{"id":4283,"date":"2010-02-03T18:28:22","date_gmt":"2010-02-03T20:28:22","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=4283"},"modified":"2023-03-29T00:50:24","modified_gmt":"2023-03-29T03:50:24","slug":"sherlock-holmes-de-guy-ritchie","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2010\/02\/03\/sherlock-holmes-de-guy-ritchie\/","title":{"rendered":"Sherlock Holmes, de Guy Ritchie"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-4284\" title=\"sherlock\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/02\/sherlock.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por Roberta \u00c1vila<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Algumas poucas coisas no mundo s\u00e3o exatamente o que deveriam ser. Pudim de m\u00e3e, pizza em S\u00e3o Paulo, carne na Argentina, vinho na Fran\u00e7a. S\u00e3o coisas at\u00e9 simples, mas se voc\u00ea tentar incrementar estraga. N\u00e3o adianta colocar chantilly no pudim. N\u00e3o fa\u00e7a sangria com vinho franc\u00eas. Para qu\u00ea fazer strogonoff com um belo corte de carne Argentina? \u00c9 errado. \u00c9 essa mesma sensa\u00e7\u00e3o que o \u201cSherlock Holmes\u201d de Guy Ritchie passa. \u00c9 incrementado, cheio de efeitos especiais e de releituras sobre tra\u00e7os do car\u00e1ter do Sherlock e do Watson e at\u00e9 sobre o rumo da vida deles, mas \u00e9 errado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se Guy Ritchie queria fazer um filme sobre um grande detetive que tem um grande companheiro, ajudante ou sei l\u00e1 qual a defini\u00e7\u00e3o que o Watson teria, por que diabos ele n\u00e3o fez o filme como ele queria? Por que desfigurar Sherlock Holmes, atribuindo a ele e ao Watson novas personalidades? Um diretor com a carreira de Guy Ritchie \u2013 que ainda por cima \u00e9 ex da Madonna \u2013 teria toda a publicidade mesmo que fizesse um filme sobre o irm\u00e3o do soldado desconhecido. Algu\u00e9m devia ter sido sensato o suficiente para dizer a ele que com personagens consagrados, como Sherlock, n\u00e3o se brinca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sherlock Holmes simplesmente n\u00e3o \u00e9 o que Guy Ritchie fez dele: uma mistura de Professor Bugiganga (com direito a um rid\u00edculo cinto de utilidades) e Professor Pardal (que est\u00e1 quase sempre destruindo o apartamento com experi\u00eancias absurdas). Um cara que est\u00e1 muito mais para irland\u00eas do que para ingl\u00eas (assim como a trilha sonora do filme), muito mais para beberr\u00e3o imundo do que para um gentleman, um homem sarc\u00e1stico ao inv\u00e9s de ir\u00f4nico, uma pessoa ousada, destemida e violenta, ao inv\u00e9s de sensata e introspectiva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nem tampouco Watson \u00e9 o que devia ser. Ele assume o papel de homem respons\u00e1vel na dupla, e \u00e9 mais s\u00e9rio do que Sherlock. Pelo menos n\u00e3o se atreveram a mudar o grande la\u00e7o afetivo que existe entre os dois, que permanece intacto, mas est\u00e1 sendo colocado em prova pelo fato de que Wilson est\u00e1 noivo e vai se mudar do apartamento que divide com Holmes. Quest\u00e3o interessante. De fato poderia ter acontecido algo similar em alguma das hist\u00f3rias de Conan Doyle, mas a\u00ed uma das grandes d\u00favidas desse relacionamento deixa de existir: qual era a extens\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o entre Sherlock e Watson?\u00a0 At\u00e9 engra\u00e7ado que seja assim porque declara\u00e7\u00f5es do elenco antes do lan\u00e7amento do filme deixaram a entender que havia espa\u00e7o para homossexualismo no enredo. Conservadores reagiram ferozmente&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas nem tudo s\u00e3o problemas no filme de Guy Ritchie. Sherlock continua usando sua l\u00f3gica implac\u00e1vel para desmistificar a magia e nesse ponto h\u00e1 que se fazer uma concess\u00e3o. Para explicar em detalhes o funcionamento da mente de Sherlock, o filme usa o recurso de passar duas vezes uma mesma cena, uma vez com narra\u00e7\u00e3o de Sherlock, em c\u00e2mera lenta, e depois na velocidade normal, que \u00e9 acelerad\u00edssima, bem \u00e0 la Hollywood (e ao Guy Ritchie de \u201cJogos, Trapa\u00e7as e Dois Canos Fumegantes) e nada a ver com um her\u00f3i do s\u00e9culo 19.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jude Law est\u00e1 incr\u00edvel como Dr. Watson. A sua noiva, interpretada por Kelly Reilly (a ruivinha da dobradinha \u201cAlbergue Espanhol\u201d\/\u201dBonecas Russas\u201d), esbanja suavidade e d\u00e1 um toque de delicadeza ao mundo de homens que fazem parte da hist\u00f3ria. A golpista Irene Adler, apresentada no filme como um amor mal resolvido de Sherlock, \u00e9 interpretada por Rachel McAdams, que tamb\u00e9m est\u00e1 excelente em seu papel. At\u00e9 o terr\u00edvel Lorde Blackwood, vil\u00e3o do filme, interpretado por Mark Strong, acertou em cheio no tom que deu ao personagem. S\u00f3 quem deixa a desejar \u00e9 Robert Downey Jr (prestaram aten\u00e7\u00e3o, votantes do Globo de Ouro).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Falta brilho \u00e0 atua\u00e7\u00e3o deste novo Sherlock. Com os cabelos desgrenhados e uma maneira inconstante e en\u00e9rgica de viver, ele foge do clich\u00ea da capa, chap\u00e9u xadrez, e cachimbo curvo. N\u00e3o fala &#8220;elementar, meu caro Watson&#8221;, afinal essa frase jamais foi escrita por Conan Doyle (a base do roteiro \u00e9 uma adapta\u00e7\u00e3o das HQs escritas por Lionel Wigram). Talvez Robert tenha ficado perdido, sem saber dosar o grau de loucura que devia colocar em seu detetive. Quanto seria aceit\u00e1vel? Quanto do Sherlock tradicional pode ser subvertido sem que a perda seja irrepar\u00e1vel? D\u00favida complexa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Londres como cen\u00e1rio foi muito bem utilizada. Ver a London Bridge em constru\u00e7\u00e3o, como local do duelo final \u00e9 muito legal. Ver Sherlock pulando de uma janela do Parlamento, mesmo sem merchandising da Mastercard, n\u00e3o tem pre\u00e7o. Agora, a Londres do filme tem uma intensidade, uma quantidade de gente na rua, fazendo barulho e criando confus\u00e3o que parece exagerada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 uma cena da explos\u00e3o magn\u00edfica. Uma obra de arte. Incr\u00edvel o trabalho de express\u00e3o corporal dos atores e a forma como a explos\u00e3o foi sequenciada. Essa cena, junto com as cenas de luta que s\u00e3o mostradas em c\u00e2mera lenta, deixa uma d\u00favida. Por que Guy Ritchie opta por uma edi\u00e7\u00e3o t\u00e3o acelerada, que lembra \u201cSnatch \u2013 Porcos e Diamantes\u201d, e para os momentos mais preciosos ele prefere a desacelera\u00e7\u00e3o? O ritmo acelerado dos filmes pode ser uma forma de mostrar o ritmo fren\u00e9tico da vida contempor\u00e2nea, mas com certeza tamb\u00e9m \u00e9 um recurso desesperado para prender a aten\u00e7\u00e3o do telespectador, que n\u00e3o tem tempo de refletir sobre nada sem deixar de acompanhar um di\u00e1logo ou de perder uma sequ\u00eancia de golpes. Recurso que pode fazer um Blockbuster, mas n\u00e3o faz um grande filme. Outros iguais sempre vir\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O final do filme adianta que uma continua\u00e7\u00e3o vem por a\u00ed. O que esperar? A premia\u00e7\u00e3o de Robert Downey Jr no Globo de Ouro (ele foi ignorado no Oscar) talvez fa\u00e7a com que o ator afunde-se mais ainda neste Sherlock Holmes sarc\u00e1stico e violento. Do jeito que a coisa vai \u00e9 capaz de Watson se unir a Sancho Pan\u00e7a e sair pelo mundo desafiando moinhos de vento enquanto Dom Quixote tenta lhes fazer ter algum bom senso e Sherlock vive um romance com Dulcineia&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-4285 aligncenter\" title=\"sherlockdois\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/02\/sherlockdois.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p>*******<\/p>\n<p>Roberta \u00c1vila \u00e9 jornalista e assina o blog <a href=\"http:\/\/ficcoesdaminhavida.blogspot.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Fic\u00e7\u00f5es da minha vida<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Roberta \u00c1vila\nAlgumas poucas coisas no mundo s\u00e3o exatamente o que deveriam ser. 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