{"id":41125,"date":"2016-11-25T21:11:42","date_gmt":"2016-11-25T23:11:42","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=41125"},"modified":"2017-02-13T17:59:13","modified_gmt":"2017-02-13T19:59:13","slug":"entrevista-alexandre-lucchese","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2016\/11\/25\/entrevista-alexandre-lucchese\/","title":{"rendered":"Entrevista: Alexandre Lucchese"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>por <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/janaisapunk\" target=\"_blank\">Janaina Azevedo<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">De um ano de entrevistas e pesquisas, o jornalista Alexandre Lucchese fez a primeira biografia do Engenheiros do Hawaii, \u201c<a href=\"http:\/\/lojabelasletras.com.br\/produto\/148\/infinita-highway--uma-carona-com-os-engenheiros-do-hawaii\" target=\"_blank\">Infinita Highway: Uma Carona com os Engenheiros<\/a>\u201d, lan\u00e7ada em outubro deste ano pela Belas Letras. As pouco mais de 300 p\u00e1ginas d\u00e3o conta do in\u00edcio, quando Gessinger e Maltz ainda eram estudantes, at\u00e9 a sa\u00edda do segundo, que encerrou a fase em que a banda dos guris de Porto Alegre virou um dos principais nomes do mainstream nacional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesta trajet\u00f3ria, muitos ficaram pelo caminho. \u201cInfinita Highway\u201d esclarece as circunst\u00e2ncias que levaram Carlos Stein, Marcelo Pitz e Augusto Licks a deixarem, voluntariamente ou n\u00e3o, a banda. O primeiro, guitarrista da \u00e9poca em que o EngHaw era um quarteto (e que depois fundaria o Nenhum de N\u00f3s com Sady Homrich e Thedy Correa). O segundo, baixista de \u201cLonge Demais das Capitais\u201d (1986), o disco que lan\u00e7ou a banda para o pa\u00eds.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E Augusto Licks, o experiente guitarrista convidado para integrar a banda em sua fase de maior sucesso, e dispensado anos mais tarde, de uma hora pra outra. A esse rompimento, seguiu um processo judicial lento e ruidoso, que fez a festa do notici\u00e1rio musical do momento. Em \u201cInfinita Highway\u201d, Lucchese reconstr\u00f3i esses acontecimentos, com detalhes e contexto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais do que isso, o livro conta a hist\u00f3ria de uma \u00e9poca, atrav\u00e9s do caminho percorrido pelos porto-alegrenses, de banda amadora, formada \u00e0s pressas para a abertura de um show na faculdade, ao sucesso permeado por pol\u00eamicas e um legado de m\u00fasicas extensas e letras dif\u00edceis. Do cen\u00e1rio art\u00edstico de Porto Alegre at\u00e9 a realidade burocr\u00e1tica das gravadoras, tudo est\u00e1 nas p\u00e1ginas de \u201cInfinita Highway\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cada cap\u00edtulo \u00e9 intitulado por um trecho do cl\u00e1ssico que batiza a biografia. A narrativa, bastante objetiva e agrad\u00e1vel de ler, \u00e9 interrompida por quatro depoimentos de f\u00e3s, que demonstram uma das for\u00e7as-motrizes do Engenheiros, t\u00e3o odiada pela cr\u00edtica, mas absolutamente adorada pelos admiradores. Ao final, Lucchese ainda fornece uma discografia comentada da banda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tudo come\u00e7ou quando o autor, jornalista de cultura na Zero Hora, fez uma mat\u00e9ria especial comemorando os trinta anos do primeiro show do Engenheiros, aquele na faculdade. F\u00e3 da banda, ele viu a\u00ed uma oportunidade de contar melhor essa hist\u00f3ria. Confira mais na entrevista, realizada em Porto Alegre, no feriado de 15 de novembro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-41127\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/eng2.jpg\" alt=\"eng2\" width=\"750\" height=\"490\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/eng2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/eng2-300x196.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Da reportagem, surgiu a ideia para o livro. Explica melhor isso.<\/strong><br \/>\nEu j\u00e1 tinha interesse de ler um livro assim, porque ficava pensando que tinham coisas n\u00e3o trabalhadas pela imprensa em rela\u00e7\u00e3o ao Engenheiros. O livro do Humberto \u00e9 a hist\u00f3ria da banda, o \u201cPra Ser Sincero\u201d (2009). S\u00f3 que n\u00e3o tinha uma coisa de jornalista, de outras vis\u00f5es. E o Humberto, quando fala da separa\u00e7\u00e3o da banda, cita muito por cima o que aconteceu. Eu via que era uma frustra\u00e7\u00e3o dos f\u00e3s. Claro, nessa reportagem dos 30 anos n\u00e3o tinha como fazer porque eram cinco p\u00e1ginas do jornal. (Para a mat\u00e9ria) Peguei bem o in\u00edcio, focado no primeiro show.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O Licks chegou a falar contigo pra essa mat\u00e9ria?<\/strong><br \/>\nTentei, mas ele n\u00e3o quis dar entrevista num primeiro momento. Eu comprei meu primeiro disco deles com oito anos, era a \u00e9poca do \u201cO Papa \u00e9 Pop\u201d (1990), super estourada\u00e7o, a\u00ed criei esse v\u00ednculo. Quando comecei a curtir banda, eu morava no interior do Paran\u00e1, cidade de Realeza, 15 mil habitantes. Me mudei para Porto Alegre com 18, mas j\u00e1 n\u00e3o tinha mais essa forma\u00e7\u00e3o. Era outra coisa. E n\u00e3o era mais mainstream, e sim uma banda alternativa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas pra ti ver o alcance que eles tinham, n\u00e9&#8230;<\/strong><br \/>\nSim, l\u00e1 no fim do mundo. (A banda) Chegava em tudo quanto \u00e9 lugar, que \u00e9 uma coisa que n\u00e3o existe mais pro rock. Foi algo que n\u00e3o vivi, s\u00f3 quando era muito pi\u00e1, e n\u00e3o tive a oportunidade de ver no palco. Comecei a pesquisar, e foi como se eu tivesse vivendo essa \u00e9poca. N\u00e3o queria parar, segui pesquisando. Chegou um momento em que eu tinha que entrevistar as pessoas. Da\u00ed pensei: &#8220;porra, n\u00e3o vou entrevistar sem saber se vou publicar o livro, acho chato pra caralho, &#8216;ah, t\u00f4 fazendo uma pesquisa por mim&#8217;\u201d. Propus \u00e0 Belas Letras (editora de Caxias do Sul, RS), eles curtiram a ideia, e comecei a fazer as entrevistas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Em Porto Alegre, em S\u00e3o Paulo e no Rio?<\/strong><br \/>\nIsso. Tive uns 20 dias de f\u00e9rias e viajei pro Rio e pra SP. Eles tinham morado no Rio, n\u00e9. E em SP, muita gente que trabalhou com eles t\u00e1 morando. A banda foi muito forte em SP.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E tu acha que faltou alguma coisa?<\/strong><br \/>\nSe tu for ver, dois ter\u00e7os do livro \u00e9 Poa, at\u00e9 1988. Porque \u00e9 o lugar em que moro. Se eu vivesse no centro do pa\u00eds, ia ficar diferente. Isso \u00e9 algo que, se eu pudesse, faria mais, mas n\u00e3o tinha como.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas tu lembra de ouvir falar de algu\u00e9m que n\u00e3o conseguiu contatar ou alguma coisa do tipo?<\/strong><br \/>\nO empres\u00e1rio deles, no in\u00edcio de carreira, n\u00e3o quis falar. Mas conversei com os produtores que trabalharam junto, ent\u00e3o n\u00e3o senti tanta falta. Gostaria de sentar com o cara. Mas falei com gente que trabalhou com eles e com gente que trabalhou na estrada. Al\u00e9m do Licks, que foi um contato por email.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/bGhXcW7Dr8M?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Eu queria saber mais sobre isso, como \u00e9 que foi o contato com o Licks. Ele te recebeu de boa?<\/strong><br \/>\n\u00c9 muito engra\u00e7ado. Eu tinha tr\u00eas pessoas que falavam com o Licks. A Ded\u00e9 Ribeiro, produtora daqui, o Emerson, que \u00e9 um f\u00e3 l\u00e1 do rio, e o Mauro Borba, que \u00e9 radialista. Se o Augusto falasse \u201cah cara, vou te dar a entrevista amanh\u00e3\u201d, eu pegava um avi\u00e3o e ia, mas n\u00e3o rolou. Mauro tentou, Emerson tentou, e ele, nada. A\u00ed a Ded\u00e9, que \u00e9 amiga dele das antigas, conseguiu: eu mandava as perguntas pra ela, que mandava pro Augusto. Ele respondia, mandava pra Ded\u00e9, que mandava pra mim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Tu n\u00e3o chegou a contatar ele direto, ent\u00e3o?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o. E eu falei: &#8220;Ded\u00e9, vamos parar com isso, me d\u00e1 o email dele e eu paro de te encher o saco&#8221;. Ela: &#8220;Se eu te der o email, ele nunca mais vai me perdoar, e n\u00e3o vai nunca mais falar comigo&#8221;. E eu, &#8220;tudo bem&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Teve algo que ele deixou de responder?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o, ele respondeu tudo. S\u00f3 que, a\u00ed que t\u00e1, a Ded\u00e9 me disse: &#8220;S\u00f3 n\u00e3o pergunta sobre a banda&#8221;. N\u00e3o pude falar sobre a separa\u00e7\u00e3o porque eu sabia que ele n\u00e3o ia nem receber, ia me responder nada. Consegui falar algumas coisas sobre a carreira dele, a forma\u00e7\u00e3o e tal. S\u00f3 que senti que um v\u00ednculo ia se fechar se eu for\u00e7asse isso. Por outro lado, ele me deixou super aberto, n\u00e3o botou impedimento nenhum. Da fam\u00edlia, falei com os irm\u00e3os dele, foi super tranquilo. Ent\u00e3o deu pra fazer essa radiografia meio que por volta do Augusto. Depois que o livro ficou pronto, levei pra ele, que estava aqui no RS. A gente conversou e o Augusto at\u00e9 falou: &#8220;Foi legal conversar contigo, eu tinha muito medo de dar entrevista, mas tu me abriu isso\u201d. Da\u00ed ele deu at\u00e9 entrevista pra Guitar Player, depois de falar comigo. N\u00e3o sei se ele vai ler a biografia, porque talvez toque em coisas que ele n\u00e3o gosta de falar, feridas abertas, e tal, mas ficou uma rela\u00e7\u00e3o boa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E o Pitz, que foi muito fundamental pra banda, mas acabou n\u00e3o querendo compartilhar sua vers\u00e3o para o livro? Tu acha que isso foi algum tipo de preju\u00edzo, embora tu tenha conseguido todo o contexto?<\/strong><br \/>\nO Pitz n\u00e3o quis falar comigo mesmo, disse &#8220;N\u00e3o, n\u00e3o t\u00f4 a fim, n\u00e3o quero&#8221;. E eu respeitei. At\u00e9 porque ele j\u00e1 tem outra vida, se afastou mesmo de m\u00fasica (Marcelo Pitz, o primeiro baixista do Engenheiros, hoje trabalha em uma universidade em Pelotas, interior do RS). Falei com uns amigos, o (Carlo) Pianta. O Julio Reny, os caras que t\u00eam trabalho musical p\u00fablico, o Egisto (Dal Santo), eles me deram um perfil legal. O Pitz \u00e9 um cap\u00edtulo importante, s\u00f3 que \u00e9 dois anos de banda, sabe. \u00c9 mais curto. Mesmo que eu tivesse acesso a ele, talvez n\u00e3o escrevesse um cap\u00edtulo exclusivo, como escrevi pro Carlos, pro Humberto e pro Augusto. Mas claro, eu gostaria de falar, tentar entender o que rolou. Embora a gente saiba como \u00e9. N\u00e3o \u00e9 porque \u00e9 a vers\u00e3o dele que \u00e9 mais verdade, sabe. Mas acho que enriqueceria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E tu acha que \u00e9 um caso de que a recusa fala muito? Porque o pr\u00f3prio Humberto e o Maltz admitiram que tinha um clima meio que de bullying com ele.<\/strong><br \/>\nAcho que os guris n\u00e3o deviam ser f\u00e1ceis de trabalhar, mas fala sobre ele, sim. \u00c1s vezes eu vejo que o Humberto \u00e9 muito visto como vil\u00e3o. Alem\u00e3o, nazista, umas coisas assim. E claro, ele tamb\u00e9m n\u00e3o facilitava. Mas \u00e9 engra\u00e7ado porque no Rio tu conversa com as pessoas, e em SP tamb\u00e9m, e &#8220;nossa, cara, o Humberto \u00e9 a pessoa mais f\u00e1cil de trabalhar do mundo. Muito tranquilo, direto, n\u00e3o enchia o saco com nada\u201d. As pessoas falavam do Augusto, porque ele era muito criterioso. Da\u00ed alguns dos entrevistados me diziam: \u201cAh, o cara enchia o saco, ficava um tempo olhando os bot\u00e3ozinhos. O Humberto n\u00e3o, ele sabia o que queria e vamos l\u00e1\u201d. (O Humberto) \u00c9 um cara mais direto, j\u00e1 tinha essa vis\u00e3o um pouco mais profissional, que acho que, aqui no RS, as pessoas viam como algo sem cora\u00e7\u00e3o, meio como se tivesse s\u00f3 pela grana. E eu n\u00e3o acho que tivesse, acho que tava por mostrar o trabalho, fazer circular, com respeito ao p\u00fablico, \u201cvamos dar o melhor, a gente t\u00e1 vendendo o show, vamos apresentar uma coisa \u00e0 altura\u201d. Acho tamb\u00e9m que essa coisa muito focada, de n\u00e3o t\u00e1 pela festa, quando tu t\u00e1 num ambiente muito amador \u00e9 mal visto. A\u00ed se tu t\u00e1 num ambiente mais profissional, as pessoas acham muito tranquilo. Os guris s\u00e3o criticados, mas tamb\u00e9m s\u00e3o muito elogiados por gente que trabalhou com eles. Os roadies, que trabalharam com mais m\u00fasicos, por exemplo. O Nilson, que foi o roadie do Carlos, hoje t\u00e1 com os Tit\u00e3s. E o Cassio, que at\u00e9 hoje trabalha de vez em quando com o Humberto, t\u00e1 com a produ\u00e7\u00e3o mais rigorosa do Brasil, que \u00e9 Maria Beth\u00e2nia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-41132\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/eng4.jpg\" alt=\"eng4\" width=\"750\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/eng4.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/eng4-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E tu acha que essa postura explica o sucesso da banda?<\/strong><br \/>\nEu acho que explica um pouco. Tinha muita dedica\u00e7\u00e3o. N\u00e3o sei se profissional, tanto que \u00e9 um pouco contradit\u00f3rio, porque nunca registraram o nome da banda. Tinha uma coisa de serem uns guriz\u00e3o tocando junto. Mas tamb\u00e9m era algo do tipo &#8220;vamo ver at\u00e9 onde \u00e9 que a gente vai, at\u00e9 onde o motor aguenta\u201d. Mas acho que o mais explica na real \u00e9 o formato da banda, as can\u00e7\u00f5es. Isso que \u00e9 fundamental. Porque tu pensa em Replicantes, at\u00e9 hoje faz sucesso e toca, s\u00f3 que num gueto, que \u00e9 o punk. Ele s\u00e3o super respeitados, em v\u00e1rias regi\u00f5es. O TNT se manteve um tempo. O Garotos (da Rua) tamb\u00e9m. S\u00f3 que era diferente. O TNT era uma banda de rock adolescente mesmo, n\u00e3o de can\u00e7\u00e3o. Era rock, refr\u00e3o bom, uma estrofe curtinha. E o Engenheiros tinha essa coisa de can\u00e7\u00e3o popular mesmo. \u201cSomos Quem Podemos Ser\u201d podia t\u00e1 no Clube da Esquina, facilmente. Acho que nisso eles eram muito criticados tamb\u00e9m, pois tinham uma est\u00e9tica que n\u00e3o era a roqueira da \u00e9poca, guitarra, tr\u00eas minutos, refr\u00e3o. Como se tivessem trabalhando contra o movimento, sabe. A gente tava tentando se livrar dessas letras quilom\u00e9tricas, que muitos j\u00e1 estavam achando chato, e os caras: &#8220;n\u00e3o, vamos continuar fazendo isso a\u00ed&#8221;. No Brasil, pegou muito. As pessoas quando ouviam no r\u00e1dio identificavam &#8220;ah, \u00e9 guitarra, \u00e9 rock, \u00e9 banda, mas \u00e9 can\u00e7\u00e3o popular, \u00e9 letra e m\u00fasica\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Tu acha que as pessoas fazem esse tipo de distin\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nEu acho que sim, \u00e9 uma coisa f\u00e1cil de compreender. Porque era o que vinha tocando no r\u00e1dio, sabe. As pessoas est\u00e3o acostumadas a ouvir uma balada do Roberto Carlos. Quando tu ouve \u201cRefr\u00e3o de Bolero\u201d \u00e9 uma balada, tem solo de guitarra, mas \u00e9 uma balada, \u00e9 uma can\u00e7\u00e3o. Conta uma hist\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Tu chegou a colocar isso pro Maltz e pro Gessinger? Que eles acham?<\/strong><br \/>\nPro Gessinger, sim. E desde o in\u00edcio ele fala isso: &#8220;Ah, a gente n\u00e3o \u00e9 uma banda de rock, a gente \u00e9 uma banda de can\u00e7\u00e3o&#8221;. Virou rock porque era o que tava tocando no momento. Se fosse outra onda levantando, eles iam surfar diferente, ter outro modo de expressar poesia e m\u00fasica. \u00c9 uma banda muito Oswaldo Montenegro, Belchior. E eu acho que isso pegou. A tradi\u00e7\u00e3o brasileira \u00e9 essa, can\u00e7\u00e3o. Acho que por isso dura tanto. O rock pega forte, mas ele passa r\u00e1pdo tamb\u00e9m. E a can\u00e7\u00e3o se mant\u00e9m. E acho que tamb\u00e9m tem essa coisa de viajar n\u00e9. Al\u00e9m de apostarem em can\u00e7\u00e3o, o Engenheiros tamb\u00e9m viajou muito. Tocaram em qualquer lugar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sim, n\u00e3o d\u00e1 pra desprezar o p\u00fablico que possivelmente vai ser menor do que em POA ou em outra cidade grande.<\/strong><br \/>\nSim, ir pro interior, n\u00e3o ficar esperando, sabe. Acho que fortaleceu muito a banda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E p\u00fablico de interior \u00e9 diferente de capital, eles se apegam mais porque t\u00eam menos oportunidade de assistir \u00e0 banda que gostam.<\/strong><br \/>\nSim, ainda mais naquela \u00e9poca, a circula\u00e7\u00e3o era bem menor. At\u00e9 hoje o Humberto se serve disso. Ele viaja pras pra\u00e7as que as pessoas conhecem, confiam, gostam. &#8220;Bah, eu fui em noventa e n\u00e3o sei quantos, foi do caralho, vamos de novo&#8221;. Acho que tem isso. P\u00f4, a Legi\u00e3o n\u00e3o viajava assim, cara, n\u00e3o se metia em qualquer palco. Era toda uma negocia\u00e7\u00e3o pra conseguir. Os guris (do EngHaw) n\u00e3o, sabe, era &#8220;vamo, vamo, vamo, gin\u00e1sio, paci\u00eancia, vamo&#8221;.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/aIIujeX1yA0?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E falando sobre o livro agora, fala sobre a op\u00e7\u00e3o de escrever em primeira pessoa em determinadas partes, que acaba sendo bem frequente. Por que tu escolheu te colocar dentro da hist\u00f3ria?<\/strong><br \/>\nEu n\u00e3o gosto de ler biografias, antes de escrever esse aqui eu n\u00e3o li muito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>N\u00e3o? S\u00e9rio? Tu n\u00e3o tem nenhuma influ\u00eancia?<\/strong><br \/>\nBah cara, na real eu tentei ler algumas, comecei aquela \u201cQuando os Gigantes Caminhavam Sobre a Terra\u201d, sobre o Led Zeppelin. At\u00e9 foi de onde eu peguei esse neg\u00f3cio de inventar trechos e botar em it\u00e1lico, pra marcar (no in\u00edcio do livro, alguns trechos t\u00eam di\u00e1logos simulados pelo autor, com base nas pesquisas e entrevistas. Essas partes est\u00e3o grifadas). Isso eu achei bem legal. Mas n\u00e3o consegui ler at\u00e9 o final. Das que eu gostei, por incr\u00edvel que pare\u00e7a, est\u00e1 a biografia do Borghettinho (Renato Borghetti, gaiteiro ga\u00facho), uma das poucas que li at\u00e9 o final. Eu gosto do personagem Borghettinho, e tinha um lance que eu percebi que ele (o autor, M\u00e1rcio Pinheiro) mudava muito o enfoque de vista dele, \u00e0s vezes come\u00e7ava a contar um causo, \u00e0s vezes era um texto mais jornal\u00edstico. Eu pensei \u201cbah, isso \u00e9 legal\u201d. O que eu n\u00e3o gosto de biografia \u00e9 que geralmente at\u00e9 come\u00e7a bem, mas depois vira ata de reuni\u00e3o, tipo \u201ctal data aconteceu tal coisa\u201d, \u00e9 muito chato. Do Pink Floyd eu j\u00e1 comprei umas tr\u00eas, n\u00e3o consegui chegar no final de nenhuma. Da\u00ed eu pensei \u201cp\u00f4, vou ter que inventar algum modo de contar isso de uma maneira interessante\u201d. Eu cubro literatura no Segundo Caderno (caderno cultural do jornal Zero Hora), ent\u00e3o minha influ\u00eancia \u00e9 mais da fic\u00e7\u00e3o.O lance foi dar os pontos de vista, quase como um livro de contos: tu \u201cv\u00ea\u201d daqui, da\u00ed tu \u201cv\u00ea\u201d a vis\u00e3o do roadie, da\u00ed tu \u201cv\u00ea\u201d a minha vis\u00e3o, de quem t\u00e1 pesquisando dentro, sabe. Por isso, vai variando. E colocar em primeira pessoa foi porque eu acho que \u00e9 importante ter tamb\u00e9m uma honestidade de dizer quem tu \u00e9, o que tu t\u00e1 fazendo aqui. Eu falei de mim s\u00f3 quando achava que ajudava a contar a hist\u00f3ria, pra saber quem eu sou. Pra fazer um livro mais honesto, mostrar que tu t\u00e1 ali, que \u00e9 um ser humano e t\u00e1 sujeito a problemas tamb\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Que n\u00e3o \u00e9 um Deus olhando de cima e contando a hist\u00f3ria.<\/strong><br \/>\nEu acho que essa vulnerabilidade \u00e9 importante mostrar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bom, e tu n\u00e3o \u00e9 f\u00e3 de biografia, mas qual que tu acha que \u00e9 a importancia de biografias, tanto de m\u00fasicos quanto de personalidades em geral?<\/strong><br \/>\nEu acho que \u00e9 pra enriquecer o passado, se a gente n\u00e3o sabe de onde veio, n\u00e3o sabe pra onde vai. Eu acho um horror tu n\u00e3o ter uma bio do Teixeirinha (artista ga\u00facho). Acho que tem um livro de uma cole\u00e7\u00e3o dos anos 80, da editora Tche, e n\u00e3o \u00e9 uma biografia, meio que o cara faz um perfil da carreira dele por cima. Imagina, se os Engenheiros conquistaram o Brasil, o Teixeirinha fez muito mais, era um cara multim\u00eddia, e a gente acaba n\u00e3o tendo (uma biografia) porque emperra nesses lances de fam\u00edlia. Ent\u00e3o como \u00e9 que tu constr\u00f3i \u00eddolos, pessoas nas quais tu pode te inspirar, pra conhecer a tua realidade e quem sabe transcender, mudar? Esses dias, tava conversando, n\u00e3o vou falar com quem, mas a vi\u00fava de um tradicionalista me disse assim: &#8221;Ah, j\u00e1 consegui parar um monte de biografia do fulano\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Aqui no Brasil tem isso n\u00e9. Teve aquele movimento dos artistas que tentaram mudar a lei, e a hist\u00f3ria bizarra da biografia do Roberto Carlos.<\/strong><br \/>\nDa\u00ed barra nisso, ignor\u00e2ncia. Acham: &#8220;Ah, vai falar uma coisa que n\u00e3o \u00e9&#8221;. Que bom que falem algo que n\u00e3o \u00e9, porque a\u00ed tu d\u00e1 tua vers\u00e3o depois, e as coisas se movimentam. Se n\u00e3o, fica morto. Cara, o Humberto n\u00e3o me incomodou pra nada disso, eu duvido que teria outra banda que me desse essa liberdade, do tipo: \u201cAh, faz o que tu quiser, te dou entrevista, mas n\u00e3o quero nem ler esse livro\u201d. Porra, melhor coisa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ele n\u00e3o quis ler?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o, desde o in\u00edcio. A gente marcou de fazer a biografia, da\u00ed a editora falou com ele, porque \u00e9 a mesma que publica os livros dele. O Humberto disse: \u201cVou dar entrevista, colaborar no que for preciso, mas \u00e9 um livro do Alexandre, eu n\u00e3o quero nem ler esse livro\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>No sentido de \u201cn\u00e3o quero ler antes de sair\u201d?<\/strong><br \/>\n\u00c9. Exato. E o Carlos foi a mesma coisa. Liberdade absoluta. Os caras sabem que isso \u00e9 bom pra eles. \u00c9 esp\u00edrito democr\u00e1tico. E o Humberto continua sem ler, ele disse que n\u00e3o l\u00ea nada que publicam dele, o que eu acho bom.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas n\u00e3o tem nada desabonador no livro, n\u00e9.<\/strong><br \/>\nN\u00e3o, nada. Mas o que eu entendo por outro lado \u00e9 que se tu come\u00e7a a tentar te interpretar, pra um m\u00fasico, \u00e9 um risco. Tu acaba querendo corresponder a certas expectativas, \u201cah mas eu sou isso, eu fa\u00e7o desse jeito\u201d. Eu acho bom tu te distanciar. &#8220;A minha preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 o meu pr\u00f3ximo disco, n\u00e3o o que t\u00e3o pensando de mim\u201d. Isso \u00e9 admir\u00e1vel. Humberto teve a maior paci\u00eancia comigo, me recebia l\u00e1 e ficava tr\u00eas, quatro horas falando sem parar, cansado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-41128\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/eng3.jpg\" alt=\"eng3\" width=\"750\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/eng3.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/eng3-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quantas vezes tu encontrou ele?<\/strong><br \/>\nForam umas cinco vezes de tarde inteiras. Depois a gente manteve contato por email. Mas de fazer uns turnos assim foram cinco, umas duas tardes quando comecei o processo e umas tr\u00eas no final. Eu ia l\u00e1 pelo final da tarde e ficava at\u00e9 o amanhecer. At\u00e9 ele me mandar embora. E com o Maltz eu consegui conversar uma vez aqui na Feira do Livro, depois foi tudo por internet. O Maltz era muito tranquilo, um contato mais direto. Se tinha uma d\u00favida, j\u00e1 mandava pra ele no Twitter, por DM, ele me respondia na hora, se tava de bom humor continuava conversando, foi bem tranquilo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Tu acha que h\u00e1 a possibilidade da forma\u00e7\u00e3o G,L&amp;M voltar?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o sei, cara.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Num exerc\u00edcio de livre suposi\u00e7\u00e3o, porque a gente n\u00e3o tem como saber o que passa na cabe\u00e7a deles. J\u00e1 fazem o que, 20 anos (o processo de Licks contra os ex-colegas foi conclu\u00eddo em 1997)?<\/strong><br \/>\n\u00c9, a sa\u00edda do Augusto foi em 93&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E ele logo entrou com o processo, n\u00e9?<\/strong><br \/>\nSim. Foi imediato. O processo se inicia em janeiro de 94, bem na sequ\u00eancia. Foi bem litigioso, no sentido de que n\u00e3o teve acordo. Ele devia t\u00e1 puto com os caras. Juntou uma coisa com a outra. Primeiro os guris fizeram ele sair, n\u00e9. Tipo: &#8220;Ah, te vira a\u00ed, a gente te convidou pra entrar, agora tu sai\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas dentro do racioc\u00ednio deles, quando eu li essa parte, eu pensei &#8220;mas faz sentido&#8221;.<\/strong><br \/>\nCom o Pitz foi assim!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Lendo a biografia, em algum momento pra mim come\u00e7ou a ficar claro que a banda era os dois. O resto ficava gravitando em torno. Mas o Licks ficou numa situa\u00e7\u00e3o ruim, olha tudo que ele investiu&#8230;<\/strong><br \/>\nEquipamento, tempo, vida, n\u00e9. Foi praquilo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E tamb\u00e9m tem a quest\u00e3o do Humberto e do Maltz terem xingado ele&#8230;<\/strong><br \/>\n\u00c9, primero os guris erram com o Augusto. Da\u00ed ele vai l\u00e1 e registra o nome. Quando descobrem isso, ficam putos, n\u00e9. A\u00ed falam pra imprensa. Isso \u00e9 janeiro, n\u00e3o tem nada acontecendo. Ao inv\u00e9s de publicar uma notinha, (os jornais) publicam um neg\u00f3cio desse tamaho com a foto. Foi o pior momento pra isso acontecer. A\u00ed ficou pior ainda. Quando o Augusto esteve aqui, n\u00f3s conversamos um temp\u00e3o. Em determinado momento, ele falou da banda, mas n\u00e3o citou o Humberto e o Carlos. Ele fala: &#8220;A gente tava num momento que tudo era pop, a produ\u00e7\u00e3o era legal, no est\u00fadio tal&#8221;, mas nunca assim &#8220;o Humberto me disse tal coisa&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E o Humberto e o Maltz citam ele? Nominalmente?<\/strong><br \/>\nSim, normal. E tu v\u00ea n\u00e9, o Carlos deixa bem claro, \u201cfoi uma estupidez o que a gente fez\u201d. Eu acho que tive sorte nesse sentido, de pegar os caras nesse momento que eles repensaram e conseguiram falar sobre as coisas de uma maneira mais tranquila. Mas sobre eles voltarem, eu n\u00e3o sei, o Humberto continua com a carreira dele, mas o Carlos n\u00e3o. E se tu fosse fazer um show, ele ia ter que parar de fazer tudo faz pra ficar s\u00f3 tocando bateria e se botando em dia. Ele n\u00e3o consegue segurar um show, teria que parar um ano quase. E o Augusto tamb\u00e9m, pelo que eu vejo no Facebook, ele t\u00e1 tocando, mas n\u00e3o sei se subiria no palco. Ia ter que ensaiar pra caralho. S\u00f3 seria vi\u00e1vel se sa\u00edssem em turn\u00ea. Eu gosto disso neles, quantos m\u00fasicos dos anos 80 t\u00e3o a\u00ed gravando as mesmas m\u00fasicas h\u00e1 20 anos? Eles n\u00e3o. O Humberto t\u00e1 fazendo disco novo, criando. T\u00e1 fazendo show, lotando palco no Brasil inteiro, duas, tr\u00eas mil pessoas circulando. T\u00e1 olhando pra frente. E o Carlos, a mesma coisa. Os f\u00e3s ficam &#8220;ah, ser\u00e1 que volta&#8221;, mas eu penso \u201cque legal que os caras ficaram tanto tempo juntos a\u00ed\u201d. Foi, passou. V\u00e3o pra frente, sabe.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/IdHBO0zxgs8?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como tu acha que seria a recep\u00e7\u00e3o do Engenheiros, se surgisse hoje, exatamente como era, com todas essas idiossincrasias que sempre teve e nunca escondeu?<\/strong><br \/>\nCara, eu acho que na real n\u00e3o ia acontecer nada, porque o cen\u00e1rio \u00e9 diferente. Naquela \u00e9poca, com poucos meses de vida, tocaram pro Gigantinho lotado, depois voltaram, fizeram tr\u00eas shows tamb\u00e9m no Gigantinho (gin\u00e1sio de Porto Alegre). Quem \u00e9 que faz show pra 10 mil pessoas no Gigantinho, uma banda brasileira? As bandas de rock, tantos as novas quanto as velhas, v\u00e3o tocar no Opini\u00e3o (casa para cerca de 2 mil pessoas), quanto muito no Pepsi On Stage (cerca de 6 mil pessoas). \u00c9 Opini\u00e3o e olhe l\u00e1. A m\u00fasica n\u00e3o tem mais a mesma import\u00e2ncia que tinha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>N\u00e3o tem mais r\u00e1dio, tv&#8230;.<\/strong><br \/>\n\u00c9, esse sistema morreu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas eu digo de recep\u00e7\u00e3o das pessoas hoje na internet, com haters e tal.<\/strong><br \/>\nSim, mas eu acho que n\u00e3o chegaria a se popularizar, ficaria num nicho. Qual banda que hoje tem isso. Apanhador S\u00f3? E eu n\u00e3o sei se Engenheiros seria muito diferente. Talvez tivesse um pouco mais de visibilidade, mas \u00e9 um nicho muito pequeno. Eu acho, por exemplo, que nos anos 80, se Porta dos Fundos existisse, eles iam montar uma banda. N\u00e3o iam fazer v\u00eddeo, n\u00e3o iam fazer teatro. Iam montar uma banda. Porque era o que tava rolando na \u00e9poca. Mas hoje, as pessoas que tem essa vontade de mostrar um trabalho pra mais gente e fazer acontecer, elas j\u00e1 n\u00e3o est\u00e3o mais na m\u00fasica. Elas t\u00e3o em outros lugares, a m\u00fasica meio que perdeu a relev\u00e2ncia. Quem t\u00e1 trabalhando com m\u00fasica \u00e9 quem gosta muito, m\u00fasico mesmo, gente que \u00e9 apaixonado por guitara, por instrumento. N\u00e3o sei se Engenheiros nascesse hoje, montariam banda, ou se fariam outra coisa, um canal no Youtube, um Catarse pra fazer apresenta\u00e7\u00f5es. Talvez seriam outras coisas. Acho tamb\u00e9m que seria um p\u00fablico muito restrito, porque \u00e9 um p\u00fablico de m\u00fasico. Eles eram bons, mas n\u00e3o \u00e9 por isso que lotavam o Gigantinho. Eles lotavam porque era o momento. Era isso que tava acontecendo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E tu acha que a cr\u00edtica, principalmente na internet, mudaria um pouco a postura, do Humberto, de falar mal dos colegas, de desafiar a gravadora, tu acha que isso influenciaria? Porque antigamente eles lidavam com imprensa n\u00e9, jornal\u00e3o e revista. Hoje isso foi pra internet&#8230;<\/strong><br \/>\nEu acho que n\u00e3o. O Humberto n\u00e3o l\u00ea nem a biografia da banda dele, vai ler coment\u00e1rio? Ele n\u00e3o t\u00e1 muito a\u00ed, n\u00e3o. Uma coisa que eu acho que seria uma influ\u00eancia positiva pras pessoas tamb\u00e9m \u00e9 esse lance de n\u00e3o se importar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E ele n\u00e3o me parece ter uma personalidade muito rockstar, \u00e9 mais introspectivo.<\/strong><br \/>\nO Humberto \u00e9 fam\u00edlia total. N\u00e3o sai de casa, s\u00f3 pra caminhar, fazer as coisas a p\u00e9. Tu nunca v\u00ea ele num restaurante, jet set, coluna social, nunca v\u00ea ele em lugar nenhum. Criou o mundo dele, n\u00e9, e meio que habita ali. Mas se comunica pra caramba. \u00c9 um cara que t\u00e1 sempre bem informado, muito esperto no que t\u00e1 acontecendo. Mas acho que n\u00e3o tem muita vaidade. Tem e n\u00e3o tem ao mesmo tempo, porque poderia t\u00e1 mais por a\u00ed. As pessoas acham que, porque eu fiz a biografia, sou tri amigo do Humberto. Eu tava l\u00e1 na Zero Hora e me pediram: &#8220;Lucchese, liga l\u00e1 pro Humberto&#8221;. Da\u00ed eu &#8220;\u00d4, Humberto. Bob Dylan ganhou Nobel. Quer dar uma palavra?&#8221;. E ele: &#8220;N\u00e3o n\u00e3o, deixa pro Peninha falar&#8221; (Eduardo Peninha, escritor f\u00e3 do Dylan). Ele n\u00e3o fala sobre nada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E sobre a m\u00fasica, \u201cInfinita Highway\u201d, porque tu escolheu dar esse titulo?<\/strong><br \/>\nEu acho super estranho, tem gente que come\u00e7a a escrever o livro j\u00e1 com t\u00edtulo, \u00e9 ruim porque te fecha caminhos. Depois que terminei as pesquisas, comecei a escrever. Foi muito r\u00e1pido. A\u00ed j\u00e1 sabia onde ia come\u00e7ar e terminar, era s\u00f3 sentar e escrever. Foram uns tr\u00eas meses disso, a\u00ed ficou pronto, quase fluxo de consci\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ah \u00e9? N\u00e3o parece, parece super trabalhado o texto.<\/strong><br \/>\nN\u00e3o, foi muito fluxo de consci\u00eancia. Eu tinha na cabe\u00e7a o livro meio pronto. A\u00ed quando terminei, fui ler. Achei que ficou quase um livro de estrada, n\u00e3o sei se \u00e9 porque eu escrevi, mas li muito r\u00e1pido. Pensei: &#8220;Ta\u00ed, Infinita Highway, parece que tu t\u00e1 numa carona com os caras&#8221;. E tem os relatos dos f\u00e3s, \u00e9 como quando tu t\u00e1 na estrada, para pra frazer um pitstop, num posto de gasolina, e encontra algu\u00e9m que j\u00e1 voltou da viagem e te conta como \u00e9 l\u00e1 na frente. Os t\u00edtulos dos cap\u00edtulos vieram depois. Da\u00ed pensei nisso, \u201cInfinita Highway, Uma Carona com os Engenheiros do Hawaii\u201d, mandei pra editora. Me disseram assim que tudo bem, legal, s\u00f3 que teria que ser &#8220;Uma carona na hist\u00f3ria dos Engenheiros do Hawaii&#8221;. Mandei pro Humberto, contando pra ele, pra que n\u00e3o ficasse sabendo pela imprensa. E ele: \u201cMas por que n\u00e3o Uma carona com os Engenheiros do Hawaii, sem &#8216;na hist\u00f3ria&#8217;\u201d. Eu me senti encorajado, falei pra editora: &#8220;Olha, at\u00e9 o Humberto gostou&#8221;. Ele me salvou nessa. Achei melhor, mais sonoro, r\u00e1pido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E tem tamb\u00e9m a rela\u00e7\u00e3o com a m\u00fasica, que \u00e9 uma das principais&#8230;<\/strong><br \/>\nTem uma coisa tamb\u00e9m que \u00e9 a m\u00fasica que fala muito sobre a banda. Quando eu pensei em fazer os t\u00edtulos dos cap\u00edtulos foi isso, tem frases que se tu parar pra pensar, meio que prospectam o futuro. (A m\u00fasica) Fala de um beatnik, p\u00f4, o Carlos era um beatnik. Fala de \u201cnada a temer\u201d, de \u201cestamos s\u00f3s\u201d, \u00e9 quase uma declara\u00e7\u00e3o de princ\u00edpios da banda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-41135\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/eng5.jpg\" alt=\"eng5\" width=\"750\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/eng5.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/eng5-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Janaina Azevedo (<a href=\"http:\/\/www.facebook.com\/janaisapunk\" target=\"_blank\">www.facebook.com\/janaisapunk<\/a>) \u00e9 jornalista. Todas as fotos do texto s\u00e3o de Thais Brand\u00e3o \/ Divulga\u00e7\u00e3o, exce\u00e7\u00e3o da foto da primeira forma\u00e7\u00e3o dos Engenheiros do Hawaii \/ Divulga\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Veja tamb\u00e9m:<\/strong><br \/>\n\u2013 Download: 21 bandas independentes regravam can\u00e7\u00f5es dos Engenheiros em tributo (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2014\/11\/11\/download-tributo-aos-engenheiros-do-hawaii\/\" target=\"_blank\">aqui<\/a>)<br \/>\n\u2013 Ao vivo em S\u00e3o Paulo, Humberto Gessinger segue em frente dignamente (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2014\/03\/29\/humberto-gessinger-ao-vivo-em-sp\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n\u2013 Humberto Gessinger (2016): \u201cN\u00e3o h\u00e1 planos para nenhuma volta dos EngHaw\u201d (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2016\/05\/27\/entrevista-humberto-gessinger-2016\/\" target=\"_blank\">aqui<\/a>)<br \/>\n\u2013 Humberto Gessinger (2014): \u201cQuero viver esse momento com intensidade\u201d (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2014\/01\/13\/entrevista-humberto-gessinger\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n\u2013 \u201cInsular\u201d: Humberto Gessinger est\u00e1 ficando velho. Mas continua o mesmo (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2014\/01\/02\/tres-cds-humberto-wander-e-nei\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n\u2013 Tr\u00eas CDs dos Engenheiros do Hawaii (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2007\/09\/05\/tres-cds-do-engenheiros-do-hawaii\/\">aqui<\/a>) e o \u201cAc\u00fastico MTV\u201d (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2004\/11\/11\/acustico-mtv-engenheiros-do-hawaii\/\">aqui<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"De um ano de entrevistas e pesquisas, o jornalista Alexandre Lucchese fez a primeira biografia do Engenheiros do Hawaii\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2016\/11\/25\/entrevista-alexandre-lucchese\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":35,"featured_media":41126,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[9,3],"tags":[322,1488],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/41125"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/35"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=41125"}],"version-history":[{"count":10,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/41125\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":41141,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/41125\/revisions\/41141"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/41126"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=41125"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=41125"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=41125"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}