{"id":42704,"date":"2017-05-02T09:27:55","date_gmt":"2017-05-02T12:27:55","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=42704"},"modified":"2017-06-02T10:22:01","modified_gmt":"2017-06-02T13:22:01","slug":"midnight-oil-ao-vivo-em-sao-paulo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2017\/05\/02\/midnight-oil-ao-vivo-em-sao-paulo\/","title":{"rendered":"Midnight Oil ao vivo em S\u00e3o Paulo"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>Texto por <a href=\"https:\/\/twitter.com\/leovinhas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Leonardo Vinhas<\/a><br \/>\nFotos por Marta Ayora<\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1997, o Midnight Oil veio pela \u00faltima vez no Brasil. \u201cDiesel and Dust\u201d (1986) e \u201cBlue Sky Mining\u201d (1989) fizeram do Oil \u201ca pr\u00f3xima grande coisa\u201d: A cr\u00edtica \u2013 e at\u00e9 parte dos f\u00e3s \u2013 acreditavam que eles seriam \u201co novo U2\u201d (era a \u00e9poca em que Bono e sua turma eram onipresentes sem a necessidade de usar marketing de smartphone para tanto). Embora fosse um grande \u00e1lbum, \u201cEarth and Sun and Moon\u201d falhara em expandir, e at\u00e9 mesmo manter, a aten\u00e7\u00e3o mundial: n\u00e3o aportou grandes hits globais e a banda foi parar naquela imprecisa condi\u00e7\u00e3o de \u201cbanda de culto de m\u00e9dio porte\u201d. \u201cBreathe\u201d (1996) era uma tentativa do Oil se reposicionar artisticamente, deixando o som de est\u00e1dios que o consagrou em prol de uma sonoridade mais org\u00e2nica, guitarreira e minimalista. Nesse momento de se recolocar como artista, o Oil fazia aquela que seria sua \u00faltima passagem pelo pa\u00eds durante anos (a primeira fora em 1993).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vinte anos se passaram. Em 2003, vocalista Peter Garrett deixou a banda e o meio musical para seguir carreira na pol\u00edtica,e o Oil anunciou seu fim. Enquanto Garrett passaria os anos seguintes como congressista e at\u00e9 ministro federal, queimando sua reputa\u00e7\u00e3o ao trair muitas de suas posi\u00e7\u00f5es defendidas na banda que o consagrou, os demais integrantes seguiram tranquilos e felizes em projetos musicais modestos e regulares, n\u00e3o raramente colaborando entre si.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estamos em 2017, e banda anunciou seu retorno \u2013 aos palcos e ao Brasil \u2013 com a The Great Circle Tour, que vem acompanhada do lan\u00e7amento de v\u00e1rias sobras de est\u00fadio e de vers\u00f5es remasterizadas da discografia inteira da banda. N\u00e3o h\u00e1 risco (algu\u00e9m duvidava que a turn\u00ea seria um sucesso?), n\u00e3o h\u00e1 um \u201cmomentum\u201d art\u00edstico. Somente aquele espet\u00e1culo nost\u00e1lgico sem riscos que vem dando as caras no cen\u00e1rio pop desde&#8230; bom, desde sempre. Um primeiro show na Austr\u00e1lia, e a turn\u00ea j\u00e1 chegaria a terras brasileiras: Porto Alegre, Curitiba, S\u00e3o Paulo, Rio de Janeiro e Bras\u00edlia. O que nos traz ao dia 29 de abril, no Espa\u00e7o das Am\u00e9ricas, em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Casa lotada, com fauna predominantemente acima dos 40 anos de idade. Uma parte parece ser aquele povo que nunca saiu da praia e sempre teve dinheiro para comprar bons filtros solares e hidrantes de pele. A outra parcela, igualmente numerosa, do t\u00edpico gordinho cervejeiro que escuta a 89 FM e reclama que \u201cn\u00e3o tem nada de bom no rock hoje\u201d \u2013 voc\u00ea sabe, aquele cara que n\u00e3o sente falta da m\u00fasica em si, mas sim de ter 20 e poucos anos. Cen\u00e1rio dif\u00edcil para qualquer um que n\u00e3o se encaixasse nos tipos acima.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas \u00e9 o Midnight Oil, banda que v\u00e1rias vezes foi referida como \u201co melhor show do mundo\u201d, por suas apresenta\u00e7\u00f5es vigorosas, com a uni\u00e3o entre melodia pop e intensidade punk. Intensidade sem fuleiragem, embalada pelos os arranjos que deram identidade \u00e0 banda, e fomentaram um consider\u00e1vel grupo de f\u00e3s fieis no Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Subindo ao palco pontualmente \u00e0s 22h, os cinco Oils mais um session musician (que se dividia entre percuss\u00e3o, trompete e teclados) come\u00e7am com a vibra\u00e7\u00e3o l\u00e1 em cima: \u201cBlue Sky Mine\u201d, um dos maiores hits da banda no Brasil, puxa \u201cTruganini\u201d, e dali j\u00e1 se emendam duas pauladas conduzidas pelo baix\u00e3o distorcido de Bones Hilman: \u201cToo Much Sunshine\u201d e \u201cRedneck Wonderland\u201d, faixa-t\u00edtulo do \u00e1lbum que jogou sujeira e confus\u00e3o na sonoridade at\u00e9 ent\u00e3o l\u00edmpida e coesa do quinteto. \u201cUnder the Overpass\u201d, uma das lindas e esquecidas can\u00e7\u00f5es da banda, d\u00e1 uma cutucada na sensibilidade do f\u00e3 e acalma os \u00e2nimos, logo recuperados com \u201cKing of The Mountain\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cShort Memory\u201d surge com mais clima que em est\u00fadio \u2013 ela sempre foi um dos destaques no repert\u00f3rio ao vivo. Por\u00e9m, essa \u00e9 daquelas que s\u00f3 \u00e9 familiar para a tal \u201clegi\u00e3o fiel\u201d, e a\u00ed se nota a din\u00e2mica que se repetiria durante o restante do show: durante os hits, um oceano de celulares levantados bloqueia quase completamente a vis\u00e3o do palco; quando entram faixas menos conhecidas ou que fujam do \u201cpadr\u00e3o roqueiro\u201d (como \u201cAntarctica\u201d e a pr\u00f3pria \u201cShort Memory\u201d, que ganharam vers\u00f5es superiores \u00e0s de est\u00fadio), vem o falat\u00f3rio incessante e a pausa para postar os v\u00eddeos e fotos nas redes sociais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-42707\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/oil2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/oil2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/oil2-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o havia ref\u00fagio poss\u00edvel nem mesmo no bar: a fila era imensa, e demorar menos de cinco minutos para conseguir pegar qualquer bebida (uma garrafa de \u00e1gua a R$ 6, Budweiser quente e choca a R$ 12) era lucro. Aparentemente, os pre\u00e7os abusivos cobrados pela casa s\u00e3o simplesmente isso: abuso. Nem mesmo para proporcionar bom atendimento servem \u2013 o que n\u00e3o justifica a trucul\u00eancia desses adultos t\u00e3o empoderados pela sua ilus\u00e3o de poder aquisitivo, destratando o staff com atitudes que, se n\u00e3o s\u00e3o caso de pol\u00edcia, deveriam s\u00ea-lo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em meio a isso tudo, o Oil seguia com for\u00e7a e compet\u00eancia no palco. Todos fisicamente bem, na medida do poss\u00edvel \u2013 a idade (64 anos) n\u00e3o parece ter causado nenhum impacto severo na voz de Garrett ou na pot\u00eancia da batida de Rob Hirst (61). A banda \u00e9 extremamente eficiente no palco, ensaiou mais de 70 can\u00e7\u00f5es para essa tour, est\u00e1 variando o repert\u00f3rio a cada show (inclusive, abarrotou o set de Curitiba de velharias e lados B), e o show de S\u00e3o Paulo foi o que mais concentrou hits na passagem pelo Brasil. N\u00e3o d\u00e1 para chama-los de pregui\u00e7osos. E como Hirst, Jim Mogine (guitarra e teclados), Martin Rotsey (guitarra) e Bones Hilman (baixo) nunca deixaram de tocar juntos, uns nos projetos dos outros, o entrosamento se mant\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Qual o problema ent\u00e3o? Talvez sejamos n\u00f3s. Naquele cen\u00e1rio de selfies e socializa\u00e7\u00e3o ensaiada, no qual a m\u00fasica era mero acess\u00f3rio, as can\u00e7\u00f5es se dilu\u00edam, e era dif\u00edcil lembrar-se da relev\u00e2ncia que elas pudessem ter. E olha que muitas can\u00e7\u00f5es, que podiam soar datadas antes, recuperam tristemente sua vig\u00eancia nesse tempo de preconceito, fechamento de fronteiras e conservadorismo (vide \u201cDreamworld\u201d e \u201cRead About It\u201d). Ou talvez seja mais dif\u00edcil enxergar o Oil do mesmo jeito depois das presepadas pol\u00edticas de Garrett ou de se dar conta que eles se renderam \u00e0s trucagens f\u00e1ceis do showbusiness para garantir uma aposentadoria tranquila \u2013 justo eles, ciosos carregadores de bandeiras de integridade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O show chega ao fim com uma saraivada de hits: \u201cUS Forces\u201d, \u201cThe Dead Heart\u201d, \u201cBeds Are Burning\u201d, \u201cForgotten Years\u201d e \u201cRead About It\u201d. As duas faixas de \u201c10, 9, 8,\u2026\u201d foram ignoradas pelo p\u00fablico, que voltou a criar muralhas de visores de LED durante os hits radiof\u00f4nicos. E \u2013 n\u00e3o deveria surpreender \u2013 muita gente deixou o Espa\u00e7o das Am\u00e9ricas ap\u00f3s \u201cBeds Are Burning\u201d, possivelmente porque j\u00e1 cantaram os hits que conheciam e n\u00e3o tinham porque estar ali.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com um espa\u00e7o f\u00edsico mais transit\u00e1vel, d\u00e1 para ficar mais \u00e0 vontade e testemunhar a banda fazer um grande bis, com \u201cPut Down That Weapon\u201d, \u201cNow or Never Land\u201d (com um timbre esquisito de teclado, mas que diabo, \u00e9 uma das melhores can\u00e7\u00f5es do Oil) e \u201cSometimes\u201d. Pela primeira vez no show, foi poss\u00edvel ver pessoas dan\u00e7ando, e alguns genuinamente emocionados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje, \u00e9 poss\u00edvel que a mensagem e o som do Midnight Oil caibam melhor em lugares onde sobre espa\u00e7o para aten\u00e7\u00e3o e catarse. Assim, vem mais f\u00e1cil sentir a felicidade de ver pela primeira vez o perfeito arranjo vocal de \u201cUnder the Overpass\u201d sendo executado ao vivo (nunca achei que veria Garrett e Bones num palco cantando aquele \u201cHallelujah\u201d). Tamb\u00e9m d\u00e1 para sentir o refr\u00e3o de \u201cSometimes\u201d tocar fundo no esp\u00edrito de luta, redescobrir a beleza de \u201cAntarctica\u201d ou entender pela primeira vez o poder de fogo de \u201cForgotten Years\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas tamb\u00e9m d\u00e1 para lamentar o setlist irregular, que desprezou os tr\u00eas primeiros \u00e1lbuns, os dois EPs, \u201cBreathe\u201d e \u201cThe Real Thing\u201d (precisava mesmo ter sete faixas de \u201cDiesel and Dust\u201d?). D\u00e1 para ficar apalermado com o merchandising oficial vagabundo e explorador. E certamente d\u00e1 para deixar de lado o set semiac\u00fastico com vers\u00f5es mais ou menos de can\u00e7\u00f5es que j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o grande coisa (\u201cWhen the Generals Talk\u201d e \u201cLuritja Way\u201d, e uma \u201cMy Country\u201d desacelerada e sem gra\u00e7a).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse misto de alegria e frustra\u00e7\u00e3o se alastra pelos dias seguintes. Afinal, o Midnight Oil poderia ter feito mais, sido mais. Infelizmente, decidiram fazer sua \u00faltima turn\u00ea dando ao p\u00fablico exatamente o que se espera deles. Comercialmente, faz sentido \u2013 e deu certo. J\u00e1 art\u00edstica e emocionalmente, deixou um tanto a desejar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-42706\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/oil3.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/oil3.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/oil3-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Leonardo Vinhas (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/#%21\/leovinhas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">@leovinhas<\/a>) assina a se\u00e7\u00e3o Conex\u00e3o Latina (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/tag\/conexao_latina\/\">aqui<\/a>) no Scream &amp; Yell.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"O Midnight Oil decidiu fazer sua \u00faltima turn\u00ea dando ao p\u00fablico exatamente o que se espera deles. 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