{"id":42543,"date":"2017-04-17T02:01:09","date_gmt":"2017-04-17T05:01:09","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=42543"},"modified":"2022-09-22T00:22:41","modified_gmt":"2022-09-22T03:22:41","slug":"os-10-primeiros-filmes-de-godard","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2017\/04\/17\/os-10-primeiros-filmes-de-godard\/","title":{"rendered":"Os 10 primeiros filmes de Jean-Luc Godard"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>por Marcelo Costa<\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">G\u00eanio, provocador e revolucion\u00e1rio, Jean-Luc Godard mudou o curso da hist\u00f3ria do cinema com seu filme de estreia, \u201cAcossado\u201d (1960), uma rara obra em sua filmografia que sobrevive acima do bem e do mal no Fla x Flu do ame-o ou odeie. Suas obras que vieram na sequencia, por\u00e9m, navegam num oceano de clich\u00eas reducionistas por parte dos detratores que elevam termos com \u201ccabe\u00e7udo\u201d e \u201cchato\u201d ao status de arte. Com uma carreira vast\u00edssima (seu primeiro curta, \u201cOpera\u00e7\u00e3o Concreto\u201d, data de 1954; seu trabalho mais recente, o longa \u201cAdeus a Linguagem\u201d, \u00e9 de 2014), se perder na obra de Godard \u00e9 um risco s\u00e9rio, mas h\u00e1 algumas pistas que podem facilitar o caminho de interessados, como atentar-se \u00e0s suas fases:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A primeira, como define Ruy Gardnier no excelente cat\u00e1logo da Retrospectiva Jean-Luc Cinema Godard, que aconteceu em S\u00e3o Paulo em 2015 (<a href=\"https:\/\/ccbb.com.br\/programacao-digital\/acervo-digital\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">baixe o cat\u00e1logo aqui<\/a>), \u00e9 a Fase Pop, que outros chamam de Primeira Nouvelle Vague, e compreende exatamente os 10 filmes abaixo e praticamente todo o per\u00edodo em que Godard foi casado com a atriz Anna Karina, sua musa presente em sete dos 12 primeiros filmes entre 1960 a 1966 \u2013 seis deles integrantes desta primeira fase. \u201cMade in USA\u201d (1966), o s\u00e9timo e \u00faltimo, integra o primeiro per\u00edodo de transi\u00e7\u00e3o do cineasta, do qual ainda fazem parte \u201cMasculino e Feminino\u201d (1966), \u201cDuas Ou Tr\u00eas Coisas Que Sei Dela\u201d, \u201cA Chinesa\u201d e \u201cWeek-End \u00e0 Francesa\u201d, os tr\u00eas de 1967.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir de 1968 come\u00e7a a Fase Militante (ou de Filmes Pol\u00edticos), que se seguir\u00e1 at\u00e9 1972 (e da qual faz parte os filmes \u201cOne Plus One\u201d e \u201cSympathy for the Devil\u201d, <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2007\/11\/03\/jean-luc-godard-e-os-rolling-stones\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">sobre a grava\u00e7\u00e3o da can\u00e7\u00e3o dos Stones<\/a> \u2013 na verdade, sobre muitas outras coisas com a can\u00e7\u00e3o como pano de fundo). Outro per\u00edodo de transi\u00e7\u00e3o surge entre 1974 e 1978 e, ent\u00e3o, Godard entra na Segunda Nouvelle Vague, que, segundo alguns estudiosos, vai de 1979 a 1988 (e engloba filmes como \u201cSalve-se Quem Puder\u201d, 1980; \u201cCarmen de Godard\u201d, 1983; \u201cJe Vous Salue, Marie\u201d, 1985; \u201cDetetive\u201d, 1985; e \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/2015\/05\/07\/king-lear-na-versao-de-jean-luc-godard\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Rei Lear<\/a>\u201d \u2013 al\u00e9m de \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/2015\/05\/05\/jean-luc-godard-entrevista-woody-allen\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Meetin&#8217; WA<\/a>\u201d, sobre Woody Allen, ambos de 1987). De 1989 at\u00e9 os dias de hoje, Godard vive sua quarta fase cinematogr\u00e1fica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os 10 filmes listados abaixo somam cinco anos de trabalho do cineasta, que, al\u00e9m, filmou mais de 15 curtas neste primeiro per\u00edodo (da Fase Pop). Nestes 10 filmes, Godard vai do romance policial (\u201cAcossado\u201d) \u00e0 com\u00e9dia rom\u00e2ntica feminista (\u201cUma Mulher \u00e9 Uma Mulher\u201d); do filme de guerra (\u201cTempo de Guerra\u201d e \u201cUm Pequeno Soldado\u201d) ao drama pessoal \u2013 e social (\u201cViver a Vida\u201d, \u201cO Desprezo\u201d e \u201cUma Mulher Casada\u201d); da fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica (\u201cAlphaville\u201d) ao cinema policial (\u201cBande a Parte\u201d) ao road movie (\u201cO Dem\u00f4nio das 11 Horas\u201d). Em todos os casos, o cineasta franc\u00eas apenas se apropria do estilo e o utiliza como um trampolim para subverter o cinema e criar algo novo, provocante, palpitante, genial. Abra os olhos (o cora\u00e7\u00e3o e a cabe\u00e7a) e mergulhe.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/acossado.jpg\"><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cAcossado\u201d (\u201c\u00c0 Bout de Souffle\u201d, 1960)<\/strong><br \/>\nA partir de um argumento de Fran\u00e7ois Truffaut, Godard homenageia o cinema b americano (Truffaut havia feito o mesmo com \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/09\/06\/filmografia-comentada-francois-truffaut\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Atirem no Pianista<\/a>\u201d tamb\u00e9m de 1960) contando uma hist\u00f3ria batida, ainda que nobre e tr\u00e1gica: Michel (o feio bonito Jean-Paul Belmondo), um malandro que passa o dia aplicando golpes sujos (Marcos, personagem de Ricardo Darin em \u201cNove Rainhas\u201d, \u00e9 irm\u00e3o de alma) acaba assassinando um policial. Ele volta a Paris e tenta convencer a namorada norte-americana Patricia a fugir com ele (quantos meninas cortaram o cabelo curto para imitar Jean Seberg na \u00e9poca? Em qualquer sexta no Globo Rep\u00f3rter). Ela tem d\u00favidas se o ama, e ele, apaixonado, est\u00e1 cansado de fugir, mas o cerco se fecha, ela o denuncia e&#8230; n\u00e3o se preocupe com a obviedade, pois a hist\u00f3ria n\u00e3o importa tanto, mas sim a maneira (totalmente desconstru\u00edda) com que Godard a conta. A l\u00f3gica da trama \u00e9 simples: \u201cDedos duro deduram; assaltantes assaltam, assassinos assassinam, amantes amam: \u00e9 normal\u201d, diz Michel em certo momento. Poucos filmes na hist\u00f3ria do cinema s\u00e3o t\u00e3o urgentes, revolucion\u00e1rios e, ao mesmo tempo, retratos de \u00e9poca e atuais quanto esta estreia de Jean-Luc Godard em 1960. \u201cAcossado\u201d valoriza a liberdade da filmagem, a for\u00e7a da montagem (recortada e acelerada) e a grande atua\u00e7\u00e3o dos atores num daqueles filmes em que a forma, provocativa e instigante, parece sobrepor-se ao conte\u00fado, mas Godard, aparentemente nonsense, deixa frases soltas que ficam ressoando por dias. Uma obra prima obrigat\u00f3ria para ser ver, no m\u00ednimo, uma vez por ano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/soldado.jpg\"><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cUm Pequeno Soldado\u201d (\u201cLe Petit Soldat\u201d, 1960)<\/strong><br \/>\nA parceria de Jean-Luc Godard com Anna Karina (que ir\u00e1 totalizar sete dos doze primeiros filmes do cineasta franc\u00eas entre 1960 a 1966) come\u00e7a em \u201cLe Petit Soldat\u201d, que Godard filmou na sequencia de \u201cAcossado\u201d, em 1960, tendo como pano de fundo a Guerra da Arg\u00e9lia \u2013 entre 1954 e 1962, argelinos lutaram para tornar o pa\u00eds independente da Fran\u00e7a. Censurado pelo governo franc\u00eas por exibir cenas de tortura referenciando tanto a Frente de Liberta\u00e7\u00e3o Nacional da Arg\u00e9lia quanto ao Comando Antiterrorista de Direita franc\u00eas e repudiado tanto pela Esquerda quanto pela Direita francesa (ou seja, atirando para todos os lados), o filme s\u00f3 chegou aos cinemas em 1963 (tr\u00eas anos depois) exibindo um rapaz refletindo e se questionando por estar perdido em seu pr\u00f3prio espa\u00e7o tempo, querendo desertar e abandonar uma guerra em que n\u00e3o acredita enquanto se apaixona por uma revolucion\u00e1ria da fac\u00e7\u00e3o contraria (Anna Karina) e sonha fugir com ela deixando tudo para tr\u00e1s e recome\u00e7ando a vida no Brasil. Esse \u00e9 o filme da famosa frase \u201cA fotografia \u00e9 a verdade. E o cinema \u00e9 a verdade 24 vezes por segundo\u201d e funciona como um delicado retrato de \u00e9poca, com uma juventude rom\u00e2ntica, confusa e despolitizada que n\u00e3o se sentia representada pela extrema viol\u00eancia que a cercava: \u201cAt\u00e9 aqui minha hist\u00f3ria tem sido simples: a hist\u00f3ria de um sujeito sem ideal. E amanh\u00e3?\u201d, comenta Bruno Forestier (Michel Subor) logo na abertura do filme, que mant\u00e9m a radicaliza\u00e7\u00e3o da c\u00e2mera na m\u00e3o da estreia enquanto o roteiro cria um interessante painel: Bruno mostra paix\u00e3o pelas cores, mas seu mundo \u00e9 preto e branco. Um \u00f3timo filme!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/mulher.jpg\"><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cUma Mulher \u00e9 Uma Mulher\u201d (\u201cUne Femme est Une Femme\u201d, 1961)<\/strong><br \/>\nHanna Karin Blarke Bayer chegou a Paris com 17 anos (1957) e logo o diretor Jean-Luc Godard se viu apaixonado por ela. Ele a queria para \u201cAcossado\u201d (1960), mas a jovem top model dinamarquesa n\u00e3o aceitou o papel devido a um nu exigido pelo roteiro (que ficou de fora da vers\u00e3o final do filme). Ele n\u00e3o desistiu: casou-se com ela, que passou a ser o principal rosto da Nouvelle Vague. Sua estreia sob as lentes de Godard foi em \u201cUm Pequeno Soldado\u201d (1960), que ficou retido na censura, mas \u00e9 com \u201cUma Mulher \u00e9 Uma Mulher\u201d (o terceiro filme de Godard e seu primeiro longa em cores) que Anna Karina desponta para o mundo ganhando o Urso de Prata de Melhor Atriz em Berlim. Homenagem singela aos musicais norte-americanos, \u201cUma Mulher \u00e9 Uma Mulher\u201d \u00e9 uma com\u00e9dia doce, descompromissada, adolescente e leve que conta a hist\u00f3ria da stripper Angela (Anna Karina). Ela vive um relacionamento conturbado e apaixonado com \u00c9mile (Jean-Claude Brialy) enquanto \u00e9 cortejada pelo melhor amigo do marido, Alfred (Jean-Paul Belmondo). Feminista por in\u00e9rcia, (\u201cSou uma f\u00eamea, n\u00e3o uma infame\u201d), Angela quer ter filhos, \u00c9mile n\u00e3o, e isso \u00e9 pretexto para algumas situa\u00e7\u00f5es provocativas do roteiro, como o marido oferec\u00ea-la para passantes na rua (\u201cPor favor, voc\u00ea poderia engravidar a minha mulher?\u201d). Destaque para a trilha invasiva de Michel Legrand, para o roteiro apaixonado (e feminista) de Godard e para Jeanne Moreau, que faz uma ponta, num bar, contando que est\u00e1 filmando\u2026 \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/09\/06\/filmografia-comentada-francois-truffaut\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Jules et Jim<\/a>\u201d. Um filme simples e eficiente (como Godard raramente seria daqui pra frente) que mant\u00e9m seu charme.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/viveravida.jpg\"><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cViver a Vida\u201d (\u201cVivre Sa Vie\u201d, 1962)<\/strong><br \/>\nNo quarto filme de Godard (o terceiro em sequencia estrelado pela esposa), Anna Karina vive o papel de Nana, uma garota sonhadora de 20 anos que trabalha em uma loja de discos e deixa marido e filho para tentar realizar o sonho de ser atriz, n\u00e3o consegue e acaba precisando se prostituir para sobreviver \u2013 indo de novata a profissional. Pr\u00eamio do J\u00fari em Veneza, \u201cViver a Vida\u201d \u00e9 dividido em 12 pequenos atos que permitem a Godard fragmentar a hist\u00f3ria e divertir-se em cenas que trazem seus personagens de costas para a c\u00e2mera, como a genial abertura, uma longa conversa no balc\u00e3o de um bar em que Nana rompe com o marido. Nana flutua entre o ing\u00eanuo sonhador e o sil\u00eancio contemplativo enquanto Godard explica em detalhes a profiss\u00e3o de prostituta na Fran\u00e7a (leis, pol\u00edcia, quanto ganha, quem atender, onde circular, como usar o quarto, etc\u2026) numa met\u00e1fora das rela\u00e7\u00f5es sociais, num plano mais amplo, e das rela\u00e7\u00f5es no pr\u00f3prio cinema (de ator e diretor), num plano mais fechado, questionando a import\u00e2ncia da verbaliza\u00e7\u00e3o: \u201cQuanto mais falamos, menos as palavras significam\u201d, ela diz. Depois pergunta a um fil\u00f3sofo: \u201cAs palavras nos traem?\u201d e ganha como resposta: \u201cN\u00f3s nos tra\u00edmos\u201d. Ela questiona o amor, e o fil\u00f3sofo diz que ningu\u00e9m com 20 anos pode entend\u00ea-lo. O olhar de Nana atravessa a c\u00e2mera (a atriz e sua personagem questionando o marido cineasta e o pr\u00f3prio p\u00fablico). Ela encontrou o amor (Godard tamb\u00e9m), mas o destino ser\u00e1 cruel\u2026 no cinema. Um dos melhores Godard da primeira fase (fresco e atual mesmo hoje).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/guerra.jpg\"><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cTempo de Guerra\u201d (Les Carabiniers, 1963)<\/strong><br \/>\nUma com\u00e9dia nonsense sobre as mentiras da guerra, \u201cLes Carabiniers\u201d se passa em um pa\u00eds imagin\u00e1rio, local em que uma fam\u00edlia camponesa bastante pobre (uma m\u00e3e com uma filha e dois filhos) recebe a visita de soldados do rei com uma carta de convoca\u00e7\u00e3o: os dois homens precisam se alistar para ir \u00e0 guerra. Nenhum dos dois se interessa pelo \u201cconvite\u201d do rei, mas os soldados iniciam um processo de sedu\u00e7\u00e3o que acaba por convencer os garotos: \u201cVoc\u00eas podem ter tudo o que quiserem! Tudo que saquearem na guerra ser\u00e1 de voc\u00eas!\u201d, eles prometem. E os garotos questionam: \u201cPodemos ter mulheres? Rolls Royces? Elefantes? F\u00e1bricas de chocolate? Avi\u00f5es?\u201d. \u201cSim\u201d, respondem os soldados. \u201cPodemos quebrar o bra\u00e7o de crian\u00e7as? Massacrar inocentes? E sair dos restaurantes sem pagar?\u201d. \u201cSim\u201d, respondem os soldados. Convencidos, os dois irm\u00e3os partem para a guerra e enviam postais para a m\u00e3e e para irm\u00e3: \u201cDeixamos atr\u00e1s de n\u00f3s um rastro de sangue e morte. Beijos carinhosos\u201d. Em outro: \u201cEspalhamos a morte nas fam\u00edlias, cumprimos nossa miss\u00e3o sanguin\u00e1ria. Estamos t\u00e3o felizes com o ver\u00e3o\u201d. A saga termina com o rei assinando um tratado de paz com a na\u00e7\u00e3o vizinha que condena como criminosos de guerra todos os homens que lutaram pela p\u00e1tria. Desta forma, os irm\u00e3os s\u00e3o fuzilados. Cinco anos antes de maio de 68, Godard vislumbra a for\u00e7a dos estudantes (que resistem aos espi\u00f5es do rei e a pol\u00edcia) nessa colagem recortada e desfocada chamada \u201cTempo de Guerra\u201d, um filme nonsense, experimental e dif\u00edcil que fracassou nos cinemas, mas carrega uma ingenuidade comovente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/desprezo.jpg\"><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cO Desprezo\u201d (\u201cLe M\u00e9pris\u201d, 1963)<\/strong><br \/>\nGodard retorna ao cinema \u201ctradicional\u201d neste que \u00e9 seu primeiro filme fora da Fran\u00e7a com as filmagens se dividindo entre a m\u00edtica Cinecitt\u00e0, em Roma, e a bel\u00edssima <a href=\"http:\/\/www.thegildedowl.com\/casa-malaparte-capri\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Casa Malaparte<\/a>, com as rochas Faraglioni ao fundo incrustadas no Golfo de Salerno, na Ilha de Capri. Um quinteto de personagens divide a tela: Jeremy \u00e9 um produtor arrogante e mulherengo (Jack Palance) que bate de frente com o diretor Fritz Lang (interpretando a si mesmo), contratado para filmar a \u201cOdisseia\u201d, de Homero, e escala o roteirista Paul (Michel Piccoli) para mexer no roteiro \u2013 de olho em sua bela esposa Camille (Brigitte Bardot no auge). Um dos temas caros do cineasta \u2013 a mercantiliza\u00e7\u00e3o da mulher \u2013 \u00e9 sugerido aqui: Jeremy notadamente interessado por Camille convida o casal para ir \u00e0 sua casa discutir ideias para o filme. No carro, por\u00e9m, cabe apenas uma pessoa, e Paul pede para Camille acompanhar Jeremy enquanto ele segue de t\u00e1xi \u2013 mas passa por imprevistos e demora no trajeto. Camille, ent\u00e3o, se sente \u201cdoada\u201d a Jeremy, e imagina que seu marido armou a situa\u00e7\u00e3o para ela ficar a s\u00f3s com o produtor, o que garantiria o trabalho. Come\u00e7a assim uma espiral de afastamento do casal e desprezo: ela j\u00e1 n\u00e3o quer mais dormir com o marido, e como puni\u00e7\u00e3o a ele cede \u00e0s investidas do produtor. Outro dos grandes filmes desta primeira fase de Godard, \u201cO Desprezo\u201d traz uma frase cl\u00e1ssica \u2013 \u201cQuando ou\u00e7o a palavra cultura, puxo o meu tal\u00e3o de cheques; Anos atr\u00e1s, quando os hitleristas ouviam a palavra cultura, puxavam o revolver\u201d \u2013 que inspirou uma m\u00fasica da banda paulistana Fellini (<a href=\"https:\/\/fellini.bandcamp.com\/track\/cultura\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">ou\u00e7a<\/a>). Um cl\u00e1ssico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/bande.jpg\"><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cBande \u00e0 Part\u201d (\u201cBande \u00e0 Part\u201d, 1964)<\/strong><br \/>\nDois outsiders conhecem uma garota (Anna Karina, aqui de cabelos compridos e postura adolescente n\u00e3o exalando a sensualidade a flor da pele de \u201cViver a Vida\u201d e \u201cUma Mulher \u00e9 Uma Mulher\u201d), que conta a um deles que seu tio tem uma fortuna guardada dentro do guarda-roupa (sem tranca, chave, cadeado, nada). J\u00e1 imaginou o filme inteiro, certo? A forma sobrep\u00f5e o conte\u00fado em \u201cBande \u00e0 Part\u201d, mas h\u00e1 subtextos interessantes: se a \u00e9pica \u201cOdisseia\u201d de Homero movimenta o filme exatamente anterior, \u201cO Desprezo\u201d, aqui Godard opta por adaptar \u201cFool&#8217;s Gold\u201d (1958), romance policial barato da americana Dolores Hitchens, e explica (atrav\u00e9s de uma professora) no come\u00e7o do filme que cl\u00e1ssico e moderno s\u00e3o equivalentes. Ele usa e abusa do estilismo em v\u00e1rias passagens que ainda soam geniais mesmo sem o contexto de \u00e9poca (repeti\u00e7\u00f5es de fala, c\u00e2mera tremida, improvisa\u00e7\u00f5es e a brilhante cena do literal \u201cum minuto de sil\u00eancio\u201d al\u00e9m da dan\u00e7a, que Godard j\u00e1 havia explorado delicadamente em \u201cViver a Vida\u201d, mas que soa muito melhor resolvida aqui), mas que se perdem em uma hist\u00f3ria (quase) previs\u00edvel: a radicaliza\u00e7\u00e3o\/desconstru\u00e7\u00e3o visual n\u00e3o tem um complemento textual \u00e0 altura, o que n\u00e3o impede deste ser um dos filmes mais amados da primeira fase do diretor pelos f\u00e3s. Ainda assim, o tri\u00e2ngulo amoroso consegue cativar o espectador que fica aguardando o desenlace fat\u00eddico. O quase entre par\u00eanteses tem seu motivo: por mais previs\u00edvel que o roteiro (de centenas de filmes franceses) seja(m), Godard consegue fugir do estere\u00f3tipo no desencadear da trama deixando para o espectador um final levemente surpreendente. Detalhe: o nome da produtora do cineasta Quentin Tarantino \u00e9&#8230; A Band Apart.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/casada.jpg\"><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cUma Mulher Casada\u201d (\u201cA Married Woman\u201d, 1964)<\/strong><br \/>\nSe a improvisa\u00e7\u00e3o e o tom alegre juvenil movem \u201cBande \u00e0 Part\u201d, \u201cUma Mulher Casada\u201d opta pela via contr\u00e1ria utilizando a frieza e a falta de emo\u00e7\u00e3o. A primeira vista, o roteiro \u00e9 t\u00e3o \u00f3bvio quanto o do filme anterior: uma mulher, Charlotte, est\u00e1 dividida entre o amor que sente pelo marido aviador que passa longos per\u00edodos longe de casa e pelo amante ator. Para complicar, est\u00e1 gr\u00e1vida, e n\u00e3o sabe qual deles \u00e9 o pai. O plot simplista, por\u00e9m, n\u00e3o impede Godard de desconstruir com eleg\u00e2ncia uma obra cujo cerne est\u00e1 no subtexto e na forma fria em que o romance (nada rom\u00e2ntico) se desenvolve neste triangulo amoroso (sem amor). O foco do cineasta \u00e9 uma cr\u00edtica ao capitalismo atrav\u00e9s do adult\u00e9rio, que aqui resulta da sociedade de consumo, e os personagens, apresentados em fragmentos de closes frios (m\u00e3os, costas, pernas, olhos, an\u00fancios, eu te amos, mentiras), algo que o PB amplia, s\u00e3o meros objetos negociados por um sistema que sustenta esse capitalismo. Em muitos momentos, Charlotte, a mulher casada (Macha M\u00e9ril), se v\u00ea envolvida por an\u00fancios de publicidade (a grande maioria de suti\u00e3s) e num trecho direto apresenta, na companhia do marido, sua casa a um amigo como se ela fosse um objeto \u00e0 venda. Tudo, inclusive ela pr\u00f3pria, est\u00e1 \u00e0 venda. Na trama, o discurso amoroso nada tem de amor afinal tanto ele quanto o sexo s\u00e3o apenas objetos de consumo que replicam clich\u00eas de felicidade. N\u00e3o \u00e9 a toa que \u201cUma Mulher Casada\u201d \u00e9 o primeiro filme a mencionar no cinema o exterm\u00ednio dos judeus nos campos de concentra\u00e7\u00e3o nazistas. Na sociedade do consumo, a banalidade do mal impera e o eu suplanta o social. Um pequeno grande filme para se prestar aten\u00e7\u00e3o aos detalhes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/alphaville.jpg\"><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cAlphaville\u201d (\u201cAlphaville\u201d, 1964)<\/strong><br \/>\nNono filme de Jean-Luc Godard (em quatro anos!), \u201cAlphaville\u201d foi lan\u00e7ado em 1964, mesmo ano de \u201cA Mulher Casada\u201d e \u201cBande \u00e0 Part\u201d (este tamb\u00e9m com Anna Karina), tendo ido mais longe ao ganhar o Urso de Ouro em Berlim, 1965. \u00c9 uma trama de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica dist\u00f3pica noir em que o personagem central, o anti-her\u00f3i Lemmy Caution (Eddie Constantine), \u00e9 um agente secreto enviado para Alphaville, uma na\u00e7\u00e3o dominada por um computador que aboliu os sentimentos das pessoas. Anna Karina interpreta a filha do programador que criou a m\u00e1quina, e Caution precisa tentar livra-la da hipnose social que lhe foi imposta. Godard junta George Orwell (\u201c1984\u201d), Jean Cocteau (\u201cOrpheus\u201d), Paul Eluard (\u201cA Capital da Dor\u201d) e Jorge Luis Borges (os ensaios \u201cNova Refuta\u00e7\u00e3o do Tempo\u201d e \u201cFormas de Uma Lenda\u201d, ambas do livro \u201cOutras Inquisi\u00e7\u00f5es\u201d, colet\u00e2nea de ensaios lan\u00e7ada em 1952 \u2013 no Brasil em 2007 pela Cia das Letras) sob o preto, branco e cinza de uma Paris irreconhec\u00edvel, modernista e decadente, numa fotografia saturada para defender que a compreens\u00e3o do eu, atrav\u00e9s da aceita\u00e7\u00e3o das emo\u00e7\u00f5es que ousam suplantar a raz\u00e3o (o passional vs racional), \u00e9 a sa\u00edda para se defender ante o totalitarismo (tanto capitalista quanto comunista) disfar\u00e7ado de tecnologia avan\u00e7ada tendo o amor, em primeiro plano na bel\u00edssima cena final, como arma para enfrentar o vazio da sociedade. \u201cO que transforma as trevas em luz?\u201d, pergunta o computador em certo momento. \u201cA poesia\u201d, responde Lemmy Caution. Grande filme!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/pierrot.jpg\"><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cO Dem\u00f4nio das 11 Horas\u201d (\u201cPierrot Le Fou\u201d, 1965)<\/strong><br \/>\nFechando essa listinha, em seu d\u00e9cimo filme em cinco anos, Godard busca se renovar motivado pelo cen\u00e1rio ca\u00f3tico do mundo (com a Guerra do Vietn\u00e3 em foco), pelo fim de seu casamento com Anna Karina (a rela\u00e7\u00e3o durou quatro anos conturbados, com relatos de discuss\u00f5es, paix\u00e3o intensa, a perda de um beb\u00ea e tentativas de suic\u00eddio \u2013 eles j\u00e1 estavam separados durante as filmagens e voltariam a trabalhar juntos apenas uma \u00fanica vez, em \u201cMade in USA\u201d, de 1966) e por sua pr\u00f3pria absor\u00e7\u00e3o pelo meio cinematogr\u00e1fico. Tentando fugir de uma caricatura de si mesmo, ele radicaliza no formato, no fluxo de inconsci\u00eancia e nas cores pop art ao contar a hist\u00f3ria simples (inspirada no livro \u201cObsess\u00e3o\u201d, de Lionel White) de um marido (Jean-Paul Belmondo) insatisfeito com o amor burgu\u00eas e a vida que leva a ponto de abandonar esposa e filho fugindo com a jovem amante (Anna Karina) para seguir uma vida e um amor marginal ap\u00f3s ela ter assassinado um homem (seria o destino dos personagens de \u201cAcossado\u201d caso ela n\u00e3o tivesse denunciado ele?). O casal come\u00e7a uma rotina de roubos (que ir\u00e1 influenciar Warren Beatty a desejar contar a hist\u00f3ria de \u201cBonny &amp; Clyde\u201d, de 1967) at\u00e9 a tentativa de se aquietar na Riviera Francesa. Ele passa a se dedicar a literatura; ela, entediada, parodia musicais norte-americanos. O desastre \u00e9 iminente. Godard n\u00e3o sente pena e se despede da sua primeira fase com um filme romanticamente torto e tr\u00e1gico que soa como um bolo de casamento arremessado na cara dos noivos em pleno altar. Ele enterra o cinema noir e a Nouvelle Vague sob uma profus\u00e3o de cores, premia a trai\u00e7\u00e3o com uma saraivada de tiros e o romantismo desastrado com um colar de dinamites. Acabou. Godard est\u00e1 pronto para come\u00e7ar tudo de novo\u2026 de maneira diferente. E ele n\u00e3o ir\u00e1 perder a oportunidade&#8230;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Entrevista Com Jean-Luc Godard (1963) - Legendas em portugu\u00eas\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/w3U2hDVZ940?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Quentin Tarantino on Jean-Luc Godard\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/AtiHHy20w3U?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Jean-Luc Godard interview 1960\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/uuNAUmqJd1Q?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><br \/>\n\u2013 Filmografia comentada: os 26 filmes de Billy Wilder (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/07\/27\/cinematografia-comentada-billy-wilder\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">aqui<\/a>)<br \/>\n\u2013 Filmografia comentada: os 25 filmes de Fran\u00e7ois Truffaut (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/09\/06\/filmografia-comentada-francois-truffaut\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">aqui<\/a>)<br \/>\n\u2013 Filmografia comentada: os 24 filmes de Federico Fellini (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/01\/01\/filmografia-comentada-federico-fellini\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">aqui<\/a>)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Marcelo Costa (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/screamyell\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@screamyell<\/a>) \u00e9 editor do Scream &amp; Yell e assina a <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Calmantes com Champagne<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Com uma carreira vast\u00edssima, se perder na obra de Godard \u00e9 um risco s\u00e9rio, mas h\u00e1 algumas pistas que podem facilitar o caminho de interessados\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2017\/04\/17\/os-10-primeiros-filmes-de-godard\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":2,"featured_media":42544,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[418,415],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/42543"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=42543"}],"version-history":[{"count":9,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/42543\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":69712,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/42543\/revisions\/69712"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/42544"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=42543"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=42543"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=42543"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}