{"id":42751,"date":"2017-05-07T23:43:08","date_gmt":"2017-05-08T02:43:08","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=42751"},"modified":"2017-06-10T12:53:57","modified_gmt":"2017-06-10T15:53:57","slug":"balancao-festival-el-mapa-de-todos-2017","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2017\/05\/07\/balancao-festival-el-mapa-de-todos-2017\/","title":{"rendered":"Balan\u00e7\u00e3o: Festival El Mapa de Todos 2017"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>Texto por <a href=\"https:\/\/twitter.com\/leovinhas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Leonardo Vinhas<\/a><br \/>\nFotos por Paulo Capiotti<br \/>\n<\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Somadas suas seis edi\u00e7\u00f5es anteriores, o festival El Mapa de Todos trouxe nada menos que 96 artistas de 11 pa\u00edses \u2013 n\u00e3o s\u00f3 das Am\u00e9ricas, mas tamb\u00e9m de Espanha e Portugal. E embora j\u00e1 houvesse a presen\u00e7a de artistas desses pa\u00edses esporadicamente em um ou outro festival, o El Mapa foi indiscutivelmente o primeiro a tomar a bandeira da integra\u00e7\u00e3o pela m\u00fasica como sua raz\u00e3o de ser.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa hist\u00f3ria nos traz a sua mais recente edi\u00e7\u00e3o, a primeira organizada com mais de um ano de intervalo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 anterior, e a menor em n\u00famero de atra\u00e7\u00f5es. Em 2016, por quest\u00f5es de or\u00e7amento e log\u00edstica, o festival n\u00e3o ocorreu. Somente agora, em 2, 3 e 4 de maio de 2017 (antes acontecia em novembro ou dezembro), que a s\u00e9tima edi\u00e7\u00e3o ganhou vida, com sete artistas (houve anos em que chegaram a ser 17) pin\u00e7adas de Brasil, Col\u00f4mbia e Uruguai (e M\u00e9xico, se voc\u00ea contar que dois integrantes da <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/tag\/francisco-el-hombre\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Francisco el Hombre<\/a> nasceram no pa\u00eds norte-americano). Apesar das dificuldades \u2013 ou at\u00e9 por causa delas \u2013 a organiza\u00e7\u00e3o decidiu apostar no fortalecimento de sua proposta. \u201cUm festival s\u00f3 passa a existir depois de sua quinta edi\u00e7\u00e3o\u201d, diz Fernando Rosa, o idealizador do El Mapa. \u201cAt\u00e9 ent\u00e3o, \u00e9 tentativa e erro at\u00e9 acertar\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/elmapa_yangos1.jpg\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O secular Theatro S\u00e3o Pedro (fundado em 1858!), no centro de Porto Alegre, foi o palco de todas as noites do festival em 2017, e em sua escolha residem dois diferenciais repetidamente defendidos por Rosa: o primeiro \u00e9 a concentra\u00e7\u00e3o de todos os shows em um s\u00f3 lugar, o que evita a dispers\u00e3o de p\u00fablico que fatalmente ocorreu nas duas \u00faltimas edi\u00e7\u00f5es, que se dividiram em diferentes loca\u00e7\u00f5es; e a escolha por um lugar onde a m\u00fasica \u00e9 o \u00fanico objetivo poss\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cJ\u00e1 tem muito evento que traz op\u00e7\u00f5es de oficinas, comidas, divers\u00f5es e outras artes, tudo junto. E \u00e9 bom que exista essa diversidade. Mas nosso foco \u00e9 totalmente a audi\u00e7\u00e3o de m\u00fasica\u201d, explica Rosa. E de fato, o objetivo \u00e9 cumprido: mesmo nos momentos mais explosivos, viu-se uma compenetra\u00e7\u00e3o por parte do p\u00fablico que n\u00e3o seria poss\u00edvel em outro lugar que n\u00e3o um teatro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/elmapa_hombre2.jpg\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A primeira noite foi a mais intensa e mais emblem\u00e1tica. Isso porque a Francisco el Hombre \u00e9 indubitavelmente \u201ca cara da integra\u00e7\u00e3o latino-americana\u201d, como diz Fernando Rosa. E isso n\u00e3o \u00e9 exatamente porque \u00e9 uma banda formada por brasileiros e mexicanos, mas principalmente porque sua m\u00fasica congrega elementos do Brasil, do M\u00e9xico e da Am\u00e9rica do Sul em t\u00e3o grande profus\u00e3o que fica dif\u00edcil enxergar limites entre eles. E honestamente, limites para que?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A banda \u2013 que tem feito uma m\u00e9dia de 15 shows por m\u00eas \u2013 comprovou seu poder de convocat\u00f3ria garantindo a lota\u00e7\u00e3o total do Theatro S\u00e3o Pedro (640 pessoas) e ainda deixando gente de fora. E o estado de comunh\u00e3o que se gerou entre eles e seu p\u00fablico foi algo para ficar na hist\u00f3ria do El Mapa e at\u00e9 mesmo dos palcos porto-alegrenses.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/elmapa_hombre3.jpg\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os presentes s\u00f3 n\u00e3o invadiram o palco porque a organiza\u00e7\u00e3o, temerosa que algo assim acontecesse (como tinha acontecido em 2015 no show do Onda Vaga no Sal\u00e3o de Atos da UFRGS), pediu encarecidamente que n\u00e3o o fizessem antes do show. Isso, por\u00e9m (e felizmente), n\u00e3o impediu que as pessoas dan\u00e7assem praticamente sem pausa entre as fileiras de assentos, se esgoelando nas can\u00e7\u00f5es que j\u00e1 t\u00eam status de hit underground, como \u201cBolso Nada\u201d, \u201cT\u00e1 com D\u00f3lar, T\u00e1 com Deus\u201d e \u201cCalor da Rua\u201d \u2013 essa com cita\u00e7\u00e3o de \u201cMeu Maracatu Pesa Uma Tonelada\u201d, da Na\u00e7\u00e3o Zumbi.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ali\u00e1s, ecos de Chico Science (e n\u00e3o a Na\u00e7\u00e3o Zumbi atual) e Novos Baianos podem ser identificados no som, especialmente no poder percussivo e na leitura mais roqueira da m\u00fasica brasileira. Por\u00e9m, se \u00e9 para buscar um referencial, \u00e9 mais adequado recorrer ao Mano Negra, devido \u00e0 altern\u00e2ncia e combina\u00e7\u00e3o de vozes (da percussionista Juliana Strassacapa, do baterista Sebasti\u00e1n Pirac\u00e9s-Ugarte e de seu irm\u00e3o, o violonista Mateo), \u00e0 energia bruta dos integrantes no palco e pela proposta que condensa, em som e discurso, uma vida sem fronteiras \u00e9tnicas ou nacionais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/elmapa_hombre4.jpg\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 incr\u00edvel ver como evolu\u00edram de uma banda de m\u00fasicos de rua para a artilharia r\u00edtmica que s\u00e3o hoje. N\u00e3o s\u00f3 a sonoridade cresceu, mas tamb\u00e9m a performance, em especial a figura andr\u00f3gina e hipn\u00f3tica de Mateo. Mas todos os cinco (fazem parte ainda o guitarrista Andrei Martinez Kozyreff e o baixista Rafael Gomes) t\u00eam seu lugar no palco \u2013 que ali\u00e1s, \u00e9 montado com todos no mesmo n\u00edvel e na mesma linha horizontal, bateria ao centro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cTriste, Louca ou M\u00e1\u201d foi o \u00fanico momento de descanso r\u00edtmico, mas n\u00e3o emocional. Numa vers\u00e3o ainda mais clim\u00e1tica que a de est\u00fadio, contaram com a participa\u00e7\u00e3o da ga\u00facha Lara Rossato, dividindo as vozes e os olhares com Juliana Strassacapa. Teve muito olho marejado (inclusive das duas cantoras), rea\u00e7\u00e3o condizente com a forte declara\u00e7\u00e3o da can\u00e7\u00e3o (\u201cUm homem n\u00e3o te define \/ sua casa n\u00e3o te define \/ sua carne n\u00e3o te define \/ voc\u00ea \u00e9 seu pr\u00f3prio lar\u201d). Daria para descrever outros momentos de emo\u00e7\u00e3o, como a catarse provocada pela mudan\u00e7a na letra de \u201cN\u00e3o Vou Descansar\u201d (\u201cN\u00e3o vou descansar \/ at\u00e9 o Temer derrubar\u201d), o choque causado em alguns dos cascudos e conservadores roqueiros porto-alegrenses ou os muitos presentes de cabelos brancos (de ambos os sexos) que mostravam vigor e sorriso de moleque durante toda a hora e vinte de show. Mas isso seriam apenas retratos de uma paisagem maior. O fato \u00e9 que Francisco el Hombre \u00e9 um fen\u00f4meno, e se nada interromper esse caminho, n\u00e3o tardar\u00e1 a fazerem hist\u00f3ria no panorama cultural brasileiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/elmapa_yangos2.jpg\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Antes deles, a caxiense <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/tag\/yangos\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Yangos<\/a> entregou sua sonoridade inspirada em g\u00eaneros tradicionais dos pampas, s\u00f3 que filtrada por energia roqueira. O veterano jornalista argentino Claudio Kleiman, da Rolling Stone de seu pa\u00eds, definiu tal sonoridade como \u201cpower folklore\u201d (ou \u201cpower folk\u201d, para simplificar) \u2013 um r\u00f3tulo bastante justo. A estampa gaud\u00e9ria do quarteto demorou a se dissolver na percep\u00e7\u00e3o da plateia, j\u00e1 que come\u00e7aram um pouco mais contidos que de h\u00e1bito. Mas j\u00e1 na quarta m\u00fasica o pianista Cesar Casara estava com seus habituais remelexos tal qual um Flea do piano, e os antes pac\u00edficos Tom\u00e1s Savaris (viol\u00e3o) e Rafael Scopel (acorde\u00e3o \u2013 ou gaita, dependendo de onde tu vives) se mostraram soltos como nunca, com entrosamento superior \u00e0 muita dupla de guitarras do metal por a\u00ed (n\u00e3o por acaso, <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2017\/04\/24\/download-baixe-o-album-sem-palavras\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">gravaram h\u00e1 pouco uma vers\u00e3o de \u201cThe Trooper\u201d<\/a>, do Iron Maiden). O percussionista Cristiano Klein, por sua vez, n\u00e3o sabe parar quieto mesmo, e j\u00e1 estava desde a primeira can\u00e7\u00e3o tirando timbres quase de acid jazz \u00e0 charrua em seu bombo leguero.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em teatro, aparecem mais claramente as nuances da m\u00fasica da Yangos, e \u00e9 interessante que isso aconte\u00e7a sem tirar a for\u00e7a bruta que diferencia seu trabalho de qualquer outra coisa que use elementos de milonga, chamam\u00e9 e murga. Trazendo no repert\u00f3rio muitas composi\u00e7\u00f5es do novo \u00e1lbum, \u201cChamam\u00e9\u201d (a ser lan\u00e7ado no final de maio), conseguiram cativar o p\u00fablico que havia ido l\u00e1 para ver a atra\u00e7\u00e3o principal. Ainda que n\u00e3o tenha sido uma apresenta\u00e7\u00e3o t\u00e3o brutal quanto costumam fazer em palcos menos formais, foi igualmente consagradora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/elmapa_carmen.jpg\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 o dia 3 trouxe uma mudan\u00e7a radical de tom ao palco do El Mapa. A ga\u00facha <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2017\/02\/01\/tres-cds-livia-nery-laya-e-carmen-correa\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Carmen Correa<\/a> e o uruguaio Daniel Drexler se apresentaram cada qual sem banda, e isso trouxe resultados diferentes para ambos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para Carmen, que lan\u00e7ou no fim do ano passado o excelente \u00e1lbum \u201cDo Outro Lado\u201d, a situa\u00e7\u00e3o foi algo amb\u00edgua. Por um lado, o formato minimalista destacou sua voz, de uma gravidade \u00edmpar, que em nada lembra o triste padr\u00e3o repetitivo que se consagrou na MPB. Por outro, a sonoridade, completada por loops de viol\u00e3o e percuss\u00e3o criados na hora por seu parceiro de palco Gabriel S\u00e1, despiu as can\u00e7\u00f5es de boa parte de sua for\u00e7a. \u201cTivemos que escolher um formato que nos permitisse circular mais\u201d, explicou a mo\u00e7a. \u00c9 justific\u00e1vel, mas realmente \u00e9 uma pena deixar de lado os arranjos t\u00e3o bem montados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Carmen tem carisma e uma postura meio deslocada com o palco que at\u00e9 funciona como charme. Mas em alguns momentos ela parecia realmente atrapalhada com a din\u00e2mica do show, desconfort\u00e1vel com o senta-e-levanta que ela mesma concebeu. Esse \u201cestranhamento\u201d, e a not\u00e1vel preocupa\u00e7\u00e3o de Gabriel com a constru\u00e7\u00e3o dos loops, engessam um pouco o formato. Assim, o show resulta interessante, mas com uma ineg\u00e1vel sensa\u00e7\u00e3o de que poderia ter sido melhor. Mais solto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/elmapa_carmen2.jpg\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 no caso do irm\u00e3o menos famoso do cl\u00e3 Drexler a aus\u00eancia de banda foi ben\u00e9fica. O som de Daniel \u00e9 bastante decalcado de seu irm\u00e3o Jorge, especialmente em algumas constru\u00e7\u00f5es l\u00edricas, e n\u00e3o traz o vigor mostrado por seu outro irm\u00e3o, Diego. Porem, munido apenas de um bel\u00edssimo viol\u00e3o Yamaha e uma boa escolha de timbres, Daniel conseguiu revelar um carisma e um apelo pop que n\u00e3o aparecem em suas vers\u00f5es de est\u00fadio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Drexler toca com frequ\u00eancia em Porto Alegre, e formou um p\u00fablico local fiel. Mesmo sem ter esgotado as entradas, atraiu uma plateia mais que respeit\u00e1vel para uma quarta-feira. Com um desenho precioso de ilumina\u00e7\u00e3o e com a comunica\u00e7\u00e3o em portugu\u00eas fluente, manteve a aten\u00e7\u00e3o desse mesmo p\u00fablico durante os quase 90 minutos de seu show. Por\u00e9m, tivesse sido menos e a impress\u00e3o final teria sido melhor para um convertido \u2013 ou mesmo para os f\u00e3s, j\u00e1 que o bis n\u00e3o foi assim desesperadamente solicitado&#8230; Uma hora s\u00f3 de viol\u00e3o e voz deixou uma altern\u00e2ncia de simpatia e sono, aqui e ali. De qualquer forma, despido dos arranjos sem gra\u00e7a do est\u00fadio, a m\u00fasica de Daniel Drexler mostra-se bem mais acess\u00edvel que em est\u00fadio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/elmapa_daniel.jpg\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O rapper pelotense Zudizilla abriu a \u00faltima noite do festival, e fez hist\u00f3ria por ter sido o primeiro show de rap realizado no Theatro S\u00e3o Pedro. E n\u00e3o d\u00e1 para destacar muito mais que isso. Apesar do not\u00e1vel bom gosto dos samples tirados pelo DJ Micha, o som n\u00e3o escapava das f\u00f3rmulas do g\u00eanero, repetindo clich\u00ea atr\u00e1s de clich\u00ea \u2013 n\u00e3o s\u00f3 na estrutura das can\u00e7\u00f5es, mas tamb\u00e9m no discurso. O populismo de palco (\u201cVamo faz\u00ea barulhoooooooo\u201d, repetido \u00e0 exaust\u00e3o), sua insist\u00eancia em lembrar que o rap \u00e9 \u201cmarginalizado\u201d e que \u201ctem que ser aceito\u201d deram certo com o p\u00fablico naquele momento, mas \u00e9 um trabalho ainda bastante imaturo e incipiente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/elmapa_zud.jpg\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O oposto pode ser dito do Romperayo, um quarteto colombiano que pega os estilos musicais de seu pa\u00eds, do Pac\u00edfico e do Atl\u00e2ntico (sim, cada litoral tem sua tradi\u00e7\u00e3o), e os transforma em uma m\u00fasica solta e vibrante. Vallenato, mapal\u00e9, cumbia, zouk e outros passam por uma concep\u00e7\u00e3o muito particular da psicodelia e disparam numa locomotiva dan\u00e7ante conduzida pelo monstruoso baterista Pedro Ojeda (que tamb\u00e9m integra Los Pira\u00f1as, Frente Cumbiero, Meridian Brothers e outras muitas bandas). Sua maneira de tocar levaria um desavisado a pensar que tem pelo menos dois percussionistas a acompanh\u00e1-lo. Mas n\u00e3o: \u00e9 s\u00f3 que o magr\u00e3o, com um visual de Nick Cave desencanado e tropical, \u00e9 um dos melhores bateristas do mundo. Se fiz\u00e9ssemos com nossa vida o que ele faz com seu kit percussivo, o mundo seria um lugar muito melhor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os timbres da guitarra do franc\u00eas Guillo Cros passam longe da obviedade (em alguns momentos, sequer soam como guitarra), Jhon Socha (baixo) e Juan Manuel Toro (sampler e efeitos) criam o trilho para a tal locomotiva passar, enchendo a paisagens de detalhes divertidos. Ali\u00e1s, o humor \u00e9 essencial para a banda que, mesmo instrumental na maior parte do tempo, capricha em t\u00edtulos como \u201cQue Viva la Vida y Muera la Muerte\u201d ou \u201cAlegr\u00eda por um Zumo de Naranja con Panela\u201d. E o comando de Pedro Ojeda com a plateia \u00e9 not\u00e1vel \u2013 j\u00e1 na terceira faixa, interrompeu uma m\u00fasica ainda na introdu\u00e7\u00e3o para dizer que havia algo errado. \u201cVoc\u00eas est\u00e3o sentados!\u201d, apontou, e logo o p\u00fablico estava em p\u00e9 e dan\u00e7ando atr\u00e1s dos assentos (ou entre eles). Dan\u00e7ou quem sabia e quem n\u00e3o sabia \u2013 se a m\u00fasica da banda \u00e9 livre, por que os movimentos do corpo n\u00e3o seriam? Show de deixar sorriso na cara de todo mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/elmapa_romperayo.jpg\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A alegria tomaria outra forma durante o show do Boogarins. Anunciada pela organiza\u00e7\u00e3o como \u201ca banda brasileira que mais circula no exterior\u201d, os goianos comprovaram seu status de banda de culto junto ao p\u00fablico ga\u00facho, que cantou junto suas can\u00e7\u00f5es, mesmo que a maioria delas tenha estrutura e fon\u00e9tica bem pouco convencionais (uma exce\u00e7\u00e3o mais assimil\u00e1vel, \u201c6000 Dias\u201d, foi recebida como gol em final de Copa do Mundo). Ao vivo, est\u00e3o mais intensos e menos ruidosos do que em seus primeiros anos (2013-2015). H\u00e1 ainda momentos excessivamente \u201cquebrados\u201d \u2013 algumas passagens t\u00e3o cheias de efeitos, disson\u00e2ncias e \u201cu\u00f3u\u00f3u\u00f3ns\u201d que ficava dif\u00edcil para um \u201cn\u00e3o-devoto\u201d manter a aten\u00e7\u00e3o. Por\u00e9m, esses n\u00e3o tomam grande import\u00e2ncia diante da for\u00e7a coesa criada pela bateria de Ynai\u00e3 Benthroldo e a guitarra de Benke Ferraz. Dinho Almeida usa a voz como um instrumento, intensificando as tramas dos companheiros, ou criando choque entre elas, e o baixo de Raphael Vaz adota semelhante altern\u00e2ncia. O \u201cproduto externo bruto\u201d disso tudo \u00e9 um show que n\u00e3o segue nenhum padr\u00e3o identific\u00e1vel, e que mesmo n\u00e3o agradando a todos, recupera o bom nome e o sentido real da express\u00e3o \u201cm\u00fasica psicod\u00e9lica\u201d. Encerraram o show com uma vers\u00e3o estendida de \u201cLucifernandis\u201d, que dedicaram a Pedro Souto, baixista brasilense (das bandas Almirante Shiva, Judas e Cassino Supernova), falecido naquele mesmo dia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda que mais breve, a s\u00e9tima edi\u00e7\u00e3o do El Mapa de Todos apresentou uma proposta de formato mais que satisfat\u00f3ria para p\u00fablico, organiza\u00e7\u00e3o e cr\u00edtica. A miss\u00e3o de integrar as linguagens do continente segue vigente, ainda que seja justo torcer para que as novas edi\u00e7\u00f5es ocorram em tempos menos bicudos no pa\u00eds, para que caibam mais convidados dos pa\u00edses latino-americanos, como costumava ser. Na verdade, esse \u00e9 o grande diferencial do El Mapa: mesmo que com acertos e erros, cada edi\u00e7\u00e3o termina deixando a forte sensa\u00e7\u00e3o de que um mundo menos sisudo e menos preconceituoso \u00e9 poss\u00edvel. Nunca \u00e9 pouco, mas \u00e9 especialmente valioso nos dias atuais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/elmapa_boogarins.jpg\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Leonardo Vinhas (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/#%21\/leovinhas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">@leovinhas<\/a>) assina a se\u00e7\u00e3o Conex\u00e3o Latina (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/tag\/conexao_latina\/\">aqui<\/a>) no Scream &amp; Yell.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><br \/>\n\u2013 El Mapa de Todos 2012: Exemplo de qualidade e perseveran\u00e7a, festival chega ao \u00e1pice (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/11\/11\/festival-el-mapa-de-todos-2012\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n\u2013 El Mapa de Todos 2013 exibe programa\u00e7\u00e3o inteligente e respeito de um bom p\u00fablico (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/12\/03\/festival-el-mapa-de-todos-2013\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n\u2013 El Mapa de Todos 2014: Buen\u00edsima onda que amea\u00e7a ficar mais valorosa a cada edi\u00e7\u00e3o (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2014\/11\/18\/balancao-festival-el-mapa-de-todos-2014\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n\u2013 El Mapa de Todos 2015\u00a0 apostou na diversidade de g\u00eaneros e acerta novamente\u00a0 (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/11\/17\/balancao-el-mapa-de-todos-2015\/\">aqui<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Ainda que mais breve, a s\u00e9tima edi\u00e7\u00e3o do El Mapa de Todos apresentou uma proposta de formato mais que satisfat\u00f3ria para p\u00fablico, organiza\u00e7\u00e3o e cr\u00edtica\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2017\/05\/07\/balancao-festival-el-mapa-de-todos-2017\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":6,"featured_media":42752,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[231,1655,45,1906,287,1356,1907,830,1908,1552,1909],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/42751"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=42751"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/42751\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":42755,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/42751\/revisions\/42755"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/42752"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=42751"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=42751"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=42751"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}