{"id":43001,"date":"2017-05-23T17:16:04","date_gmt":"2017-05-23T20:16:04","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=43001"},"modified":"2024-09-13T02:15:55","modified_gmt":"2024-09-13T05:15:55","slug":"entrevista-vitor-ramil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2017\/05\/23\/entrevista-vitor-ramil\/","title":{"rendered":"Entrevista: Vitor Ramil"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>por <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/renan.machadoguerra\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Renan Guerra<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1777, o Tratado de Santo Ildefonso delimitou que determinada faixa de terra desabitada no atual Rio Grande do Sul n\u00e3o pertenceria nem a Espanha nem a Portugal; esta faixa de terra passou a ser chamada de Campos Neutrais. A revelia dos mandos e desmandos da coroa, a regi\u00e3o se tornou simb\u00f3lica e ainda carrega, na contemporaneidade, sua condi\u00e7\u00e3o libert\u00e1ria e esse imagin\u00e1rio de inconformismo, diversidade e anti-oficialismo. \u00c9 sobre a alcunha de \u201cCampos Neutrais\u201d que o m\u00fasico Vitor Ramil prepara seu novo disco, que est\u00e1 sendo constru\u00eddo atrav\u00e9s de um financiamento coletivo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Definido por Vitor como seu trabalho mais alinhado a est\u00e9tica do frio, o disco trar\u00e1 participa\u00e7\u00f5es de Chico C\u00e9sar e Zeca Baleiro, al\u00e9m de releituras de can\u00e7\u00f5es de Bob Dylan e Xoel L\u00f3pez, espalhando-se assim por m\u00faltiplas l\u00ednguas e diferentes cen\u00e1rios, como Satolep, Buenos Aires, Montevid\u00e9u e Londres. Vitor Ramil afirma que \u00e9 de sua natureza sempre cantar as cidades por onde passa e s\u00e3o esses cen\u00e1rios, as ruas, seus sons e suas m\u00edsticas, que d\u00e3o pano a cria\u00e7\u00e3o do pelotense, que, nesses mais de 30 anos de carreira, j\u00e1 foi regravado por artistas como Ney Matogrosso, Milton Nascimento e Mercedes Sosa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No ensaio \u201cA Est\u00e9tica do Frio\u201d \u2014 <a href=\"http:\/\/www.vitorramil.com.br\/estetica.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">dispon\u00edvel para download no site oficial do m\u00fasico<\/a> \u2014 ele afirma que esta est\u00e9tica \u201ctendo come\u00e7ado como rea\u00e7\u00e3o a um estado de coisas em tudo paralisante, com a convic\u00e7\u00e3o de que uma concep\u00e7\u00e3o art\u00edstica exige liberdade de movimentos e o oxig\u00eanio do correr dos acontecimentos para sobreviver, \u00e9 uma viagem cujo objetivo \u00e9 a pr\u00f3pria viagem\u201d, e \u00e9 sobre esse deslocamento que se perpetua seu \u201cCampos Neutrais\u201d, disco que abarca distintos sotaques, encontros improv\u00e1veis e que novamente nos apresenta esse olhar distinto de Vitor, sempre \u00e0 margem, sempre no centro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vitor Ramil recebeu a reportagem do Scream &amp; Yell em Santa Maria (RS), antes de seu show \u201cVoz e Viol\u00f5es\u201d, espet\u00e1culo em que ele apresenta-se sozinho no palco, acompanhado de tr\u00eas viol\u00f5es, com diferentes afina\u00e7\u00f5es e timbres. De car\u00e1ter minimalista, o espet\u00e1culo mescla can\u00e7\u00f5es j\u00e1 conhecidas e novas composi\u00e7\u00f5es, sempre entremeadas de pequenos \u2018causos\u2019 contados por Vitor, em seu modo tranquilo de falar. Com a mesma tranquilidade e simpatia, o m\u00fasico encarou um longo papo, onde falou sobre sua produ\u00e7\u00e3o, suas composi\u00e7\u00f5es, sua fam\u00edlia e trouxe seu olhar sobre a atualidade. Confira a entrevista abaixo:<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Vitor Ramil - Duerme Montevideo (Making of)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/gHgGITxGOfs?list=PLr28BZLhHtdcYL85iYaWMpnxr0ewXiUop\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea fez um financiamento coletivo quando esse sistema ainda estava se firmando no Brasil [no disco \u201cFoi No M\u00eas Que Vem\u201d, 2013]. Depois disso Nei Lisboa, o Apanhador S\u00f3 e o pr\u00f3prio Ian Ramil usaram esse formato. Agora a fam\u00edlia e os amigos do Nico Nicolaiewsky tamb\u00e9m est\u00e3o produzindo um crowdfunding para organizar um projeto de homenagem para ele. Voc\u00ea enxerga essa possibilidade como catalisadora da atual produ\u00e7\u00e3o musical do Rio Grande do Sul?<\/strong><br \/>\nA minha vis\u00e3o do financiamento coletivo \u00e9 a seguinte: se no futuro eu voltar a fazer, vou tentar mudar o nome de financiamento para alguma outra coisa. O mais importante \u2014 n\u00e3o querendo dizer que o dinheiro n\u00e3o \u00e9 importante, por que n\u00e3o \u00e9 verdade \u2014 \u00e9 a mobiliza\u00e7\u00e3o do p\u00fablico em torno do trabalho, isso \u00e9 o mais fascinante do neg\u00f3cio, \u00e9 o que mais contribui de fato para o trabalho, e n\u00e3o falo isso de uma forma demag\u00f3gica. Contribui muito a forma como elas se mobilizam, como isso chega at\u00e9 mim. E para mim, um artista que mora no interior do Rio Grande do Sul, que n\u00e3o \u00e9 um cara de muito conv\u00edvio social, para quem \u00e9 muito desafiadora a comunica\u00e7\u00e3o com o p\u00fablico, escrever, me comunicar, fazer coisas ao vivo, expor as minhas sess\u00f5es de grava\u00e7\u00e3o, meus erros e acertos, isso \u00e9 um desafio muito bom. Ent\u00e3o, em primeiro lugar, se pudesse chamar de outra coisa, como mobiliza\u00e7\u00e3o ou sei l\u00e1 o que (talvez fosse melhor). O financiamento coletivo talvez n\u00e3o funcione para todos os perfis de artistas. Claro que se voc\u00ea \u00e9 um artista super come\u00e7ando, completamente desconhecido, voc\u00ea ter\u00e1 uma dificuldade de mobilizar as pessoas para te apoiar. Por outro lado, se voc\u00ea \u00e9 um artista muito popular, muito mainstream, talvez nem precise do dinheiro em si, nem se interesse tanto pela mobiliza\u00e7\u00e3o das pessoas. Mas acho que muitas pessoas t\u00eam um pouco de medo do julgamento. Por exemplo, voc\u00ea entra com a campanha de financiamento e ningu\u00e9m vem te apoiar. N\u00e3o quer dizer que eu tamb\u00e9m n\u00e3o fique inseguro em rela\u00e7\u00e3o a isso: \u201cBah, vou fazer uma campanha de financiamento num per\u00edodo desses em que est\u00e1 todo mundo sem grana, todo mundo meio aborrecido, ser\u00e1 que esse \u00e9 o momento de se fazer uma coisa dessas?\u201d. S\u00f3 que tu faz e te d\u00e1 conta de que as pessoas est\u00e3o l\u00e1, est\u00e3o querendo ouvir coisas novas, interessantes. As pessoas sentem: \u201cAi, que bom, um disco novo\u201d. Um cara escreveu esses dias: \u201cFinalmente vou ficar ansioso por um bom motivo\u201d. Quer dizer, ele est\u00e1 ansioso se v\u00e3o prender esse ou aquele pol\u00edtico, quem \u00e9 que vai cair n\u00e3o sei aonde, o que \u00e9 que vai acontecer amanh\u00e3 de desgra\u00e7a, mas um disco legal tamb\u00e9m est\u00e1 pintando na parada. N\u00e3o sei se te respondi, pois saio falando assim loucamente\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Respondeu sim. Ent\u00e3o, essa rela\u00e7\u00e3o que voc\u00ea constr\u00f3i com o p\u00fablico \u00e9 um dos pilares desse tipo de projeto?<\/strong><br \/>\nTotalmente. Mas talvez n\u00e3o seja para todo mundo. Eu, por exemplo, ao longo dos anos, tenho desenvolvido uma rela\u00e7\u00e3o bem pr\u00f3xima com meu p\u00fablico, seja atrav\u00e9s desse financiamento anterior que fizemos ou mesmo o tipo de trabalho que eu fa\u00e7o e a forma como eu me comunico nos shows. Tenho uma proximidade que \u00e9 curiosa, por que quase n\u00e3o vou a TV, n\u00e3o toco na r\u00e1dio, mas voc\u00ea acaba tendo um link com as pessoas que est\u00e3o correndo por outro lado. N\u00e3o sei se \u00e9 pelo lado, por cima, mas ele est\u00e1 correndo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>No texto de lan\u00e7amento do financiamento coletivo, voc\u00ea considera que \u201cCampos Neutrais\u201d seria a melhor aplica\u00e7\u00e3o da tese defendida no ensaio \u201cA Est\u00e9tica do Frio\u201d. Como voc\u00ea percebe que isso acontecer\u00e1?<\/strong><br \/>\nEm primeiro lugar, este \u00e9 o primeiro disco que eu consigo gravar em Porto Alegre. Se tivesse gravado em Pelotas ou at\u00e9 em Santa Maria, ainda seria o primeiro disco que gravei aqui no Sul. At\u00e9 gravei coisas em Buenos Aires, mas o corpo do disco foi gravado aqui, consegui me colocar aqui geograficamente, e acho isso muito importante: que a produ\u00e7\u00e3o local funcione dentro do lugar. \u00c9 muito prazeroso tu gravar e ir para casa depois; voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 numa outra cidade, em que tu fica dois, tr\u00eas meses gravando o disco, como em Buenos Aires, que tu sai do est\u00fadio e vai para o hotel, onde tu fica sozinho. Aqui n\u00e3o, primeiro dia de est\u00fadio est\u00e1vamos eu, minha mulher, minha netinha, o meu filho com a mulher, a minha filha e o marido, os amigos e os m\u00fasicos ensaiando. Foi um prazer. Estou acostumado h\u00e1 anos a fazer discos totalmente sozinho com os m\u00fasicos e o t\u00e9cnico. \u00c9 um trabalho sempre solit\u00e1rio e sacrificado. Come\u00e7a por a\u00ed, pela minha quest\u00e3o pessoal, em que consegui me colocar geograficamente aqui no Sul. Em \u201cA Est\u00e9tica do Frio\u201d falo que a gente n\u00e3o est\u00e1 \u00e0 margem do centro, mas no centro de uma outra hist\u00f3ria. O que quero dizer \u00e9 que se estou entre as culturas platinas e a grande cultura brasileira, com tudo isso convergindo na minha cabe\u00e7a, pois a gente est\u00e1 numa \u00e1rea geograficamente privilegiada, culturalmente de transi\u00e7\u00e3o entre esses mundos, ent\u00e3o posso dizer que gravei um disco aqui, no centro de uma outra hist\u00f3ria e as pessoas vieram gravar comigo. Veio o Chico C\u00e9sar, veio o Zeca Baleiro, e eu gravei uma m\u00fasica do Dylan, um poema de um portugu\u00eas, outra de um galego, criei uma coisa diversificada com gente de v\u00e1rias culturas, mas feito aqui (no Sul). Fundamentalmente, em termos est\u00e9ticos, acho que consegui chegar numa linguagem muito minha, autoral em termos de harmonia, de melodias, de letras, de arranjos \u2014 o Wagner Cunha fez os arranjos de metais sempre com meu acompanhamento. Ele \u00e9 muito integrado na minha maneira de ver a m\u00fasica, ent\u00e3o tive um parceiro, de certa forma, musical nesse momento. O percussionista, o Santiago V\u00e1zquez, fez todas as percuss\u00f5es tamb\u00e9m, ent\u00e3o os dois est\u00e3o correspondendo muito as minhas expectativas est\u00e9ticas. Eu olho o disco e ele \u00e9 cheio de sons, de coisas, mas tudo aquilo ali tem absolutamente a ver com a minha quest\u00e3o autoral. Ent\u00e3o quando falo em est\u00e9tica do frio eu fico buscando uma linguagem que seja nossa, do Sul do Brasil, que fale de n\u00f3s. Eu gostaria que daqui h\u00e1 algum tempo as pessoas ouvissem uma m\u00fasica dessas, que n\u00e3o \u00e9 uma m\u00fasica regionalista, que n\u00e3o fala em ga\u00facho, que n\u00e3o fala em cavalo, alguma coisa assim, ou que n\u00e3o fala em nenhum outro clich\u00ea nosso, mas tu ou\u00e7a e diga: \u201cUau, isso a\u00ed \u00e9 bem do Sul, esse tipo de harmonia, essa maneira de cantar, essa fus\u00e3o disso com aquilo, isso \u00e9 bem do Rio Grande do Sul\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ali\u00e1s, a Est\u00e9tica do Frio \u00e9 algo que tem se difundido e sido adaptada por outros artistas, como a curitibana Juliana Cortes. Voc\u00ea tem acompanhado essas outras leituras da est\u00e9tica?<\/strong><br \/>\nSim, acho interessante que essa ideia da est\u00e9tica do frio \u00e9 que cada um tem a sua est\u00e9tica do frio, porque n\u00e3o posso pretender definir valores est\u00e9ticos ou dizer como se tem que fazer m\u00fasica ou literatura ou o que for, e as pessoas v\u00e3o se enquadrar. Por isso nunca disse que \u00e9 um movimento. H\u00e1 gente que me cobra: \u201cPor que voc\u00ea n\u00e3o faz um manifesto?\u201d, mas eu n\u00e3o quero engessar minhas ideias, quero que as minhas ideias fiquem abertas e que elas recebam contribui\u00e7\u00f5es, e que elas contribuam tamb\u00e9m. No caso da Juliana, ela vem l\u00e1 de Curitiba, eu sei que os curitibanos se identificam muito com as ideias da est\u00e9tica do frio, \u00e9 uma maneira que eles encontraram tamb\u00e9m de se posicionar perante o Brasil, o pa\u00eds tropical, que \u00e9 uma imagem um pouco inadequada para n\u00f3s, pois a gente n\u00e3o se reconhece muito nela e sabe que n\u00e3o contribu\u00edmos muito para que ela exista. Ningu\u00e9m pensa em n\u00f3s quando fala do Brasil tropical, as pessoas pensam na Bahia, elas nunca v\u00e3o pensar numa praia nossa aqui, na praia do Cassino ou na serra do Paran\u00e1. Ent\u00e3o recebo sempre bem todo mundo, as contribui\u00e7\u00f5es, ou\u00e7o muito os coment\u00e1rios de gente do Uruguai, da Argentina, de todos os lados; inclusive de gente de Bel\u00e9m do Par\u00e1 e do Nordeste que se identificam com a est\u00e9tica do frio, e acho isso muito interessante. Estive agora em Belo Horizonte, conversei com muitos compositores l\u00e1, e muita gente afinada com essas ideias, nem que seja no sentido de que o fato de eu pensar a nossa condi\u00e7\u00e3o de sulistas, como n\u00f3s somos, dentro do contexto brasileiro, provoca as pessoas nos outros lugares do pa\u00eds a pensarem em si mesmas dessa maneira, inclusive paulistas. conheci um paulista que disse que depois que leu \u201cA Est\u00e9tica do Frio\u201d ele se deu conta de pensar nas coisas dele, de S\u00e3o Paulo, de como ele se via dentro do Brasil, dos preconceitos que ele tinha em rela\u00e7\u00e3o a isso ou aquilo. Essa coisa de tu tirar o centro do lugar \u00e9 muito legal, essa coisa do \u201cn\u00e3o, n\u00e3o estou \u00e0 margem do centro, isso aqui \u00e9 um centro\u201d. Tu pode determinar o teu centro em qualquer lugar: se tu \u00e9 do Piau\u00ed, tu pode enxergar esse centro. Eu acho que todo mundo que cria, por mais que tu esteja ligado com o mundo \u2014 e eu acho que tu tem que estar ligado com o mundo, sabendo tudo \u2014 tu tem tamb\u00e9m que saber o que est\u00e1 acontecendo na tua rua; o universo passa na tua rua. Tu tem que estar ligado plenamente nas coisas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A banda que lhe acompanhar\u00e1 na grava\u00e7\u00e3o de \u201cCampos Neutrais\u201d traz desde caras mais novas, como o Felipe Zancanaro [Apanhador S\u00f3], at\u00e9 antigos parceiros, como o Carlos Moscardini. Como voc\u00ea definiu essa nova forma\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nEu tinha h\u00e1 muito tempo, desde o meu disco \u201cLonges\u201d [2004], vontade de fazer um disco todo com metais, mas eu sabia da complexidade disso. Reunir um grupo bom, afinado, \u00e9 dif\u00edcil. Primeiro fiz as m\u00fasicas e pensei em come\u00e7ar pela percuss\u00e3o, pensei em gravar toda a percuss\u00e3o antes com o Santiago [V\u00e1zquez], l\u00e1 em Buenos Aires. Gravamos todas as percuss\u00f5es e a\u00ed eu previ, a partir das percuss\u00f5es, o trabalho de arranjo de metais. Os arranjos de metais foram trabalhados sobre a percuss\u00e3o e os viol\u00f5es, ent\u00e3o tudo foi se encaixando como se fossem arquiteturas, tudo foi se juntando. Depois o Zancanaro e o Moscardini entraram como duas figuras com quem eu estou muito vinculado musicalmente, para dar um toque espec\u00edfico em uma m\u00fasica ou outra. O Moscardini \u00e9 um violonista especializado nos ritmos crioulos da Argentina, e ele vem tocar uma m\u00fasica que \u00e9 praticamente um samba, composto com um poeta l\u00e1 da Amaz\u00f4nia. Pedi a ele para tocar algo trazendo um sabor milongueiro dentro dessa m\u00fasica onde tu espera que aconte\u00e7a um samba, mas esse samba nunca acontece, fica sempre numa tens\u00e3o, os metais sugerindo uma coisa meio nordestina e aquele viol\u00e3o sugerindo uma coisa milongueira. O Zancanaro entrou numa outra m\u00fasica, que \u00e9 a \u201cPalavra Desordem\u201d, em que reflito sobre o meu pr\u00f3prio processo criativo. \u00c9 uma provoca\u00e7\u00e3o que fiz para mim mesmo, mas como se estivesse me dirigindo a gera\u00e7\u00e3o dele, do meu filho \u2014 o Ian, o Zancanaro, da minha filha Isabel. A m\u00fasica parece um grande chamado ao protesto pol\u00edtico e social, ent\u00e3o a presen\u00e7a dele tem tamb\u00e9m um significado geracional.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Vitor Ramil - Milonga de Sete Cidades\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/wEGPPtdk_x4?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Falando nesse sentido de gera\u00e7\u00f5es, a Gutcha Ramil estar\u00e1 no \u201cCampos Neutrais\u201d. Al\u00e9m disso, no ano passado, o Ian recebeu o Grammy Latino; pr\u00eamio ao qual o Thiago Ramil tamb\u00e9m foi indicado. Como voc\u00ea tem acompanhado esses caminhos que a nova gera\u00e7\u00e3o dos Ramil tem trilhado?<\/strong><br \/>\nA nossa fam\u00edlia \u00e9 muito pr\u00f3xima, \u00e9 tipo fam\u00edlia de circo: todo mundo acompanha todo mundo que sobe no trap\u00e9zio, embala e vai. Est\u00e1 nesse clima. Todo mundo vem chegando e j\u00e1 vai pegando seu instrumentinho e come\u00e7ando a tocar. Com os guris n\u00e3o foi diferente, e eles n\u00e3o deixaram de nos surpreender, e (surpreender) n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil. Por exemplo, profissionalmente eu vim depois do Kleiton e do Kledir. Eu tinha 10 anos e via meu irm\u00e3os fazendo show, gravando discos e tudo mais, ent\u00e3o imagina, eu era bem pequeno. Me criei naquele ambiente e, claro, voc\u00ea fica um pouco intimidado, pois j\u00e1 tem irm\u00e3os que s\u00e3o conhecidos, ent\u00e3o todo mundo (fala): \u201cAh, o Vitor Ramil, irm\u00e3o de Kleiton &amp; Kledir\u201d\u2026 Toda a vida foi isso e s\u00f3 mais recentemente pararam de me chamar de \u201cirm\u00e3o de Kleiton &amp; Kledir\u201d. Ent\u00e3o o Ian e o Thiago, eles ir\u00e3o ouvir isso por muito tempo. \u201cFilho de Vitor Ramil\u201d, \u201csobrinho de Kleiton &amp; Kledir\u201d\u2026 Esse processo \u00e9 duro, inicialmente, para tu se afirmar, mas isso j\u00e1 te fortalece na origem: voc\u00ea tem que enfrentar esse pessoal, tem que chegar l\u00e1, tocar e compor direito. Ao mesmo tempo eles v\u00e3o crescendo com a gente, vendo a gente produzir e n\u00f3s vamos crescendo com eles, vamos observando a nova gera\u00e7\u00e3o, como eles pensam a m\u00fasica, como \u00e9 o gosto deles. A gente troca muita informa\u00e7\u00e3o de m\u00fasica. O Ian me diz: \u201cOuve isso aqui\u201d, e \u00e9 um rapper que ele est\u00e1 escutando sei l\u00e1 de onde. Da\u00ed eu digo: \u201cUau, que genial\u201d. E ele ouve o que eu estou ouvindo, a gente passa o tempo todo trocando coisas. A Gutcha mesmo \u00e9 uma cantora extraordin\u00e1ria, toca percuss\u00e3o, e ela est\u00e1 nos aproximando muito \u2014 a todos em casa \u2014 da cultura negra, por exemplo. Ela \u00e9 antrop\u00f3loga e est\u00e1 metida nas quest\u00f5es da cultura negra e ind\u00edgena, ent\u00e3o isso \u00e9 muito legal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Tamb\u00e9m no texto de lan\u00e7amento voc\u00ea afirma que vivemos \u201ctempos de solid\u00f5es\u201d. Quais seriam essas solid\u00f5es que voc\u00ea tem percebido?<\/strong><br \/>\nQuis me referir ao estado em que est\u00e1 o mundo atualmente. Estamos vivendo um grande per\u00edodo de conflitos sociais, que s\u00e3o grandes conflitos humanos, na verdade, se estendendo pelo mundo todo, dos mais variados tipos. E, ao mesmo tempo, todo mundo se comunicando muito. Vivemos uma \u00e9poca de hipercomunica\u00e7\u00e3o, e tudo que \u00e9 hiper tem o outro lado tamb\u00e9m. Uma pessoa que est\u00e1 socada em sua casa falando com um milh\u00e3o de pessoas, ela est\u00e1 sozinha tamb\u00e9m. Ent\u00e3o n\u00f3s temos desde essa solid\u00e3o f\u00edsica, o afastamento das pessoas entre si, com as pessoas se comunicando via celular dentro de casa, o que \u00e9 comum hoje em dia, at\u00e9 o acirramento das posi\u00e7\u00f5es entre as pessoas, entre amigos, amizades se desfazendo por quest\u00f5es pol\u00edticas que n\u00e3o mereceriam a nossa aten\u00e7\u00e3o. \u00c9 um per\u00edodo de muito exacerbamento de tudo e, ao mesmo tempo, um per\u00edodo de problemas concretos no mundo. E n\u00f3s temos que reagir a esses momentos sempre, pois a humanidade vai passando por fases. Tu v\u00ea os Estados Unidos: eles deixaram para o mundo uma imagem de um pa\u00eds quase libert\u00e1rio. S\u00e3o sempre as duas coisas: por um lado, via-se os Estados Unidos como um imperialismo e, por outro lado, v\u00ea-se como o pa\u00eds do movimento hippie, do paz &amp; amor, da vanguarda tecnol\u00f3gica, liter\u00e1ria e musical. A\u00ed, de repente, depois de todo o avan\u00e7o que culminou no Obama, tu passa por aquilo que parece ser o extremo dele, que \u00e9 o Trump. N\u00f3s, no Brasil mesmo, depois do fim da ditadura tivemos o processo democr\u00e1tico, foi indo, a\u00ed de repente conquistas sociais, \u201copa, o Brasil vai crescer\u201d, e olha o que n\u00f3s estamos vivendo nesse momento, que \u00e9 claramente um retrocesso. Ent\u00e3o s\u00e3o momentos que s\u00e3o de solid\u00f5es mesmo, sobre muitos aspectos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Esse disco possui can\u00e7\u00f5es em portugu\u00eas, ingl\u00eas e espanhol. H\u00e1 algum motivo espec\u00edfico para isso ou foi uma consequ\u00eancia natural de suas atuais escolhas e influ\u00eancias?<\/strong><br \/>\nIsso foi acontecendo. Eu tinha essa m\u00fasica \u201cCampos Neutrais\u201d e quando me dei conta do conceito, do significado hist\u00f3rico de campos neutrais, do que ele poderia representar como imagem, com um significado muito contempor\u00e2neo, fui ver o repert\u00f3rio que tinha e me dando conta justamente disso: \u201cOpa, aqui tem uma m\u00fasica em ingl\u00eas\u201d. Quando estava em Londres, eu andava muito pela Angel Station, que \u00e9 uma esta\u00e7\u00e3o do metr\u00f4, e fiz uma m\u00fasica. L\u00e1 tem o \u201cmind the gap\u201d na frente de tudo, o trem para e tem \u201cmind the gap\u201d, \u201cmind the gap\u201d todo tempo, e passou um cara por mim dentro do metr\u00f4 com uma camiseta escrito \u201cfuck the gap\u201d, e fiz essa m\u00fasica e no refr\u00e3o falo o \u201cfuck the gap\u201d. Coisas que fui pegando por a\u00ed\u2026 Fiz uma m\u00fasica em espanhol, em Barcelona; tinha outra m\u00fasica minha que falava em Montevid\u00e9u, que mistura o espanhol com portugu\u00eas, e fui me dando conta que eu falava em muitos lugares, no Uruguai, em outros pa\u00edses, e fui me dando conta da diversidade desses lugares, de mais de uma l\u00edngua\u2026 A m\u00fasica desse galego [Xoel L\u00f3pez] que mencionei, tudo conflui para o conceito dos \u201cCampos Neutrais\u201d, e me ajudou a selecionar o repert\u00f3rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como voc\u00ea j\u00e1 mencionou, o novo disco ainda contar\u00e1 com as participa\u00e7\u00f5es de Chico C\u00e9sar e Zeca Baleiro. Como surgiram essas parcerias?<\/strong><br \/>\nS\u00e3o parcerias antigas. Eu j\u00e1 fiz com o Zeca uma ou duas m\u00fasicas no passado que n\u00e3o deram em nada \u2014 a gente \u00e0s vezes faz m\u00fasicas que v\u00e3o ficando. Com o Chico mais ainda, meu amigo mais pr\u00f3ximo, temos umas cinco m\u00fasicas e tamb\u00e9m nunca gravamos nada do que fizemos juntos; e somos em princ\u00edpio muito diferentes, mas somos na realidade muito parecidos. Chegamos a uma m\u00fasica muito boa e eu fiquei muito feliz de, justamente nesse momento, quando estou com essa ideia de \u201cCampos Neutrais\u201d, ter parcerias com eles. Essa parceria com esse poeta do Macap\u00e1 tamb\u00e9m\u2026 Estive na Amaz\u00f4nia h\u00e1 pouco, trouxe um tambor de l\u00e1, uma caixa de marabaixo, e incorporei isso e fiz uma m\u00fasica meio amazonense, na coisa r\u00edtmica dela. Isso \u00e9 curioso pra quem me imagina sempre tocando milonga ou sendo extremamente melanc\u00f3lico. De repente esse disco abre brechas a essa diferen\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Acredito que seriam essas as perguntas\u2026<\/strong><br \/>\nD\u00e1 pra tu fazer uma miniss\u00e9rie com essa minha entrevista. 15 edi\u00e7\u00f5es! [Risos]<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Making Of Vitor Ramil - Campos Neutrais (Parte #3 - Zeca Baleiro)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/haAQ8f-2CtE?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>\u2013 <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/renan.machadoguerra\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Renan Guerra<\/a> \u00e9 jornalista e colabora com o sites <a href=\"http:\/\/www.aescotilha.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">A Escotilha<\/a> e Scream &amp; Yell. A foto que abre o texto \u00e9 creditada a Satolep Press<\/p>\n<p><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><br \/>\n\u2013 \u201cA Linha Fria do Horizonte\u201d: singularidade est\u00e9tica, musical e de costumes (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/07\/25\/docs-circo-voador-olho-nu-e-cone-sul\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n\u2013 \u201cFoi No M\u00eas Que Vem\u201d, de Vitor Ramil, \u00e9 um disco de v\u00e1rios e v\u00e1rios anos (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/10\/29\/disco-do-ano-thiago-pereira\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n\u2013 \u201cGris\u201d, de Juliana Cortes, \u00e9 um disco de extrema complexidade (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2016\/09\/28\/tres-cds-juliana-cortes-aila-blubell\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">aqui<\/a>)<br \/>\n\u2013 Ian \u00e9 Ramil desde cedo, nas filipetas de pe\u00e7as de teatro em Porto Alegre (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2014\/06\/26\/estreia-de-ian-ramil-surpreende\/\">aqui<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"&#8220;Estamos vivendo um grande per\u00edodo de conflitos sociais, que s\u00e3o grandes conflitos humanos, na verdade, se estendendo pelo mundo todo&#8221;, diz Vitor\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2017\/05\/23\/entrevista-vitor-ramil\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":3,"featured_media":42974,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[1651],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/43001"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=43001"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/43001\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":83530,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/43001\/revisions\/83530"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/42974"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=43001"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=43001"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=43001"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}