{"id":42907,"date":"2017-05-15T11:52:46","date_gmt":"2017-05-15T14:52:46","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=42907"},"modified":"2017-06-09T19:45:49","modified_gmt":"2017-06-09T22:45:49","slug":"entrevista-frank-jorge-2017","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2017\/05\/15\/entrevista-frank-jorge-2017\/","title":{"rendered":"Entrevista: Frank Jorge (2017)"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>por <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/janaisapunk\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Janaina Azevedo<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Certo dia pensei: por que n\u00e3o entrevisto o Frank Jorge? (<a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/musica\/frank.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">A \u00faltima entrevista de Frank para o Scream &amp; Yell<\/a> foi em&#8230; 2000!) Procurei um contato, encontrei o e-mail da universidade onde ele leciona e coordena uma gradua\u00e7\u00e3o, e enviei uma mensagem. A resposta veio em uns tr\u00eas minutos. Ele toparia conversar comigo naquele dia mesmo, mas o encontro s\u00f3 aconteceu dois dias depois, em um caf\u00e9 em Porto Alegre, para uma hora e quarenta das mais espont\u00e2neas hist\u00f3rias que Frank revela com detalhes, preocupado em fornecer o contexto daquilo que est\u00e1 falando.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fui com um caderno cheio de perguntas, mas usei pouqu\u00edssimas. Frank lan\u00e7ou um disco em agosto do ano passado e o assunto natural seria esse. Mal sabia eu que, em se tratando de Frank Jorge, a conversa ganha vida pr\u00f3pria, com personagens entrando e saindo de cena toda hora e an\u00e1lises francas do multiartista que o jornalista Alexandre Matias j\u00e1 chamou de O Papa do Rock Ga\u00facho. Bem, depois de ler essa entrevista, tu vais entender porque, caso o rock ga\u00facho fosse uma religi\u00e3o, Frank Jorge ocuparia alguma das mais altas posi\u00e7\u00f5es eclesi\u00e1sticas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jorge Ot\u00e1vio Pinto Pouey de Oliveira, que completa 51 anos no pr\u00f3ximo dia da Revolu\u00e7\u00e3o Farroupilha (20 de setembro), casado e pai de tr\u00eas filhos (todos inclinados \u00e0 m\u00fasica, como ele), tem duas bandas aposentadas (Os Cascavelettes, com o qual lan\u00e7ou o primeiro EP, hom\u00f4nimo, em 1988; e a Cowboys Espirituais, participando do \u00e1lbum de estreia, de 1998, e de algumas faixas do segundo disco, \u201cDeluxe\u201d, de 2000), uma em atividade ocasional embora frequente (Graforr\u00e9ia Xilarm\u00f4nica, com quem j\u00e1 lan\u00e7ou dois \u00e1lbuns de est\u00fadio, um ao vivo e tr\u00eas fitas demo) e quatro discos solos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Frank tamb\u00e9m \u00e9 escritor, foi apresentador de TV e gestor de cultura no munic\u00edpio de S\u00e3o Leopoldo, e hoje concilia m\u00fasica e fam\u00edlia com academia. Coordena e leciona no curso de Produ\u00e7\u00e3o Fonogr\u00e1fica da Universidade do Rio do Sinos, tamb\u00e9m em S\u00e3o Leopoldo, e prepara para a defesa de sua disserta\u00e7\u00e3o do mestrado no Programa de Ci\u00eancias da Comunica\u00e7\u00e3o da Unisinos. O tema pesquisado por Frank \u00e9 o algoritmo do Spotify. A banca est\u00e1 marcada para junho. Esta entrevista ocorreu ap\u00f3s um compromisso de Frank com a prepara\u00e7\u00e3o do ano letivo da gradua\u00e7\u00e3o, em fevereiro deste ano. O primeiro assunto a surgir naturalmente foi a gradua\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/aqI9QGEknsA?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Frank -&#8230; o nome atraiu muita gente e foi muito pass\u00edvel de chacota (o primeiro nome do curso foi Produ\u00e7\u00e3o de Rock). Hoje em dia, o rock perdeu totalmente aquela prioridade que tinha. Como o Mini Bittencourt (Gustavo Bittencourt, da Walverdes) diz, e eu adoro, o rock era o nosso principal c\u00f3digo cultural. O jeito que tu ia ser, falar, se vestir, passava pelo que as bandas de rock que tu gostava faziam. Isso mudou totalmente. Hoje em dia \u00e9 um ator de um seriado, um youtuber, um cara do hip hop. O rock n\u00e3o acabou, ele segue existindo e tendo muitos f\u00e3s, tem turn\u00eas do Black Sabbath, do AC\/DC, do Arctic Monkeys ou do Queens of the Stone Age, mas j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais a bandeira principal de identifica\u00e7\u00e3o jovem. Atualmente pode ser o rap, o grafite, o cara que faz quadrinhos. Pulverizou o que antes era, digamos, o c\u00f3digo cultural principal. N\u00e3o \u00e9 nem pro bem nem pro mal, acho que at\u00e9 mais pro bem, pra se reinventar tamb\u00e9m. Volta e meia vai surgir banda fazendo rockabilly dos anos 50, coisa tipo anos 60, e bandas fazendo som de hoje. Nunca fui dos profetas do apocalipse, de achar que est\u00e1 tudo horr\u00edvel. Sei respeitar, entender o que \u00e9 o showbussines e que quem acaba aparecendo muito \u00e9 porque se empenhou, n\u00e3o s\u00f3 pelo talento, mas pela parte executiva. Acredito muito nisso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E foi por isso que o nome do curso mudou?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o, o nome mudou h\u00e1 uns quatro ou cinco anos. \u00c9 que no contexto em que ele surgiu, o rock como c\u00f3digo cultural fazia muito sentido ainda, l\u00e1 em 2005, 06, 07. Ent\u00e3o o que aconteceu \u00e9 mais uma medida institucional, acad\u00eamica, porque existem cursos do Brasil com essa denomina\u00e7\u00e3o, que \u00e9 curso tecn\u00f3logo de Produ\u00e7\u00e3o Fonogr\u00e1fica do cat\u00e1logo do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o, que \u00e9 amplo e tem em Recife, no Rio, tem ali, tem aqui. Tinha uma cadeira chamada Hist\u00f3ria do Rock, mas eu ia ver m\u00fasica popular, jazz, blues, country, bossa nova, jovem guarda, tropic\u00e1lia. O nome n\u00e3o era de maneira alguma reducionista, \u201cah s\u00f3 fala em rock aqui\u201d, n\u00e3o era isso, \u00e9 um curso que fala sobre gest\u00e3o da carreira musical.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Qual \u00e9 o perfil dos alunos?<\/strong><br \/>\nTalvez a primeira turma tenha sido a que veio mais roqueira, que era f\u00e3 de rock and roll, de heavy metal, tudo em fun\u00e7\u00e3o de certo marketing e do t\u00edtulo do curso. E foi super legal, uma turma bem legal, 29 alunos, mas com o tempo foi come\u00e7ando a aparecer aluno DJ, que tem empresa de loca\u00e7\u00e3o de equipamento, que adora m\u00fasica eletr\u00f4nica, mas \u00e9 f\u00e3 de MPB, aluno do sertanejo, foi pintando de tudo que tu pode imaginar. Ent\u00e3o n\u00e3o tem um perfil. Quem deve procurar curso de Audiovisual, tamb\u00e9m \u00e9 a mesma coisa. Tem gente que adora com\u00e9dia, drama, musical, \u00e9 a mesma coisa. Quem busca literatura, o cara gosta de, sei l\u00e1, narrativa, fic\u00e7\u00e3o, conto, poesia, romance, enfim. Ent\u00e3o acho \u00e9 normal num curso que lida com m\u00fasica, que cada um tenha uma bagagem, um gosto bem diferente. E isso \u00e9 o legal! O colorido que o curso acaba proporcionando. Tem uma aluna muito boa compositora, que \u00e9 de Canela (Serra Ga\u00facha), que est\u00e1 se formando agora. Ela tem uma banda indie rock muito boa, canta em ingl\u00eas, comp\u00f5e em ingl\u00eas. Na mesma turma dela tinha um cara de Gua\u00edba (regi\u00e3o metropolitana de Porto Alegre) que \u00e9 sertanjeo universit\u00e1rio. S\u00e3o amigos, s\u00e3o colegas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>A banda que Frank menciona chama-se Urso Polar, um trio autor do EP \u201cWe Don\u00b4t Mean That Much\u201d, que pode ser ouvido aqui <a href=\"https:\/\/ursopolar.bandcamp.com\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">https:\/\/ursopolar.bandcamp.com<\/a>. Bianca Rhoden, uma jovem aluna da gradua\u00e7\u00e3o, canta e toca na banda.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E os alunos v\u00eam de onde? Tem algum de fora do Estado?<\/strong><br \/>\nJ\u00e1 teve gente do Paran\u00e1, do interior de S\u00e3o Paulo, mas a maioria \u00e9 regi\u00e3o metropolitana de Porto Alegre, Vale do Sinos, gente da Serra, tudo que \u00e9 lugar que tu imagina. Tem quem veio do interior e se mudou para S\u00e3o Leopoldo (onde fica o campus principal da Unisinos), tem alunos de Santa Maria, que vieram morar em S\u00e3o L\u00e9o e depois, para Poa, trabalhando e se inserindo em est\u00fadio.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/HakSuWCy7fI?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Esse mercado t\u00e1 onde?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o \u00e9 s\u00f3 pra vender o peixe, mas n\u00e3o tenho como n\u00e3o falar de modo otimista. Uns entram no curso, aproveitam, conseguem fazer amizades. As nossas aulas de produ\u00e7\u00e3o de grava\u00e7\u00e3o s\u00e3o em est\u00fadios verdadeiros em Porto Alegre. A gente aluga por X encontros, pros alunos terem aula. E os mais aplicados se entrosam, se enturmam com os donos, com os operadores. Isso \u00e9 um mercado. N\u00e3o que tenha um mega volume de est\u00fadios, suficiente para inserir alunos em todas essas situa\u00e7\u00f5es, mas \u00e9 um mercado, se tu for procurar tem alguns. Na verdade \u00e9 o aluno que tem que se enxergar querendo trabalhar em tal lugar e querendo construir uma condi\u00e7\u00e3o de poder trabalhar na Tech Audio, no Soma, no Music Box, no Audio Porto (todos est\u00fadios de Porto Alegre). Alguns v\u00e3o poder receber os alunos. E tem os (alunos) que v\u00e3o trabalhar em r\u00e1dio, de operador de som, que v\u00e3o para produtoras de \u00e1udio. Os que v\u00e3o criando as suas escolas de m\u00fasica. Ent\u00e3o isso \u00e9 bacana. Um curso de m\u00fasica por si s\u00f3 j\u00e1 gera essa perspectiva da ansiedade: &#8220;Ah, ele consegue emprego?&#8221; Mudou muito essa no\u00e7\u00e3o. Os caras conseguem trabalhar, conseguem est\u00e1gios, n\u00e3o necessariamente um super emprego, mas uma inser\u00e7\u00e3o, e dali ele vai talvez criar o seu pr\u00f3prio trabalho, ser seu pr\u00f3prio chefe, ou cogitar um curso no exterior, contar com mais experi\u00eancia. S\u00e3o coisas interessantes de se observar. Daria pra dizer de uma forma bem otimista que tem mercado para caramba.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 uma quest\u00e3o de pessoa ir atr\u00e1s&#8230;<\/strong><br \/>\nO cara pode cursar Unisinos, IPA, UFRGS, seja o que for: se ele n\u00e3o se dedicar, criar um bom networking, milagre n\u00e3o se faz. O cara tem que se puxar, n\u00e3o tem que achar que \u00e9 mega talentoso e precisam bater na porta dele: \u201cAh como tu \u00e9 bom\u201d. Tem que botar as caras. Hoje em dia, ainda que existam gravadoras, plataformas de streaming, etc, os caras podem j\u00e1 independer de gravadora. Comp\u00f5e, grava, lan\u00e7a. Acho isso bem importante, \u00e9 realmente outra \u00e9poca, tu tem mais ferramentas, mas tem que correr bastante. As oportunidades n\u00e3o caem no colo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bem, e tu \u00e9 formado em Letras. Se tivesse tido a oportunidade de fazer esse curso&#8230;<\/strong><br \/>\nAh eu faria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>&#8230;e tu acha que algo teria sido diferente na tua carreira?<\/strong><br \/>\nEssa pergunta j\u00e1 me fizeram e ela \u00e9 boa. Basicamente procurei Letras porque gostava muito de literatura e me enxergava muito mais escritor do que professor. N\u00e3o me arrependo de ter feito Letras, por mais que n\u00e3o tenha seguido como professor na \u00e1rea de literatura, reda\u00e7\u00e3o, l\u00edngua portuguesa. Mas tive aula de did\u00e1tica, pr\u00e1tica de ensino, tive que dar aula pra ensino fundamental e m\u00e9dio, est\u00e1gio. Elas (as aulas) ficaram l\u00e1 bem guardadas. Ent\u00e3o muito do surgimento desse curso tem a ver com a quantidade de coisas que a gente foi desenvolvendo e aprendendo a fazer na carreira art\u00edstica, no andar da carro\u00e7a. Foi aprendendo a fazer um bom release na imprensa, a editar uma m\u00fasica tua na editora, a negociar com uma gravadora, a ler um contrato. A se relacionar com plateia, com dono de casa noturna. Ent\u00e3o todos esses saberes que tanto eu quanto um monte de gente fomos aprendendo, como se diz, \u201cna lida\u201d, tudo isso a gente transferiu, n\u00e3o s\u00f3 eu mais v\u00e1rios professores, para essa grade curricular desse curso, onde tu tenta dar uma boa ideia de como funciona esse mercado. Independente de ser um mercado que se reinventa muito. \u00c0s vezes o aluno pode ter boas ideias de como fazer isso ou aquilo, ent\u00e3o o que te digo, e n\u00e3o \u00e9 exagero, puxa-saquice nem nada, mas se eu tivesse l\u00e1&#8230; eu entrei no curso de letras em 86. Formei em 92, levei um tempinho a mais, tive filho nesse meio tempo, e tocava nos Cascavelletes. Ent\u00e3o, se tivesse l\u00e1 com 19 pra 20 anos em 86, e tivesse esse curso, nessa \u00e9poca, teria feito esse curso. Tranquilamente. Essa no\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica que o curso de Letras tem me serviu muito agora, nesses 10 \u00faltimos anos. Mas fiz um monte de outras coisas, trabalhei na Secretaria de Cultura, em produtora de \u00e1udio, na Usina do Gas\u00f4metro como gestor, no Sarau El\u00e9trico. Nunca parei, sempre fui um cara dizendo sim para oportunidades que apareciam, coisas que eu nem estava procurando e surgiam. Mas n\u00e3o que eu n\u00e3o corresse atr\u00e1s. As oportunidades surgiam porque eu me mexia, ia pra c\u00e1, pra l\u00e1. Mas acho isso bem claro: \u00e9 um curso que eu faria se ele existisse l\u00e1 na minha \u00e9poca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E tu acha que isso mudaria alguma coisa na tua carreira?<\/strong><br \/>\nAcho que sim. Vou te dar um bom exemplo. Uma das bandas em que atuei, que \u00e9 a minha banda do cora\u00e7\u00e3o, a Graforr\u00e9ia Xilarm\u00f4nica. Causalmente tem essa falha, tu j\u00e1 vai entender onde quero chegar. A Graforr\u00e9ia Xilarm\u00f4nica tem dois discos de est\u00fadio e um ao vivo e nenhum dos tr\u00eas est\u00e1 nas plataformas de streaming. E eu tenho l\u00e1 os meus quatro (discos) solo, direitinho.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/OU9UXFOfzDI?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas (os discos da Graforr\u00e9ia) est\u00e3o no YouTube!<\/strong><br \/>\nEst\u00e3o no YouTube, \u00e9 um outro streaming, ok. Mas, voltando: o que que eu mudaria? Sempre foi uma coisa de n\u00e3o fazer l\u00e1 grandes planejamentos, as coisas que a gente conseguiu, por m\u00e9rito pr\u00f3prio e por amizades tamb\u00e9m, de lan\u00e7ar pela Warner\/Banguela. Foi um momento muito bom, um certo \u00e1pice, auge da banda. S\u00f3 que o que a gente n\u00e3o fez? Diferente de Raimundos, Mundo Livre SA, a gente n\u00e3o foi morar em S\u00e3o Paulo por um per\u00edodo da vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E tu acha que isso fez diferen\u00e7a?<\/strong><br \/>\nFez toda a diferen\u00e7a do mundo para essas bandas. E para a gente fez. N\u00e3o que isso seja um reconhecimento de um fracasso. Acabou rolando, tem maneiras e maneiras de encarar as coisas que tu realizou, tu n\u00e3o tem que fazer uma terra arrasada, n\u00e9. Todas essas bandas (do selo) de uma forma ou outra moraram um per\u00edodo em S\u00e3o Paulo, porque \u00e9 onde tinha a MTV, a Editora Abril, a revista Bizz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E um p\u00fablico muito maior, tamb\u00e9m&#8230;<\/strong><br \/>\nUm p\u00fablico maior, n\u00e9. Ou tu ia pro Rio tamb\u00e9m, tem todo um cen\u00e1rio, TV Globo, gravadoras. At\u00e9 o Odair Jos\u00e9, de Goi\u00e1s foi morar no Rio. Ele dormia na praia. O artista, quando acredita no seu trabalho e quer levar a carreira adiante, ele tem que ficar um tempo (fora). Por mais que tenha mudado bastante essa descentraliza\u00e7\u00e3o, tem polos legais em todo o pa\u00eds. Era e ainda \u00e9 fundamental essa repercuss\u00e3o e aceita\u00e7\u00e3o que vai ter para o resto do pa\u00eds por tu estar l\u00e1 no Rio ou em S\u00e3o Paulo. Se a Graforr\u00e9ia na \u00e9poca tivesse um pouco mais de maturidade, pesasse com mais seriedade&#8230; o Carlo (Pianta, guitarrista) e eu j\u00e1 t\u00ednhamos filhos pequenos. Mas ainda era um contexto em que valeria a pena ter tentado ir pra l\u00e1, ficar um pouco afastado, mas plantar algo. Isso posso dizer seguro. A gente fez coisas bacanas ficando aqui igual, mas se tivesse ido pra l\u00e1, o nome da banda Graforr\u00e9ia Xilarm\u00f4nica, em termos de alcance, seria maior.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como fez o Engenheiros&#8230;<\/strong><br \/>\nEngenheiros mata esse assunto de uma maneira legal porque eles foram morar no Rio de Janeiro, j\u00e1 que a gravadora deles era de l\u00e1. Ent\u00e3o, o que estou falando n\u00e3o \u00e9 exagero, n\u00e3o \u00e9 caduquice. Tenho amigos que fazem um monte de coisas legais no cen\u00e1rio underground, com festivais, e que s\u00e3o contra essa m\u00e1xima, que n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio ir pra S\u00e3o Paulo. Acho que \u00e9 legal no m\u00ednimo o questionamento, nem que seja em termos de circula\u00e7\u00e3o. \u00c9 legal tu volta e meia ir tocar em SP. N\u00e3o s\u00f3 de aventura, botar quatro ou cinco guris num kitinete. Tem que estar com um produtor, algu\u00e9m que fa\u00e7a a coisa acontecer l\u00e1. Da\u00ed se j\u00e1 se organizou, fez show aqui seis meses, guardou grana, sei l\u00e1, conseguiu um patroc\u00ednio, pra bancar seis meses. Tenta seis, oito meses, se n\u00e3o der certo a\u00ed sim, volta. Mas acho que n\u00e3o tem regra. A hist\u00f3ria do rock universal tem a ver com isso que estou te falando. Bob Dylan era de uma cidadezinha chamada Dulugh, l\u00e1 do interior, uma cidade de mineiros (fica no estado de Minnesota). E trabalhava na loja de eletrodom\u00e9sticos do pai dele. E se deu conta: \u201cBah, tenho que sair daqui\u201d. Ele se tornou Bob Dylan porque foi pra Nova York (em 1961). Beatles \u00e9 a mesma coisa, s\u00f3 que eles tiveram outro jogo, sa\u00edram de uma cidade portu\u00e1ria, iam para Hamburgo, e depois sim, tiveram que plantar uma sementona e se desenvolver na capital, Londres. Ent\u00e3o, tu enxerga essa teoria?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Outro que fez isso foi o Kurt.<\/strong><br \/>\nO Kurt era de Aberdeen da\u00ed foi pra Seattle&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">.<strong>..e antes passou um tempo em Olympia.<\/strong><br \/>\nIsso! Os Smiths eram de Manchester, tiveram que se consolidar em Londres. Essa minha teoria n\u00e3o \u00e9 exagerada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>O m\u00e1ximo que a banda passou em termos de perman\u00eancia em S\u00e3o Paulo para trabalhar, como lembrou Frank, foi durante a grava\u00e7\u00e3o da participa\u00e7\u00e3o em uma colet\u00e2nea chamada \u201cA Vez do Brasil\u201d, lan\u00e7ada pela gravadora Eldorado junto com a r\u00e1dio 89FM, capitaneada por Carlos Eduardo Miranda, que mais tarde lan\u00e7aria a banda pelo Banguela. A faixa gravada na colet\u00e2nea \u00e9 \u201cEu\u201d, que consta na demo da banda, \u201cCom Muito Amor, Com Muito Carinho\u201d, que havia sa\u00eddo em 1988. O trio ficou por cerca de tr\u00eas semanas trabalhando em S\u00e3o Paulo.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Uma pausa nesse racioc\u00ednio pra voltar, de novo, \u00e0 quest\u00e3o do curso. Se tu tivesse feito o curso (de Produ\u00e7\u00e3o Fonogr\u00e1fica), tu acha que voc\u00eas teriam essa vis\u00e3o sobre se mudar pra S\u00e3o Paulo, na \u00e9poca da Graforr\u00e9ia?<\/strong><br \/>\nSim. A gente era muito os guri da cidade, os cara que gostam de estar com a fam\u00edlia, a namorada, churrasco no final de semana, futebol, colorado. N\u00e3o tinha um olhar um pouco mais s\u00e9rio sobre a carreira musical. Seria importante ir pra S\u00e3o Paulo: \u201cVamo l\u00e1, vamo juntar os troco\u201d. A gente acabou n\u00e3o tendo essa maturidade de ver que isso seria muito importante. Pega artistas como a pr\u00f3pria Adriana Calcanhoto, Cachorro Grande, Fresno, p\u00f4, s\u00e3o artistas que foram morar (fora). \u00c9 diferente. N\u00e3o que n\u00e3o tenham m\u00fasicos radicados aqui que saibam fazer essa circulada. Tamb\u00e9m tenho bons exemplos de caras que s\u00e3o daqui, gostam daqui, mas circulam bem. Tr\u00eas nomes: Vitor Ramil, que circula muito por Argentina e Uruguai, n\u00e3o sei se j\u00e1 fez Europa. Borghetinho (Renato Borghetti, gaitista), que toca todos os anos na Europa, no resto do Brasil, e \u00e9 um cara daqui, bagual. E Nei Lisboa. (Ainda tem) Nenhum de N\u00f3s, Papas da L\u00edngua, caras que s\u00e3o daqui e acabaram achando melhor ficar aqui, e t\u00eam um nicho do mercado no interior do Estado. O Humberto (Gessinger) \u00e9 um cara que mora aqui, esse sim pra m\u00fasica pop e rock \u00e9 o grande cara que faz show em todo Brasil. Tem f\u00e3s no Brasil inteiro e isso \u00e9 um m\u00e9rito. Mas ele teve um per\u00edodo de morar bastante l\u00e1 (no Rio).<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/wn-_QQ5_4gs?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bom, mas voltando \u00e0 Graforr\u00e9ia. A fita demo, \u201cCom Muito Amor, Com Muito Carinho\u201d, vai fazer 30 anos ano que vem&#8230;<\/strong><br \/>\nPor mais que a gente tenha repert\u00f3rio, shows, discos&#8230; a banda sempre foi um pouco out. A gente tem uma capacidade de cria\u00e7\u00e3o muito grande, mas nenhuma banda sobrevive se n\u00e3o tiver um produtor, um empres\u00e1rio, algu\u00e9m que fa\u00e7a de maneira bem feita n\u00e3o s\u00f3 a parte de shows como de imprensa. Isso tudo a gente foi fazendo de acordo com as nossas condi\u00e7\u00f5es, n\u00e3o que a gente n\u00e3o fizesse bem, mas sendo sempre uma sobrecarga. Ent\u00e3o a banda teve m\u00e9ritos do ponto de vista de surgir num clima muito interessante, de ter uma linguagem muito pr\u00f3pria, e isso desde cedo foi uma marca. A gente foi muito bem recebido pelo p\u00fablico, me atreveria a dizer que mesmo a gente sendo uma banda meio esquisita, meio doida, sempre tivemos um excelente p\u00fablico f\u00e3. Mas mesmo que a gente tivesse amizade, prazer em existir como banda, a gente sempre foi indo meio&#8230; \u00e0s vezes com per\u00edodo de mais mobiliza\u00e7\u00e3o, mas normalmente era uma atividade a mais nas nossas vidas. Em alguns momentos tinha uma mobiliza\u00e7\u00e3o X: \u201cVamos gravar com o Miranda aqui no est\u00fadio que nem existe mais, perto do Zaffari Higien\u00f3polis, na Eduardo Chartier (em Porto Alegre). Vamos ensaiar antes tantas semanas pra entrar em est\u00fadio e ficar s\u00f3 concentrado em grava\u00e7\u00e3o\u201d. Ok. E todo mundo se organizava, se estruturava. A Graforr\u00e9ia teve um per\u00edodo na sua forma\u00e7\u00e3o com um de seus criadores presente na banda, que \u00e9 o Marcelo Birck. Boa parte do repert\u00f3rio que a banda tocou foi feito pelo Marcelo e por mim. H\u00e1 exce\u00e7\u00f5es, uma s\u00f3 minha, uma s\u00f3 dele e algumas com o Carlo Pianta, mas a banda teve um primeiro momento como um quarteto, o Alexandre e o Marcelo Birck, Carlo Pianta e eu. O Marcelo em seguida saiu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Isso era na \u00e9poca da demo?<\/strong><br \/>\nSim. A banda teve, entre 87 e 88, uma exist\u00eancia em Porto Alegre, mas acho que por 89, 90, meio que terminou oficialmente. Mal sab\u00edamos que a gente ia voltar tr\u00eas, quatro vezes. O trio (Frank, Alexandre, Pianta) \u00e9 que vai gravar a tal da colet\u00e2nea com a Eldorado e a 89FM. O disco saiu em vinil e CD, ainda tinha vinil, era 91, 92. Foi a nossa ponte pra gravar o disco (\u201cCoisa de Louco 2\u201d) pela Banguela, mas teve show de lan\u00e7amento em S\u00e3o Paulo, pelo selo. E esse trio, nesse per\u00edodo, trabalhou um monte a banda. Divulgou, fez show, gravou clipe. A gravadora pagou. Mesmo com o or\u00e7amento apertadinho, se estruturava pra fazer a grava\u00e7\u00e3o do disco, a loca\u00e7\u00e3o de est\u00fadio, a concep\u00e7\u00e3o toda do disco, um clipe e um show de lan\u00e7amento. O Banguela estava vinculado a uma major, mas tinha uma formata\u00e7\u00e3o muito a fim de trabalhar bem bandas alternativas com pouco or\u00e7amento. Bom, ent\u00e3o a Graforr\u00e9ia dos 90, 2000 em diante, seguiu se divulgando. Teve um per\u00edodo que entrou um amigo na guitarra, o Eduardo Christ, que, embora n\u00e3o fosse compositor, era bacana, instrumentista, compositor de um modo geral, mas n\u00e3o muito na banda. (Ele) Agregou por ter outra guitarra. Foi legal. Ele \u00e9 advogado e foi divertido tocar com ele, mas ele n\u00e3o seguiu com a carreira musical, acabou saindo. \u00c9 um cara muito bacana, muito querido, est\u00e1 no \u201cChapinhas de Ouro\u201d (segundo disco oficial da banda, de 1998). E da\u00ed, tch\u00ea, no in\u00edcio dos 2000, fim dos 90, volta e meia quando as bandas davam uma esfriada, eu inventava outras bandas, como o Cowboys Espirituais, com o J\u00falio Reny (de J\u00falio Reny e o Expresso Oriente) e o Petracco (M\u00e1rcio Petracco, ex-TNT). Dei in\u00edcio ao meu trabalho solo, que eu achava que era mais um hobby, de gravar uma m\u00fasicas minhas com o Thomas Dreher (produtor ga\u00facho) no est\u00fadio. O Iuri Freiberger, produtor e cara da Tom Bloch, disse: &#8220;Cara, esse teu repert\u00f3rio a\u00ed&#8230; Tem um trabalho solo do Frank Jorge, mesmo que tu n\u00e3o queira&#8221;. E eu: &#8220;Puta merda, \u00e9 verdade&#8221;. Acabei encarando, e saiu l\u00e1 o primeiro disco, \u201cCarteira Nacional de Apaixonado\u201d (2000). Em meio a tudo que fiz nesse meio tempo na vida, e ainda gerenciar filhos, eu vejo com muito orgulho que tenho quatro discos gravados de est\u00fadio, j\u00e1 muito pilhado em fazer o quinto, ainda que tenha que terminar o mestrado logo. Tenho muita m\u00fasica composta, e n\u00e3o falo de bobalh\u00e3o pra dizer que tenho quantidade. Tenho regularidade de compor, leio e toco em meio a tudo que tenho que fazer durante o dia. Sempre leio e toco viol\u00e3o&#8230;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>&#8230;\u00e9 uma coisa da tua rotina?<\/strong><br \/>\n\u00c9. Tocar, compor, ler s\u00e3o coisas da minha rotina. Como caminhar, respirar. E da\u00ed o caso da Graforr\u00e9ia Xilarm\u00f4nica, pra tentar sintetizar. Rolou um festival, Morrostock, que \u00e9 no meio do mato, l\u00e1 em Sapiranga (regi\u00e3o metropolitana de Porto Alegre). N\u00e3o sei se foi em 2011, 12&#8230; A gente convidou o Marcelo (Birk) pra tocar com a gente num show&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas a Graforr\u00e9ia tava existindo nessa \u00e9poca?<\/strong><br \/>\nEla existia desse jeito, aparece, faz um show, ou \u00e0s vezes o cara do interior liga: &#8220;Quero fazer um show de voc\u00eas aqui na Festa das Rosas, aqui no pub tal\u201d, e a gente acabava indo. Nunca teve a onda de n\u00e3o querer tocar. E da\u00ed rolou uma coisa natural de a gente se encontrar na casa dele, onde j\u00e1 t\u00ednhamo,s em outros anos, ensaiado com a Graforr\u00e9ia. Rolaram algumas sess\u00f5es de compor, um m\u00e9todo graforr\u00e9ico de composi\u00e7\u00e3o que tem muito a ver com artes pl\u00e1sticas. Pega uma m\u00fasica de um, a de outro e cola, assim como tu vai fazer uma colagem de artes pl\u00e1sticas. As nossas m\u00fasicas eram muito assim, tu mistura um andamento, uma levada aqui, p\u00f5e uma coisa diferente no refr\u00e3o, uma coisa diferente no final. O processo da Graforr\u00e9ia tinha muito a ver com esse processo de elabora\u00e7\u00e3o art\u00edstica de artes pl\u00e1sticas. Da\u00ed a gente come\u00e7ou a fazer repert\u00f3rio e gravou umas quatro m\u00fasicas, mas fizemos alguns shows, tocamos em Chapec\u00f3 (SC), em S\u00e3o Paulo&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/frank_lolla.jpg\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Foi quando voc\u00eas <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/03\/30\/balanco-lollapalooza-brasil-2013\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">tocaram no Lollapalooza<\/a>&#8230;<\/strong><br \/>\nExatamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>A Graforr\u00e9ia ent\u00e3o voltou com a forma\u00e7\u00e3o original, como quarteto, at\u00e9 2015, quando entrou em recesso de novo. Teve convites para tocar no ano seguinte, mas n\u00e3o os aceitou. Em janeiro de 2017, o chamado de um dono de bar motivou o primeiro retorno da banda em dois anos. O empres\u00e1rio, com mudan\u00e7a marcada para fora do pa\u00eds, chamou a banda para um show de despedida. O local era o Batmacumba, incrustado na movimentada rua Jo\u00e3o Alfredo, cora\u00e7\u00e3o da boemia portoalegrense. Agora, a banda est\u00e1 em formato de trio, sem Marcelo Birck.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(O show) Foi em janeiro. Abarrotou o lugar. 250 pessoas \u00e9 o que cabia, tinha 253. E foi legal. Agora tem o show do Sesc, em maio (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/2017\/05\/08\/festival-magneticos-90-no-sesc-pompeia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">dentro do Festival Magn\u00e9ticos 90<\/a>). No dia do show do Batmacumba, recebi uma mensagem desse amigo, que est\u00e1 produzindo esse show em S\u00e3o Paulo, de fazer na mesma noite Graforr\u00e9ia Xilarm\u00f4nica e Pato Fu. Esse evento n\u00e3o \u00e9 solto, o Gabriel Thomaz lan\u00e7ou o livro \u201cMagn\u00e9ticos 90\u201d, em que fala sobre a cena dos anos 90, fanzines, fita demo. E Graforr\u00e9ia e Pato Fu s\u00e3o duas bandas dos anos 90. Nunca teve esse show em nenhum lugar. Eu j\u00e1 participei do show deles. Teve uma vez no Gig Rock (festival extinto em Porto Alegre), do Beco, na Casa do Ga\u00facho. Mas foram em dias separados. Esse shows (agora) ser\u00e3o na mesma noite. E tch\u00ea, na real \u00e9 isso, a gente tem muito carinho, respeito, muita gratid\u00e3o pela Graforr\u00e9ia, mas n\u00e3o tem cobran\u00e7a. Quando falo sobre n\u00e3o ter ido pra S\u00e3o Paulo \u00e9 uma reflex\u00e3o, acho que as coisas teriam sido diferentes se a gente tivesse seguido, mas j\u00e1 consegui refletir e administrar bem o que seria uma decep\u00e7\u00e3o, uma m\u00e1goa. Tanto \u00e9 que a gente se d\u00e1 bem e consegue se organizar quando pinta uma oportunidade de show. Tipo isso agora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E tem mais algum outro show, alguma ideia&#8230;<\/strong><br \/>\nDa Graforr\u00e9ia n\u00e3o, mas solo segue tendo coisas por acontecer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O solo \u201c<a href=\"http:\/\/www.selo180.com\/selo-180\/cds\/frank-jorge-escorrega-mil-vai-tres-sobra-sete-cd\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Escorrega Mil Vai Tr\u00eas Sobra Sete<\/a>\u201d saiu em agosto de 2016&#8230;<\/strong><br \/>\nSaiu em agosto e \u00e9 muito interessante at\u00e9 pra entender como as coisas est\u00e3o constitu\u00eddas hoje. Faltou fazer muita coisa pela divulga\u00e7\u00e3o desse disco, coisas que ainda v\u00e3o acontecer. Uma delas, meio b\u00e1sica, \u00e9 lan\u00e7ar o clipe, que est\u00e1 sendo produzido em anima\u00e7\u00e3o por um cara que \u00e9 genial, o Gabriel Renner (quadrinista ga\u00facho). Ele \u00e9 f\u00e3 do meu trabalho, eu sou f\u00e3 do dele, a gente ficou muito amigo. Vai ser da m\u00fasica \u201cN\u00e3o \u00e9 T\u00e3o Real\u201d. Mal ou bem, o que fiz junto com a gravadora, que \u00e9 l\u00e1 de Passo Fundo (Selo 180), s\u00e3o coisas bem importantes. Rolou o lan\u00e7amento dele em todas as plataformas em um dia s\u00f3, organizadinho, estava l\u00e1 no YouTube, no Google Play, Spotify, Deezer, umas 15 plataformas. O cara me mandou o e-mail com o link, testei todos, vou te mandar. Tu fica impressionado. Deve ter plataforma que eu n\u00e3o conhe\u00e7o<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Frank me mandou o e-mail uns dias depois da entrevista. S\u00e3o 13 plataformas com o disco, das famosas como Deezer, Spotify, Google Play e YouTube, at\u00e9 as que, bem, eu, pelo menos, n\u00e3o conhecia: KKBox, OneRPM e 7Digital.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O primeiro lan\u00e7amento foi virtual foi 26 de agosto, de acordo com o consumo mais presente. As pessoas ouvem m\u00fasica pelo celular, pelo Spotify, seja usu\u00e1rio premiun ou freemium. Da\u00ed teve a chegada do CD, atrasou um pouco. Era pra ser 9, 10 de setembro, mas chegou 20 e tantos de setembro, da\u00ed abastecemos algumas lojas de Porto Alegre, e o show de lan\u00e7amento foi em 27 de outubro no Teatro Renascen\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Frank iniciou ent\u00e3o a breve turn\u00ea de divulga\u00e7\u00e3o, que chama de \u201cEscorrega Tour\u201d. Foram shows em Porto Alegre, Gravata\u00ed, Passo Fundo, Novo Hamburgo. \u201cEm quatro meses rolaram cinco, seis shows. N\u00e3o \u00e9 nem muito nem pouco, \u00e9 um n\u00famero\u201d, diz.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tem que t\u00e1 permanentemente divulgando, contatando, bolando uma coisa nova. Para o show da Graforr\u00e9ia no Batmacumba gravei pela primeira vez, coisa que eu n\u00e3o fazia, v\u00eddeos tocando em casa e postei. Deu bastante visualiza\u00e7\u00e3o. Toquei os baixos da Graforr\u00e9ia sozinho, sem a banda e cantando. E ficou interessante porque s\u00e3o baixos complicados de fazer cantando ao mesmo tempo. Ent\u00e3o ficou muito interessante. Fiz aquilo pra divulgar o show. Umas duas, tr\u00eas m\u00fasicas, baixo e voz. Depois compus outra m\u00fasica pra divulgar o solo, homenageando Santana do Livramento (tamb\u00e9m foi postada na rede social).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/frank_discos.jpg\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O \u201cEscorrega\u201d \u00e9 o teu primeiro disco solo com o suporte online. Como impactou na recep\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nD\u00e1 pra notar uma baita diferen\u00e7a. Os outros tinham muito a quest\u00e3o de depender da r\u00e1dio tocar. A ferramenta principal era o r\u00e1dio, tu lan\u00e7ava o material e ia na Ipanema, na Pop Rock, na FM Cultura, dependia da r\u00e1dio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E essas r\u00e1dios nem existem mais (na verdade a Pop Rock mudou de nome e programa\u00e7\u00e3o, e a Ipanema foi extinta. A FM Cultura continua transmitindo)&#8230;<\/strong><br \/>\nA Unisinos FM (emissora ligada \u00e0 universidade) segue cumprindo esse papel. A Uni\u00e3o FM (r\u00e1dio de Novo Hamburgo) tamb\u00e9m. N\u00e3o \u00e9 exagero, muita gratid\u00e3o ao r\u00e1dio. Hoje est\u00e1 muito virado em not\u00edcia, embora tenha r\u00e1dio de sertanejo, de funk, mas para o rock mudou muito. E pra mim fez toda a diferen\u00e7a ser disseminado pelos meios digitais. Estou no Spotify e mantenho uma m\u00e9dia de 10 mil monthly listeners, 10,600 ouvintes-m\u00eas. E tem uma m\u00fasica, \u201cN\u00e3o \u00e9 T\u00e3o Real\u201d, que abre o \u00faltimo disco, que est\u00e1 quase com 60 mil audi\u00e7\u00f5es (no in\u00edcio de maio, esse n\u00famero j\u00e1 tinha pulado para 70.300). Acho que s\u00e3o n\u00fameros muito legais para quem n\u00e3o vive s\u00f3 envolvido com a carreira musical. Tenho uma frequ\u00eancia no Spotify, n\u00e3o s\u00f3 colocando conte\u00fado meu, do meu disco, (mas tamb\u00e9m) fico fazendo uma intera\u00e7\u00e3o meio galhofeira meio ir\u00f4nica (falando agora do Facebook), postando frases engra\u00e7adas e inusitadas. N\u00e3o fico fazendo marketing pessoal frequente no Facebook, acho uma coisa muito chata, n\u00e3o que n\u00e3o ponha de vez em quando o link do meu disco, mas 10 vezes mais conte\u00fado de outras coisas. Gosto de colocar coisas que sejam informa\u00e7\u00f5es que agreguem algo ao dia daquelas pessoas que est\u00e3o me acompanhando ali. E acho que isso \u00e9 uma estrat\u00e9gia boa. Ajuda a dizer que estou vivo, estou pensando sobre isso e sobre aquilo, n\u00e3o falando diretamente sobre pol\u00edtica, embora eu poste \u00e0s vezes coisa de pol\u00edtica tamb\u00e9m, n\u00e3o posso ficar em cima do muro. Mas tento n\u00e3o fazer com que as pessoas recebam uma carga pesada, a vida j\u00e1 est\u00e1 pesada, o dia a dia j\u00e1 est\u00e1 ruim, politicamente, financeiramente, ent\u00e3o tento levar algo galhofeiro. E eu acho que isso repercute l\u00e1 no cara ter uma curiosidade de te ouvir, tipo: &#8220;Esse cara n\u00e3o me empurrou goela abaixo a m\u00fasica dele. J\u00e1 que estou aqui no Spotify ouvindo Anitta, Papas da L\u00edngua, vou dar uma espiada aqui no Frank\u201d. Na faculdade, tem o pessoal da comunica\u00e7\u00e3o digital, da publicidade. Tu fica observando eles, como interagem, que conte\u00fado postam. Acho que \u00e9 um aprendizado grande, a rede social pede pra ser bem utilizada. Mas a rede social n\u00e3o faz milagre. Tu cria o evento no Facebook, cento e tantas pessoas confirmam presen\u00e7a, 300 t\u00eam interesse. E isso repercute em tipo 40 pagantes, 20 e tantas cortesias. \u00c0s vezes tu acha que vai ter p\u00fablico de 200, 300 pessoas num bar pequeno, e acaba tendo muito menos do que parecia, de acordo com a intera\u00e7\u00e3o das pessoas l\u00e1 (no evento do Facebook). Acontece isso \u00e0s vezes. Ter grana pra investir no teu trabalho, seja num bom instrumento, seja numa boa divulga\u00e7\u00e3o, faz toda a diferen\u00e7a ainda. Tu ter cartaz de rua. E tem que pagar o cara. Ent\u00e3o \u00e0s vezes tem que fazer isso tamb\u00e9m, captar recurso aqui e ali, com amigo, empresa. Tem custo m\u00ednimo pra botar um show na rua, roadie, transporte, chamada na r\u00e1dio, an\u00fancio pago no Facebook, mas s\u00e3o coisas que mostram essa complexidade. Na rede social parece que \u00e9 tudo de gra\u00e7a. N\u00e3o, se tu tiver grana pra investir no trabalho, o retorno vai ser muito maior. \u00c9 meio que uma ilus\u00e3o que &#8220;hoje \u00e9 tudo de gra\u00e7a&#8221;. N\u00e3o, tu precisa investir. Quando aparece um banner de algu\u00e9m em destaque no Spotify, aquilo n\u00e3o foi de gra\u00e7a. Material do Prince, por exemplo. O cara tinha morrido l\u00e1 em abril do ano passado, tinha nada dele no Spotify. Da\u00ed agora na semana passada, at\u00e9 em fun\u00e7\u00e3o do Grammy, rolou. Tem um puta banner do Prince (conversamos uns dias depois da chegada dos discos de Prince no Spotify). Algu\u00e9m pagou. \u00c0s vezes aparece assim: &#8220;F\u00e1bio Junqueira, S\u00f3 Teu&#8221; num banner. Esse cara pagou ou a gravadora, amigos ricos, sei l\u00e1. Um cara que tu nunca ouviu falar, mas talvez na cidade dele, \u00e9 tri conhecido, e resolve dar uma cartada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>O F\u00e1bio Junqueira que Frank menciona na entrevista n\u00e3o existe, ao menos n\u00e3o como um artista e autor de um disco chamado \u201cS\u00f3 Teu\u201d. Foi um exemplo, um personagem fict\u00edcio criado, aparentemente ali na hora, para exemplificar o que falava. Pesquisei, mas n\u00e3o h\u00e1 men\u00e7\u00f5es deste m\u00fasico, sequer deste disco. Fica para a imagina\u00e7\u00e3o de cada um de n\u00f3s elaborar quem seria e o que cantaria o F\u00e1bio Junqueira de Frank Jorge.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tu v\u00ea do nada. Tu t\u00e1 ouvindo LCD Soundsystem, v\u00ea bandas fodas no banner, sei l\u00e1, Ed Sheeran, Lady Gaga, e da\u00ed&#8230; Fabio Junqueira. O cara bancou. Ent\u00e3o a grana faz toda a diferen\u00e7a. Isso \u00e9 uma ilus\u00e3o das pessoas acharem que n\u00e3o, mas faz toda a diferen\u00e7a. N\u00e3o que n\u00e3o tenha milagres, coletivos. Teatro M\u00e1gico fez isso, \u00e9 um case, os caras s\u00e3o mega organizados, compraram o pr\u00f3prio som e vendem a sonoriza\u00e7\u00e3o junto, ent\u00e3o n\u00e3o existe essa m\u00edstica s\u00f3 do coletivo, mas \u00e9 uma ilus\u00e3o pra achar que ningu\u00e9m precisa de dinheiro pra divulgar.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Y0X-PLJNX1k?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E tu ouve m\u00fasica s\u00f3 pelo Spotify? Ainda ouve m\u00eddia f\u00edsica?<\/strong><br \/>\nSou um cara fominha de leitura, de audi\u00e7\u00e3o de m\u00fasica, seriados, mas n\u00e3o me canso de ouvir m\u00fasica diariamente. Tenho um amigo que tem muito menos pilha de ouvir m\u00fasica diariamente e que trabalha com m\u00fasica. Ele n\u00e3o tem saco de ouvir banda nova, n\u00e3o est\u00e1 nem a\u00ed. Eu n\u00e3o, tenho curiosidade de bandas novas. Aparece Imagine Dragons l\u00e1 num puta festival: &#8220;Da onde saiu essa banda com tanto f\u00e3?\u201d Da\u00ed tu vai l\u00e1 e v\u00ea que a banda existe desde 2009, 10, j\u00e1 tocou aqui, j\u00e1 tocou ali, blablabla. Se tu trabalha com m\u00fasica e sendo tamb\u00e9m professor, tu tem que ir assimilando novos fen\u00f4menos, novos repert\u00f3rios, novas bandas. Eu tenho um filtro muito legal, porque tenho filho de 25, 17 e 12 anos. Ent\u00e3o eles t\u00eam outra maneira de acessar m\u00fasica. Eles sofreram, no bom sentido da palavra, tendo que ouvir uma diversidade de coisas que eu e a minha esposa mostramos. Ouviram Beatles, Roberto Carlos, Odair Jos\u00e9, mas foram chegando \u00e0s bandas que acabaram curtindo mais, RHCP, Eric Clapton. O Erico, meu filho do meio, \u00e9 muito f\u00e3 da Gal, via C\u00e9u. Ele acabou descobrindo a Gal tropicalista, adora ouvir o primeiro da Gal, e curte Apanhador S\u00f3 tamb\u00e9m. Voltando a mim, eu tenho assinatura do Spotify, que normalmente depende de uma boa internet, mesmo que tenha um bom plano de dados. Se tu anda de trem pela cidade, n\u00e3o ouve direito Spotify pelo celular, por mais que queira. Ou\u00e7o mais em casa. Mas ou\u00e7o r\u00e1dios, Unisinos FM, um pouquinho de not\u00edcias. E coloco quatro, cinco discos aqui (apontando para o celular). Tenho um IPod tamb\u00e9m, n\u00e3o ando tanto com ele por medo de assalto. Um IPod com 160 giga. Devo ter abastecido 30 giga. Adoro ele. J\u00e1 perdi ele mais de uma vez na mesma estante, botava na estante e ca\u00eda, da\u00ed eu ia arrumar uns livros e ele aparecia l\u00e1, coitadinho. Mas eu ando aqui com uns cinco, seis discos. J\u00e1 rolou de ter 30 discos, mas n\u00e3o ouvia nenhum direito. Vou te dar o exemplo do que eu tenho aqui.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Nessa hora, Frank pega o celular e me mostra os discos que tem salvo offline para ouvir, no celular:<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tenho meu \u00faltimo disco, que fico ouvindo, tem letras que eu ainda me atrapalho pra cantar. S\u00e9rio, a cabe\u00e7a tem um pouco duma sequela, fui escrever uma letra x e acabei fazendo um jogo de palavras, da\u00ed pra decorar aquela porra&#8230; Ent\u00e3o volta e meia eu ou\u00e7o as m\u00fasicas n\u00e3o por narcisismo, mas pra decorar direito as letras, \u00e9 uma tentativa. Mas no trem tu te dispersa n\u00e9, tu olha o movimento. Tem uma banda (dos anos) 60 que adoro que \u00e9 o Sonics, uma banda bem garage. \u00c0s vezes tem algo em l\u00edngua espanhola, o Andr\u00e9s Calamaro, que \u00e9 um icone pop argentino e mundial. Um disco que era da minha m\u00e3e, \u201cDalva de Oliveira canta Boleros\u201d, m\u00fasica brasileira dos anos 50, 40. Uma colet\u00e2nea do Smiths, banda que adoro. \u201cConcertos de Bradenburgo\u201d, do Bach, tamb\u00e9m algo do Beethoven. Teenage Fanclub, eu adoro. War on Drugs, uma banda bem legal, tem uns tr\u00eas discos. E \u00e9 isso. \u00c0s vezes ou\u00e7o o disco inteiro, \u00e0s vezes por m\u00fasica. Mas dura duas, tr\u00eas semanas, da\u00ed excluo e abaste\u00e7o com outras. No notebook tenho um acervo de CD. Em casa, ou\u00e7o Spotify de fone. Uma coisa que adorava fazer, e hoje fa\u00e7o menos, \u00e9 ouvir m\u00fasica botando o CD no aparelho de som Sony, mas n\u00e3o tenho tempo. Ou \u00e0s vezes, bebendo uma cerveja no fim de semana tu d\u00e1 uma louqueada, p\u00f5e alto um faixa e outra, mas isso eu fa\u00e7o muito menos hoje. Aquele menu do Spotify Discovery, coisas que te sugerem, aquilo ali d\u00e1 vontade de passar um dia s\u00f3 ouvindo tudo o que te indicaram de cabo a rabo, \u00e9 muita coisa boa. Eu estou fazendo mestrado sobre isso, curadoria no Spotify. Tenho que defender em maio, mas sinto que tem tanta coisa legal pra falar sobre isso ainda que parece que estou na metade da metade. Voltando ao que eu ou\u00e7o em casa, tenho um aparelho muito chulepa. Eu tinha um dos anos 80 que foi se destruindo e doei pra um guri que eu conheci na Ipanema (extinta r\u00e1dio porto-alegrense), o Juliano Oster, um cara muito querido. Ele trabalha sonorizando com vinil em festa, da\u00ed pensei: \u201cTa\u00ed um cara pra eu dar esse aparelho\u201d. Um Gradiente, prato, receiver e deck. Pra n\u00e3o dizer que n\u00e3o tinha um prato em casa pra ouvir vinil, comprei num sebo na quadra de casa, na Jo\u00e3o Pessoa (avenida em Porto Alegre). Mas ele \u00e9 muito ruim, as caixas s\u00e3o muito ruins. Ainda devo ter uns 60, 70 vinis, fui me desfazendo pra caramba, cheguei a ter uns 500 acho. Fui me desfazendo nas lojas de amigos na cidade, \u00e0s vezes por aperto, \u00e0s vezes pra pegar outros. Ent\u00e3o ou\u00e7o m\u00fasica mais de fone, no Spotify, no notebook. Ou\u00e7o eventualmente CD, tenho uma cole\u00e7\u00e3o muito boa. N\u00e3o sei quantos. \u00c9 mais dif\u00edcil de tu negociar na rua, os caras n\u00e3o se interessam muito, \u00e9 mais por vinil nas lojas Tenho bem guardada uma cole\u00e7\u00e3o. Comecei a investir numa de CDs eruditos. Passei a vida inteira comprando m\u00fasica popular, m\u00fasica brasileira, instrumental, muito rock, muito pop, mas de uns dois, tr\u00eas anos pra c\u00e1 comecei a investir em CD de m\u00fasica erudita. Do mesmo sebo onde eu vendia o vinil, levava Bach, Beethoven, Chopin, e acho isso legal. Parece coisa de velho \u2013 assim como tenho uma cole\u00e7\u00e3o boa de Frank Sinatra em CD, alguma coisa em vinil. Que tamb\u00e9m \u00e9 coisa de velho, ouvir Sinatra tomando um uisquinho. Chega uma hora que, por mais que adore rock, adore Sonics, tu quer ouvir outra m\u00fasica e fico muito apavorado de imaginar que o cara no s\u00e9culo 16, sem luz el\u00e9trica, passando frio, fome, tinha doen\u00e7as, e escrevia uns neg\u00f3cios brilhantes, cheio de melodias, de polifonias. A obra do Bach \u00e9 um neg\u00f3cio assim, n\u00e3o canso de ouvir o Concerto de Bradenburgo. Os filhos em casa j\u00e1 se acostumaram. \u00c9 um neg\u00f3cio muito sublime, uma materializa\u00e7\u00e3o humana muito foda. Ah, adoro ouvir as loucuras do Sonics, a bateria tosca, umas coisa afud\u00ea de ouvir. Mas da\u00ed tu p\u00f5e um Bach, um Beethoven e fica: &#8220;Isso saiu de uma cabe\u00e7a humana! O cara pensou isso!\u201d. E o cara vivia tri mal, morria novo. Ent\u00e3o essas coisas me impactam, me emocionam. N\u00e3o tem um dia que eu n\u00e3o me programe pra parar, ouvir m\u00fasica e ler, ou dar risada, ver uma com\u00e9dia, Peter Sellers, Irm\u00e3os Marx, porque eu gosto e aquilo vai fazer bem. Eu tenho prazer em ouvir musica. N\u00e3o importa o hor\u00e1rio ou suporte, me sinto bem sintonizado com essa \u00e9poca. Ouvir m\u00fasica que est\u00e1 na nuvem, digitalmente. Tem aquela coisa do fetichista: &#8220;Ah, abrir o vinil, botar pra tocar&#8221;. Ok, isso \u00e9 legal, mas \u00e9 bacana n\u00e3o depender disso pra ouvir m\u00fasica. Fui ver o \u201cLa La Land\u201d, sa\u00ed (da sess\u00e3o) e j\u00e1 perguntei na Multisom (rede de lojas de CDs do Rio Grande do Sul): &#8220;Tu j\u00e1 tem a trilha desse filme?&#8221; N\u00e3o tinha. \u00d3bvio, cheguei em casa, fui no Spotify, e estava l\u00e1. Pronto, no domingo de manh\u00e3 pude ouvir aquela trilha de novo mostrando pras pessoas: &#8220;\u00d3 aqui as m\u00fasicas que ouvimos ontem&#8221;. Assisti com a esposa e dois filhos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 uma coisa que nos anos 80 tu n\u00e3o podia fazer, tipo ver o \u201cPurple Rain\u201d e logo comprar o disco&#8230;<\/strong><br \/>\nSe tu fosse comprar ele na Pop Som, na Galeria Chaves (no Centro de Porto Alegre) ia ser caro. Daqui a pouco ele aparecia nas Americanas e \u201cuau, puxa, na Pop Som o disco \u00e9 50, nas Americanas veio por 18,90\u201d. Isso rolava direto. Quando apareceu o \u201cRocket to Russia\u201d, dos Ramones, nas Americanas a capa parecia um guardanapo, mas tu tinha como comprar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E dependia disso para ouvir.<\/strong><br \/>\nNos 80 tinha loja de loca\u00e7\u00e3o de fita cassete e de CD. Tu pegava as noventeira l\u00e1, Shonen Knife, o Melvins, as banda shoegaze, tu alugava na loja o CD, gravava no cassete em casa e ouvia. Logo logo deu pra gravar e passar pro HD. Ent\u00e3o hoje, n\u00e3o que n\u00e3o exista uma raridade ou outra que n\u00e3o t\u00e1 nas redes, no Spotify&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sim, a pr\u00f3pria Graforr\u00e9ia!<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Nesta hora, Frank ri, e ri alto.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/frank_fernanda.jpg\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como \u00e9 que as pessoas v\u00e3o ouvir a Graforr\u00e9ia!<\/strong><br \/>\nUm dia a Fernanda Takai (na foto acima participando do show de Frank Jorge em 2001 no Bar Ocidente) postou um tweetzinho l\u00e1: \u201c\u00c9 um absurdo que a Graforr\u00e9ia n\u00e3o esteja no Spotify\u201d. E eu achei aquilo divertido. Nenhum dos tr\u00eas vai se co\u00e7ar voando pra mudar isso. Em algum momento a coisa vai acontecer&#8230; Os dois do meio (da carreira solo, \u201cVida de Verdade\u201d e \u201cVolume 3\u201d) sa\u00edram no streaming porque eram de outros selos, que abasteceram com seus cat\u00e1logos (e hoje \u00e9 poss\u00edvel achar tamb\u00e9m a estreia solo de Frank, \u201cCarteira Nacional de Apaixonado\u201d). E d\u00e1 gosto de ver os quatro l\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 tipo tu chegar na loja&#8230;<\/strong><br \/>\n&#8230;e t\u00e1 l\u00e1 os meus discos pra vender. Eu passei uma vida sofrendo por ir \u00e0 loja e n\u00e3o ter os meus discos pra vender. S\u00f3 vendia em show. Isso sempre foi um problema, hoje em dia mudou. Teve um coment\u00e1rio do meu irm\u00e3o que foi bizarro, ele \u00e9 10 anos mais velho: &#8220;O teu disco est\u00e1 nesses lugares (plataformas de streaming), mas tu ganha algo?&#8221;. E eu: &#8220;Cara, eu ganho mais \u00e9 uma puta divulga\u00e7\u00e3o por estar l\u00e1\u201d. Se a pessoa quer me recomendar para o amigo que est\u00e1 no Jap\u00e3o, na Austr\u00e1lia, na Isl\u00e2ndia, ele tem como mostrar porque est\u00e1 no Spotify. Isso que falei: &#8220;Tu n\u00e3o imagina a import\u00e2ncia e o alcance que isso tem\u201d. Porque antes dependeria de comprar um disco, ou acessar isso, ou aquilo. N\u00e3o. Est\u00e1 na plataforma de streaming, est\u00e1 no mundo. Acho isso bel\u00edssimo. Se a Graforr\u00e9ia estivesse no streaming ia estar pintando convite pra show a rodo. Ent\u00e3o o primeiro (solo) saiu pela Barulhinho, de Porto Alegre. O segundo YB Music e Trama, a YB existe ainda, devem ter posto l\u00e1 todo o acervo deles. O terceiro foi da Monstro, tamb\u00e9m superligada ao streaming, Tu vai achar tudo da Monstro no Spotify. Entrou l\u00e1. E o \u00faltimo entrou sendo lan\u00e7amento j\u00e1. \u00c9 isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Ao fim da entrevista e ap\u00f3s Frank se despedir de mim e ir para casa, um conhecido seu, que havia entrado no caf\u00e9 onde est\u00e1vamos um pouco antes, me perguntou sobre a entrevista. \u201cVai ficar muito boa! Esse cara sabe muito\u201d, me disse ele.<\/em><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/VXvZWd5nMPE?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/wAzp3uBfIcE?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/TuLcH3CN05w?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Janaina Azevedo (<a href=\"http:\/\/www.facebook.com\/janaisapunk\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">www.facebook.com\/janaisapunk<\/a>) \u00e9 jornalista. A foto que abre o texto \u00e9 de Raul Krebs. A foto de Frank Jorge no Lollapalooza \u00e9 de Liliane Callegari. A foto do encontro de Frank Jorge e Fernanda Takai no Bar Ocidente, 2001, \u00e9 dos arquivos de Iuri Freiberger.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Veja tamb\u00e9m:<\/strong><br \/>\n&#8211; Entrevista (2000): &#8220;Acho as letras do rock nacional pura merda&#8221; (<a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/musica\/frank.htm\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; &#8220;Coisa de Louco 2&#8221;, da Graforr\u00e9ia: 8\u00ba melhor disco nacional dos anos 90 (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/musica\/top20nacional.html\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Download: Baixe &#8220;Primavera Punk&#8221;, de Gustavo Kaly &amp; Frank Jorge (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2016\/05\/12\/primavera-punk-gustavo-kaly-frank-jorge\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; &#8220;Ao Vivo&#8221;, da Graforr\u00e9ia Xilarm\u00f4nica, garante a felicidade do ouvinte (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2007\/02\/12\/disco-da-semana-26\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Frank Jorge ao vivo em SP (2009): &#8220;A guitarra em primeiro plano&#8221; (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2009\/09\/28\/beto-so-frank-jorge-e-nina-becker\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; &#8220;Volume 3&#8243;: Frank abre o disco cantando: \u201cSim, voc\u00ea esperava muito mais de mim&#8221; (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2009\/04\/28\/julio-reny-frank-jorge-e-nei-lisboa\/\">aqui<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Um longo papo com Frank Jorge sobre Graforr\u00e9ia Xilarm\u00f4nica, m\u00fasica em streaming, carreira, gradua\u00e7\u00e3o e muito mais. 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