maria Beth\u00e2nia encante. E ainda tem \u201cChuckberry Fields Forever\u201d, \u201cEsot\u00e9rico\u201d, \u201cS\u00e3o Jo\u00e3o Xang\u00f4 Menino\u201d e \u201cUm \u00cdndio\u201d al\u00e9m de entrevistas com os quatro doces b\u00e1rbaros. Cl\u00e1ssico.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/arnaldo.jpg\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cLoki &#8211; Arnaldo Baptista\u201d, de Paulo Henrique Fontenelle (2008)<\/strong><br \/>\n****<br \/>\nNas ruas de Londres, um f\u00e3 (aparentemente) brit\u00e2nico para Arnaldo Baptista e come\u00e7a um discurso emocionado que enaltece a grandiosidade do\u2019s Mutantes, grupo que Arnaldo formou com seu irm\u00e3o S\u00e9rgio e, aquela que viria a ser sua primeira namorada e mulher, Rita Lee. Na sequ\u00eancia, um brasileiro passa por Arnaldo, caminha uns dez passos e volta gritando: \u201cMutantes, porra, voc\u00ea \u00e9 foda demais\u201d. A palavra \u00e9 exatamente essa: Arnaldo Baptista \u00e9 foda demais. \u201cLoki\u201d, document\u00e1rio emocional de Paulo Henrique Fontenelle, lan\u00e7a luz com devo\u00e7\u00e3o sobre a carreira do homem respons\u00e1vel por uma das maiores \u2013 se n\u00e3o a maior \u2013 e mais geniais forma\u00e7\u00f5es de rock do lado debaixo do Equador. Fontenelle busca amigos, parceiros e produtores que abrem o cora\u00e7\u00e3o para a c\u00e2mera detalhando hist\u00f3rias e causos da vida de Arnaldo. Ainda resgata imagens rar\u00edssimas de \u00e9poca, trechos de entrevistas e apari\u00e7\u00f5es em TV que soam como pepitas de ouro visuais que d\u00e3o um colorido especial ao passado. Em um dos trechos mais tocantes da pel\u00edcula, Arnaldo comenta sobre a rela\u00e7\u00e3o com Rita Lee, o casamento e a separa\u00e7\u00e3o, pede desculpas e assume que n\u00e3o p\u00f4de dar a aten\u00e7\u00e3o que ela merecia naquele momento. O irm\u00e3o Sergio \u00e9 outro que d\u00e1 a cara a bater no filme. \u201cTamb\u00e9m sou um cretino por n\u00e3o conseguir entende-lo e quero pedir desculpas publicamente por isso\u201d, diz. \u201cLoki\u201d \u00e9 um daqueles document\u00e1rios que vangloriam o cinebiografado, mas exibe uma sinceridade t\u00e3o toc\u00e1vel que anula qualquer coment\u00e1rio contr\u00e1rio a sua imensa qualidade. Leia o texto completo <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/2008\/10\/29\/mostra-sp-loki-arnaldo-baptista\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">aqui<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/oscariocas.jpg\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cEu, Meu Pai e Os Cariocas\u201d, de Lucia Verissimo (2017)<\/strong><br \/>\n***\u00bd<br \/>\nL\u00facia Verissimo, conhecida por atuar em folhetins famosos da Rede Globo como \u201cO Salvador da P\u00e1tria\u201d (1989), \u201cDespedida de Solteiro\u201d (1992) e \u201cAm\u00e9rica\u201d (2005), entre outros, aparece aqui na fun\u00e7\u00e3o de documentarista contando a hist\u00f3ria do grupo Os Cariocas, que teve em seu pai, Severino Filho, figura central durante os 70 anos em que o grupo esteve na ativa. L\u00facia, que tamb\u00e9m narra a hist\u00f3ria e aparece aqui e ali na proje\u00e7\u00e3o, ampara-se em uma frase marcante de Tom Jobim para nortear o roteiro (\u201cToda m\u00fasica \u00e9 reflexo de sua \u00e9poca\u201d) e retorna aos tempos de Get\u00falio Vargas, que criou a R\u00e1dio Nacional, que iria contratar Os Cariocas em 1946, e transforma-los em um dos principais grupos da Era do R\u00e1dio. \u201cA R\u00e1dio Nacional era equivalente ao que s\u00e3o as maiores emissoras de TV hoje em dia\u201d, explica Gilberto Gil em certo momento, tentando mostrar o tamanho, import\u00e2ncia e influ\u00eancia da R\u00e1dio para quem n\u00e3o viveu a \u00e9poca. Al\u00e9m de Gil, praticamente toda a MPB cl\u00e1ssica (Caetano, Ney, Faf\u00e1, Gal, Beth\u00e2nia, Angela Maria, Milton, Erasmo, Cauby, Joyce, Z\u00e9lia Ducan al\u00e9m de Zuza Homem de Mello e, claro, Nelson Motta, entre dezenas de outros nomes) relembra a Era do R\u00e1dio, a Bossa Nova, a Ditadura e critica a domina\u00e7\u00e3o das r\u00e1dios atuais pelo sertanejo, pagode e ax\u00e9 num filme cuja edi\u00e7\u00e3o muitas vezes acelerada (por tanto depoimento) atropela o espectador, mas que cumpre com louvor a fun\u00e7\u00e3o de retratar a hist\u00f3ria de um conjunto e de uma \u00e9poca al\u00e9m de soar uma carinhosa carta de amor de uma filha a seu pai.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/gimme.jpg\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cGimme Danger\u201d, de Jim Jarmusch (2016)<\/strong><br \/>\n****<br \/>\nLogo nos primeiros segundos do document\u00e1rio, ouve-se a voz do diretor (dos cl\u00e1ssicos cult \u201cEstranhos no Paraiso\u201d e \u201cDown by Law\u201d) anunciando: \u201cEstamos interrogando Jim Osterberg sobre os Stooges, a maior banda de rock de todos os tempos\u201d. Bem, \u00e9 f\u00e1cil dizer isso agora, mas quando acabaram em 1974 ap\u00f3s tr\u00eas \u00e1lbuns seminais ignorados por p\u00fablico e cr\u00edtica (ou melhor, que aterrorizaram p\u00fablico e cr\u00edtica), a aposta mais prov\u00e1vel era que de os Stooges seriam esquecidos abruptamente. Felizmente n\u00e3o aconteceu&#8230; por v\u00e1rios motivos que Jarmusch n\u00e3o explora, preferindo focar o roteiro no b\u00ea-a-ba da hist\u00f3ria da banda, do in\u00edcio (ap\u00f3s lan\u00e7ar luz nos primeiros anos de Iggy como baterista, profiss\u00e3o que ele abandonou ap\u00f3s \u201cdescobrir que n\u00e3o era preto\u201d e nunca teria o suingue de um) ao fim da primeira fase em 1974 e depois o reencontro quase 30 anos depois para uma volta consagradora em 2003. Apesar de deixar buracos pelo caminho (a op\u00e7\u00e3o de n\u00e3o entrevistar David Bowie e John Cale esvazia min\u00facias que poderiam valorizar ainda mais a rebeldia da banda, j\u00e1 que ambos produziram discos dos Stooges que Iggy renega \u2013 ele chegou a relan\u00e7ar \u201cRaw Power\u201d <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2010\/07\/12\/cds-david-bowie-stooges-e-stone-roses\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">com sua pr\u00f3pria mixagem<\/a> e o mix do ex-Velvet, engavetado, ressurgiu como b\u00f4nus na reedi\u00e7\u00e3o do primeiro disco), \u201cGimme Danger\u201d empolga absurdamente, pois quem est\u00e1 na frente da c\u00e2mera \u00e9 Iggy &#8220;Jim Osterberg&#8221; Pop, um tr\u00e1gico, divertido, calculadamente desequilibrado e genial showman, que com os Stooges elevou o rock a outro n\u00edvel de entrega, sujeira, barulho e caos. Talvez o ep\u00edteto perfeito seja: \u201cStooges, a banda mais verdadeira de rock de todos os tempos\u201d. Palmas!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/nickcave.jpg\" \/><br \/>\n<strong>\u201cOne More Time with Feeling\u201d, de Andrew Dominik (2016)<\/strong><br \/>\n*****<br \/>\nEm julho de 2015, Nick Cave perdeu seu filho, ent\u00e3o com 15 anos, que caiu de um penhasco pr\u00f3ximo de sua casa, em Brighton, Inglaterra. Nick estava trabalhando em \u201cSkeleton Tree\u201d, que viria a ser seu 16\u00ba disco de est\u00fadio, e a morte do filho, como era de se esperar, influenciou decididamente o rumo do \u00e1lbum. Abalado e em sil\u00eancio, Nick Cave decidiu convidar o cineasta Andrew Dominik para registrar os \u00faltimos 10 dias de grava\u00e7\u00e3o do \u00e1lbum, j\u00e1 em fevereiro de 2016, e concordou em falar sobre a perda em entrevistas improvisadas pelo diretor numa atitude que, depois ele explicaria, visava evitar ter que falar mais para toda a imprensa. O resultado, tal qual o \u00e1lbum, \u00e9 doloroso. Filmado lindamente em 3D preto e branco, \u201cOne More Time with Feeling\u201d flagra Nick e a esposa Susie Cave quase despeda\u00e7ando. Em certo momento, o poeta, escritor e pai Nick diz que as palavras perderam o sentido. Mais para frente, se revolta consigo mesmo: \u201cN\u00e3o sei o que estou fazendo aqui, com todas essas c\u00e2meras me filmando\u201d, no que recebe o apoio do diretor: \u201cPra mim tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 nada confort\u00e1vel\u201d. Numa analogia perfeita, ele explica que traumas s\u00e3o como el\u00e1sticos: \u201cVoc\u00ea pode tentar esticar, mas ele ir\u00e1 voltar com for\u00e7a em algum momento\u201d. Desta forma, \u201cOne More Time with Feeling\u201d soa como uma terapia p\u00fablica de um casal que perdeu seu filho ainda jovem, e ao inv\u00e9s de fugir do trauma esticando o el\u00e1stico at\u00e9 o limite, decidiu enfrentar a trag\u00e9dia com aquilo que eles tinham nas m\u00e3os: arte, m\u00fasica, dor e sinceridade. Um filme corajoso para ver, respeitar e chorar.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/jupiter.jpg\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cPerdido em J\u00fapiter\u201d, de Deo (2016)<\/strong><br \/>\n****<br \/>\nFalecido em 2015 aos 47 anos, Fl\u00e1vio Basso saiu de cena deixando como legado uma carreira absolutamente inquieta e genial que se inicia nos anos 80 com o TNT e ganha sequencia com Os Cascavalletes, banda t\u00e3o influente que iria transformar \u201crock ga\u00facho\u201d em estilo musical. Tentando fugir do monstro que criou, Fl\u00e1vio transforma-se em J\u00fapiter Ma\u00e7\u00e3, lan\u00e7a um dos \u00e1lbuns obrigat\u00f3rios do rock psicod\u00e9lico mundial nos anos 90 (\u201cA S\u00e9tima Efervescencia\u201d, 1997), \u00e9 aclamado, e muda de dire\u00e7\u00e3o novamente apostando na bossa nova (psicod\u00e9lica) em \u201cPlastic Soda\u201d (j\u00e1 como J\u00fapiter Apple) \u2013 futuramente ele iria se aproximar do tropicalismo e do folk. Ou seja, um artista de dif\u00edcil acompanhamento, o que torna o objeto document\u00e1rio interessante, principalmente para ne\u00f3fitos que n\u00e3o tem ideia da grandiosidade do mito. Com esse foco, a +1 Filmes, <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/user\/maisumfilmes\/videos\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">que produz curtas c\u00f4micos para o Youtube<\/a>, manteve-se em sua \u00e1rea de trabalho: o edi(re)tor Deo passou centenas de horas selecionando material publicado no Youtube sobre Fl\u00e1vio Basso, e compilou (sem autoriza\u00e7\u00e3o) 78 minutos de imagens dos lugares mais inesperados. O formato provocante (telas do Youtube sendo abertas, sobrepostas e fechadas diante do espectador) funciona e ainda vai al\u00e9m da trama, mostrando que o universo da internet guarda muito material incr\u00edvel &#8220;perdido&#8221; no espa\u00e7o online (n\u00f3s \u00e9 que n\u00e3o temos tempo de ir atr\u00e1s). A fun\u00e7\u00e3o de Deo ent\u00e3o foi selecionar as melhores hist\u00f3rias, criar uma narrativa e montar um filme, o que ele alcan\u00e7a de forma brilhante em \u201cPerdido em J\u00fapiter\u201d. Fl\u00e1vio Basso aprovaria.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/serguei.jpg\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cSerguei, o \u00daltimo Psicod\u00e9lico\u201d, de Ching Lee e Zahy Tata Pur\u2019gte (2017)<\/strong><br \/>\n***<br \/>\nS\u00e9rgio Augusto Bustamante \u00e9 um dos maiores wannabe da m\u00fasica brasileira. Completamente viciado em rock n\u2019 roll, S\u00e9rgio, como comiss\u00e1rio de bordo, divertia os passageiros dos voos da Panair (at\u00e9 ser demitido por derramar vinho em Gina Lollobrigida) e da Varig (at\u00e9 ser demitido por um porre em Madrid). Se eu primeiro compacto simples, com as can\u00e7\u00f5es \u201cAs Alucina\u00e7\u00f5es de Sergei\u201d e \u201cEu N\u00e3o Volto Mais\u201d, foi lan\u00e7ado em 1966, e depois vieram mais seis compactos at\u00e9 1984, e o primeiro disco cheio, em 1991. Por\u00e9m, boa parte da dedica\u00e7\u00e3o de Serguei \u00e0 m\u00fasica foi eclipsada por seu envolvimento com Janis Joplin (na verdade, com o boy que acompanhava Janis), um fato que soa ter mais prejudicado sua carreira do que ajudado. Aos 83 anos, Serguei \u00e9 tema de uma trilogia da qual se incluem esse document\u00e1rio, uma biografia e uma chanchada. Nitidamente influenciado pelo seriado global \u201cArma\u00e7\u00e3o Ilimitada\u201d, que fez um sucesso danado entre 1985 e 1988, \u201cSerguei, o \u00daltimo Psicod\u00e9lico\u201d rememora a vida e os sonhos de S\u00e9rgio Augusto Bustamante com declara\u00e7\u00f5es de Erasmo Carlos, Frejat, Angela R\u00f4 R\u00f4, Nelson Motta e a sensacional Alcione, que relembra de maneira impagavelmente c\u00f4mica a noite em que, caminhando no Posto 6 com Serguei, viu o cara reconhecer Janis Joplin e leva-la para um canja em um puteiro na regi\u00e3o: \u201cNaquela \u00e9poca n\u00e3o tinha selfie, n\u00e3o tinha nada. Mas como cantava e gritava aquela mulher\u201d, diz Alcione numa das melhores passagens de um bom document\u00e1rio sobre sexo expl\u00edcito (sim, bem expl\u00edcito), psicodelia e rock n\u2019 roll.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/trane.jpg\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cChasing Trane: The John Coltrane Documentary\u201d, de John Scheinfield (2016)<\/strong><br \/>\n**\u00bd<br \/>\nComo biografar um artista inquieto que ampliou os limites do jazz? Don Cheadle fez \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2016\/08\/22\/tres-filmes-hank-miles-e-chet\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Miles Ahead<\/a>\u201d, bio romanceada de certo per\u00edodo da vida da lenda que soa muito mais Miles do que sobre Miles. No caso de \u201cChasing Trane\u201d, n\u00e3o espere revolu\u00e7\u00e3o: o formato quadrad\u00e3o soa cansativo e n\u00e3o d\u00e1 ideia da genialidade do mito, mas a m\u00fasica est\u00e1 ali, na retaguarda, encantando gera\u00e7\u00f5es. A op\u00e7\u00e3o por colocar Denzel Washington como John Coltrane narrando passagens acaba mais afastando o p\u00fablico do que o aproximando, e alguns dos entrevistados (como o rapper Common, o m\u00fasico Carlos Santana ou mesmo o ex-presidente Bill Clinton), f\u00e3s incontestes da obra de Coltrane, pouco acrescentam. Por\u00e9m, basta entrar alguma lenda para que o filme ganhe vida: Wynton Marsalis, Sonny Rollins (emocionante), Wayne Shorter, McCoy Tyner, Benny Golson e o parceiro Jimmy Heath (que, num dos belos momentos do longa, conta que s\u00f3 reconheceu Coltrane no caix\u00e3o pelas m\u00e3os: \u201cEu passei anos da minha vida ensaiando com ele e olhando apenas para suas m\u00e3os, buscando as notas\u201d, ele diz) emocionam. No entando, n\u00e3o espere novidades, o roteiro nada acrescenta \u00e0 biografia do homem, mas, ainda assim ou\u00e7a atentamente as can\u00e7\u00f5es: o tesouro est\u00e1 ali. Em certa passagem do filme, o entrevistador pergunta para m\u00fasicos variados: \u201cQu\u00e3o bom era o quinteto cl\u00e1ssico de Miles Davis?\u201d. A rea\u00e7\u00e3o de cada um, com uma interroga\u00e7\u00e3o brilhando na testa, revela n\u00e3o s\u00f3 a grandiosidade do quinteto como a tolice da pergunta resumindo um filme mediano indicado para ne\u00f3fitos em John Coltrane.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/piano.jpg\" \/><br \/>\n<strong>\u201cO Piano Que Conversa\u201d, de Marcelo Machado (2017)<\/strong><br \/>\n***<br \/>\nRespons\u00e1vel por, entre outros, os bons document\u00e1rios &#8220;Oscar Niemeyer, O Arquiteto da Inven\u00e7\u00e3o&#8221; (2007) e \u201cTropic\u00e1lia\u201d (2012), o cineasta Marcelo Machado oferece em \u201cO Piano Que Conversa\u201d um passeio l\u00fadico ao espectador, que acompanhar\u00e1 o pianista Benjamin Taubkin em viagens e encontros com outros m\u00fasicos por lugares do Brasil, Bol\u00edvia e Coreia do Sul. O t\u00edtulo infeliz e o in\u00edcio l\u00fadico enganam o espectador: logo na primeira cena, um piano \u00e9 desmontado com a c\u00e2mera revelando seus detalhes at\u00e9 seu transporte para um caminh\u00e3o. \u201cOk\u201d, pensa o espectador, \u201co piano ser\u00e1 levado de lugar a lugar e \u2018conversar\u00e1\u2019 com outros m\u00fasicos\u201d, mas, na verdade, a introdu\u00e7\u00e3o \u00e9 apenas simb\u00f3lica, pois quem \u201cconversa\u201d \u00e9 o pianista, que nem se limitar\u00e1 ao piano e tocar\u00e1 outros instrumentos pelo caminho. O filme, ent\u00e3o, \u00e9 um document\u00e1rio sobre as viagens (literalmente, n\u00e3o metaforicamente) de Benjamin, que o levam a tocar teclado num carimbo com os Cordeiros (Manoel e Felipe), acompanhar uma cerim\u00f4nia na Bol\u00edvia (com direito a folhas de coca e instrumentos de sopro locais \u2013 no qual Benjamin acrescenta na mixagem o piano) e por ai vai. N\u00e3o h\u00e1 di\u00e1logo, o fio condutor da hist\u00f3ria \u00e9 a m\u00fasica que, ainda que bela e emocional, soa fr\u00e1gil para conduzir uma narrativa que j\u00e1 esbarra no t\u00edtulo equivocado e na premissa l\u00fadica da primeira cena, que n\u00e3o se conclui. O resultado \u00e9 um filme de cenas e momentos musicais muito bonitos, mas que trope\u00e7a em suas pr\u00f3prias armadilhas (e leva, consigo, o espectador).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/sotaque.jpg\" \/><br \/>\n<strong>\u201cSotaque El\u00e9trico\u201d, de Caio Jobim e Pablo Francischelli (2017)<\/strong><br \/>\n***<br \/>\nUma linha t\u00eanue conecta \u201cSotaque El\u00e9trico\u201d com o filme anterior, \u201cO Piano Que Conversa\u201d: ambos premiam o espectador com bel\u00edssimas cenas musicais, mas confundem a narrativa pecando nos detalhes. No caso de \u201cSotaque El\u00e9trico\u201d, que, ambicioso, tem como meta viajar (metaforicamente, n\u00e3o literalmente) sobre as v\u00e1rias sonoridades da guitarra no Brasil, ancorando-se em entrevistas com um time caprichado de m\u00fasicos (de Mestre Vieira a Kiko Dinucci, de Pinduca a Kiko Loureiro, de Sergio Dias a Guilherme Held), o que poderia ser uma aula sobre o instrumento por aqueles que vivem dele acaba tornando-se uma sequencia de n\u00fameros musicais (alguns deles brilhantes, como Armandinho tocando \u201cVassourinha\u201d com um pau el\u00e9trico) que se dispersam na tentativa do espectador descobrir quem est\u00e1 em cena. Assim como \u201cO Piano Que Conversa\u201d, \u201cSotaque El\u00e9trico\u201d tamb\u00e9m n\u00e3o identifica os personagens no momento que eles aparecem em cena, apenas ao final com os cr\u00e9ditos, por\u00e9m com um agravante: aqui eles d\u00e3o depoimento, e a frase solta sobre a imagem (fluindo como se fosse uma poesia) perde-se em contexto e impacto, e confunde. No fim, a sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 de que os m\u00fasicos (e seus n\u00fameros) se sobrep\u00f5em ao instrumento. Com tem\u00e1tica focada na guitarra, \u201cA Todo Volume\u201d (2008), de Davis Guggenheim, com Jack White, Jimmy Page e The Edge, mostra que \u00e9 poss\u00edvel extrair do m\u00fasico sua rela\u00e7\u00e3o com o instrumento e, ao mesmo tempo, criar passagens musicais inesquec\u00edveis. \u201cSotaque El\u00e9trico\u201d ficou s\u00f3 no segundo item.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/punk.jpg\" \/><br \/>\n<strong>\u201cPunk Atittude\u201d, de Don Letts (2005)<\/strong><br \/>\n****<br \/>\nDe diretor de clipes \u2013 oito do Clash mais The Psychedelic Furs, Elvis Costello, The Pretenders, Bob Marley e Big Audio Dynamite, grupo que ele passaria a ser integrante fixo nos anos 90 \u2013 a documentarista com obras sobre o Clash (\u201cWestway to the World\u201d, 2000), Sun Ra (\u201cBrother From Another Planet\u201d, 2005) e Gil Scott-Heron (\u201cThe Revolution Will Not Be Televised\u201d, 2005), o brit\u00e2nico Don Letts, convidado especial do In-Edit Brasil 2017, dirigiu este excelente \u201cPunk Atittude\u201d em 2005, um filme que tenta entender as origens do movimento punk para defender que o ser punk n\u00e3o necessita estar ligado aos tr\u00eas acordes, ou seja, \u00e9 algo muito mais comportamental que musical. Para isso, Letts convida um n\u00famero enorme de lendas do (punk) rock para debater o tema: Henry Rollins, como sabemos, \u00e9 extremamente divertido, inteligente e articulado; o cineasta Jim Jarmusch, que dirigiu o doc dos Stooges comentado um pouco acima, soa sonhador e adolescente; Jello Biafra, Siouxsie Sioux, Chrissie Hynde, John Cale, Mick Jones, Thurston Moore, Legs McNeil, Tommy Ramone e at\u00e9 Pat Smear (ok, pelo Germs, n\u00e3o pelo Foo Fighters) jogam lenha na fogueira dando a entender (aquilo que todos os filmes sobre rock barulhento t\u00eam defendido nos \u00faltimos anos) que as fa\u00edscas come\u00e7am com Velvet, Stooges e MC5, se transformam em fogo com os Ramones e incendiam o mundo do lado de l\u00e1 do Atl\u00e2ntico com Pistols e Clash at\u00e9 virar moda com o Nirvana e brincadeira de adolescente criado com ma\u00e7\u00e3 raspadinha com o Limp Bizkit. No fim das contas, poucas conclus\u00f5es, mas muitos momentos antol\u00f3gicos. Para ver e rever e rever e rever.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/gth_zz9ncZk?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>&#8211; Marcelo Costa (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/screamyell\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@screamyell<\/a>) \u00e9 editor do Scream &amp; Yell e assina a Calmantes com Champagne.<\/p>\n<p><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><br \/>\n\u2013 Festival In-Edit 2014: Pulp, Kathleen Hanna, Hendrix, The National e mais (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2014\/05\/01\/6%C2%BA-in-editbrasil-um-filme-por-dia\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n\u2013 Festival In-Edit 2015: Slint, Joe Strummer, Bob Dylan, Edwyn Collins, Elliot Smith e mais (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/07\/05\/alguns-filmes-do-7%C2%BA-in-editbrasil\/\">aqui<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"A 9\u00aa edi\u00e7\u00e3o do Festival Internacional de Document\u00e1rios Musicais selecionou mais de 60 filmes vindos dos quatro cantos do mundo. Aqui falamos de alguns deles. \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2017\/06\/16\/9o-festival-in-edit-brasil-alguns-filmes\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":2,"featured_media":43214,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4,3],"tags":[3052],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/43225"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=43225"}],"version-history":[{"count":14,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/43225\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":43311,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/43225\/revisions\/43311"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/43214"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=43225"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=43225"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=43225"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}