{"id":42404,"date":"2005-05-19T15:18:17","date_gmt":"2005-05-19T18:18:17","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=42404"},"modified":"2019-11-28T11:47:03","modified_gmt":"2019-11-28T14:47:03","slug":"literatura-trainspotting-de-irving-welsh","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2005\/05\/19\/literatura-trainspotting-de-irving-welsh\/","title":{"rendered":"Literatura: Trainspotting, de Irving Welsh"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>por <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/leonardo.rossato\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Leonardo Barbosa Rossato<\/a><br \/>\n<\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com 12 anos de atraso, finalmente o romance de Irvine Welsh, que resultou no filme de Danny Boyle &#8211; e que marcou uma gera\u00e7\u00e3o, ganha edi\u00e7\u00e3o nacional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em &#8220;Trainspotting&#8221; (Editora Rocco), o romancista que entendeu que &#8220;tudo estava mudando, as pessoas estavam mudando, a m\u00fasica estava mudando, at\u00e9 as drogas estavam mudando&#8221;, consagrou-se, com sua linguagem crua, extremamente coloquial &#8211; fon\u00e9tica como dizem os tradutores Daniel Galera e Daniel Pellizari (da Livros do Mal) &#8211; exibindo o esp\u00edrito niilista de um grupo de jovens que renunciou a uma vida adulta, que nunca daria uma parcela de prazer do que um simples pico. &#8220;Por que escolher tudo isso se voc\u00ea tem hero\u00edna?&#8221;, j\u00e1 falava Mark Renton no antol\u00f3gico come\u00e7o do filme.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O livro, diferente do filme, \u00e9 embalado por v\u00e1rias vozes, que v\u00e3o se tramando em fragmentos sem ordem cronol\u00f3gica e explica\u00e7\u00f5es, fazendo at\u00e9 que um narrador em terceira pessoa interceda por vezes, e que personagens com pouca express\u00e3o na trama narrem suas aventuras para depois sumirem ou ficarem na mem\u00f3ria do pr\u00f3ximo fragmento. Como lembrou o escritor Joca Reiners Terron escrevendo para a Folha de S\u00e3o Paulo, Irvine Welsh deforma a realidade dos personagens atrav\u00e9s da droga num expressionismo de uma visualidade distorcida que \u00e9 poss\u00edvel remet\u00ea-lo ao grande romance de William Burroughs, de &#8220;Almo\u00e7o Nu&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por essa radicalidade visceral de sua linguagem \u00e9 aconselh\u00e1vel cair de cabe\u00e7a na estrutura do romance, mesmo quando at\u00e9 \u00e9 poss\u00edvel ouvir as m\u00fasicas do filme tocando. O livro faz ressoar na mem\u00f3ria Iggy Pop e Lou Reed e \u00e9 retrato duma gera\u00e7\u00e3o que ainda n\u00e3o via com bons olhos o novo mundo sociocultural que surgia. \u00c9 por isso que Renton (\u00e9 tamb\u00e9m imposs\u00edvel l\u00ea-lo e n\u00e3o pensar no Ewan McGregor sorrindo sarcasticamente) acaba sendo o personagem principal do livro. Ele \u00e9 o \u00fanico no grupo que possui essa vis\u00e3o: que se Edimburgo continuava aquela mesma merda de sempre, pelo menos em outros lugares, os \u00eaxtases eletr\u00f4nicos-sexuais-comportamentais eram outros. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que ele foge com o dinheiro da turma, conseguido numa transa\u00e7\u00e3o com a venda de hero\u00edna. Renton n\u00e3o tem remorso nenhum. A n\u00e3o ser por Spud, claro. Vai pegar a grana e ir pra Amsterdam. Ser\u00e1 que ele escolheu a vida?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O mais interessante na hist\u00f3ria de Welsh \u00e9 como os personagens de &#8220;Trainspotting&#8221; n\u00e3o possuem o m\u00ednimo de idealiza\u00e7\u00e3o que outros livros e filmes necessitam, para, assim, tornar simp\u00e1ticos e romantizados para um p\u00fablico \u00e1vido de explica\u00e7\u00f5es psicologizantes. Renton, Sick Boy, Spud, Begbie, Segundo Lugar, Tommy e Madre Superiora usam drogas, roubam, brigam em pubs, passam horas discutindo coisas insignificantes, tratam as mulheres como objetos, roubam do sistema p\u00fablico de sa\u00fade, numa fuga desenfreada de seu pr\u00f3prio mundo. Existe coisa mais assustadora do que fantasmas pessoais? A fuga, no final, acaba sendo a \u00fanica sa\u00edda. Porque eles sabem que est\u00e3o numa viagem de trem rumo ao nada, fugindo at\u00e9 de si mesmos, entremeados numa linguagem liter\u00e1ria que s\u00f3 acentua o desespero de n\u00e3o poder dar mais um pico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A virtude da tradu\u00e7\u00e3o de Galera e Pellizari foi manter o pique do livro, abusando nos palavr\u00f5es e nas g\u00edrias e mantendo o humor ir\u00f4nico de Welsh \u00e0 flor da pele. E entre o filme e o livro, qual se sai melhor? Dif\u00edcil dizer, pois esse n\u00e3o \u00e9 o caso de um livro foda\u00e7o que rendeu um filme mediano. \u00c9 um livro foda\u00e7o que rendeu um filme foda\u00e7o. A narrativa textual e a cinematogr\u00e1fica se juntam, se unem e, por fim, ampliam a observa\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio explorado com intelig\u00eancia por Irving Welsh: o de uma gera\u00e7\u00e3o perdida. Numa palavra: foda\u00e7o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">TRECHO<br \/>\n<em>&#8220;A sociedade inventa uma intrincada l\u00f3gica falsa pra absorver e mudar as pessoas que t\u00eam um comportamento fora do normal. Suponhamos que eu conhe\u00e7a todos os pr\u00f3s e contras, que saiba que terei uma vida curta, que tenha uma cabe\u00e7a no lugar, etc, etc., ms que ainda assim queira usar hero\u00edna. Eles n\u00e3o v\u00e3o deixar. N\u00e3o v\u00e3o deixar porque isso \u00e9 visto como um sinal do seu pr\u00f3prio fracasso. O fato de voc\u00ea simplesmente rejeitar o que eles oferecem. Nos escolha. Escolha a vida. Escolha pagamentos de hipoteca. Escolha m\u00e1quinas de lavar. Escolha carros. Escolha ficar sentado num sof\u00e1 assistindo a programas de audit\u00f3rio que atrofiam a mente e esmagam o esp\u00edrito,enfiando uma merda de junk food goela abaixo. Escolha apodrecer mijando e se cagando em casa, um constrangimento total pros pirralhos ego\u00edstas e fudidos que voc\u00ea gerou. Escolha a vida.&#8221;<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/trainspotting1.jpg\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><br \/>\n\u2013 Um D\u00e9cada em 15 filmes: em &#8220;Trainspotting&#8221;, a malandragem vence no final (<a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/cinema\/15filmes.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">aqui<\/a>)<br \/>\n\u2013 Cinco mon\u00f3logos cl\u00e1ssicos do cinema: &#8220;Trainspotting&#8221; e mais quatro (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2007\/12\/23\/blog-do-editor-cinco-monologos-classicos-do-cinema\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n\u2013 \u201cT2\u201d \u00e9 um bom filme e uma boa sequencia, mas soa como calmaria antes da tempestade (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2017\/03\/30\/cinema-t2-trainspotting-de-danny-boyle\/\">aqui<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Com 12 anos de atraso, finalmente o romance de Irvine Welsh, que resultou no filme de Danny Boyle &#8211; e que marcou uma gera\u00e7\u00e3o, ganha edi\u00e7\u00e3o nacional.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2005\/05\/19\/literatura-trainspotting-de-irving-welsh\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":42405,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[9],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/42404"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=42404"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/42404\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":53841,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/42404\/revisions\/53841"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/42405"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=42404"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=42404"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=42404"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}