{"id":41450,"date":"2016-12-29T19:29:23","date_gmt":"2016-12-29T21:29:23","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=41450"},"modified":"2017-03-01T00:29:34","modified_gmt":"2017-03-01T03:29:34","slug":"george-michael-o-ultimo-popstar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2016\/12\/29\/george-michael-o-ultimo-popstar\/","title":{"rendered":"George Michael, o \u00daltimo Popstar"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>por <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/MarcoAntonioBarbosaJr\" target=\"_blank\">Marco Antonio Barbosa<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o vai haver outro popstar como George Michael. N\u00e3o \u00e9 que o (enorme) talento do cantor, falecido no \u00faltimo Natal, seja insuper\u00e1vel, ou que seu (gigantesco) carisma seja imbat\u00edvel. \u00c9 que a m\u00fasica pop de hoje n\u00e3o comporta mais a figura arquet\u00edpica do popstar que George Michael representava \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o. O ingl\u00eas foi o \u00faltimo dos astros pop feitos ao molde tradicional. Depois dele, alguns outros tentaram, mas ningu\u00e9m chegou nem perto do n\u00edvel de acerto que ele atingiu ao aperfei\u00e7oar a f\u00f3rmula.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando se fala no termo \u201cpopstar arquet\u00edpico\u201d, refiro-me a um tipo de entertainer surgido antes da era do rock\u2019n\u2019roll e que dispensava as complexidades e contradi\u00e7\u00f5es inerentes ao rock p\u00f3s-Bob Dylan. O popstar arquet\u00edpico almeja o congra\u00e7amento, a uni\u00e3o de todos os p\u00fablicos, a m\u00fasica como express\u00e3o n\u00e3o de uma \u201cverdade art\u00edstica\u201d individual, mas sim como fator de divers\u00e3o e inclus\u00e3o. O popstar arquet\u00edpico n\u00e3o est\u00e1 a\u00ed para causar questionamentos: ele quer despertar emo\u00e7\u00f5es. Quer divertir, excitar, levar \u00e0s l\u00e1grimas, incitar extravasamentos. Seu talento se concentra em criar a forma mais eficaz de conex\u00e3o e de comunica\u00e7\u00e3o direta com o p\u00fablico?\u2014?e quanto maior o p\u00fablico, melhor. Isso se cristaliza na cria\u00e7\u00e3o de uma persona na qual visual, discurso e sex-appeal t\u00eam, no m\u00ednimo, a mesma import\u00e2ncia que a m\u00fasica. O popstar arquet\u00edpico quer ter algo a oferecer a todo mundo. E quando ele consegue, amigo, sai de baixo. Frank Sinatra era um desses. O Elvis p\u00f3s-Ex\u00e9rcito tamb\u00e9m. Elton John. Paul McCartney p\u00f3s-Beatles. Julio Iglesias. Michael Jackson. Por aqui, Roberto Carlos e Lulu Santos s\u00e3o exemplos \u00f3bvios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">George Michael era um desses, e um dos exemplos mais bem acabados do arqu\u00e9tipo. Ele representava muitas coisas diferentes para muitos p\u00fablicos diferentes. Era o poster-boy das adolescentes oitentistas, a Grande Esperan\u00e7a Branca\u2122 do pop noventista, o \u00edcone involunt\u00e1rio da libera\u00e7\u00e3o gay, o crooner de infinitos mot\u00e9is e t\u00e1xis sintonizados na r\u00e1dio Antena 1. Mas cada um desses George Michaels era constru\u00eddo na cabe\u00e7a do(s) p\u00fablico(s); ele mesmo era um s\u00f3. Cada um que fizesse dele o que quisesse. Ele s\u00f3 pedia, como no t\u00edtulo de seu melhor \u00e1lbum, que todo mundo o escutasse sem preconceitos. Bonit\u00e3o, sarado e com a imensa m\u00e1quina da Columbia Records a apoia-lo, George Michael faria sucesso mesmo se n\u00e3o tivesse talento. Mas tinha?\u2014?e por isso \u00e9 que fez TANTO sucesso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como todo popstar arquet\u00edpico, George Michael parecia n\u00e3o esfor\u00e7ar nem um pouco para criar cl\u00e1ssicos instant\u00e2neos que soavam familiares e novos em folha ao mesmo tempo. Era assim com o power pop de pl\u00e1stico de \u201cI\u2019m Your Man\u201d, com a sacarose na dose exata de \u201cLast Christmas\u201d, com o melodrama definitivo de \u201cCareless Whisper\u201d e \u201cFather Figure\u201d, com o sacolejo obsceno de \u201cFreeek!\u201d, \u201cI Want Your Sex\u201d e \u201cToo Funky\u201d, com a incr\u00edvel recria\u00e7\u00e3o de \u201cAs\u201d, com as l\u00e1grimas sinceras de \u201cJesus to a Child\u201d, com a fisgada na batida-da-selva de Bo Diddley em \u201cFaith\u201d, com o croonerismo classudo de \u201cKissing a Fool\u201d. Listen Without Prejudice, seu \u00e1lbum de 1990, nasceu antol\u00f3gico: tudo na medida certa, can\u00e7\u00f5es preciosas como \u201cPraying for Time\u201d, \u201cCowboys and Angels\u201d, \u201cHeal the Pain\u201d e \u201cWaiting for the Day\u201d complementando a definitiva \u201cFreedom 90\u201d (que clipe, que letra, que levada, quantas noites em pistas de dan\u00e7a por a\u00ed afora!). Condensando soul, rock, funk, pop cl\u00e1ssico e r\u2019n\u2019b, \u00e9 o tipo de produto altamente sofisticado e instantaneamente acess\u00edvel que s\u00f3 os melhores popstars arquet\u00edpicos conseguem criar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o vai haver outro popstar como George Michael porque n\u00e3o h\u00e1 mais espa\u00e7o para popstars como ele. A fal\u00eancia do modelo antigo das gravadoras contribui para isso, claro. Mas, acima de tudo, a figura do popstar inclusivo, que almeja falar com todos os p\u00fablicos de forma descomplicada, est\u00e1 fora de moda. Vivemos uma era de problematiza\u00e7\u00e3o incessante de todo tipo de quest\u00e3o de identidade e o mainstream pop n\u00e3o escapa dessa realidade. Quer queiram, quer n\u00e3o, astros pop como Lady Gaga, Beyonc\u00e9, Drake, Kanye West, Sam Smith e Adele n\u00e3o s\u00e3o apenas astros pop: s\u00e3o discutidos \u00e0 luz do que representam dentro dos debates sobre feminismo, negritude, sexismo, homossexualidade. E eles sabem disso. N\u00e3o que inexistam artistas que almejem pairar sobre (ou sob) isso tudo e se contentem apenas em divertir o p\u00fablico: Robbie Williams \u00e9 um exemplo \u00f3bvio. Mas a unidimensionalidade desse tipo de astro hoje parece quase ofensiva, reacion\u00e1ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez George Michael tenha sacado essa mudan\u00e7a nos tempos, durante a acidentada metade final de sua carreira. N\u00e3o h\u00e1 mais lugar para astros que querem \u201capenas\u201d agradar aos 6 bilh\u00f5es de habitantes da Terra. Ao menos, ele chegou bem perto disso.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/6W0d9xMhZbo?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/izGwDsrQ1eQ?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/6Cs3Pvmmv0E?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/diYAc7gB-0A?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>&#8211; Marco Antonio Bart (<a href=\"http:\/\/twitter.com\/BartBarbosa\" target=\"_blank\">@bartbarbosa<\/a>) \u00e9 jornalista e m\u00fasico. Conhe\u00e7a o projeto <a href=\"https:\/\/borealis1.bandcamp.com\/\" target=\"_blank\">Borealis<\/a>, que j\u00e1 conta com dois \u00e1lbuns: &#8220;Borealis&#8221; (2015) e &#8220;Post Solis&#8221; (2016)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"N\u00e3o vai haver outro popstar como George Michael. 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