{"id":40964,"date":"2016-11-09T13:36:03","date_gmt":"2016-11-09T15:36:03","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=40964"},"modified":"2016-12-30T18:13:21","modified_gmt":"2016-12-30T20:13:21","slug":"a-igreja-comunal-do-pop-punk-20-anos-depois","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2016\/11\/09\/a-igreja-comunal-do-pop-punk-20-anos-depois\/","title":{"rendered":"A igreja comunal do Pop-Punk, 20 anos depois"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>por <a href=\"https:\/\/twitter.com\/_ana_c\" target=\"_blank\">Ana Clara Matta<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">A primeira onda<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>&#8220;This small voice may be mocked by some,<\/em><br \/>\n<em> but I&#8217;ve got electric speakers and cables, a mind and a sharp tongue.<\/em><br \/>\n<em> Take off the crown. Burn down the throne.<\/em><br \/>\n<em> Please understand that I only do this to feel less alone.&#8221;<\/em><br \/>\n<em> Broadway Calls, Sundowners<\/em><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/kCnnEBFXCZU?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dos maiores clich\u00eas da hist\u00f3ria \u00e9 aquele dito por cada gera\u00e7\u00e3o que \u00e9 desbancada nesse jogo de jovens chamado rock, a m\u00e1xima favorita daqueles cujos discos, e alma, cheiram a naftalina cultural: &#8220;Voc\u00ea tinha que estar l\u00e1, e viver aquela \u00e9poca, para entender&#8221;. Essa m\u00e1xima tem um fundo de verdade. Alguns momentos hist\u00f3ricos e caracter\u00edsticas geracionais contaminam o pr\u00f3prio conte\u00fado da m\u00fasica. Claro que grande parte do que \u00e9 realmente bom s\u00f3 \u00e9 provado como bom por n\u00e3o ser &#8220;datado&#8221;, mas ouvir um disco hoje n\u00e3o traz a mesma sensa\u00e7\u00e3o de contextualiza\u00e7\u00e3o sentimental e instant\u00e2nea que ouvir um disco no momento em que ele \u00e9 lan\u00e7ado, ou viver um movimento musical no auge de sua popularidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu tenho 26 anos e vivi o auge do Pop-Punk na idade em que voc\u00ea deveria ter vivido o auge do Pop-Punk para realmente compreender com o que, e quem, esse g\u00eanero dialogava. O medo de se tornar um adulto na virada do mil\u00eanio, a exporta\u00e7\u00e3o do bullying esquem\u00e1tico dos col\u00e9gios norte-americanos aos brasileiros atrav\u00e9s dos filmes adolescentes, a internet come\u00e7ando a unir pequenos grupos e nichos por todo o pa\u00eds e acelerando modismos. Mas, olhando em retrospecto, o Pop-Punk n\u00e3o se torna datado exatamente porque no seu cerne reside o instinto basal do ser humano. A necessidade, quase desesperada, de se sentir parte de algo maior e aprovado pelos seus pares.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todos que assistiram <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=R32qWdOWrTo\" target=\"_blank\">ao primeiro epis\u00f3dio da terceira temporada<\/a> de &#8220;Black Mirror&#8221; se assustam com a nossa depend\u00eancia de curtidas e notas online. Mas a verdade \u00e9 que essas notas apenas se tornaram mais expl\u00edcitas nas redes sociais, e a nossa vontade de encontrar um espa\u00e7o em que voc\u00ea se sinta totalmente aceito \u00e9 um dos pilares que definem tudo o que h\u00e1 de bom (nossa solidariedade e ajuda ao pr\u00f3ximo) a tudo que h\u00e1 de mau (egomania) em n\u00f3s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Pop-Punk, do palco \u00e0 plateia, das letras \u00e0 pr\u00f3pria estrutura da m\u00fasica, \u00e9 o g\u00eanero que co\u00e7a essa coceira que temos de maneira mais visceral e primitiva. No palco, dois vocalistas intercalam, harmonizam e quase entram em um esquema que lembra o &#8220;call and response&#8221; das igrejas gospel. Na plateia, voc\u00ea \u00e9 instru\u00eddo a trombar com o outro, sentir a proximidade de forma nada metaf\u00f3rica, abra\u00e7ar, ser passional. Nas letras, o m\u00ednimo denominador comum da virada do s\u00e9culo. Exclus\u00e3o, rejei\u00e7\u00e3o ao diferente, relacionamentos falhos, fam\u00edlias quebradas, desejo de divers\u00e3o escapista. E na m\u00fasica, riffs t\u00e3o simples que voc\u00ea tamb\u00e9m pode ter a sua banda de Pop-Punk.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto o isolamento era celebrado pelo Post-Punk, essa gera\u00e7\u00e3o via ler seus livros na biblioteca do col\u00e9gio e se sentir diferente como um castigo imposto diariamente. Era algo que gerava, instantaneamente, bolinhas de papel na sua cabe\u00e7a. N\u00e3o existia nada de glamouroso em se isolar. At\u00e9 os jogos deviam ser multiplayer, criar contato, fazer voc\u00ea se sentir que voc\u00ea n\u00e3o estava, de maneira alguma, sozinho em suas tristezas. Voc\u00ea j\u00e1 se sentia especial demais. Sua vontade era a do clich\u00ea.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tudo isso est\u00e1, por sinal, inscrito no nome do g\u00eanero. A forma do punk foi apropriada por esse novo h\u00edbrido, mas a vontade de formar um grupo, um nicho, se tornou mais predatorial. Os pequenos clubes n\u00e3o eram suficientes, tragam a gigantesca Warped Tour. Para aplacar a vontade de pertencimento desse novo g\u00eanero ele deveria abandonar tudo que, no punk, era inventado para alienar o mundo exterior, criar avers\u00e3o ou excluir o &#8220;poser&#8221;. As roupas e a est\u00e9tica tinham que se suavizar. O pop, ent\u00e3o, foi trazido, formando a combina\u00e7\u00e3o que at\u00e9 hoje parece improv\u00e1vel ou quase contradit\u00f3ria de dois g\u00eaneros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se o Pop-Punk era t\u00e3o diger\u00edvel, qual foi o motivo do seu sumi\u00e7o por alguns anos? N\u00e3o sei ao certo. Quando o Green Day virou seu foco para discos conceituais, pol\u00edtica e m\u00fasicas de 9 minutos, a simplicidade comunal se perdeu. Mas agora que ele voltou, ele voltou profundamente diferente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A segunda onda<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>&#8220;And these songs that I sing won&#8217;t do anything, but get us to the next town,<\/em><br \/>\n<em> and the next town, and the next town.<\/em><br \/>\n<em> So just wrap me up and tuck me into bed.<\/em><br \/>\n<em> I&#8217;ve got too much pessimism in my head.<\/em><br \/>\n<em> You&#8217;ve suffered way too long, and I&#8217;m sorry boys, I&#8217;m sorry boys.<\/em><br \/>\n<em> This is my final self pity song.&#8221;<\/em><br \/>\n<em> Broadway Calls, Give Up The Ghost<\/em><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/6ywciZR6lLE?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A maior diferen\u00e7a entre o adolescente e o adulto \u00e9 que a vida adulta te for\u00e7a a assumir a responsabilidade por seus problemas. O adolescente n\u00e3o se pergunta &#8220;porque eu sou incompreendido pela sociedade?&#8221;. Voc\u00ea simplesmente o \u00e9, e nada disso, em nenhum n\u00edvel, \u00e9 culpa sua. Todas as bandas de Pop-Punk envelheceram, e com isso, a auto-piedade que movia cada disco secou e se tornou a consci\u00eancia dura de que somos os motores de nossos pr\u00f3prios problemas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ap\u00f3s atingir a sua maturidade, o Pop-Punk ressurgiu em 2015\/16, e dois discos que representam essa volta mostram duas abordagens diferentes. O Jimmy Eat World escolheu se tornar consciente de sua idade e fazer pop-punk sobre depress\u00e3o, estagna\u00e7\u00e3o, at\u00e9 mesmo div\u00f3rcio. O Blink-182 resolveu se congelar em um est\u00e1gio eterno de 16 anos. E de maneira incoerente com as ra\u00edzes adolescentes do g\u00eanero, a alternativa da primeira banda se tornou muito mais atraente, e influente, nesse momento.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/e5KiGB0fp3U?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa diverg\u00eancia n\u00e3o est\u00e1 apenas no conte\u00fado das letras, mas inscrita na pr\u00f3pria forma da m\u00fasica. Pedais e efeitos afogam o som do Jimmy Eat World em &#8220;Integrity Blues&#8221; e suavizam a urg\u00eancia do Pop-Punk, fazendo a banda soar cada vez mais como um grupo de emo dos anos 90, enquanto em &#8220;<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2016\/08\/01\/tres-cds-blink-182-rhcp-garbage\/\" target=\"_blank\">California<\/a>&#8221; o Blink 182 se apoia na f\u00faria da bateria de Travis Barker e nas harmonias de seu mais novo membro, Matt Skiba, que h\u00e1 poucos anos tentou manter o esp\u00edrito do Alkaline Trio vivo com um dos melhores discos recentes do g\u00eanero, &#8220;My Shame is True&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">At\u00e9 mesmo as bandas de gera\u00e7\u00f5es posteriores est\u00e3o se dividindo nesses dois modus operandi. Against Me se posiciona por um tipo de necessidade de aceita\u00e7\u00e3o muito mais s\u00e9rio, em lutas ativistas pela popula\u00e7\u00e3o Trans. Modern Baseball lan\u00e7ou, em 2016, um disco bel\u00edssimo, que nasceu de problemas pessoais graves de seus vocalistas e parece, em cada m\u00fasica, pedir desculpas para aqueles que se machucaram com o seu comportamento ego\u00edsta durante a primeira onda, a adolesc\u00eancia. Na contra-m\u00e3o, o Joyce Manor tenta injetar a vitalidade jovem novamente para o Pop-punk, porque, afinal, adultos n\u00e3o precisam do Pop-Punk. Adultos n\u00e3o precisam de se sentir aprovados, de encontrar os seus pares em um show, de trombar vigorosamente com seus amigos em uma pista para se sentirem parte de algo maior.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ser\u00e1?<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/lic0oCDMfwk?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Ana Clara Matta (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/_ana_c\" target=\"_blank\">@_ana_c<\/a>) \u00e9 editora do <a href=\"http:\/\/www.rocknbeats.com.br\/\" target=\"_blank\">Rock \u2018n\u2019 Beats<\/a> e do <a href=\"http:\/\/ovodefantasma.com.br\/\" target=\"_blank\">Ovo de Fantasma<\/a>. Na montagem de fotos que abre o texto, Jimmy Eat World em 1999 e em 2016 (as duas fotos s\u00e3o de divulga\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><br \/>\n&#8211; \u201cCalifornia\u201d, do Blink 182, apresenta mais pontos positivos do que negativos (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2016\/08\/01\/tres-cds-blink-182-rhcp-garbage\/\" target=\"_blank\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; \u201cGood Mourning\u201d, do Alkaline Trio, hardcore mel\u00f3dico com letras sentimentais (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2004\/07\/27\/tres-cds-courtney-love-sonic-youth-alkaline-trio\/\">aqui<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Ap\u00f3s atingir a sua maturidade, o Pop-Punk ressurgiu em 2015\/16 com Jimmy Eat World e Blink-182 abordando o tema de maneiras diferentes \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2016\/11\/09\/a-igreja-comunal-do-pop-punk-20-anos-depois\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":17,"featured_media":40967,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[1446,1447],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/40964"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/17"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=40964"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/40964\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":40966,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/40964\/revisions\/40966"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/40967"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=40964"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=40964"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=40964"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}