{"id":42410,"date":"2017-03-31T09:53:50","date_gmt":"2017-03-31T12:53:50","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=42410"},"modified":"2017-05-07T12:53:15","modified_gmt":"2017-05-07T15:53:15","slug":"a-nova-cena-musical-portuguesa-luis-severo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2017\/03\/31\/a-nova-cena-musical-portuguesa-luis-severo\/","title":{"rendered":"A nova cena musical portuguesa: Lu\u00eds Severo"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>por <a href=\"http:\/\/twitter.com\/woorman\" target=\"_blank\">Pedro Salgado, de Lisboa<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Numa tarde de chuva em Lisboa, encontro-me com Lu\u00eds Severo na porta de um est\u00fadio de grava\u00e7\u00e3o, no bairro de Alvalade. Ap\u00f3s uma breve visita \u00e0 sala de ensaios, que partilha com o grupo Capit\u00e3o Fausto, iniciamos uma conversa perfeitamente reveladora da abertura e do entusiasmo com que Severo fala da sua m\u00fasica e de outros artistas. \u201cEu comecei fazendo m\u00fasica aos 15 anos, em casa, para ocupar o meu tempo livre. Nessa \u00e9poca, apareceu o myspace e aproveitei o fato de ser uma aplica\u00e7\u00e3o pouco dispendiosa para colocar as minhas can\u00e7\u00f5es online, tudo evoluiu partindo desse ponto\u201d, conta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Utilizando o nome art\u00edstico d\u00b4O C\u00e3o da Morte, o m\u00fasico lisboeta editou quatro discos, dos quais dois sem t\u00edtulo, bem como os \u00e1lbuns experimentais \u201cOdissipo\u201d (2012) e \u201cFim de Ver\u00e3o\u201d (2013). A estreia em nome pr\u00f3prio, com \u201c<a href=\"https:\/\/luissevero.bandcamp.com\/album\/cara-danjo\" target=\"_blank\">Cara D\u00b4Anjo<\/a>\u201d, de 2015, rendeu a Lu\u00eds Severo uma aclama\u00e7\u00e3o cr\u00edtica e figurou nas listas de melhores discos portugueses do ano. No trabalho, marcado pela anima\u00e7\u00e3o e influenciado pela m\u00fasica popular portuguesa, Severo abordou a tem\u00e1tica do crescimento e as suas letras refletiam uma perspectiva identit\u00e1ria portuguesa. \u201cFoi um trabalho um pouco sujo, tinha mais camadas e era espesso sonoramente\u201d, refere.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O novo disco (hom\u00f4nimo), pelo contr\u00e1rio, aposta numa matriz anglo-sax\u00f4nica, exibindo um n\u00edvel superior de melancolia, conservando a qualidade e a originalidade do \u00e1lbum anterior. Contextualmente, \u201c<a href=\"https:\/\/luissevero.bandcamp.com\/\" target=\"_blank\">Lu\u00eds Severo<\/a>\u201d (ou\u00e7a no Bandcamp) \u00e9 um disco mais universal, onde os momentos de euforia pop (\u201cBoa Companhia\u201d e \u201cOlho de Lince\u201d), abordam a forma como um casal de namorados vive a sua paix\u00e3o no meio do auge tur\u00edstico e na transforma\u00e7\u00e3o da capital portuguesa, mas tamb\u00e9m a indiferen\u00e7a urbana por contraponto \u00e0 solidariedade das regi\u00f5es mais pequenas. \u201c\u00c9 mais f\u00e1cil enquadrar Lisboa atrav\u00e9s de uma hist\u00f3ria rom\u00e2ntica que envolva duas pessoas\u201d, explica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Relativamente aos seus gostos musicais, Lu\u00eds Severo cita Leonard Cohen, Bob Dylan, Ariel Pink, Bonnie \u201cPrince\u201d Billy e Sufjan Stevens como refer\u00eancias importantes. \u201cS\u00e3o pessoas que fazem can\u00e7\u00f5es, que \u00e9 o que eu gosto mais\u201d, afirma. Igualmente influenciado pela m\u00fasica brasileira, Severo aponta os nomes de Chico Buarque, Jorge Ben Jor e Nelson Cavaquinho, entre outros, confessando a sua admira\u00e7\u00e3o por Vinicius de Moraes: \u201cEle \u00e9 um poeta fant\u00e1stico e foi das primeiras pessoas a conseguir colocar uma poesia l\u00edrica na m\u00fasica sem ser chato. Para al\u00e9m disso, identifico-me com o seu frescor e juventude \u201d, refere. Sobre o futuro, Lu\u00eds manifesta o desejo de continuar escrevendo can\u00e7\u00f5es para si e para outros artistas e editar um \u00e1lbum por ano. \u201cEspero ter um disco em 2018, fazer m\u00fasicas para quem me pedir e continuar vivendo\u201d, conclui. De Lisboa para o Brasil, Lu\u00eds Severo conversou com o Scream &amp; Yell. Confira:<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/E1Mbiy14Lvw?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Porque mudou o seu nome art\u00edstico d\u00b4O C\u00e3o da Morte para Lu\u00eds Severo?<\/strong><br \/>\nQuando criei o C\u00e3o da Morte estava inventando a minha conta no myspace. Eu precisava de um nome para essa rede social e queria que fosse an\u00f4nimo, porque ainda n\u00e3o me sentia confiante com a minha cara. De fato, essa designa\u00e7\u00e3o aparece, fica na conta do myspace e durante dois anos n\u00e3o coloquei nenhuma fotografia pessoal. Depois desse tempo, comecei a fazer shows e as coisas evolu\u00edram gradualmente. Enquanto C\u00e3o da Morte, quando j\u00e1 era minimamente conhecido, fiz mais dois EPs num registo experimental. Na minha casa, eu passei muito tempo testando sons e em 2015, quando fiz um disco que me pareceu mais s\u00f3lido e coerente (\u201cCara D\u00b4Anjo\u201d), achei que era o momento de fazer a passagem para o meu nome pr\u00f3prio. At\u00e9 porque todas as quest\u00f5es que tinham levado a que eu adotasse outra designa\u00e7\u00e3o, nomeadamente o anonimato, j\u00e1 n\u00e3o se justificavam. Por fim, apesar de eu ser o C\u00e3o da Morte, a minha obra estava associada a outra pessoa. Quando se trata de uma banda, a cr\u00edtica recai no coletivo e em nome individual uma opini\u00e3o negativa soa mais forte. Por essa raz\u00e3o, inicialmente, tive algum receio em assumir o meu nome.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Nas suas can\u00e7\u00f5es evidencia uma forma sedutora de interpreta\u00e7\u00e3o. \u00c9 um processo natural ou um modo que encontrou para refor\u00e7ar a sua mensagem?<\/strong><br \/>\nA forma como eu canto tem evolu\u00eddo. Em cada disco que eu fa\u00e7o, encontro uma forma mais pessoal de o fazer, o meu tom. Geralmente, as coisas naturais t\u00eam de ser encontradas, ou seja, hoje eu n\u00e3o consigo interpretar de outro jeito e sinto que \u00e9 assim que deve soar. Enquanto procurei esse timbre vagueei um pouco. Valorizo o empenho por oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 genialidade, mas acredito que alguns m\u00fasicos tenham mais facilidade em definir a sua entoa\u00e7\u00e3o. No fundo, hoje existem muitas pessoas fazendo can\u00e7\u00f5es e quem come\u00e7a a compor ter\u00e1 dificuldade em que os seus temas n\u00e3o soem a algo j\u00e1 feito. Quando voc\u00ea avan\u00e7a vai encontrando o seu espa\u00e7o, tom, s\u00edtios e alavancas. Atualmente, na pr\u00f3pria escala, eu descobri a minha zona de conforto e as aulas de canto ajudaram a conhecer-me melhor. A busca do auto-conhecimento \u00e9 fundamental, mas n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o f\u00e1cil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sentiu alguma press\u00e3o na composi\u00e7\u00e3o do novo \u00e1lbum pelo fato de \u201cCara D\u00b4Anjo\u201d ter sido bem recebido?<\/strong><br \/>\nVoc\u00ea colocou uma grande quest\u00e3o (risos). Claro que sim! Em primeiro lugar, assegurei que se o segundo disco n\u00e3o fosse melhor, pelo menos tivesse uma pegada diferente e s\u00f3 esse fato j\u00e1 era positivo. Para que isso acontecesse, mudei de est\u00fadio de grava\u00e7\u00e3o, o pessoal que produziu o \u00e1lbum, o m\u00e9todo de fazer as m\u00fasicas, enfim, uma mudan\u00e7a total. Interiormente, pensei que se me empenhasse mais do que no \u201cCara D\u00b4Anjo\u201d, sem botar algo que fosse contr\u00e1rio \u00e0 minha personalidade, apresentando aquilo que eu vejo e sonho para a m\u00fasica, ent\u00e3o esse disco estaria num patamar superior. Hipoteticamente, senti que cumprindo esses requisitos o trabalho n\u00e3o seria pior. Foi isso que me manteve motivado e pouco assustado com essa quest\u00e3o.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/tZapUcmpeQ4?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Um dos aspectos marcantes do novo trabalho \u00e9 altern\u00e2ncia entre can\u00e7\u00f5es rom\u00e2nticas e animadas. Estas caracter\u00edsticas definem melhor a sua personalidade?<\/strong><br \/>\nEu gosto da m\u00fasica melanc\u00f3lica e houve um jornalista portugu\u00eas que sugeriu o termo \u201cmelanc\u00f4mico\u201d. Identifico-me bastante com esse sentimento de juntar a melancolia \u00e0 com\u00e9dia e julgo que tem uma certa gra\u00e7a. De fato, eu escuto muitos autores com esse registro, mas tamb\u00e9m me agrada a m\u00fasica animada e a ideia do pop ser uma coisa insuflada e puxada para cima. Mas, o que me interessa mais s\u00e3o os m\u00fasicos que lan\u00e7am essa d\u00favida e a pr\u00f3pria m\u00fasica brasileira tem elementos que revelam alguma incerteza sentimental. Uma can\u00e7\u00e3o pode ter v\u00e1rias dimens\u00f5es e o choque entre elas \u00e9 muito interessante. Agrada-me a din\u00e2mica que um tema pode ter e n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio existir uma sintonia plena. O pop americano atual \u00e9 uma m\u00fasica de festa, mas alguns autores que me agradam, como Sufjan Stevens, revelam um car\u00e1ter mais d\u00fabio. O romantismo \u00e9 um t\u00f3pico f\u00e1cil de abordar quando voc\u00ea n\u00e3o tem muito para dizer. Tento pegar nele o menos poss\u00edvel e s\u00f3 quando sinto essa necessidade, porque \u00e9 um v\u00edcio e todas as can\u00e7\u00f5es apontam nessa dire\u00e7\u00e3o, acaba por ser um sentimento humano comum.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como v\u00ea o panorama atual da nova m\u00fasica portuguesa?<\/strong><br \/>\nAcho que a m\u00fasica portuguesa teve fases complicadas, mas o momento atual \u00e9 bom. H\u00e1 muita gente fazendo coisas e isso \u00e9 sempre positivo. A quantidade n\u00e3o me assusta e quem tiver se destacando mostra o seu valor e tudo acontece. Existem muitos estilos e a forma como o designado underground portugu\u00eas evoluiu nos \u00faltimos anos foi exponencial. As pessoas pensavam que eu estava nesse nicho por escolha pr\u00f3pria, quando nem sequer tive outra op\u00e7\u00e3o. Explicar a genialidade \u00e9 dif\u00edcil, mas, no fundo, ela manifesta-se quando as pessoas encontram algo de inexplic\u00e1vel, identificam-se e isso gera uma aclama\u00e7\u00e3o. Se bem que a genialidade n\u00e3o tenha de vir de uma aclama\u00e7\u00e3o coletiva e poder\u00e1 ser restrita. Somos influenciados por tudo o que gira \u00e0 nossa volta e ainda bem que assim \u00e9 quando fazemos uma can\u00e7\u00e3o pop. A pr\u00f3pria euforia pop que voc\u00ea referiu vive muito desse aspecto. A criatividade vem mais da forma como contatamos os outros e a genialidade tem um car\u00e1ter mais individual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Gostaria de deixar uma mensagem aos leitores brasileiros do Scream &amp; Yell?<\/strong><br \/>\nTudo o que eu possa dizer ser\u00e1 bastante pat\u00e9tico, mas se existe um s\u00edtio pelo qual eu me senti sempre apaixonado \u00e9 o Brasil. Principalmente pela m\u00fasica que escutei. Enquanto n\u00f3s tivemos um compositor genial (Zeca Afonso), provavelmente eles t\u00eam 20 m\u00fasicos desse calibre. A Elis Regina foi uma int\u00e9rprete fant\u00e1stica e existem imensas can\u00e7\u00f5es que eu escolho s\u00f3 por ter sido ela a cantar, lembro-me por exemplo da \u201cTatuagem\u201d. Pelo que percebo, as bandas brasileiras t\u00eam mais apoios estatais para atuar em Portugal do que o inverso. Por isso, a minha mensagem para os leitores do Scream &amp; Yell \u00e9 que os m\u00fasicos portugueses gostariam bastante de fazer shows no Brasil, mas ainda n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, porque n\u00e3o temos meios nem apoios de outras entidades.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/kbc4QfSFeu8?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/aqD8EqzuBSM?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/qFFajhoXXZg?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Pedro Salgado (siga <a href=\"http:\/\/twitter.com\/woorman\" target=\"_blank\">@woorman<\/a>) \u00e9 jornalista, reside em Lisboa e colabora com o Scream &amp; Yell contando novidades da m\u00fasica de Portugal. Veja outras entrevistas de Pedro Salgado <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/tag\/portugal\/\" target=\"_blank\">aqui<\/a>. A foto que abre o texto \u00e9 de Francisco Aguiar \/ Divulga\u00e7\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Utilizando o nome art\u00edstico d&#8217;O C\u00e3o da Morte, o m\u00fasico lisboeta editou quatro discos, e agora se aventura em seu segundo lan\u00e7amento solo\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2017\/03\/31\/a-nova-cena-musical-portuguesa-luis-severo\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":7,"featured_media":42411,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[47],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/42410"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=42410"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/42410\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":42412,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/42410\/revisions\/42412"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/42411"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=42410"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=42410"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=42410"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}