{"id":42027,"date":"2017-02-01T11:07:14","date_gmt":"2017-02-01T13:07:14","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=42027"},"modified":"2018-05-30T09:10:22","modified_gmt":"2018-05-30T12:10:22","slug":"entrevista-andre-prando","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2017\/02\/01\/entrevista-andre-prando\/","title":{"rendered":"Entrevista: Andr\u00e9 Prando (2017)"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>por <a href=\"https:\/\/twitter.com\/leovinhas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Leonardo Vinhas<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">A \u201cbarba robusta\u201d e o \u201ccabelo vagabundo\u201d podem assustar \u2013 at\u00e9 te fazer pensar que o rapaz que os ostenta faz uma m\u00fasica velha, embolorada. Mas n\u00e3o: o capixaba Andr\u00e9 Prando se inspira no passado, sim, mas jamais se referencia diretamente nele. Talvez uma ou outra faixa de seu EP de estreia, \u201cV\u00e3o\u201d (2014), tenha uma sonoridade saudosista. Por\u00e9m, o \u00e1lbum \u201cEstranho Sutil\u201d (2015) mostra a individualidade e a maturidade das suas propostas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cEstranho Sutil&#8221; pode ser baixado gratuitamente em <a href=\"http:\/\/andreprando.com.br\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/andreprando.com.br<\/a> e \u00e9 um disco arejado, intenso, e que traz apelo pop sem cheiro de mofo. Nele h\u00e1 letras que funcionam tanto como hist\u00f3rias sobre personagens como coment\u00e1rios sociais: \u201cAmiga Vagabunda\u201d, por exemplo, trata com rara intelig\u00eancia e sensibilidade aqueles que n\u00e3o querem reproduzir a tal \u201ccorreria\u201d das grandes cidades. J\u00e1 \u201cO Circo dos Palha\u00e7os Dixavadamente Imorais\u201d esculacha a exig\u00eancia por felicidade constante. \u201cAlto L\u00e1\u201d, \u201cInverso Ano Luz\u201d e \u201cDevaneio\u201d t\u00eam psicodelia, sim, mas n\u00e3o o escapismo que hoje \u00e9 t\u00e3o associado ao conceito. Tem mais a ver com a maneira de organizar e apresentar as ideias, uma contempla\u00e7\u00e3o mais alucinada do que h\u00e1 de extraordin\u00e1rio no cotidiano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A base tudo isso, reconhecidamente, \u00e9 a influ\u00eancia que gente como Z\u00e9 Ramalho, Raul Seixas, S\u00e9rgio Sampaio, Alceu Valen\u00e7a, Belchior e outros tantos tiveram na cabe\u00e7a de um Prando p\u00f3s-adolescente, e que continuam a exercer impacto no adulto de 26 anos. Sampaio em especial: Andr\u00e9 chegou a fazer um minidocument\u00e1rio entrevistando Bic\u00e3o, amigo e esp\u00e9cie de \u201ccurador n\u00e3o oficial\u201d do legado do ex-parceiro de Raul Seixas: \u201dBic\u00e3o \u2013 A \u00daltima Vez que Voc\u00ea me Filmou\u201d (<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=dSSKqpetgLQ\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">dispon\u00edvel no Youtube<\/a>). Ah, sim: \u201cEstranho Sutil\u201d se encerra com \u201c\u00daltima Esperan\u00e7a\u201d, tema at\u00e9 ent\u00e3o in\u00e9dito de Sampaio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Andr\u00e9 Prando tem p\u00fablico consider\u00e1vel em seu estado, e uma audi\u00eancia igualmente impressionante \u2013 para um m\u00fasico independente \u2013 nos seus v\u00eddeos do Youtube. N\u00e3o \u00e9 surpresa, portanto, que tenha se tornado um dos primeiros nomes que salta \u00e0 mente quando se fala do cen\u00e1rio musical capixaba. O fato de esse cen\u00e1rio ser praticamente ignorado no resto do Brasil, a singularidade e o apelo pop das can\u00e7\u00f5es de Prando, seus pr\u00f3ximos trabalhos e at\u00e9 uma vis\u00e3o mais peculiar do conceito de \u201cpsicodelia\u201d s\u00e3o os temas dessa entrevista, conclu\u00edda via Skype em janeiro de 2017.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Antes dessa sess\u00e3o, algumas conversas foram feitas, como parte do processo de feitura do \u00e1lbum \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/2017\/01\/24\/selo-scream-yell-vem-ai-faixa-seis\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Faixa Seis<\/a>\u201d, compila\u00e7\u00e3o de raridades de artistas independentes a ser lan\u00e7ado pelo selo Scream &amp; Yell em 15 de fevereiro. Prando contribuiu com \u201cEm Chamas no Ch\u00e3o\u201d, uma das preferidas do publico em seus shows recentes. Parte dessas conversas contribuiu para a entrevista abaixo. Mas antes dela, ou\u00e7a em primeira m\u00e3o a vers\u00e3o de est\u00fadio de \u201cEm Chamas no Ch\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/WtBU2qb--co?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cEstranho Sutil\u201d \u00e9 claramente um \u00e1lbum, e n\u00e3o apenas um conjunto de can\u00e7\u00f5es. Mais ainda, um \u00e1lbum cuja m\u00fasica \u201ctrai\u201d a est\u00e9tica da capa e seu pr\u00f3prio visual. O ouvinte vai esperando essa nova psicodelia e encontra outra unidade, mais cancioneira, mais pop. Como voc\u00ea chegou a isso?<\/strong><br \/>\nEu fiz esse \u00e1lbum sem saber que seria um \u00e1lbum (risos). Eu tinha uma banda, a Mendigos Cientistas, e conforme ela foi se desfazendo eu fui pensando no \u00e1lbum solo. As m\u00fasicas foram surgindo uma atr\u00e1s da outra, numa sequ\u00eancia: vieram as m\u00fasicas do \u201cEstranho Sutil\u201d e algumas outras, das quais ainda n\u00e3o aprendi a gostar, ou que acho que ainda n\u00e3o terminei. As exce\u00e7\u00f5es s\u00e3o \u201cAlto L\u00e1\u201d, que compus no processo de grava\u00e7\u00e3o do disco, e \u201c\u00daltima Esperan\u00e7a\u201d e \u201cVestido Cor Ma\u00e7\u00e3\u201d, que n\u00e3o s\u00e3o minhas (nota: respectivamente, s\u00e3o de Sergio Sampaio e de Augusto Debann\u00e9). Eu compus todas as outras numa leva s\u00f3, e elas fazem parte do meu universo de descobertas de p\u00f3s-adolescente: os escritores russos, algumas coisas espec\u00edficas de filosofia e religi\u00e3o, as primeiras experi\u00eancias com \u00e1cido. Eu tinha uns 18, 19 anos. Percebi ent\u00e3o na minha poesia um jeito torto de abordar alguns temas. Vi que se eu ia falar de um relacionamento, seria, por exemplo, da perspectiva boa de algo ruim que aconteceu. Vi que meu norte era sempre mostrar o outro lado da moeda. Eu tamb\u00e9m estava descobrindo o Sergio Sampaio e saquei que isso era um pouco da poesia dele. O ser marginal&#8230; N\u00e3o que eu soubesse o que \u00e9 ser marginal naquela \u00e9poca, mas o fato \u00e9 que comecei a me identificar com essa beleza do feio. Virou um conceito, e trabalhei o disco em cima dessa abordagem. A express\u00e3o \u201cestranho sutil\u201d vem de uma can\u00e7\u00e3o do EP \u201cV\u00e3o\u201d, que \u00e9 \u201cBem ou Mal\u201d. Nessa m\u00fasica, eu t\u00f4 falando do dia em que compus \u201cInverso Ano Luz\u201d, que \u00e9 a primeira m\u00fasica do \u201cEstranho Sutil\u201d. A express\u00e3o caracteriza bem essa abordagem que eu aprecio, da beleza do feio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Por que a Mendigos Cientistas acabou?<\/strong><br \/>\nEra uma banda de funk rock, com letras bem ir\u00f4nicas, escrachadas. Fal\u00e1vamos de coisas s\u00e9rias com frases toscas. N\u00e3o chegamos a gravar nada a n\u00e3o ser umas live sessions em est\u00fadio. A gente era muito jovem, os caras estavam numa vibe de curtir a banda, mas todos tinham seus trampos&#8230; Eu estava na universidade, cursava Desenho Industrial, mas tinha decidido sair desse curso e me jogar na m\u00fasica. Fiz a op\u00e7\u00e3o por esse curso. Parei tudo na minha vida para me dedicar \u00e0 m\u00fasica, entendi o quanto aquele chamado era forte em mim \u2013 o momento de descoberta de que eu tava falando. E foi ent\u00e3o a \u00e9poca em que comecei a me apresentar na noite, ser mais profissional, e os caras n\u00e3o estavam nessa pira. Estavam na pira do cidad\u00e3o comum, n\u00e3o estavam se jogando. Sem zica nenhuma, me afastei deles. A banda foi meio morrendo por causa disso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea assina como artista solo, mas a banda que toca contigo j\u00e1 est\u00e1 junta h\u00e1 um tempo. O quanto eles participam das decis\u00f5es criativas?<\/strong><br \/>\nEu comecei meu trabalho solo porque a minha banda tinha esse discurso de ironia, mas eu queria falar de coisa s\u00e9ria, tocar as pessoas, passar mensagens, conversar. Comecei o processo de compor tudo sozinho, e vinha voz, viol\u00e3o e letra, tudo junto. \u00c9 assim que gosto de compor, escrevendo e fazendo a melodia. Quando eu chego com a m\u00fasica para trabalhar com a banda, ela j\u00e1 tem um mapa, uma est\u00e9tica, muito prontos. Mas a partir da\u00ed deixo todos bem \u00e0 vontade para criar algo deles, com o timbre deles, a cara deles. \u00c9 uma segunda parte do arranjo, digamos assim, e eles tamb\u00e9m atuam no processo de grava\u00e7\u00e3o. O Henrique Paoli (baterista) e o Bruno Massa (baixista) est\u00e3o comigo desde o in\u00edcio. Minha primeira apresenta\u00e7\u00e3o foi com outra galera \u2013 no festival Prata da Casa, da R\u00e1dio Universit\u00e1ria ES. Mas foi s\u00f3 uma apresenta\u00e7\u00e3o. Depois vieram o Bruno e o Paoli, e passaram alguns guitarristas. Hoje t\u00f4 com o PH na guitarra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea falou que quer passar mensagens. Tem nelas uma coisa do cotidiano, de conseguir sair do universo escapista ou rom\u00e2ntico. A maneira como voc\u00ea apresenta suas letras mostra a preocupa\u00e7\u00e3o de ser entendido, e por mais metaf\u00edsico que seja um tema ou outro, h\u00e1 uma coisa mais Belchior, \u201cminha alucina\u00e7\u00e3o \u00e9 suportar o dia a dia\u201d, sabe? Ent\u00e3o, a pergunta \u00e9 se a tua vida \u00e9 o ponto de partida, mesmo que como observador, para suas can\u00e7\u00f5es.<\/strong><br \/>\nVoc\u00ea n\u00e3o falou isso, mas j\u00e1 \u00e9 bom dizer que n\u00e3o s\u00e3o m\u00fasicas autobiogr\u00e1ficas. Podemos dizer que s\u00e3o experi\u00eancias que observo ou imagino. Uma coisa que admiro fortemente na m\u00fasica do Belchior \u00e9 que s\u00e3o coisas muito pr\u00f3ximas, banais \u2013 no sentido que todo mundo t\u00e1 ali, [representado] naquela frase. Era outra preocupa\u00e7\u00e3o que o Raul [Seixas] tinha, de fazer m\u00fasicas que a empregada pudesse entender. \u00c9 o lixo dos quintais, e tem que botar pra fora. Isso s\u00e3o coisas que eu absorvi, e que me fizeram mudar. Cresci numa escola adventista, e passei minha adolesc\u00eancia inteira sendo podado. Era limitado, n\u00e3o podia ouvir m\u00fasicas mundanas, ler livros mundanos. N\u00e3o era religioso, mas estudava ali e tinha essa limita\u00e7\u00e3o. Quando eu comecei a ter contato com contracultura, me chamou aten\u00e7\u00e3o essa coisa \u201cp\u00e9 na porta\u201d, de abrir a mente. A capa do meu disco diz isso, as can\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m, ainda que de uma forma subjetiva.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/6JoHctrm7-I?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Todos os nomes que citamos em nossas conversas \u2013 Sergio Sampaio, Raul Seixas, Belchior \u2013 tiveram seu auge antes de voc\u00ea nascer. Falando do Sampaio em especial: eu queria saber em que momento essa rela\u00e7\u00e3o com a m\u00fasica dele se tornou t\u00e3o importante a ponto de voc\u00ea resgatar can\u00e7\u00e3o in\u00e9dita, fazer document\u00e1rio sobre o parceiro do cara&#8230;<\/strong><br \/>\nFoi uma descoberta tardia, e come\u00e7a com Raul Seixas. O ambiente na minha casa n\u00e3o era muito art\u00edstico, muito menos musical. Minha m\u00e3e \u00e9 artes\u00e3, faz bonecas de pano. Mas eu n\u00e3o enxergava isso como arte, n\u00e3o via paralelo entre artes\u00e3 e artista. Eu n\u00e3o fazia essa liga\u00e7\u00e3o entre artes\u00e3 e o cara que estava na televis\u00e3o ou no r\u00e1dio. Hoje eu talvez fa\u00e7a essa liga\u00e7\u00e3o, mas como crian\u00e7a n\u00e3o. E televis\u00e3o era algo muito distante, r\u00e1dio tamb\u00e9m. At\u00e9 porque na minha educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o se falava de artistas originalmente capixabas, e eu, muito ing\u00eanuo, n\u00e3o achava que pudesse ter artistas na minha cidade. Meu primeiro contato foi com a m\u00fasica, com o poder dela, foi com Raul: a barba do cara, o visual, as letras&#8230; N\u00e3o entendia nada, mas uma crian\u00e7a de cinco anos cantando \u201cMosca na Sopa\u201d, po! \u00c9 muito l\u00fadico, n\u00e9? Veio a internet, comecei a fazer muito downloads de discos e ent\u00e3o voltei ao Raul, fui escutar com aten\u00e7\u00e3o mesmo. Tinha o \u201cSociedade da Gr\u00e3-Ordem Kavernista Apresenta Sess\u00e3o das 10\u201d, disco de 1971 que tinha Raul, Sampaio, Edy Star e Miriam Batucada. As m\u00fasicas que eu mais curtia eram as parcerias de Raul Seixas com esse tal de Sergio Sampaio. Fui pesquisar sobre ele, e vi que j\u00e1 conhecia a obra mais famosa do cara sem saber que era do cara (risos), j\u00e1 que \u201cEu Quero \u00c9 Botar Meu Bloco na Rua\u201d t\u00e1 no inconsciente do povo brasileiro. Eu pirei que tivesse um capixaba na obra do Raul, e fui atr\u00e1s da pr\u00f3pria obra dele, do Sergio. A\u00ed rolou essa identifica\u00e7\u00e3o com a poesia dele. Era aquela \u00e9poca dos primeiros relacionamentos tamb\u00e9m, e a m\u00fasica do Sergio \u00e9 das melhores para uma fossa (risos), ele usa palavras \u00fanicas&#8230; Perto de 2012, eu descobri que tinha o Festival Sergio Sampaio em Vit\u00f3ria. As pessoas prestavam homenagem a ele, e nessa \u00e9poca eu j\u00e1 estava botando meu trabalho na pra\u00e7a. Fui procurar a produ\u00e7\u00e3o do festival, e eles me disseram que j\u00e1 tinham ouvido falar de mim, sabiam dos meus v\u00eddeos no Youtube \u2013 que eu tirei do ar \u2013 tocando Sergio Sampaio&#8230; Me convidaram para tocar duas m\u00fasicas, e nesse primeiro ano eu j\u00e1 tinha descoberto \u201c\u00daltima Esperan\u00e7a\u201d. N\u00e3o entendia porque ningu\u00e9m cantava, porque ela n\u00e3o era sucesso, e s\u00f3 quando li a biografia do Sergio (\u201cEu Quero \u00c9 Botar Meu Bloco na Rua\u201d, de Rodrigo Moreira) vi que o timing dela n\u00e3o foi bom, porque ela foi lan\u00e7ada enquanto as pessoas ainda estavam muito sensibilizadas pelo inc\u00eandio no Edif\u00edcio Joelma. Mas fui l\u00e1 e toquei ela e \u201cTem que Acontecer\u201d. A partir da\u00ed come\u00e7aram a me chamar para as outras edi\u00e7\u00f5es do festivais \u2013 em 2014, passei a integrar a curadoria, a produzir o show. Hoje, para al\u00e9m desse resgate para dentro do meu trabalho, me envolvo com coisas que dizem respeito a obra dele \u2013 o festival, document\u00e1rios universit\u00e1rios sobre o Sergio&#8230; Acabou que virei uma refer\u00eancia aqui na cidade, e acho massa demais! Tem muita gente que passou a conhecer Sergio Sampaio pela minha obra e vice-versa. S\u00f3 consigo ficar feliz com isso.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/dSSKqpetgLQ?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O Sergio era capixaba, e voc\u00ea mesmo, capixaba tamb\u00e9m, n\u00e3o o conhecia. O Esp\u00edrito Santo \u00e9 um dos muitos Estados do Brasil que tem uma produ\u00e7\u00e3o cultural muito intensa e variada, e que mesmo assim permanece praticamente desconhecida no resto do pa\u00eds. O que \u00e9 curioso, j\u00e1 que voc\u00ea, por exemplo, consegue viver exclusivamente do seu trabalho com a m\u00fasica, algo que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel para artistas em outras cenas mais comentadas. De qualquer forma, de onde voc\u00ea acha que vem esse desconhecimento, ou ignor\u00e2ncia mesmo, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 m\u00fasica da\u00ed?<\/strong><br \/>\nAcho que ningu\u00e9m sabe explicar muito bem. Eu sinto que essa falta de identifica\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria cultura que o capixaba tem \u2013 e tem mesmo \u2013 \u00e9 provavelmente por uma heran\u00e7a local que \u00e9 n\u00e3o ter heran\u00e7a, de n\u00e3o procurar saber quem s\u00e3o os artistas de sua terra. Estou falando da massa, que de forma geral n\u00e3o consome cultura. E \u00e9 uma cidade pequena \u2013 Vit\u00f3ria \u00e9 uma capital com pouco mais de 300 mil habitantes. Isso de desmistificar o artista e mostrar que ele \u00e9 um vizinho de porta \u00e9 uma coisa muito recente aqui. H\u00e1 uma constru\u00e7\u00e3o de uma cena independente \u2013 que \u00e9 como andam as coisas de uma forma geral. S\u00e3o coletivos, umas casas de shows, nichos pequenos. N\u00e3o sei em que prazo isso vai se tornar algo mais respeit\u00e1vel a ponto de extrapolar as fronteiras do Estado. E sobre viver da pr\u00f3pria m\u00fasica: a gente tem uma lenda aqui que \u00e9 o [F\u00e1bio] Mozine, da Laja Records. Ele vive bem. Ele gosta de ter a vida em que cuida do selo dele, e ao mesmo tempo \u00e9 capaz de parar para tomar uma cerveja no meio da tarde. Ele se limita, mas \u00e9 o porte que ele escolheu ter. Sei que S\u00e3o Paulo tem muito cara que tem que trabalhar com outras coisas, porque a cidade \u00e9 muito 220. Aqui j\u00e1 tem mais artistas que conseguem viver da pr\u00f3pria arte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como voc\u00ea consegue manter a agenda cheia? S\u00e3o shows com banda, solo, como convidado&#8230;<\/strong><br \/>\nIsso faz com que eu me sinta em movimento, me sinta atuante e atualizado. Por exemplo: h\u00e1 pouco lancei o v\u00eddeo \u201cEstranho Sutil Ao Vivo na UFES\u201d, que foi inesperado para muita gente. Eu tamb\u00e9m sou um cara que se convida para participar em muita coisa. T\u00e1 tendo um evento no Expuirga\u00e7\u00e3o, um coletivo aqui no Centro de Vit\u00f3ria que produziu o clipe de \u201c\u00daltima Esperan\u00e7a\u201d. Eles me convidaram para apresentar uma webs\u00e9rie sobre a parada, e tamb\u00e9m ser VJ l\u00e1. Tem uma galera que fantasia que sou famoso e que estou ganhando rios de dinheiro (risos), aquela fantasia do artista. Mas as pessoas t\u00eam entrado comigo como uma refer\u00eancia de artista capixaba, por ter certo reconhecimento fora do Estado, ter tocado no [festival] MADA, ganhado o festival Show Livre Day (nota: ambos em 2016). Mas n\u00e3o sou s\u00f3 eu. Tem o My Magic Glowing Lens, que tocou em mais festivais que eu e faz um som psicod\u00e9lico bem massa; tem o Muddy Brothers tamb\u00e9m, que tamb\u00e9m j\u00e1 rodaram bastante. Eu diria que sou apenas um artista fazendo meu trabalho. T\u00f4 na pra\u00e7a. N\u00e3o \u00e9 que eu esteja mais destacado. Eu simplesmente estou fazendo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O p\u00fablico de hoje em dia tem um d\u00e9ficit de aten\u00e7\u00e3o muito grande \u2013 v\u00eddeo de Youtube com sete minutos \u00e9 um \u00e9pico (risos), o espectador quer tr\u00eas minutos e olhe l\u00e1. Ent\u00e3o, o que voc\u00ea espera colocando o show inteiro online?<\/strong><br \/>\nPrimeiramente \u00e9 o recorte. Parte da\u00ed. O show foi um projeto da UFES. Eu estava para me formar, j\u00e1 tinha apresentado o TCC e s\u00f3 faltava colar grau. Mas ainda era um aluno. Ent\u00e3o um professor de filosofia da arte da UFES foi ver um show meu no formato voz e viol\u00e3o, e logo depois me convidou para fazer um M\u00fasica na UFES, um evento no qual s\u00f3 professor se apresentava. Topei na hora, e aproveitei que o show seria em est\u00fadio \u2013 um est\u00fadio foda da UFES, com uma puta qualidade \u2013 para propor de gravar a apresenta\u00e7\u00e3o inteira \u2013 \u00e1udio e v\u00eddeo. E nasceu assim. Pintou ent\u00e3o a ideia de transformar o est\u00fadio num ambiente de disco voador, para que todo mundo tivesse uma experi\u00eancia coletiva de audi\u00e7\u00e3o do disco tal qual ele \u00e9. Da\u00ed a coisa da \u201cseita\u201d, todo mundo vestido de branco, a banda em tons preto-e-branco aquela coisa esquisita assim&#8230; Depois de pronto, superou as expectativas. O produtor que conduziu a mesa me convidou para mixar com ele, e estava ficando tudo muito bom, muito bonito. Ele sugeriu que eu disponibilizasse, e foi vindo essa ideia&#8230; Calhou que o show foi no anivers\u00e1rio de um ano do disco, e estamos lan\u00e7ando quase no anivers\u00e1rio de dois anos. \u00c9 uma celebra\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia que foi o show. Eu espero que as pessoas que acompanham o trabalho gostem dele, e as que n\u00e3o conhecem possam se interessar. Mesmo que esse show n\u00e3o transpare\u00e7a o que \u00e9 o meu show de verdade \u2013 que \u00e9 um lance muito mais quente, com cambalhota, umas coisas loucas \u2013 esse \u00e9 um presente. E nos pr\u00f3ximos dias o show vai pros streamings como \u00e1lbum ao vivo. Ent\u00e3o \u00e9 um presente mesmo.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/uJbZfWyLzkg?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>J\u00e1 s\u00e3o dois anos trabalhando esse repert\u00f3rio. Sei que voc\u00ea gostaria de levar esse show para lugares onde n\u00e3o esteve ainda, mas n\u00e3o acha que o repert\u00f3rio, por melhor que seja, pode cansar?<\/strong><br \/>\n\u00c9, eu sinto. Inclusive n\u00e3o sei se fazer mais de um show por m\u00eas em Vit\u00f3ria \u00e9 saud\u00e1vel para mim. Embora tenha um p\u00fablico que me siga, e que \u00e9 cada vez maior, a gente vive numa era da tecnologia da informa\u00e7\u00e3o \u00e9 muito r\u00e1pida, e dois anos de um disco j\u00e1 deu, o pr\u00f3ximo tem que vir. Al\u00e9m dessa can\u00e7\u00e3o que vai sair no \u201cFaixa Seis\u201d, tem umas faixas novas que compus e j\u00e1 venho trabalhando nelas, tenho um pr\u00e9-projeto para gravar o disco, que talvez saia sem verba, com a ajuda de uns parceiros. \u201cEm Chamas no Ch\u00e3o\u201d j\u00e1 traz uma coisa diferente das outras composi\u00e7\u00f5es, uma metamorfose na forma de escrever e na est\u00e9tica. As outras can\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m t\u00eam isso. N\u00e3o uma coisa de amadurecimento, mas de mudan\u00e7a constante mesmo. Sem, como diria o Tagore, mudar absolutamente tudo. Existe uma continua\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Falemos da sua sonoridade uma vez mais. Apesar de todas as refer\u00eancias setentistas que falamos agora, sua m\u00fasica n\u00e3o soa datada. Os timbres, os arranjos, s\u00e3o bem contempor\u00e2neos. Onde est\u00e3o teus pontos de apoio mais modernos?<\/strong><br \/>\nSabe o que \u00e9 doido? Essas m\u00fasicas novas que a gente tem produzido t\u00eam virado demos. Somos eu e o Paoli, meu parceira\u00e7o \u2013 compadre de casamento, vizinho \u2013, produzindo juntos. Ele sempre me diz que as can\u00e7\u00f5es soam como eu mesmo. Eu n\u00e3o uso refer\u00eancias em forma de espelho. Sei que \u00e9 comum um produtor pedir uns dois ou tr\u00eas discos de refer\u00eancias, de como os timbres devem soar. Mas quando estou compondo, \u00e9 muito intuitivo, \u00e9 como que quero que soe. Mais ou menos no processo final a gente come\u00e7a a identificar: \u201cah, parece Lenny Kravitz, ou Mutantes, ou Raul\u201d&#8230; Mesmo assim, parece um som muito meu, e tenho dificuldade de rotular. Enfim, eu gosto muito do que O Terno faz. Muito, muito, muito mesmo. Eu me considero um f\u00e3 do tipo \u201cf\u00e3 mesmo\u201d (risos), leio entrevistas, acompanho tudo. Acho os caras muito l\u00facidos. Gosto pra caralhos dos Baggios. Tem o Kula Shaker, de quem gosto muito. Eles misturam a m\u00fasica oriental, mantas, com rock. O Beck fez um disco linda\u00e7o: um cara que passou pelo pop, por beats eletr\u00f4nicos, faz um disco todo bonito, cheio de viol\u00e3o [\u201cMorning Phase\u201d, de 2014]&#8230; Tem a banda do Sean Lennon com a esposa [Charlotte Kemp Muhl], The Ghost of a Saber Tooth Tiger (nota: ou simplesmente The GOASTT), bem aut\u00eantico, psicod\u00e9lico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A psicodelia \u00e9 um elemento presente na m\u00fasica pop hoje, e amplamente citada. Voc\u00ea v\u00ea seu disco como psicod\u00e9lico?<\/strong><br \/>\nTem um medo que eu n\u00e3o tenho: passar pelo pop. Aprecio muito como o Z\u00e9 Ramalho \u00e9 popular e ningu\u00e9m entende nada do que ele fala. O cara \u00e9 psicod\u00e9lico na po\u00e9tica, e o cara \u00e9 t\u00e3o popular, bicho! Os discos dele ao longo das d\u00e9cadas t\u00eam esse car\u00e1ter, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2016\/09\/29\/assista-nas-paredes-da-pedra-encantada\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Paebir\u00fa<\/a>\u201d. Porque o \u201cPa\u00eabir\u00fa\u201d \u00e9 extremamente psicod\u00e9lico, mas os outros trabalham a forma como aprecio a psicodelia, que \u00e9 a introdu\u00e7\u00e3o ao extraordin\u00e1rio, a tornar poss\u00edvel o que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, abrir o pineal mesmo. A\u00ed est\u00e1 o psicod\u00e9lico. N\u00e3o d\u00e1 para resumir ao noise. Pelo menos n\u00e3o \u00e9 o meu caminho. Prefiro caminhar nessa ideia da descoberta, do novo. Psicod\u00e9lico nesse sentido. \u201cEstampas de Eucalol\u201d do Xangai tem uma psicodelia na letra: o cara viajando nas hist\u00f3rias, olhando cartas, as estampas eucalol! Isso \u00e9 fant\u00e1stico! \u00c9 o regional lidando com l\u00fadico de uma forma bonita. Ent\u00e3o, esse flerte com o popular, mas que ao mesmo tempo seja um som que pede uma pausa para entender, para refletir, esse \u00e9 o meu barato.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/eU7V9ZQiOeQ?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/NKq_wLiSWTs?start=56&#038;feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/videoseries?list=PLBTNMEXyKDg5O7xKwCS0Y-TkXKJiW-SN5\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Leonardo Vinhas (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/#%21\/leovinhas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@leovinhas<\/a>) assina a se\u00e7\u00e3o Conex\u00e3o Latina (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/tag\/conexao_latina\/\">aqui<\/a>) no Scream &amp; Yell. A foto que abre o texto \u00e9 de <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/luara.monteiro.3\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Luara Monteiro<\/a> \/ Divulga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Andr\u00e9 Prando tem p\u00fablico consider\u00e1vel em seu estado, e uma audi\u00eancia igualmente impressionante \u2013 para um m\u00fasico independente \u2013 nos seus v\u00eddeos do Youtube\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2017\/02\/01\/entrevista-andre-prando\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":6,"featured_media":42028,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[1657,354],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/42027"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=42027"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/42027\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":47752,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/42027\/revisions\/47752"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/42028"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=42027"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=42027"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=42027"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}