{"id":4209,"date":"2010-01-28T15:36:46","date_gmt":"2010-01-28T18:36:46","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=4209"},"modified":"2020-01-13T00:58:24","modified_gmt":"2020-01-13T03:58:24","slug":"jd-salinger-1919-2010","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2010\/01\/28\/jd-salinger-1919-2010\/","title":{"rendered":"J.D. Salinger 1919 \/ 2010"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-4210\" title=\"apanhador\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/01\/apanhador.jpg\" alt=\"\" \/><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por <a href=\"http:\/\/telhadodevidro.wordpress.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Marco Antonio Bart<\/a><br \/>\nTexto publicado em novembro de 2000 no Scream &amp; Yell 1.0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que faz com que um livro narrando acontecimentos quase banais, ocorridos com um adolescente que n\u00e3o tem nada de extraordin\u00e1rio, transforme-se na mais acurada e sens\u00edvel cr\u00f4nica da juventude deste s\u00e9culo? S\u00f3 os espertos que chegaram a ler &#8220;O Apanhador no Campo de Centeio&#8221;, do escritor americano J.D. Salinger, \u00e9 que podem dizer com certeza. Prestes a completar\u00a060 anos de publica\u00e7\u00e3o &#8211; surgiu em 1951, antes mesmo dos pais da maioria de voc\u00eas nascerem &#8211; a novela de Salinger \u00e9 n\u00e3o s\u00f3 uma das mais marcantes obras da literatura norte-americana contempor\u00e2nea; \u00e9 tamb\u00e9m um marco na longa estrada que os jovens trilharam (e ainda trilham) para provar que t\u00eam direito a uma voz e uma vis\u00e3o de mundo pr\u00f3prias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 bastante poss\u00edvel que voc\u00ea nunca tenha lido &#8220;O Apanhador&#8221;. No entanto, se voc\u00ea tem um m\u00ednimo de &#8220;antenidade&#8221; com o mundo que o cerca, muito provavelmente j\u00e1 leu ou ouviu alguma alus\u00e3o ao livro no cinema, em jornal, revistas ou em outros livros. O fato \u00e9 que este singelo romance de 1951 virou lenda ao longo dos anos, e fez de seu autor, Jerome David Salinger, um dos maiores mist\u00e9rios da hist\u00f3ria recente da literatura. A pequena revolu\u00e7\u00e3o que &#8220;O Apanhador&#8221; causou no comportamento da juventude americana &#8211; e por tabela, no comportamento da juventude do mundo todo &#8211; ecooa at\u00e9 hoje, fazendo parte da cultura da segunda metade de nosso corrente s\u00e9culo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;O Apanhador&#8221; narra um fim-de-semana na vida de Holden Caulfield, jovem de 17 anos vindo de uma fam\u00edlia abastada de Nova York. Holden, estudante de um pomposo internato para rapazes, volta para casa mais cedo no inverno depois de ter levado bomba coletiva em quase todas as mat\u00e9rias. Na volta para casa, ao se preparar para enfrentar o inevit\u00e1vel esporro da fam\u00edlia, Holden vai refletindo sobre tudo o que (pouco) viveu, repassa sua peculiar vis\u00e3o de mundo e tenta enxergar alguma diretriz para seu futuro. Antes de se defrontar com os pais, procura algumas pessoas importantes para si (um professor, uma antiga namorada, sua irm\u00e3zinha) e tenta lhes explicar a confus\u00e3o que passa por sua cabe\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E \u00e9 s\u00f3 isso a\u00ed. N\u00e3o h\u00e1 nada de mais tr\u00e1gico, ou dram\u00e1tico, na hist\u00f3ria; \u00e9 s\u00f3 um adolescente voltando para casa. A grande magia de &#8220;O Apanhador&#8221; \u00e9 justamente esta: ser uma hist\u00f3ria de e para adolescentes, e n\u00e3o meramente um livro &#8220;recomendado para leitores em idade escolar&#8221;. Foi a primeira vez na literatura americana (ou mesmo na mundial) que o universo pr\u00f3prio dos jovens foi estudado a fundo e exposto de maneira absolutamente natural, sem nenhuma pretens\u00e3o ou didatismo. As id\u00e9ias, conceitos, bobeiras, burrices, enfim, toda a loucura de ser jovem, nunca tinham sido traduzidos de uma maneira t\u00e3o profundamente sintonizada com a realidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vale um aparte aqui: antes de &#8220;O Apanhador&#8221;, simplesmente n\u00e3o existia esta coisa que h\u00e1 hoje de &#8220;cultura jovem&#8221;. Pode ser dif\u00edcil de acreditar, mas h\u00e1 meros 50 anos os jovens (e sua maneira de pensar, suas id\u00e9ias pr\u00f3prias e suas aspira\u00e7\u00f5es) n\u00e3o eram levados a s\u00e9rio pelos adultos de forma alguma. Ser jovem, nos anos pr\u00e9-Elvis Presley, era apenas estar em um est\u00e1gio irritante entre crian\u00e7a e o &#8220;homem feito&#8221;, uma fase que devia passar o mais r\u00e1pido poss\u00edvel e sem maiores dores. O que n\u00e3o quer dizer que os jovens n\u00e3o tivessem seus anseios e preocupa\u00e7\u00f5es &#8211; que n\u00e3o eram infantis nem adultas &#8211; mas que eram ignoradas pelos mais velhos. &#8220;O Apanhador&#8221;, com seu relato sem retoques de tudo aquilo que realmente se passa na mente de um adolescente, ajudou a tornar a sociedade mais atenta \u00e0 barra (\u00e0s vezes, pesada) que \u00e9 ser jovem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E o talento sem tamanho de J.D. Salinger \u00e9 um dos maiores respons\u00e1veis pelo status cult do livro at\u00e9 hoje. Apesar de j\u00e1 ter passado longe da adolesc\u00eancia quando escreveu a obra (estava com 32 anos quando o livro saiu), o autor penetrou de forma admir\u00e1vel na maneira pr\u00f3pria que os jovens t\u00eam para se expressar. O livro marcou \u00e9poca por seu uso ousado de g\u00edrias, e express\u00f5es e refer\u00eancias &#8220;chulas&#8221; &#8211; que andavam na boca da rapaziada da \u00e9poca. Salinger colocou em Holden Caulfield, de forma realista e convincente, tudo o que se passa na cabe\u00e7a de um rapaz de 17 anos: as preocupa\u00e7\u00f5es com o futuro, a incerteza de todo o mundo que passa por esta fase, as garotas (claro!)&#8230; Tudo de uma maneira que nunca havia sido vista antes, com liberdade de estilo, intelig\u00eancia e um raro sentimento de proximidade com o universo jovem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O mesmo sucesso que consagrou de vez o talento de Salinger (que j\u00e1 vinha, desde os anos 40, publicando contos em revistas) foi sem d\u00favida o respons\u00e1vel pelo rumo inesperado que sua carreira (e sua vida) tomou desde ent\u00e3o. &#8220;O Apanhador&#8221;, seu primeiro romance (e \u00fanico volume de material in\u00e9dito) tornou-se uma coqueluche instant\u00e2nea entre os jovens americanos, enlouquecidos ao finalmente conseguirem se identificar de forma t\u00e3o perfeita com um her\u00f3i de literatura. Engra\u00e7ado, comovente e forte, o livro \u00e9 literatura de primeira: leve e \u00e1gil, pr\u00f3prio para gente jovem (que ainda n\u00e3o &#8220;tem paci\u00eancia com esta coisa de literatura&#8221;). Mas com estilo totalmente pr\u00f3prio e marcante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois de vender 15 milh\u00f5es de exemplares e virar uma celebridade mundial, Salinger &#8211; notoriamente t\u00edmido e agressivamente modesto em rela\u00e7\u00e3o a seu talento &#8211; primeiro isolou-se em uma casa no topo de uma montanha, em uma cidadezinha de mil habitantes. Depois foi diminuindo o ritmo de produ\u00e7\u00e3o (publicou seu \u00faltimo conto, Hapworth 16, 1924, em 1965, na revista The New Yorker) e afinal cortou qualquer contato com a m\u00eddia. N\u00e3o concede entrevistas, n\u00e3o se deixa fotografar e nunca permitiu que nenhum dos seus livros fosse adaptado para o cinema (assim como o pr\u00f3prio Holden Caulfield, Salinger odeia cinema). Em dezembro de 1997, o escritor, do alto de seus 78 anos, autorizou afinal o lan\u00e7amento de seu quinto livro (justamente a publica\u00e7\u00e3o em capa dura de Hapworth 16, 1924), o primeiro em 34 anos. (Parece o My Bloody Valentine.)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A m\u00edstica sobre o autor de &#8220;O Apanhador&#8221; n\u00e3o se sobrep\u00f4s ao impacto da obra em si. Holden Caulfield e suas desventuras se tornaram precursores do mito da juventude rebelde &#8211; Holden contesta os mais velhos e n\u00e3o quer se tornar como eles, a quem considera farsantes. Toda a sua luta \u00e9 para preservar os valores que ele acha verdadeiros e sinceros. Pode-se dizer que a figura de James Dean, o rebelde sem causa, \u00e9 filhote da cruzada de Holden por sua integridade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O livro foi citado por incont\u00e1veis bocas c\u00e9lebres ao longo dos anos, em filmes e outros livros. Uma das notas tristes na &#8220;biografia&#8221; da obra \u00e9 que o livro teria inspirado o maluco Mark Chapman a cometer o ato que o tornou macabramente famoso &#8211; assassinar John Lennon, em 1980. Mas nem por isto &#8220;O Apanhador&#8221; deixou de ser um dos livros indispens\u00e1veis (talvez o \u00fanico realmente indispens\u00e1vel) na forma\u00e7\u00e3o de qualquer jovem que deseja compreender melhor a si mesmo, e como o mundo o enxerga &#8211; e a seus colegas. Eu mesmo li duas vezes: a primeira aos 12 anos, a segunda &#8211; no original em ingl\u00eas, mais engra\u00e7ado ainda &#8211; aos 19. E ainda vou encarar uma terceira, assim que achar um exemplar em algum sebo: o livro, editado pela Editora do Autor, anda bastante arredio. Mas quem achar, agarre na hora. \u00c9 a fonte da eterna juventude.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">**************<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8216;O Apanhador&#8217; e cia&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Al\u00e9m da m\u00fasica Who Wrote Holden Caulfield? (Kerplunk!, de 1992), o Green Day faz refer\u00eancias a Holden Caulfield nos cinco \u00e1lbuns da banda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; A letra de In Hiding, do Pearl Jam, fala sobre tentar achar a casa de Salinger. Eddie Vedder disse ao NME que, no fundo, \u00e9 uma met\u00e1fora sobre tentar encontrar a casa de Deus, &#8220;como se Ele fosse um recluso; voc\u00ea encontra a casa Dele, abre Sua caixa de correspond\u00eancia e descobre que est\u00e1 cheia de junk mail&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Quando perguntaram a Mark Chapman por que ele matara John Lennon, o perturado-mental-ou-pau-mandado-da-CIA disse: &#8220;Leia O Apanhador no Campo de Centeio e voc\u00ea descobrir\u00e1 porque o fiz. Esse livro \u00e9 meu argumento&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Em uma refer\u00eancia a Chapman, o filme Teoria da Conspira\u00e7\u00e3o traz Mel Gibson no papel de um lun\u00e1tico que compra todas as c\u00f3pias de O Apanhador&#8230; que consegue encontrar, sem nunca ter lido o livro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; A Disney tem um projeto de produzir uma vers\u00e3o animada de O Apanhador&#8230; com um pastor alem\u00e3o como Holden Caulfield&#8230; (que Deus nos livre e o santo Salinger proiba todo esse lixo!).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; A banda americana The Caulfields.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; A gravadora indie Caulfield Records (PO Box 84323 Lincoln, NE 68501 USA).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; A cantora Lisa Loeb fundou a banda Nine Stories, t\u00edtulo de um dos livros de Salinger.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Bill Halley and his Comets gravaram a homenagem a Salinger Rocking Through The Rye (1958).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">*******<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Marco Antonio Bart \u00e9 jornalista e assina o blog <a href=\"http:\/\/telhadodevidro.wordpress.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Telhado de Vidro<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Marco Antonio Bart\nO Apanhador no Campo de Centeio \u00e9 um marco na longa estrada que os jovens trilharam para provar que t\u00eam direito a voz.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2010\/01\/28\/jd-salinger-1919-2010\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":36,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[9],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4209"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/36"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4209"}],"version-history":[{"count":9,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4209\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":54542,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4209\/revisions\/54542"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4209"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4209"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4209"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}