{"id":41399,"date":"2016-12-27T10:53:56","date_gmt":"2016-12-27T12:53:56","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=41399"},"modified":"2017-04-03T18:31:38","modified_gmt":"2017-04-03T21:31:38","slug":"entrevista-christian-petermann","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2016\/12\/27\/entrevista-christian-petermann\/","title":{"rendered":"Entrevista: Christian Petermann"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>por <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/renan.machadoguerra\" target=\"_blank\">Renan Guerra<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Brasil se divide entre a dicotomia de ser o pa\u00eds que mais mata transexuais no mundo e o pa\u00eds que mais pesquisa o termo \u201cshemale\u201d no RedTube. No meio disso, pessoas trans permanecem a margem da sociedade, na prostitui\u00e7\u00e3o, na busca por sobreviv\u00eancia. Nos \u00faltimos anos, entre debates de g\u00eanero e lutas por direitos, as transexuais est\u00e3o conseguindo dar alguns passos em busca por respeito: um desses passos \u00e9 a simplifica\u00e7\u00e3o do uso do nome social em todo o territ\u00f3rio nacional, sob decreto assinado em abril de 2016.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mesmo com certos avan\u00e7os sociais, as pessoas trans ainda n\u00e3o s\u00e3o suficientemente bem representadas no universo da arte e ainda nos debatemos sobre uma celeuma: \u00e9 correto personagens trans serem interpretadas constantemente por atores cis? Atualmente conseguimos contar nos dedos de uma m\u00e3o os atores trans presentes no cinema e na TV brasileira. E mesmo o nosso cinema, sempre ousado e afoito a temas espinhosos, sempre tergiversou sobre o transexualidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E foi sobre esses raros momentos em que as pessoas trans figuraram em nossas telas que eu conversei com o cr\u00edtico de cinema Christian Petermann, ainda em 2014. Numa entrevista via e-mail, Christian Petermann falou sobre as representa\u00e7\u00f5es das pessoas trans em nosso cinema historicamente e tamb\u00e9m sobre os espa\u00e7os que vem sendo conquistados atualmente, bem como o contraponto de um fortalecimento de ideais mais conservadores. Por distintos motivos, essa entrevista acabou ficando na gaveta e nunca indo ao ar, por\u00e9m mesmo passado esse tempo, ela segue extremamente atual e pertinente, merecendo assim vir \u00e0 tona.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dos motivos do resgate dessa entrevista foi a partida precoce de Christian Petermann, aos 49 anos, em maio de 2016. Christian era cr\u00edtico de cinema, trabalhou nas revistas SET e Rolling Stone, foi um dos s\u00f3cios-fundadores da Abraccine \u2013 Associa\u00e7\u00e3o Brasileira dos Cr\u00edticos de Cinema \u2013 e era conhecido por muitos por suas apari\u00e7\u00f5es semanais no programa \u201cTodo Seu\u201d, de Ronnie Von, na TV Gazeta. A publica\u00e7\u00e3o desse material serve como forma n\u00e3o s\u00f3 de homenagear um grande cr\u00edtico, mas tamb\u00e9m de reverberar sua intelig\u00eancia e seu conhecimento sobre a s\u00e9tima arte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/vera.jpg\" width=\"750\" height=\"503\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Pesquisando sobre o cinema da Boca do Lixo, vejo nos anos 1980, principalmente, uma profus\u00e3o maior de personagens travestis nas telas. Eles aparecem desde filmes da Boca mesmo, como &#8220;Sexo dos Anormais&#8221; (1984), do Sternheim, e &#8220;Viciado em C&#8230;&#8221; (1984), do David Cardoso, como em filmes com outras proced\u00eancias, como em &#8220;<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2016\/06\/21\/tres-filmes-o-sexo-no-cinema-brasileiro\/\" target=\"_blank\">Rio Babil\u00f4nia<\/a>&#8221; (1982), de Neville D&#8217;Almeida e &#8220;Vera&#8221; (1987), de S\u00e9rgio Toledo. Voc\u00ea percebe isso? Acha que essas personagens aparecem pouco no cinema produzido no pa\u00eds atualmente?<\/strong><br \/>\nAtualmente, vejo que o personagem LGBT ocupa um espa\u00e7o ainda pequeno, mas in\u00e9dito e maior do que em qualquer outra passagem da hist\u00f3ria de nosso cinema. Os t\u00edtulos que voc\u00ea aponta, lan\u00e7ados nos anos 1980, s\u00e3o de duas vertentes muito diferentes. Os filmes de Alfredo Sternheim e David Cardoso eram pornochanchadas assumidas, com\u00e9dias de costume com sexo expl\u00edcito, obras realizadas de encomenda para uma demanda de mercado em plena efervesc\u00eancia: o sexo gr\u00e1fico nas telonas. S\u00e3o filmes humildes em est\u00e9tica e especialmente caricatos (pra n\u00e3o dizer preconceituosos) com o travesti, personagens secund\u00e1rios e comumente humilhados. O filme de Neville d\u2019Almeida \u00e9 obra \u201cautoral\u201d, com assinatura clara do p\u00e2ndego e bon-vivant e carioqu\u00edssimo Neville, que nesta obra tamb\u00e9m se aproveitou das liberdades conquistadas com o gradual fim da censura e fez um longa hedonista e org\u00edaco. Neste contexto, na vis\u00e3o de prazeres de um cineasta inquestionavelmente heterossexual, o homossexual tamb\u00e9m exerce posi\u00e7\u00e3o caricata. J\u00e1 o filme de Sergio Toledo, \u201cVera\u201d, foi um marco e impacto \u00e0 \u00e9poca, lembro bem da repercuss\u00e3o e retorno positivo da imprensa e cr\u00edtica \u2013 sem sucesso de bilheteria, claro. Mas era praticamente a primeira vez em que um personagem-t\u00edtulo\/protagonista de filme brasileiro assume sua homossexualidade, no caso o lesbianismo da jovem Vera (Ana Beatriz Nogueira, impec\u00e1vel), em obra sem exageros, realista, p\u00e9 no ch\u00e3o e mais: sens\u00edvel. Vera se configurou a \u00e9poca como a exce\u00e7\u00e3o da regra. Mas h\u00e1 outros t\u00edtulos da d\u00e9cada que arriscaram retratos LGBT com maior ou menor sucesso, destacando \u201cAsa Branca\u201d (1981), de Djalma Limongi Batista, e dentro de um esquema independente t\u00edpico da Boca, o filme \u201cOnda Nova\u201d (1983), de \u00cdcaro Martins e Jos\u00e9 Antonio Garcia, sobre um time feminino de futebol, o Gayvotas Futebol Clube, e com uma saud\u00e1vel pluri-sexualidade e elenco de not\u00f3rios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>H\u00e1 dois filmes que trazem a figura do homossexual\/travesti de forma forte e corajosa: &#8220;Rainha Diaba&#8221; (1974), de Ant\u00f4nio Carlos Fontoura, e &#8220;Madame Sat\u00e3&#8221; (2002), de Karim A\u00efnouz. Eles caminham por uma perspectiva mais dram\u00e1tica, uma vez que a marginaliza\u00e7\u00e3o desses personagens n\u00e3o permitia outro olhar?<\/strong><br \/>\nAs duas vers\u00f5es da vida do malandro carioca gay e marginal refletem os respectivos momentos de produ\u00e7\u00e3o: o filme de Fontoura, dos anos 1970, traz uma inquietude comportamental p\u00f3s-contracultura, p\u00f3s-Cinema Novo, mas em personifica\u00e7\u00f5es ainda extremas \u2013 por melhor que seja a interpreta\u00e7\u00e3o, Milton Gon\u00e7alves beira a caricatura e o teatral por princ\u00edpio da obra. J\u00e1 o \u201cMadame Sat\u00e3\u201d de A\u00efnouz surge na Retomada, em outro momento moral e sob a dire\u00e7\u00e3o de um realizador cuja sensibilidade est\u00e1 intrinsecamente ligada \u00e0 pr\u00f3pria homossexualidade. O protagonista de L\u00e1zaro Ramos \u00e9 imponente, viril e amea\u00e7ador, por mais que inquestionavelmente homossexual. \u00c9 uma obra muito mais d\u00e9rmica, sensorial, de intensas emo\u00e7\u00f5es \u2013 um trabalho de import\u00e2ncia inquestion\u00e1vel na evolu\u00e7\u00e3o da imagem LGBT nas telas, mas ainda associado \u00e0 quest\u00e3o marginal, por vezes perversa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O recente longa &#8220;Doce Amianto&#8221; (2013) at\u00e9 busca outra perspectiva, mais l\u00edrica\/on\u00edrica para essas quest\u00f5es de sexualidade de g\u00eanero. O que pensa sobre?<\/strong><br \/>\n\u201cDoce Amianto\u201d pertence nitidamente a outra gera\u00e7\u00e3o de realizadores, e a obra tem uma amplitude de leituras que a coloca em posi\u00e7\u00e3o \u00fanica: a mulher Amianto, em crise, \u00e9 interpretada por um homem; este travestismo e transforma\u00e7\u00e3o encontram ecos l\u00fadicos, rasgados e por vezes excessivos no visual ostensivo e maneirista do filme. Aqui, o personagem-t\u00edtulo est\u00e1 no limite do feminino e do masculino como uma quest\u00e3o de cria\u00e7\u00e3o e exist\u00eancia, n\u00e3o como manifesta\u00e7\u00e3o ou panfleto. Novos tempos!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Dois filmes nacionais com tem\u00e1tica homossexual foram apresentados no Festival de Berlim 2014, mesmo assim, esses temas ainda s\u00e3o delicados no cinema nacional. A atriz Leandra Leal, por exemplo, est\u00e1 com dificuldades para conseguir financiamento para seu document\u00e1rio \u201cDivinas Divas\u201d, que resgata a hist\u00f3ria de oito artistas travestis pioneiras [\u201cDivinas Divas\u201d foi finalizado e entrou em cartaz no circuito comercial em outubro de 2012]. Voc\u00ea considera que ainda h\u00e1 uma resist\u00eancia em levar estes personagens para as telas? E aqui falo por quest\u00f5es mais financeiras do que art\u00edsticas.<\/strong><br \/>\nApesar de por um lado ser percept\u00edvel avan\u00e7os na inclus\u00e3o homossexual nas artes e na sociedade, por outro tamb\u00e9m \u00e9 terrivelmente percept\u00edvel um avan\u00e7o do conservadorismo quase terrorista, em especial quanto ao poder crescente de bancadas evang\u00e9licas. Os dois extremos colidem, e quem mexe com dinheiro tende a ficar cauteloso e, com isso, por cima do muro. E pior: o formato de produ\u00e7\u00e3o enraizado h\u00e1 quase duas d\u00e9cadas no cinema brasileiro, de longas realizados por meio de capta\u00e7\u00e3o, editais e leis de incentivo, faz com que grandes logomarcas apoiem boa parte das realiza\u00e7\u00f5es \u2013 com a decorrente timidez (ou covardia) de abordar qualquer assunto \u201cfora da caixinha\u201d. O \u201cDoce Amianto\u201d, mencionado acima, \u00e9 ultra-independente, assim como s\u00e3o outras obras referentes e recentes (\u201cMeu Amigo Claudia\u201d, de Dacio Pinheiro; \u201c Olhe pra Mim de Novo\u201d, de Kiko Goifman; \u201cS\u00e3o Paulo em Hi-Fi\u201d, de Lufe Steffen); o longa de Daniel Ribeiro [\u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2014\/04\/18\/cinema-hoje-eu-quero-voltar-sozinho\/\" target=\"_blank\">Hoje Eu Quero Voltar Sozinho<\/a>\u201d] foi em boa parte concretizado por crowdfunding; e o novo trabalho de A\u00efnouz \u00e9 uma co-produ\u00e7\u00e3o com a Alemanha \u2013 outras formas de viabilizar o retrato LGBT em cinema sem se preocupar com as reservas e limita\u00e7\u00f5es financeiras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea trabalha com cinema h\u00e1 anos e acredito que essa pergunta pode at\u00e9 soar banal, mas como voc\u00ea percebe a import\u00e2ncia das representa\u00e7\u00f5es no cinema para estas pessoas t\u00e3o comumente marginalizadas?<\/strong><br \/>\nA import\u00e2ncia \u00e9 absoluta. Por mais que a internet hoje possibilite outros n\u00edveis mais instant\u00e2neos de visibilidade inclusiva, \u00e9 sempre positiva uma obra projetada em tela grande e no escurinho do cinema (situa\u00e7\u00e3o em processo de extin\u00e7\u00e3o???) e que mostre personagens que provoquem identifica\u00e7\u00e3o, espelhamento e\/ou reflex\u00e3o. H\u00e1 ainda muitos homossexuais e transg\u00eaneros sedentos por se sentirem parte de algo, de um universo, e a eternidade de um depoimento ou de uma presen\u00e7a nas telas \u00e9 bastante relevante. Todos merecem e precisam ver seus semelhantes e seus d\u00edspares nas fic\u00e7\u00f5es e document\u00e1rios de cinema.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/hojeeuquero.jpg\" width=\"750\" height=\"681\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/renan.machadoguerra\" target=\"_blank\">Renan Guerra<\/a> \u00e9 jornalista e colabora com o sites <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/YouMeDancin\" target=\"_blank\">You! Me! Dancing!<\/a> e Scream &amp; Yell. A foto de Christian Petermann que abre o texto \u00e9 uma reprodu\u00e7\u00e3o do Facebook<\/p>\n<p>Leia tamb\u00e9m:<br \/>\n&#8211; Tr\u00eas filmes: O sexo no cinema brasileiro (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2016\/06\/21\/tres-filmes-o-sexo-no-cinema-brasileiro\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Entrevista: Rodrigo Gerace fala sobre o livro &#8220;Cinema Expl\u00edcito&#8221; (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2016\/09\/11\/entrevista-rodrigo-gerace\/\">aqui<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"O Scream &#038; Yell recupera uma entrevista in\u00e9dita de 2014 com o cr\u00edtico de cinema Christian Petermann (falecido em 2016) sobre transexualidade no cinema nacional\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2016\/12\/27\/entrevista-christian-petermann\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":3,"featured_media":41400,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[1560,733],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/41399"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=41399"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/41399\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":41401,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/41399\/revisions\/41401"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/41400"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=41399"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=41399"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=41399"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}