{"id":42737,"date":"2017-05-03T11:14:55","date_gmt":"2017-05-03T14:14:55","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=42737"},"modified":"2017-06-19T01:06:23","modified_gmt":"2017-06-19T04:06:23","slug":"duas-vezes-diamanda-galas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2017\/05\/03\/duas-vezes-diamanda-galas\/","title":{"rendered":"Lan\u00e7amento: Duas vezes Diamanda Gal\u00e1s"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>por <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/renan.machadoguerra\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Renan Guerra<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois de nove anos sem gravar, a cantora e compositora norte-americana Diamanda Gal\u00e1s lan\u00e7a dois novos discos em 2017, \u201cAll The Way\u201d e \u201cAt The Saint Thomas The Apostle Harlem\u201d, que trazem can\u00e7\u00f5es tradicionais e cl\u00e1ssicos do jazz em releituras t\u00edpicas da artista, que sempre consegue ressignificar suas can\u00e7\u00f5es, inserindo-as na atualidade. Ambos os discos trazem a marca de Diamanda, com seu canto intenso, de forma\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica, por\u00e9m rasgando s\u00edlabas, desmontando versos e fazendo os ressurgir em seu piano microtonal ou em sons guturais, como que a celebrar a dor e a morte como forma de seguir vivendo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Toda vez que se fala de Diamanda Gal\u00e1s se recai em uma lista de \u201cpol\u00eamicas\u201d: suas acusa\u00e7\u00f5es de blasf\u00eamia; sua luta em torno da AIDS; suas declara\u00e7\u00f5es agressivas; suas performances chocantes ou mesmo seu ensaio com Annie Leibovitz, onde aparece nua e crucificada. \u00c9 como se a m\u00edstica em torno da artista fosse maior que sua obra. De qualquer modo, essa m\u00edstica \u00e9 parte da constru\u00e7\u00e3o de sua imagem: misteriosa, afrontosa e intensa. Gal\u00e1s far\u00e1 62 anos em 2017, j\u00e1 s\u00e3o mais de 30 anos de carreira e sua voz segue com a for\u00e7a de um canh\u00e3o. Como se cada vez mais pr\u00f3xima da morte, mais ela pudesse ir al\u00e9m, arrancar essas dores do fundo da alma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em entrevista a Vice, Diamanda disse: \u201cPara mim, se canto uma m\u00fasica que voc\u00ea diria que \u00e9 bonita, minha interpreta\u00e7\u00e3o a leva para outro lugar, porque mostra a morte da virgem, o animal que sai na primavera e leva um tiro de um ca\u00e7ador. \u00c9 a beleza que \u00e9 muito amea\u00e7adora para mim, ent\u00e3o costumo fazer uma justaposi\u00e7\u00e3o de algo que pode ser bonito com algo que \u00e9 duro, s\u00f3 porque eu acho que na vida eles existem juntos. Fa\u00e7o isso para salvar a mim mesma, para me proteger para que eu n\u00e3o saia por a\u00ed como Bambi. Tenho muito medo de fazer isso e \u00e9 muito melhor estar alerta\u201d. Nesse sentido, viol\u00eancia, morte, medo e solid\u00e3o engendram-se como temas cl\u00e1ssicos da humanidade e que nunca deixar\u00e3o de reverberar sobre n\u00f3s, portanto esse universo de Diamanda segue sendo f\u00e9rtil e instigante.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/t9YYv-oZfsk?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O disco \u201cAll The Way\u201d apresenta o lado mais pop de Diamanda; entenda-se pop apenas no sentido de formata\u00e7\u00e3o das can\u00e7\u00f5es, mais acess\u00edveis, n\u00e3o t\u00e3o conceituais. Aqui elas seguem esse padr\u00e3o in\u00edcio-meio-fim, com refr\u00e3o e tudo, aproximando-se de seus discos \u201cMalediction and Prayer\u201d (1998) e \u201cThe Singer\u201d (1992). Para aqueles que desconhecem o universo da artista, talvez o in\u00edcio mais apropriado seria come\u00e7ar pela faixa final deste disco, \u201cPardon Me I\u2019ve Got Someone To Kill\u201d, antigo sucesso country que aqui mais se aproxima do jazz. Para os iniciados, \u201cAll The Way\u201d, a m\u00fasica-t\u00edtulo, traz um piano que parece uma faca a nos apunhalar, com a voz de Diamanda assumindo sua for\u00e7a de cantora l\u00edrica. \u201cThe Thrill Is Gone\u201d, faixa de Roy Hawkins e Rick Darnell, que foi sucesso na voz de B.B. King, \u00e9 esmigalhada para ressurgir em forma de uivos, em meio aos atritos de sua voz, como se fosse uma can\u00e7\u00e3o nascida para Diamanda. \u201cAll The Way\u201d foi gravado em est\u00fadio, em San Diego, e ainda traz alguns trechos gravados de forma ao vivo, durante sua turn\u00ea, em cidades como Paris e Copenhagen. Entre as v\u00e1rias releituras de cl\u00e1ssicos do jazz, o disco traz tamb\u00e9m um solo, ao piano, de \u201cRound Midnight\u201d, de Thelonious Monk.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cAt The Saint Thomas The Apostle Harlem\u201d, por sua vez, \u00e9 mais Diamanda imposs\u00edvel: complexo, d\u00fabio, cheio de curvas. Saint Thomas \u00e9 uma igreja cat\u00f3lica de estilo neog\u00f3tico localizada no Harlem, em Manhattan. Constru\u00edda por imigrantes no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, ela est\u00e1 fechada desde 2003, quando foi condenada pela prefeitura de Nova York. Os padres salesianos, em crise econ\u00f4mica, disseram n\u00e3o poder reformar o espa\u00e7o e desde esta data se debate a demoli\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o. Protestos, abaixo-assinados da popula\u00e7\u00e3o e um debate acalorado sobre preserva\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio hist\u00f3rico rondam o espa\u00e7o, que serviu de cen\u00e1rio para o seu disco ao vivo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Produzido pela Intravenal Sound Operations e pela Red Bull Music Academy, \u201cAt The Saint Thomas The Apostle Harlem\u201d foi gravado em maio de 2016, tendo a ac\u00fastica da igreja criado um espet\u00e1culo \u00fanico para esta grava\u00e7\u00e3o, especialmente com seu repert\u00f3rio de \u201cdeath songs\u201d, como gosta de chamar a pr\u00f3pria artista. Este repert\u00f3rio inclui can\u00e7\u00f5es tradicionais, como as de Jacques Brel e textos musicados pela pr\u00f3pria Diamanda, incluindo-se aqui obras do franc\u00eas G\u00e9rard de Nerval, do italiano Cesare Pavese e do grego Lefteris Papadopoulos. Sempre viajando sozinha, ela e seu piano, \u00e9 como se aqui existisse uma universalidade de sons, mas tudo o que temos e a voz e as teclas, a criar um cen\u00e1rio de completa ang\u00fastia e disrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A faixa tradicional \u201cO Death\u201d, curiosamente aparece em duas vers\u00f5es distintas em ambos os \u00e1lbuns, isso que \u201cO Death\u201d j\u00e1 aparecia em outra vers\u00e3o em seu \u00faltimo disco, \u201cDefixiones &#8211; Will and Testament\u201d, de 2008. De qualquer modo, s\u00e3o duas vers\u00f5es distintas e t\u00e3o intensas, que ambas merecem seu destaque, trazendo algo que nos afeta de uma forma inexplic\u00e1vel, como se n\u00e3o soub\u00e9ssemos muito bem o que esperar durante os mais de 10 minutos que cada uma delas t\u00eam. Ambas as vers\u00f5es incluem gritos, ranhuras, grunhidos, como que a ouvirmos porcos a serem assassinados, criando um cen\u00e1rio de caos e tens\u00e3o.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/rhUvwMWT_oE?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os dois novos discos foram lan\u00e7ados de forma independente por Diamanda, que cuida de sua pr\u00f3pria carreira h\u00e1 anos. N\u00e3o podemos dizer que ela ficou \u00e0 margem da ind\u00fastria fonogr\u00e1fica, mas sim que ela queria explodir essa ind\u00fastria. \u201cA m\u00fasica n\u00e3o \u00e9 deles, \u00e9 minha. Isso me deixa puta\u201d, afirmou a artista. \u201cEles que se fodam. Esses porcalh\u00f5es gordos que t\u00eam uma renda fixa e n\u00e3o entendem nada de m\u00fasica. Eles n\u00e3o fazem ideia do que realmente interessa ao p\u00fablico e s\u00f3 lan\u00e7am o mesmo chorume de novo e de novo. Essas n\u00e3o s\u00e3o pessoas que me interessem\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O interessante e vibrante destes dois novos discos \u00e9 que agora Diamanda j\u00e1 entraria no hall da terceira idade, ela seria quase uma vov\u00f3 da obscuridade avant-garde, e n\u00e3o mais aquela jovem violenta e escandalizante de \u201cThe Litanies of Satan\u201d (1982). Agora uma senhora com maquiagem pesada a revisitar um cat\u00e1logo de can\u00e7\u00f5es que d\u00e3o frio na espinha, que nos levam a essa hecatombe de sentimentos que s\u00f3 sua voz poderia nos levar. E h\u00e1 certos momentos em que precisamos relembrar que isso que ouvimos \u00e9 a voz de uma mulher de 62 anos, a lutar pela vida, a enfrentar a morte de frente e a escancarar seu grito de dor. Curiosamente, Gal\u00e1s j\u00e1 afirmou que \u201cquando era muito jovem, me sentia muito velha porque estava totalmente desligada de todo mundo \u00e0 minha volta. Para n\u00f3s mulheres, dizem que somos velhas quando temos 20 anos. Isso \u00e9 muito cruel. Sempre me senti mais jovem do que a primavera e mais velha que Deus quando estou trabalhando; quando n\u00e3o estou, me sinto como qualquer outra pessoa, sinto que n\u00e3o sei para onde estou indo. N\u00e3o sei o que sou, isso \u00e9 horr\u00edvel\u201d. \u00c9 revigorante v\u00ea-la envelhecer com tanta ousadia. Al\u00e9m disso tudo, Diamanda anda mais atuante virtualmente, divulgando muito de sua turn\u00ea no Facebook e postando bastante em sua nova conta do Instagram, trazendo \u00e0 tona um lado mais palp\u00e1vel da artista: seguindo-a nas redes sociais at\u00e9 parece que ela \u00e9 um pouco mais humana e pr\u00f3xima de n\u00f3s do que seus discos fazem parecer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cAll The Way\u201d &amp; \u201cAt The Saint Thomas The Apostle Harlem\u201d est\u00e3o dispon\u00edveis nas plataformas digitais e em CD. \u201cAll The Way\u201d tamb\u00e9m est\u00e1 dispon\u00edvel em vinil, por\u00e9m sob encomenda, j\u00e1 que sua primeira edi\u00e7\u00e3o est\u00e1 esgotada. Fica a dica: v\u00e1 atr\u00e1s destes dois grandes discos!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-42735\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/diamanda1.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"375\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/diamanda1.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/diamanda1-300x150.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/renan.machadoguerra\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Renan Guerra<\/a> \u00e9 jornalista e colabora com o sites <a href=\"http:\/\/www.aescotilha.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">A Escotilha<\/a> e Scream &amp; Yell.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Depois de nove anos sem gravar, Diamanda Gal\u00e1s retorna com dois novos discos em 2017, \u201cAll The Way\u201d e \u201cAt The Saint Thomas The Apostle Harlem\u201d\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2017\/05\/03\/duas-vezes-diamanda-galas\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":3,"featured_media":42734,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[1902],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/42737"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=42737"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/42737\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":42740,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/42737\/revisions\/42740"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/42734"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=42737"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=42737"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=42737"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}