{"id":42392,"date":"2017-03-30T14:57:46","date_gmt":"2017-03-30T17:57:46","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=42392"},"modified":"2017-05-22T11:57:20","modified_gmt":"2017-05-22T14:57:20","slug":"cinema-t2-trainspotting-de-danny-boyle","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2017\/03\/30\/cinema-t2-trainspotting-de-danny-boyle\/","title":{"rendered":"Cinema: T2 \u2013 Trainspotting, de Danny Boyle"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>por Marcelo Costa<\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201cA Nostalgia descreve uma sensa\u00e7\u00e3o de saudade idealizada, e \u00e0s vezes irreal, por momentos vividos no passado associada com um desejo sentimental de regresso impulsionado por lembran\u00e7as de momentos felizes e antigas rela\u00e7\u00f5es sociais. A palavra vem do grego ?????? (n\u00f3stos &#8211; &#8220;reencontro&#8221;) e ????? (\u00e1lgos &#8211; &#8220;dor, sofrimento&#8221;). \u00c9 diferente da saudade, pois saudade \u00e9 direcionada a um alvo ou momento espec\u00edfico, e at\u00e9 pode ser superada pela presen\u00e7a ou repeti\u00e7\u00e3o, j\u00e1 a nostalgia n\u00e3o pode ser superada no campo f\u00edsico, pois diz respeito somente a uma vis\u00e3o idealizada de passado que cada um possui\u201d, observa a Wikipedia. O velho Aureli\u00e3o define como \u201cmelancolia produzida no exilado pelas saudades da p\u00e1tria\u201d.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As duas observa\u00e7\u00f5es acima (principalmente a primeira) funcionam muito bem para explicar \u201cT2 \u2013 Trainspotting\u201d (2017), filme que recupera os personagens do cl\u00e1ssico \u201cTrainspotting \u2013 Sem Limites\u201d (1996) 20 anos depois dos fatos ocorridos no primeiro filme. Danny Boyle, que ganhou um Oscar de Melhor Diretor (apenas) em 2008 com o bom \u201cSlumdog Millionaire\u201d, retoma a inspira\u00e7\u00e3o de seu melhor filme (uma briga boa com a estreia \u201cCova Rosa\u201d, de 1994) escudado novamente pelo roteirista John Hodge com texto baseado em dois livros de Irving Welsh (o original \u201cTrainspotting\u201d, de 1993, e sua sequ\u00eancia, \u201cPorno\u201d, de 2002) e pelos atores originais para acertar contas com o passado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">20 anos s\u00e3o um bocado de tempo (tem muita gente que ir\u00e1 ao cinema que nem era nascida em 1996) e a quest\u00e3o primordial da adapta\u00e7\u00e3o de \u201cPorno\u201d (cuja hist\u00f3ria se passava 10 anos ap\u00f3s os eventos do primeiro \u201cTrainspotting\u201d) em \u201cT2\u201d \u00e9 exatamente elevar a sensa\u00e7\u00e3o de \u201cno future\u201d que (o segundo livro e) o primeiro filme transformou em objeto de culto explorando de forma pop e po\u00e9tica (ainda que com momentos tr\u00e1gicos que ir\u00e3o marcar os personagens mesmo 20 anos depois) a cultura do uso de drogas na Esc\u00f3cia como uma resposta niilista a uma sociedade que fracassou em dar oportunidades iguais a todos, cujos conjuntos habitacionais populares (e totalmente ineficazes socialmente) se transformaram em muros e guetos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desta forma, observando o que motivou cada um dos filmes antes mesmo de adentrar a sala de cinema, j\u00e1 \u00e9 poss\u00edvel contrariar de antem\u00e3o uma expectativa (que ser\u00e1 levemente \u2013 e acertadamente \u2013 frustrada) de que \u201cT2\u201d seja t\u00e3o urgente, impactante e provocador quanto \u201cT1\u201d. N\u00e3o \u00e9. E isso, caro leitor, n\u00e3o \u00e9 ruim. Muito pelo contr\u00e1rio. \u201cT2\u201d \u00e9 consequ\u00eancia de \u201cT1\u201d, e \u2013 relembrando aquele velho ditado de que diz que \u201cse voc\u00ea se lembra dos anos 60 \u00e9 porque voc\u00ea n\u00e3o estava l\u00e1\u201d \u2013 as sequelas dos personagens movem o filme com Danny Boyle repetindo cenas no intuito (at\u00e9 exagerado) de deixar claro ao espectador como tudo que aconteceu 20 anos atr\u00e1s (com os personagens no auge da juventude, ou seja, testando os limites do corpo e da mente) influenciou diretamente o que acontece agora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O plot de \u201cT2\u201d pega carona no Aureli\u00e3o: Renton (Ewan McGregor) se mudou para Amsterdam ap\u00f3s dar um calote nos tr\u00eas amigos. L\u00e1 ele fez um curso de contabilidade (em \u201cPorno\u201d, mais fiel \u00e0 hist\u00f3ria, Renton administra um puteiro), se casou, mas acabou de levar um p\u00e9 na bunda e est\u00e1 prestes a perder o emprego. Bate a nostalgia e ele retorna para Edimburgo onde encontra Spud (Ewen Bremner, hil\u00e1rio e ainda poeticamente inocente \u2013 como no primeiro filme) prestes a se suicidar (ele \u00e9 um dos grandes personagens de \u201cT2\u201d, e algumas das melhores passagens do filme t\u00eam sua participa\u00e7\u00e3o, como a do \u201chor\u00e1rio de ver\u00e3o\u201d) e Sick Boy (Jonny Lee Miller) ainda puto pela trai\u00e7\u00e3o do amigo tomando conta de um pub decadente e aplicando golpes com o auxilio de uma namorada (e prostituta) b\u00falgara, Veronika (Anjela Nedyalkova).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com essa premissa (e a fuga de Begbie \u2013 Robert Carlyle, excelente \u2013 da pris\u00e3o), \u201cT2\u201d apresenta sua vis\u00e3o de&#8230; amadurecimento \u2013 ou, mais propriamente, envelhecimento. Era imposs\u00edvel manter o ritmo de 20 anos atr\u00e1s (ou at\u00e9 fosse poss\u00edvel por alguns anos, mas todos teriam morrido), e agora cada um deles colhe o que a sociedade (e eles mesmos) plantou, como se ap\u00f3s tanto tempo uma \u00fanica placa de neon continuasse piscando: \u201cno future\u201d. Bem, ou se vive, ou se morre, e se a escolha \u00e9 a primeira, a solu\u00e7\u00e3o \u00e9 ir vivendo dia ap\u00f3s dia, mas, poeticamente (novamente), \u201cT2\u201d acrescenta um componente (levemente brega e totalmente aceit\u00e1vel) de esperan\u00e7a \u00e0 equa\u00e7\u00e3o, com arcos narrativos interessantes para os personagens notadamente secund\u00e1rios Begbie (de seu pai a seu filho) Spud e Veronika (ambos com chance de recome\u00e7ar).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No geral, \u201cT2\u201d v\u00ea o futuro de maneira menos sombria que \u201cT1\u201d, o que, claro, pode ser um sinal da idade \u2013 maturidade x envelhecimento (dos personagens, do diretor, do roteirista, do escritor, daqueles espectadores que assistiram \u201cT1\u201d no cinema em 1996, do resenhista), e a implos\u00e3o dos conjuntos habitacionais j\u00e1 nos cr\u00e9ditos \u00e9 uma bela met\u00e1fora (que, inclusive, merecia uma can\u00e7\u00e3o dos Smiths: vale muito ler <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2014\/06\/12\/livros-the-who-ian-curtis-e-smiths\/\" target=\"_blank\">o trecho inicial da biografia escrita por Tony Fletcher<\/a> para entender o porqu\u00ea daquela demoli\u00e7\u00e3o na tela), ainda que a sensa\u00e7\u00e3o (com Brexit, Trump, Temer, Le Pen, UDC) seja de pren\u00fancio de caos: &#8220;Escolha a vida. Escolha o Facebook, Twitter, Instagram e tor\u00e7a para que algu\u00e9m em algum lugar se importe com a foto que voc\u00ea postou do seu caf\u00e9 da manh\u00e3. Escolha assistir a hist\u00f3ria se repetir&#8221;. Como disse Bob Dylan certa vez, \u201c<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=941PHEJHCwU\" target=\"_blank\">Uma chuva forte vai cair<\/a>\u201d. \u201cT2\u201d, apesar de ser um bom filme e uma boa sequencia, soa como a calmaria antes da tempestade.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/pFHOzN3Yk1M?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>\u2013 Marcelo Costa (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/screamyell\" target=\"_blank\">@screamyell<\/a>) \u00e9 editor do Scream &amp; Yell e assina a <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/\" target=\"_blank\">Calmantes com Champagne<\/a>.<\/p>\n<p><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><br \/>\n\u2013 Um D\u00e9cada em 15 filmes: em &#8220;Trainspotting&#8221;, a malandragem vence no final (<a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/cinema\/15filmes.html\" target=\"_blank\">aqui<\/a>)<br \/>\n\u2013 Cinco mon\u00f3logos cl\u00e1ssicos do cinema: &#8220;Trainspotting&#8221; e mais quatro (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2007\/12\/23\/blog-do-editor-cinco-monologos-classicos-do-cinema\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n\u2013 &#8220;Trainspotting&#8221;:\u00a0A virtude da tradu\u00e7\u00e3o de Galera e Pellizari foi manter o pique do livro (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2005\/05\/19\/literatura-trainspotting-de-irving-welsh\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n\u2013 \u201cQuem Quer Ser um Milion\u00e1rio&#8221;: Boyle pariu o segundo filme definitivo de sua carreira (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2009\/02\/22\/quem-quer-ser-um-milionario\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n\u2013 \u201cExterm\u00ednio&#8221;: Nada como um diretor que aprende com seus fracassos (<a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/cinemadois\/exterminio.htm\" target=\"_blank\">aqui<\/a>)<br \/>\n\u2013 \u201cCaiu do C\u00e9u&#8221; \u00e9 um dos piores filmes de Danny Boyle, t\u00e3o ruim que nem parece dele (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2005\/09\/16\/cinema-caiu-do-ceu-de-danny-boyle\/\">aqui<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"No geral, \u201cT2\u201d v\u00ea o futuro de maneira menos sombria que \u201cT1\u201d, o que, claro, pode ser um sinal da idade \u2013 maturidade x envelhecimento\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2017\/03\/30\/cinema-t2-trainspotting-de-danny-boyle\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":2,"featured_media":42393,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[1812],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/42392"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=42392"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/42392\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":42408,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/42392\/revisions\/42408"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/42393"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=42392"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=42392"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=42392"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}