{"id":42952,"date":"2017-05-18T10:58:05","date_gmt":"2017-05-18T13:58:05","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=42952"},"modified":"2017-07-02T20:38:50","modified_gmt":"2017-07-02T23:38:50","slug":"gal-costa-ao-vivo-em-fortaleza","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2017\/05\/18\/gal-costa-ao-vivo-em-fortaleza\/","title":{"rendered":"Gal Costa ao vivo em Fortaleza"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>por <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/daniel.tavares.96343\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Daniel Tavares<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gal Costa \u00e9 uma estrela que foi personagem \/ observadora da hist\u00f3ria brasileira, dos anos de chumbo de antes, dos de enxofre, agora&#8230; Acompanhada de Thomas Harres (bateria), Mauricio Fleury (teclado), F\u00e1bio S\u00e1 (baixo) e Guilherme Monteiro (guitarra), a s\u00e9tima maior voz da m\u00fasica brasileira (segundo a Rolling Stone, Gal \u00e9 precedida apenas por Tim, Elis, Ney, Simonal, Bethania e Roberto) apresentou-se no Ideal Clube, em Fortaleza, no s\u00e1bado, 6 de maio. Sob o c\u00e9u da Praia de Iracema, com o mar de um lado e os arranha-c\u00e9us do outro, a diva pin\u00e7ou sucessos de sua enorme discografia e apresentou muitas can\u00e7\u00f5es de seu \u00e1lbum mais recente, &#8220;<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/06\/15\/a-fase-estratosferica-de-gal-costa\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Estratosf\u00e9rica<\/a>&#8221; (2015), em um show perfeito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O cearense Robston Medeiros abriu a noite com seu viol\u00e3o acompanhado de um baterista e cantou sucessos de Caetano, Gil, Fagner, Djavan, Lenine, mas pouco apresentou de seu pr\u00f3prio repert\u00f3rio. Embora optasse pela zona de conforto, focando seu show em sucessos da MPB (praticamente MPN, uma vez que as vozes originais eram todas nordestinas), &#8220;Outro Cais&#8221;, sua composi\u00e7\u00e3o, poderia ter aberto portas para apresentar mais do seu trabalho autoral. Oportunidade tristemente desperdi\u00e7ada. Uma homenagem a Belchior, falecido na mesma semana, n\u00e3o faltou com &#8220;Mucuripe&#8221;, a \u00fanica cantada em plena voz por todo o p\u00fablico, e &#8220;Tudo Outra Vez&#8221;. Ainda \u00e9 preciso salientar o trabalho do baterista, que se destacou em &#8220;Pra Ser S\u00f3 Minha Mulher&#8221;, de Roberto Carlos, a can\u00e7\u00e3o que fechou o show.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A apresenta\u00e7\u00e3o de Gal come\u00e7ou com &#8220;Sem Medo Nem Esperan\u00e7a&#8221;, can\u00e7\u00e3o que tamb\u00e9m abre o \u00e1lbum &#8220;Estratosf\u00e9rica\u201d, um rock\u00e3o com direito a baixo e bateria poderosos e solos de teclado e guitarra. Do rock para o blues, do presente para o passado, com &#8220;Mal Secreto&#8221;, de Jards Macal\u00e9, que conheceu a voz de Gal no seminal &#8220;Fa-Tal, Gal A Todo Vapor&#8221; (1971). O riff de &#8220;Jabitac\u00e1&#8221;, a pr\u00f3xima do set e outra de &#8220;Estratosf\u00e9rica\u201d (parceria de Bact\u00e9ria, do Mundo Livre S\/A com Junio Barreto e Lirinha, do Cordel do Fogo Encantado), \u00e9 daqueles que gruda na mem\u00f3ria. O show segue sem hits \u00f3bvios e, ainda que um tanto psicod\u00e9lica e fugindo do padr\u00e3o convencional da MPB, &#8220;N\u00e3o Identificado&#8221; (que abre o primeiro disco solo de Gal, de 1969) \u00e9 a melhor recebida at\u00e9 ali.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Tenho me jogado no mundo, sem medo e sem esperan\u00e7a, tentando n\u00e3o sofrer muito com saudade nem expectativa&#8221;, afirma a cantora na primeira vez que se dirige diretamente ao p\u00fablico, antes de &#8220;Namorinho de Port\u00e3o&#8221;, do \u00e1lbum de estreia de Tom Z\u00e9 e dela mesma. A banda, com a jovialidade que Gal busca, todos mais jovens que a can\u00e7\u00e3o, transforma tudo num rock. A can\u00e7\u00e3o j\u00e1 era um rock, mas fica ainda mais nessa vers\u00e3o atualizada. Mas n\u00e3o \u00e9 um show de rock, ainda \u00e9 MPB. Pelo p\u00fablico, pelas mesas, pela pr\u00f3pria Gal e sua aura de diva, pelo whisky nas mesas e pelo cheiro de quitutes de camar\u00e3o que vinha delas e, tamb\u00e9m, pelas conversas intermin\u00e1veis, neg\u00f3cios fech\u00e1veis e fechados, era um show de MPB, classudo, estiloso, educado, mas, no palco, o DNA de rock estava 100% ali, no baixista que bangueava, no baterista que maltratava as baquetas, no tecladista e guitarrista que solavam e na frontwoman, que um dia ousara integrar uma turma que misturava tudo o que vinha de bom de fora com o que havia de melhor aqui dentro do Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/gal2.jpg\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A primeira em que o rock cede a vez ao balan\u00e7o bossa-nova das s\u00edlabas pronunciadas com ritmo e cuidado \u00e9 &#8220;Ecstasy&#8221;, mas logo os acordes mais vigorosos retornam, trazidos por &#8220;Casca&#8221;, ainda mais livres que no \u00e1lbum. Apenas brevemente, porque a bela e triste &#8220;Dez Anjos&#8221;, que inaugura a parceria de Gal com Criolo (e que tamb\u00e9m \u00e9 uma parceria com Milton), vem em seguida. E o lamento mais urbano d\u00e1 lugar ao lamento sertanejo. Em &#8220;Acau\u00e3&#8221;, ela ordena: &#8220;Te cala, Acau\u00e3&#8221;. Mas o bicho n\u00e3o se cala. E nem ela. Numa vers\u00e3o mais pesada, apesar de ser uma das can\u00e7\u00f5es mais bobas de Gal (na verdade de Jorge Ben e Arnaldo Antunes, com sua est\u00e9tica minimalista caracter\u00edstica), um pretenso hino de autoafirma\u00e7\u00e3o, mas falho pela letra fr\u00e1gil (nem de longe \u00e9 uma das melhores do ex-Tit\u00e3s, mas, tudo bem, nem sempre \u00e9 preciso ser sisudo). E seguindo absolutamente o script dos shows da turn\u00ea &#8220;Estratosf\u00e9rica&#8221;, uma das tr\u00eas (!) em que Gal est\u00e1 atualmente envolvida, &#8220;Quando Voc\u00ea Olha Pra Ela&#8221;, o sambinha de Malu Magalh\u00e3es tem seu espa\u00e7o, assim como &#8220;Cart\u00e3o Postal&#8221;, blues de Rita Lee e Paulo Coelho, que Gal sequer j\u00e1 gravara anteriormente, e &#8220;Pelo Fio&#8221; (de Marcelo Camelo).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conversando novamente com o p\u00fablico, Gal reclamou do calor dizendo at\u00e9 que Fortaleza seria mais quente que Teresina, de onde acabara de vir. Adiante ainda acrescentaria: &#8220;Eu sou uma nordestina do mundo. Agora estou em S\u00e3o Paulo. L\u00e1 faz frio&#8221;. Ainda contou que Guilherme entrara na banda como substituto. Da primeira vez que tocaram juntos, o guitarrista fez uma &#8220;cama&#8221; deliciosa (daquelas que qualquer cantora deita e goza) e por isso fez o Projeto Espelho D&#8217;\u00c1gua, em que divide o palco apenas com ele. Tamb\u00e9m falou de Marcelo Camelo (de quem gosta muito porque, nas palavras dela, ele faz um rock bossa nova). Teria pedido uma m\u00fasica pra ele para incluir no &#8220;Estratosf\u00e9rica&#8221;. Ele mandou duas. Uma entrou no disco. A outro s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel ouvir nos shows. E nesse momento &#8220;Espelho D&#8217;\u00c1gua&#8221;, ao menos, o show \u00e9 do guitarrista Guilherme.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mudando novamente a din\u00e2mica do show, Gal fica sozinha no palco para interpretar &#8220;Sim, Foi Voc\u00ea&#8221;. Ali\u00e1s, sozinha n\u00e3o. Ela e seu viol\u00e3o. Um breve momento para lembrar-se do dia em que conhecera Cetano. &#8220;Para voc\u00ea, que \u00e9 o maior cantor do Brasil?&#8221;, indagara-lhe Caetano. &#8220;Eu disse: Jo\u00e3o Gilberto&#8221;, respondera de pronto. &#8220;Tamb\u00e9m acho&#8221;, replicara o outro baiano e lhe ensinara a can\u00e7\u00e3o. O momento voz e viol\u00e3o \u00e9 bem breve. Logo a banda inteira volta e o p\u00fablico finalmente d\u00e1 a resposta que estava devendo em &#8220;Como Dois e Dois&#8221;. Estava todo mundo comportado demais at\u00e9 ali. Antes, s\u00f3 um ou outro b\u00eabado mais afoito pedia &#8220;me leva contigo&#8221;. Ainda animado o p\u00fablico recebeu &#8220;P\u00e9rola Negra&#8221;, de Luiz Melodia, com destaque para as cir\u00fargicas, mas certeiras, interven\u00e7\u00f5es do tecladista. &#8220;Por Baixo&#8221;, com o samba dialogando com &#8220;Arara&#8221;, outra num tom roqueiro, e a can\u00e7\u00e3o que d\u00e1 nome ao disco e a turn\u00ea, &#8220;Estratosf\u00e9rica&#8221;, vem em sequ\u00eancia. O tecladista pega outra guitarra. Por qu\u00ea? Porque \u00e9 outro rock.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quanto \u00e0 mobilidade de Gal no palco, a arma que a cantora usa para manter a aten\u00e7\u00e3o do p\u00fablico \u00e9 apenas a pr\u00f3pria voz. \u00c9 uma baita de uma arma, mas \u00e9 a \u00fanica. Sua movimenta\u00e7\u00e3o \u00e9 m\u00ednima, mas, pelo menos, deu liberdade aos seus &#8220;pupilos&#8221;. Caso quisesse reaprender com eles, como talvez tenha sido o motivo de escolh\u00ea-los, o baixista, pelo menos, ensinaria de bom grado. O outro cl\u00e1ssico de Jorge Ben da noite, &#8220;Os Alquimistas Est\u00e3o Chegando Os Alquimistas&#8221;, fica delicioso, com riffs prog descambando numa guitarra baiana. D\u00e1 certo? Deu. E a voz de Gal? Robert Plant, Roger Daltrey, Paul McCartney e, aqui, Roberto Carlos, todos tem uma voz diferente da que come\u00e7aram suas carreiras, pouco antes de Gal. A maioria continua bem, mas em novas ranges, novos tons, se adequando aos novos registros vocais. Gal n\u00e3o se adequou a nada. N\u00e3o precisou. O p\u00fablico ouviu a mesma voz que teria ouvido em 1974. \u00c0 frente do palco, jovens de seus 25 anos apaixonados pela diva, alguns n\u00e3o contendo os gritos de &#8220;poderosa&#8221;, atestam isso. Este jornalista, de seus quarenta anos, at\u00e9 se sentia mais jovem. Tanto quanto eles. Tanto quanto ela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Finda a primeira parte do show, &#8220;Meu Nome \u00c9 Gal&#8221; abre o bis. Gal se rende a todos os seus colaboradores, novos e antigos, citando cada um, Caetanos e Ant\u00f4nios C\u00edceros. &#8220;Tenho 51 anos&#8221;, teria dito, na costumeira altera\u00e7\u00e3o que faz na letra da can\u00e7\u00e3o. E assim como de costume, tamb\u00e9m h\u00e1 o duelo de voz e guitarra com Guilherme, quase a la Page\/Plant, que termina com toda a banda envolvida em uma jam de derrubar microfone do baterista no ch\u00e3o. O povo de frente, aqueles de 25, 40, 70 anos, gritou &#8220;mais um&#8221; por uns cinco minutos. &#8220;Vingan\u00e7a&#8221;, de Lupic\u00ednio, e que seria uma amostra do outro show que tem rodado o Brasil, foi cortada do set. Talvez por causa do calor, mas n\u00e3o daria mesmo, depois daquele fim, mini apote\u00f3tico, com &#8220;Meu Nome \u00c9 Gal&#8221;, terminar com uma can\u00e7\u00e3o mais intimista. Talvez tivesse cabido melhor no miolo do show que em seu encerramento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O show, entregue com bastante compet\u00eancia por todos os envolvidos, produ\u00e7\u00e3o, som, ilumina\u00e7\u00e3o, banda e pela pr\u00f3pria Gal \u00e9 um evento imperd\u00edvel. E a cantora merece ainda mais elogios por n\u00e3o se prender ao \u00f3bvio. Enquanto para outros grandes artistas fica a cr\u00edtica: de que adianta ser um dos maiores compositores do Brasil se em suas turn\u00eas de lan\u00e7amento de discos cantam s\u00f3 uma ou duas can\u00e7\u00f5es? Pra que compor nos nossos dias se n\u00e3o for para cantar ao vivo? Gal \u00e9 isenta disso (s\u00f3 do disco novo foram oito can\u00e7\u00f5es nessa noite e ainda em tr\u00eas turn\u00eas rodando o Brasil). Claro que n\u00e3o agradou a todo mundo pelas muitas aus\u00eancias, que em uma discografia enorme seriam inevit\u00e1veis, mas \u00e9 prefer\u00edvel a coragem de uma artista que se renova a cada ano ao ensimesmamento e autoindulg\u00eancia de alguns de seus colegas. A julgar por este show, ao contr\u00e1rio de colegas, de tempo, de estrada e de MPB, o show dela em 2018 ser\u00e1 completamente diferente. N\u00e3o bastassem as tr\u00eas turn\u00eas, &#8220;Estratosf\u00e9rica&#8221;, &#8220;Espelho D&#8217;\u00c1gua&#8221; e &#8220;Ela Disse-me Assim&#8221;, Gal ainda estrear\u00e1 em agosto, ao lado de Gil e Nando Reis, o espet\u00e1culo &#8220;Trinca de Ases&#8221;, com shows j\u00e1 agendados em S\u00e3o Paulo e Rio. Em 23 e 24 de junho o show &#8220;Estratosf\u00e9rica&#8221; ser\u00e1 gravado para DVD na Casa Natura Musical, na capital paulista. A diva n\u00e3o para.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/gal3.jpg\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Daniel Tavares (<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/daniel.tavares.96343\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Facebook<\/a>) \u00e9 jornalista e mora em Fortaleza. Fotos: Reprodu\u00e7\u00e3o do Facebook oficial de Gal Costa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"A aura do show \u00e9 rock, mas n\u00e3o \u00e9 um show de rock, ainda \u00e9 MPB. 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