{"id":42685,"date":"2017-04-28T19:27:15","date_gmt":"2017-04-28T22:27:15","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=42685"},"modified":"2017-05-28T14:00:09","modified_gmt":"2017-05-28T17:00:09","slug":"entrevista-the-gift-2017","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2017\/04\/28\/entrevista-the-gift-2017\/","title":{"rendered":"Entrevista: The Gift (2017)"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>por <a href=\"http:\/\/twitter.com\/woorman\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Pedro Salgado, de Lisboa<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">O momento atual do The Gift pode ser descrito como uma onda em crescimento. A banda de Alcoba\u00e7a (centro de Portugal) cavalga no sucesso de cr\u00edtica e p\u00fablico do \u00e1lbum \u201cAltar\u201d (2017), produzido pelo lend\u00e1rio Brian Eno e mixado por Flood, alcan\u00e7ando o primeiro lugar dos tops iTunes e de vendas portugueses. Paralelamente, o \u00e1lbum obteve nota 8 em 10 da revista inglesa Uncut e o grupo recebeu a informa\u00e7\u00e3o de que o single \u201cBig Fish\u201d foi a can\u00e7\u00e3o mais tocada numa dezena de r\u00e1dios universit\u00e1rias americanas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na v\u00e9spera de um show no Centro Cultural de Bel\u00e9m, encontro-me com a dupla criativa do grupo (o tecladista Nuno Gon\u00e7alves e a vocalista S\u00f3nia Tavares), num hotel do Parque das Na\u00e7\u00f5es, em Lisboa, abordando a nova fase do quarteto, o processo criativo e a participa\u00e7\u00e3o de Brian Eno no disco \u201cAltar\u201d. O primeiro encontro com Eno aconteceu em 2011, durante a presen\u00e7a do The Gift no Rock In Rio. \u201cN\u00f3s est\u00e1vamos fazendo uma visita tur\u00edstica ao Afroreggae, uma ONG na favela de Vig\u00e1rio Geral (Rio de Janeiro), realizando um levantamento sobre trabalhos culturais e eu conheci-o a\u00ed\u201d, conta Nuno. Ap\u00f3s um novo encontro durante uma exposi\u00e7\u00e3o em S\u00e3o Paulo, o The Gift seguiu para Londres para remixar o \u00e1lbum \u201cExplode\u201d (2011), Eno assistiu a um show da banda e a amizade entre ambos cresceu. Finalmente, em 2014, S\u00f3nia Tavares perguntou-lhe se gostaria de produzir o novo trabalho da banda e Brian Eno respondeu: \u201cI Think we\u00b4ll have a lot of fun\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A grava\u00e7\u00e3o do disco decorreu na pequena aldeia espanhola de Meder, na regi\u00e3o da Galiza, correspondendo ao desejo do quarteto em trabalhar num ambiente isolado, relaxante, com paisagens naturais e a pouca dist\u00e2ncia da cidade do Porto (Portugal), onde se encontrava o material que foi utilizado no est\u00fadio. \u201cAltar\u201d beneficiou claramente do ambiente tranquilo em que o The Gift e Brian Eno trabalharam, conciliando o experimentalismo com elementos classicistas, que se evidenciam no \u00f3timo single \u201cLove Without Violins\u201d, contemplando o lado eletr\u00f4nico do grupo (\u201cI Loved It All\u201d), a festividade de \u201cMalifest\u201d ou o radio friendly de \u201cYou Will Be Queen\u201d. Outra das boas faixas do trabalho \u00e9 a balada \u201cVitral\u201d, conjugando a f\u00e9 com a simplicidade e apresentando um desenvolvimento interessante. \u201cN\u00f3s escrevemos as palavras \u201cIt should be alright now\u201d, quase como condu\u00e7\u00e3o do tema, sugerindo que algo aconteceu \u00e0 figura da can\u00e7\u00e3o e o Brian Eno desenhou no quadro uma pessoa acamada que em breve iria ficar bem. Depois perguntou-nos se a cama do hospital tinha ou n\u00e3o um crucifixo em cima da cabe\u00e7a do personagem. N\u00f3s decidimos colocar uma cruz e ele completou a frase acrescentando: \u201cand Jesus is looking down\u201d e a partir da\u00ed a can\u00e7\u00e3o come\u00e7ou\u201d, conta S\u00f3nia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Durante uma passagem recente pelo Rio de Janeiro, o The Gift gravou o clipe de \u201cBig Fish\u201d, no bairro de Santa Teresa, baseado num script que Nuno Gon\u00e7alves e S\u00f3nia Tavares fizeram com a realizadora brasileira Duda Almeida (com quem trabalharam no Rock In Rio de 2011). \u201cPretend\u00edamos um cen\u00e1rio quente e colorido que era imposs\u00edvel de encontrar em Portugal no m\u00eas de Janeiro. Para al\u00e9m disso, o Nuno teve a ideia que eu cantasse com duas partners e convid\u00e1mos uma dupla glamourosa de drag queens, as Deendjers, de Curitiba\u201d, explica S\u00f3nia. A festividade do v\u00eddeo teve o objetivo de acompanhar o The Gift at\u00e9 ao lan\u00e7amento do disco e celebrar a chegada da primavera e do ver\u00e3o em Portugal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobre a mensagem de \u201cAltar\u201d, Nuno Gon\u00e7alves sublinha uma ideia de f\u00e9 no trabalho atual e futuro da banda. \u201cAcredito desde 1994 que o destino do The Gift est\u00e1 tra\u00e7ado h\u00e1 muitos anos. N\u00e3o passa por nada mais do que seguir a m\u00fasica, as pessoas que gostam dela e deixarmo-nos guiar por este movimento de ascens\u00e3o do grupo\u201d, afirma. Quanto \u00e0 ades\u00e3o do p\u00fablico ao novo trabalho, S\u00f3nia Tavares refere: \u201cOs nossos f\u00e3s portugueses est\u00e3o garantidos, eles assistem aos shows e sentimos muita recetividade sobre a nova fase\u201d. Relativamente ao impacto internacional a cantora revela mais confian\u00e7a: \u201cAcreditamos que este \u00e1lbum vai cativar muitas pessoas no exterior. \u00c9 natural que o trabalho com Brian Eno seja um \u00f3timo cart\u00e3o de visita e que o p\u00fablico tente descobrir o Altar, mas tamb\u00e9m a anterior discografia\u201d, conclui. De Lisboa para o Brasil, The Gift <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/tag\/the-gift\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">conversou mais uma vez<\/a> com o Scream &amp; Yell. Confira:<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/zQt9eB8oOEE?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Porque demoraram cinco anos para gravar um novo disco?<\/strong><br \/>\nTudo por boas raz\u00f5es. Em primeiro lugar, est\u00e1vamos fazendo um tour que teimava em n\u00e3o acabar, porque os convites eram incessantes. Para al\u00e9m disso, t\u00ednhamos uma comemora\u00e7\u00e3o dos 20 anos de carreira em m\u00e3os e ach\u00e1vamos que os dev\u00edamos celebrar com pompa e circunst\u00e2ncia. Fizemos uma edi\u00e7\u00e3o comemorativa com um livro, uma caixa, grava\u00e7\u00f5es e m\u00fasicas novas, bem como a digress\u00e3o da colet\u00e2nea \u201c20\u201d, porque sentimos que trabalhando com o Brian Eno n\u00e3o nos interessava estar fechados num est\u00fadio durante 15 dias ou um m\u00eas e editar apenas o que fosse produzido nesse per\u00edodo. Pretend\u00edamos estar relaxados durante v\u00e1rias por\u00e7\u00f5es de tempo, espalhadas por dois anos e meio (foi o que aconteceu) e o aspeto chave deste disco foi o fato de irmos apurando as can\u00e7\u00f5es e esse lado mais tranquilo e assertivo verificou-se no final.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Em \u201cAltar\u201d, destaco a intemporalidade das can\u00e7\u00f5es e sinto que voc\u00eas se conseguiram reinventar em termos sonoros. Concordam?<\/strong><br \/>\nSim, concordamos. Num disco novo temos sempre algo diferente para dizer. Se falamos de algo que n\u00e3o fazemos h\u00e1 muito tempo a\u00ed discordamos. No \u00e1lbum \u201cPrimavera\u201d (2012), fizemos um trabalho despido de arranjos, que basicamente vivia das teclas brancas e pretas do piano e da voz da S\u00f3nia e no disco anterior, \u201cExplode\u201d (2011), usamos mais guitarras e programa\u00e7\u00f5es cruas, por isso existe sempre algo de novo nos trabalhos do The Gift. No \u201cAltar\u201d, o patamar foi mais elevado, porque o Brian Eno comandou as nossas inten\u00e7\u00f5es, deixamo-nos levar pelo esp\u00edrito experimentalista dele e sentimos que era necess\u00e1rio que assim fosse. Uma banda com 22 anos de carreira precisa de est\u00edmulos e esses impulsos quase nunca s\u00e3o dados por tend\u00eancias, modas ou pelo p\u00fablico. O Brian soube comandar a banda para um n\u00edvel mais profundo. \u00c0s vezes ele conduzia-nos a lugares em que nem sequer sabia por que nos levava para l\u00e1, mas sentia que esse ponto lhe daria uma resposta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Relativamente ao trabalho com ele, o que vos impressionou mais?<\/strong><br \/>\nNa realidade impressionou-nos tudo (risos). Para al\u00e9m de ele ser uma pessoa bastante profissional e perfeccionista com toda a arte que faz (e n\u00e3o s\u00f3 a m\u00fasica), o Brian \u00e9 uma pessoa af\u00e1vel e tem um senso de humor fant\u00e1stico. \u00c9 um indiv\u00edduo inteligente, culto e com imensas hist\u00f3rias para contar. A experi\u00eancia que n\u00f3s tivemos com ele englobou tudo isso. Escutamos m\u00fasica que nunca t\u00ednhamos ouvido, conhecemos a hist\u00f3ria da m\u00fasica e come\u00e7amos a ter uma vis\u00e3o diferente sobre as nossas pr\u00f3prias can\u00e7\u00f5es. Outro aspecto positivo do trabalho com ele resultou do fato de nos colocarmos um pouco de fora para perceber o que os temas precisavam, reescrevendo letras que estavam de parte, as quais sent\u00edamos n\u00e3o termos grande imagina\u00e7\u00e3o para continuar a desenvolv\u00ea-las. Foi uma aprendizagem nova e houve um ponto em que nos sent\u00e1mos, quase como alunos da escola, enquanto ele escrevia as suas ideias num quadro branco e isso aumentou a nossa produtividade. Emotivamente foi incr\u00edvel, pelo passado que ele tem e pelas hist\u00f3rias que contou do David Bowie e do \u201ccoast to coast\u201d que fez com o David Byrne. Essa experi\u00eancia est\u00e1 na base do \u201cAltar\u201d ser um disco t\u00e3o feliz na sua constru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/dx76zqb-XeA?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Gostei bastante de \u201cLove Without Violins\u201d. Em que se inspiraram para compor este tema?<\/strong><br \/>\nO princ\u00edpio da can\u00e7\u00e3o parecia-nos bastante escuro. A estrutura prim\u00e1ria da m\u00fasica era muito tensa e divergia das epopeias musicais que gostamos de fazer com orquestras. A partir de meia d\u00fazia de palavras (escritas por S\u00f3nia Tavares), o Brian achou que estavamos a falar de um amor negro e fizemos uma pesquisa na Internet sobre rela\u00e7\u00f5es de amor constrangedoras, no fundo menos vis\u00edveis. Pensamos no universo das dominatrix, mistress, de dominados, masoquismo e conseguimos encontrar um grupo muito engra\u00e7ado na Internet, que s\u00e3o as novas dominatrix \u00e0 dist\u00e2ncia. Tudo aquilo se passa com palavreado, imagens e v\u00eddeo. \u00c9 algu\u00e9m que oferece o seu amor em troca de desprezo e n\u00f3s achamos muita piada a esse caminho. O \u201cLove Without Violins\u201d surge com a perspetiva da mulher que domina e do homem que \u00e9 dominado no final, mas continua apaixonado. \u00c9 apenas uma maneira diferente de lidar com a emo\u00e7\u00e3o do amor, aquele que est\u00e1 mais escondido e n\u00e3o tem violinos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A turn\u00ea de \u201cAltar\u201d tamb\u00e9m passar\u00e1 pelo Brasil. Gostaria de saber onde v\u00e3o atuar e quais s\u00e3o as vossas expetativas?<\/strong><br \/>\nAinda n\u00e3o temos datas fixas ou agendadas e o calend\u00e1rio est\u00e1 sendo reajustado. Pretendemos fazer shows em S\u00e3o Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Porto Alegre. \u00c9 bem prov\u00e1vel que o tour seja no princ\u00edpio de Junho (\u00e9 a altura que temos livre para fazer essa digress\u00e3o). Estamos muito contentes por voltar ao Brasil e isso est\u00e1 presente nos dados estat\u00edsticos que recebemos nas nossas redes sociais. O Brasil \u00e9 um dos pa\u00edses que melhor reagiu \u00e0 nova fase do The Gift e estamos esperan\u00e7ados que ser\u00e1 um territ\u00f3rio chave na estrat\u00e9gia do grupo. Pretendemos responder com m\u00fasica ao carinho que recebemos de l\u00e1. Existem muitos m\u00fasicos brasileiros tocando em Portugal, mas nem sempre acontece a mesma resposta da nossa parte e achamos que podemos assumir um papel interessante nessa vertente. Sem ser o fado, existem poucas bandas portuguesas atuando no Brasil e faz todo sentido aparecer l\u00e1, porque comunicamos na mesma l\u00edngua. H\u00e1 um lado independente e bastante apelativo no nosso trabalho e est\u00e3o reunidas as condi\u00e7\u00f5es para que tudo corra bem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Que objetivo vos falta concretizar?<\/strong><br \/>\nQuando estavamos no s\u00f3t\u00e3o do Miguel Ribeiro (guitarrista e baixista), em 1994, na cidade de Alcoba\u00e7a, o nosso objetivo era tocar no Bar Ben, porque era o expoente m\u00e1ximo para a banda nessa \u00e9poca. Depois de tocar l\u00e1 achamos que o Mosteiro de Alcoba\u00e7a era o passo seguinte, porque sentimos que chegar\u00edamos a mais pessoas do que no Bar Ben. Posteriormente, pensamos que seria legal atuar no Espa\u00e7o Sete \u00e0s Nove, do Centro Cultural de Bel\u00e9m (CCB), em Lisboa, porque despertar\u00edamos a aten\u00e7\u00e3o da m\u00eddia e de mais p\u00fablico fora do circuito de Alcoba\u00e7a e assim sucessivamente, at\u00e9 que chegamos ao momento atual. Por isso, na tour de \u201cAltar\u201d, pretendemos esgotar o CCB e o Bush Hall, em Londres, dar uma boa impress\u00e3o no The Great Escape, em Brighton, esgotar pela primeira vez o Maschinenhaus, em Berlim e conseguir uma sala maior. O objetivo do The Gift sempre foi o de chegar a mais gente, nunca comprometendo a qualidade da m\u00fasica e aquilo que nos faz sentir bem enquanto artistas.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/m4k6nOwwOrw?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Pedro Salgado (siga <a href=\"http:\/\/twitter.com\/woorman\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">@woorman<\/a>) \u00e9 jornalista, reside em Lisboa e colabora com o Scream &amp; Yell contando novidades da m\u00fasica de Portugal. Veja outras entrevistas de Pedro Salgado <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/tag\/portugal\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">aqui<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Elogios na Uncut, m\u00fasica tocando em alta rota\u00e7\u00e3o em college radios nos EUA e um disco produzido por Brian Eno. 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