{"id":40899,"date":"2016-11-01T23:31:56","date_gmt":"2016-11-02T01:31:56","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=40899"},"modified":"2016-11-21T11:41:11","modified_gmt":"2016-11-21T13:41:11","slug":"entrevista-fagner","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2016\/11\/01\/entrevista-fagner\/","title":{"rendered":"Entrevista: Fagner"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>por <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/daniel.tavares.96343\" target=\"_blank\">Daniel Tavares<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Embora tenha sido registrado em Or\u00f3s, Fagner nasceu em Fortaleza, no Cear\u00e1, em 1949. Em 1958, o ainda menino Raimundo Fagner C\u00e2ndido Lopes foi barrado na inaugura\u00e7\u00e3o do Cine-Teatro S\u00e3o Luiz, na ic\u00f4nica Pra\u00e7a do Ferreira, no centro da cidade. N\u00e3o tinha palet\u00f3. \u00c0 \u00e9poca, o filme era &#8220;Anast\u00e1cia, a Princesa Esquecida&#8221;, de Anatole Litvak, com Yul Brynner e Ingrid Bergman. Era proibido entrar sem palet\u00f3 no cinema. O menino Fagner viu a riqueza da cidade chegar em seus carros de luxo, com roupas chiques e ficou do lado de fora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 2016, Fagner retornou ao mesmo cinema (onde j\u00e1 havia estado diversas vezes, com e sem palet\u00f3), reinaugurado e revitalizado em 2014, para comemorar os seus 66 anos de idade em dois shows (o primeiro no dia de seu anivers\u00e1rio, 13 \/10)). O show no S\u00e3o Luiz soava pessoalmente especial por ser uma oportunidade de resgatar esta d\u00edvida hist\u00f3rica e reescrever este ponto de sua vida. Os 1070 ingressos evaporaram em tr\u00eas horas, e uma segunda data foi anunciada para o dia seguinte (com os ingressos esgotando mais rapidamente ainda &#8211; em apenas meia hora).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na manh\u00e3 de ter\u00e7a-feira (11\/10), o cantor e compositor, com sua indefect\u00edvel boina e vestido com &#8220;roupa de primeira comunh\u00e3o&#8221; (em suas palavras), recebeu a imprensa cearense para uma entrevista coletiva em que respondeu a cada pergunta com uma grande riqueza de detalhes, contando at\u00e9 mais do que aquilo que fora perguntado. Fagner desabafou sobre o conterr\u00e2neo Belchior e relembrou que fora flagrado por Ronaldo Boscoli dormindo no ch\u00e3o de um apartamento emprestado e levado para morar em sua casa com Elis Regina, e que sonha estar novamente no palco com Ednardo e Belchior.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O compositor tamb\u00e9m comentou sobre como v\u00ea a pr\u00f3pria import\u00e2ncia na vida das pessoas, eventos recentes na Serra da Piedade, em Minas Gerais, e elegeu os discos mais importantes de sua carreira, al\u00e9m de revelar que negou contratos nos Estados Unidos (para concorrer pela prefer\u00eancia do p\u00fablico latino com Roberto Carlos e Julio Iglesias) e Jap\u00e3o e lembrar-se do n\u00e3o seguido conselho de Tim Maia (&#8220;Sai dessa merda desse pa\u00eds&#8221;). Papo muito bom. Confira abaixo:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ps. Esse show ir\u00e1 virar um DVD!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/fagner2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Qual a sua rela\u00e7\u00e3o com o Cinema S\u00e3o Luiz?<\/strong><br \/>\nQuando surgiu a ideia de fazer essa comemora\u00e7\u00e3o do meu anivers\u00e1rio me lembrei daqui, porque nasci na Floriano Peixoto [<em>Nota: rua paralela \u00e0 Major Facundo, onde fica o Cinema<\/em>]. Esse cinema foi tudo na minha vida. Tudo de grandioso e de sonhos que tive, tive aqui nas cadeiras desse teatro. Foi uma coisa muito importante. Da\u00ed est\u00e1 a explica\u00e7\u00e3o do fato de eu vir comemorar esse anivers\u00e1rio, que raramente comemoro, pra trazer de volta as lembran\u00e7as que tive na minha inf\u00e2ncia, na minha adolesc\u00eancia. \u00c9 um show especial para o teatro e a gente vai procurar trazer as emo\u00e7\u00f5es que vivi aqui, um repert\u00f3rio de m\u00fasicas que n\u00e3o canto h\u00e1 muito tempo, mas que v\u00e3o se adequar muito bem para esse momento. Espero que as pessoas possam ter essa compreens\u00e3o de que aqui vai estar \u201cpassando\u201d um filme da hist\u00f3ria de um artista que \u00e9 da terra, que nasceu a tr\u00eas quarteir\u00f5es daqui, que o primeiro filme que teve aqui eu n\u00e3o entrei porque fui barrado, porque n\u00e3o tinha palet\u00f3, e tudo de grandioso que sonhei, essas imagens come\u00e7aram aqui no Cine S\u00e3o Luiz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Qual a sua expectativa para esse show de anivers\u00e1rio?<\/strong><br \/>\nJ\u00e1 sou um cara tarimbado de palco. Comecei a cantar com seis anos aqui na Cear\u00e1 R\u00e1dio Clube, tentava ser calouro do programa do Irapu\u00e3 Lima, na R\u00e1dio Iracema. Fiz novela na TV Cear\u00e1, cantei no Theatro Jos\u00e9 de Alencar e busquei o palco. Ent\u00e3o j\u00e1 sou um pouco malaca de palco, de emo\u00e7\u00e3o, j\u00e1 enfrentei grandes multid\u00f5es e tudo, mas esse (show de anivers\u00e1rio) \u00e9 especial, at\u00e9 porque a gente vai trabalhar m\u00fasicas que n\u00e3o canto h\u00e1 muito tempo e vou estar diante de uma plateia absolutamente de amigos, de pessoas que vivem comigo h\u00e1 muitos anos, que tem expectativa no meu sucesso, que gostam do que\u00a0 fa\u00e7o. Gostam quando me veem bem, quando me veem na televis\u00e3o, e sabem que n\u00e3o gosto de comemorar anivers\u00e1rio. Por conta disso, sei que v\u00e3o ser duas noites muito especiais, num local hist\u00f3rico. Tenho certeza de que vai ser muito diferente. Vou dar uma tremedeirazinha, um pouquinho de emo\u00e7\u00e3o, porque vou cantar diante da fam\u00edlia, diante dos amigos, diante de um p\u00fablico que est\u00e1 l\u00e1 fora esperando. Assumo essa responsabilidade, sei que estamos preparando um trabalho muito bonito, mas ele requer n\u00e3o s\u00f3 t\u00e9cnica, ele requer que voc\u00ea controle a emo\u00e7\u00e3o por estar diante de pessoas t\u00e3o queridas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A reinaugura\u00e7\u00e3o do Cinema \u00e9 uma tentativa de revitalizar a regi\u00e3o, que perdeu bastante do apelo com a prolifera\u00e7\u00e3o dos shopping centers associada a problemas como falta de seguran\u00e7a, dificuldade de estacionamento, ocupa\u00e7\u00e3o de pra\u00e7as pela popula\u00e7\u00e3o de rua. Ao escolher este cinema voc\u00ea acredita estar contribuindo para que o povo de Fortaleza n\u00e3o esque\u00e7a esse bairro que \u00e9 t\u00e3o importante para a cidade?<\/strong><br \/>\nBem, eu j\u00e1 comecei outras coisas aqui. Aqui n\u00e3o tinha r\u00e9veillon e eu, de certa maneira, trouxe r\u00e9veillons pra c\u00e1. Sempre fui muito participante do &#8220;Natal de Luz&#8221; [<em>Nota: programa\u00e7\u00e3o natalina que acontece na Pra\u00e7a do Ferreira no m\u00eas de dezembro, com o Coral da Luz se apresentando no Hotel Excelsior, shows na pra\u00e7a e outras atra\u00e7\u00f5es<\/em>]. O povo adora essa regi\u00e3o de Fortaleza. Se servir um pouco para que desperte a aten\u00e7\u00e3o do fortalezense, do grande n\u00famero de turistas que vem para ver tantas coisas belas que tem no Cear\u00e1, eu vou ficar muito feliz. Venham aqui ao Centro conhecer a tradi\u00e7\u00e3o do Cear\u00e1, <a href=\"http:\/\/www.opovo.com.br\/app\/opovo\/vidaearte\/2012\/01\/30\/noticiasjornalvidaearte,2775144\/o-dia-em-que-o-cearense-vaiou-o-sol.shtml\" target=\"_blank\">conhecer a vaia que deram ao Sol<\/a>, tudo isso. \u00c9 um lugar muito lindo, at\u00e9 porque tem que se lembrar do fato hist\u00f3rico: esse cinema foi da cadeia de cinemas S\u00e3o Luiz, que foi feita no Brasil inteiro, e ele foi o privilegiado por ser propriedade de um cearense chamado Luiz Severiano Ribeiro. Por coincid\u00eancia, o filho dele mora no pr\u00e9dio onde moro no Rio de Janeiro. Existem todas essas coincid\u00eancias em rela\u00e7\u00e3o ao S\u00e3o Luiz, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 minha hist\u00f3ria aqui dentro, com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s pessoas acharem que eu nasci em Or\u00f3s&#8230; Espero que esse evento possa despertar a curiosidade para o ponto cultural important\u00edssimo da nossa cidade, que \u00e9 a Pra\u00e7a do Ferreira, especialmente o Cine S\u00e3o Luiz, que era rodeado de grandes cinemas, o Diogo, o Moderno, o Magestik, o Cine de Arte, o Jangada, tantos outros cinemas que convivi a minha vida toda. E os grandes filmes que vi aqui.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/MC24pXLml1s?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea, Ednardo, Belchior e o resto do pessoal do Cear\u00e1 fizeram sucesso nos anos 70 quando &#8220;invadiram&#8221; o Sudeste levando a sua m\u00fasica. Hoje a gente tem uma nova gera\u00e7\u00e3o de m\u00fasicos cearenses fazendo essa mesma trajet\u00f3ria (Cidad\u00e3o Instigado, Selvagens \u00e0 Procura de Lei, Mafalda Morfina, Jonnata Doll, Artur Menezes). O que voc\u00ea sabe sobre esses nomes?<\/strong><br \/>\nConheci o Cidad\u00e3o Instigado porque nos encontramos (para alguns shows) h\u00e1 alguns anos atr\u00e1s em S\u00e3o Paulo. Eles fizeram uma releitura (do meu trabalho). Conheci o Fernando Catatau e senti que ele tem uma influ\u00eancia muito grande do Robertinho de Recife, mas carrego comigo, p\u00f3s-Robertinho, o Cristiano Pinho, que \u00e9 um dos maiores g\u00eanios e m\u00fasicos que a gente tem aqui no estado do Cear\u00e1. N\u00e3o conhe\u00e7o os demais (artistas citados). O conselho que dou: cheguem perto de mim, venham me mostrar as coisas que n\u00e3o conhe\u00e7o de voc\u00eas. Sempre fui muito aberto pra ouvir, pra gravar m\u00fasica dos outros. H\u00e1 muitos anos atr\u00e1s fui fazer um disco e pelo fato de eu escutar e descobrir artistas novos e poetas, descobri o Francisco Carvalho. Eu n\u00e3o sabia que havia um cearense chamado Francisco Carvalho que j\u00e1 tinha ganhado pr\u00eamios de literatura e estava escondido no Cear\u00e1. Recebi um livro dele e musiquei cinco poemas. Isso me fez fazer um disco. Eu estava parado, mas gosto de ser surpreendido. Tem artistas que n\u00e3o, que s\u00f3 gravam suas m\u00fasicas. Ent\u00e3o as pessoas, os caras que gravam, que escrevem, os poetas an\u00f4nimos desse pa\u00eds, eu tento ser um pouco biblioteca desse povo. Esse povo me procura na esperan\u00e7a de que eu grave alguma m\u00fasica, como j\u00e1 gravei h\u00e1 algum tempo, e me mostra poemas. Sempre fui muito ligado a poesia e todo mundo gosta de me dar. Vou fazer um show e sempre levo uma mala vazia pra trazer livros e CDs. Isso acontece naturalmente, principalmente aqui pelo Nordeste. Se eu tivesse tido cuidado teria um acervo an\u00f4nimo desse pa\u00eds muito grande. Uma vez coloquei um an\u00fancio no jornal O Globo, em uma coluna muito lida, pedindo \u00e0s pessoas pra mandarem fitas porque eu ia gravar um disco novo. O meu produtor era ent\u00e3o o Mariozinho Rocha, um diretor da TV Globo, de novelas. E ele estava sem gravadora. Eu o levei pra produzir meu disco na Sony e ele virou diretor da Sony. Nessa \u00e9poca ele estava gravando o meu disco e o da Gal Costa. E essas fitas que pedi por uma simples not\u00edcia no jornal O Globo congestionaram o correio da gravadora, na Rua Botafogo. Chegaram mais de 1500 fitas e ele foi l\u00e1 em casa e falou: \u201cFagner, eu nunca vi um neg\u00f3cio desses\u201d. \u00c9 a car\u00eancia do povo que escreve, que faz m\u00fasica. Ent\u00e3o sempre fui muito ligado nisso. Pode mandar suas m\u00fasicas l\u00e1 para o ararena@ararena.com.br, que \u00e9 o nosso est\u00fadio, aqui na Rua Jaguaribe, 55, aqui perto da Costa Barros, em Fortaleza. Acho que sempre pode ter uma surpresa. E continua chegando. Sempre que vou ao est\u00fadio h\u00e1 uma correspond\u00eancia enorme. Eu gostaria de conhecer o que o pessoal novo vem fazendo a n\u00edvel autoral. N\u00e3o s\u00f3 musical. Porque, musical, a gente sempre teve aqui grandes m\u00fasicos. A minha banda \u00e9&#8230; brincadeira, n\u00e9? Sempre trabalhei com os melhores m\u00fasicos. Uma das raz\u00f5es de eu ainda estar vivo musicalmente e artisticamente, \u00e9 porque eu sempre procurei trabalhar com os melhores m\u00fasicos, os melhores maestros, os melhores est\u00fadios e os melhores poetas que deram voz e vida \u00e0s minhas m\u00fasicas. Eu basicamente escrevi alguma coisa, mas eu sou um m\u00fasico, eu sou um compositor, eu sou um cara de est\u00fadio, um cara que vai at\u00e9 o fim, um cara que briga com o maestro, com o t\u00e9cnico&#8230; Eu sou um cri-cri do est\u00fadio. A minha vida \u00e9 um est\u00fadio fonogr\u00e1fico. N\u00e3o \u00e9 a toa que eu gravei mais de 40 discos, que produzi mais de 50 discos. O est\u00fadio pra mim \u00e9 comida. Eu posso ficar o dia todo dentro dele. Tem gente que n\u00e3o gosta. Eu vivo dentro do est\u00fadio. Eu sobrevivo dentro do est\u00fadio. A gente sempre teve bons m\u00fasicos aqui. E hoje a minha alegria \u00e9 estar vindo aqui amanh\u00e3 (para o show de anivers\u00e1rio) com uma banda s\u00f3 cearense. Mas eu gostaria demais de conhecer essa nova gera\u00e7\u00e3o, que tivesse alguma coisa que eu pudesse gravar com eles, que eu pudesse cantar com eles. Se eles quiserem tamb\u00e9m, n\u00e9? T\u00f4 na fita. Estou vivo a\u00ed. Gostaria que essas gera\u00e7\u00f5es&#8230; n\u00e3o sei se elas est\u00e3o muito distantes da gente a n\u00edvel est\u00e9tico, a n\u00edvel po\u00e9tico&#8230; mas eu gostaria demais de ser surpreendido at\u00e9 porque sou muito cobrado por isso. A minha gera\u00e7\u00e3o, eu, Ednardo e Belchior&#8230; ficou uma marca muito forte. O Belchior sumiu, o Ednardo est\u00e1 por a\u00ed e eu continuo muito na ativa. Ent\u00e3o as pessoas me cobram muito. Eu gostaria de subir num palco com o Belchior, com o Ednardo. Fiz tudo por isso. Fiz um show aqui na Pra\u00e7a do Ferreira. Convidei os dois. Fizemos um show em Sobral. Meu sonho era esse, porque vi surgir o projeto Grande Encontro, que agora me chamaram novamente pra fazer. Eu n\u00e3o queria e acho que um repert\u00f3rio Belchior, Ednardo e Fagner n\u00e3o fica menor do que nenhum Grande Encontro (nota do editor: em refer\u00eancia ao projeto que une Elba Ramalho, Alceu Valen\u00e7a, Geraldo Azevedo e Z\u00e9 Ramalho). N\u00f3s temos um repert\u00f3rio poderos\u00edssimo, querido, forte no Brasil inteiro. Mas tentei juntar o Belchior com o Ednardo, e eles tinham suas diferen\u00e7as, e essas diferen\u00e7as impediram a gente de continuar esse projeto. E eu sou cobrado por onde eu passo. Cad\u00ea o Belchior? Cad\u00ea o Ednardo? N\u00e3o sei se eles voltam pra mim. At\u00e9 gostaria. Eu gostaria de subir num palco [com eles]. Fiz agora com o Z\u00e9 Ramalho, fiz com o Zeca Baleiro, mas as pessoas me cobram muito de Belchior e Ednardo. E eu lamento muito porque Belchior, at\u00e9 eu sair daqui do Cear\u00e1, foi meu melhor parceiro. Grande poeta. Chegou l\u00e1, virou uma concorr\u00eancia na cabe\u00e7a dele que eu n\u00e3o sabia como. O Ednardo, n\u00f3s \u00e9ramos vizinhos, n\u00f3s nos criamos aqui na Rua Artur Tim\u00f3teo. Tocava piano. Se empolgou pra ser compositor quando eu ganhei o festival com a m\u00fasica &#8220;Nada Sou&#8221; [IV Festival de M\u00fasica Popular do Cear\u00e1, Fortaleza, 1968]. E passou a pegar no viol\u00e3o&#8230; no outro dia eu olhei e ele estava com o viol\u00e3o na m\u00e3o. As primeiras m\u00fasicas do Ednardo, eu que passei um pouco pra ele. Ele deve se lembrar disso. Ent\u00e3o sempre fui um cara de trabalho coletivo [Fagner faz quest\u00e3o de frisar o termo] e adoraria que eles estivessem comigo nesse momento. N\u00e3o est\u00e3o. Ent\u00e3o, que venham. De vez em quando encontro o Ednardo na esquina, no mesmo bar que frequento&#8230; Belchior sumiu mesmo, porque o Belchior \u00e9 outro temperamento. Ele deu as costas pra mim. Passei a ser uma amea\u00e7a para ele, mas n\u00e3o era nada disso. Eu sempre respeitei o Belchior. Tenho o maior orgulho de dizer que a minha melhor m\u00fasica, a m\u00fasica mais marcante da minha vida \u00e9 \u201cMucuripe\u201d. E \u00e9 com Belchior. As pessoas me perguntam: cad\u00ea o Belchior? Por que nego pensa que eu sou amigo do Belchior. Eu n\u00e3o sou amigo do Belchior. Sou um cara que respeita o Belchior profundamente. Mas ele n\u00e3o teve respeito com a gente, por isso ele est\u00e1 sumido. Lamento ter perdido o grande parceiro. Mas ganhei o Fausto Nilo, que a partir desse momento virou meu parceiro, meu amigo, meu irm\u00e3o. Eu lamento profundamente estar abrindo isso aqui pra voc\u00eas, essa hist\u00f3ria&#8230; poderia ser uma hist\u00f3ria&#8230; mas, j\u00e1 que estamos falando, vamos falar mesmo. Eu gostaria muito de ter no palco a presen\u00e7a de Belchior e Ednardo, poder cantar as m\u00fasicas deles. Quando ganhei o festival aqui no Theatro Jos\u00e9 de Alencar, em dezembro de 1968, a m\u00fasica que eu mais gostava era &#8220;Espacial&#8221;, do Belchior. Belchior sempre foi importante na minha vida, mas n\u00e3o fui importante na vida dele. Lamento.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/OlWqPnW_cEs?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sua parceria com Belchior, \u201cMucuripe\u201d, foi gravada por Elis Regina. Voc\u00ea acha que ela \u00e9 respons\u00e1vel por sua proje\u00e7\u00e3o em \u00e2mbito nacional?<\/strong><br \/>\nSim, a Elis foi respons\u00e1vel por eu estar aqui. Talvez eu fosse (insistir) e n\u00e3o desistisse, porque eu n\u00e3o iria desistir disso. Larguei a faculdade e tudo. Mas eu j\u00e1 estava em um momento bem dif\u00edcil, fam\u00edlia pedindo pra eu voltar. Foi quando soube que a Elis estava cantando as quatro m\u00fasicas no teatro: \u201cMucuripe\u201d, \u201cCavalo Ferro\u201d, \u201cNoves Fora\u201d e \u201cMoto 1\u201d. A\u00ed sim, sai de um lugar onde eu n\u00e3o tinha onde dormir, um apartamento de um primo meu que ganhou um pr\u00eamio na Universidade da Fran\u00e7a. Inclusive o Ednardo apareceu l\u00e1 um dia. Dai fui morar na casa da Elis e virei ator, virei autor da noite pro dia porque a Elis era m\u00e1gica. Ent\u00e3o, nesse janeiro de 1972, eu deixei de ser o Z\u00e9 Ningu\u00e9m pra ser o compositor da Elis Regina. Isso era demais. Ela me levou generosamente pra morar na casa dela, com o Ronaldo, porque eu morava num apartamento abandonado e eles gostaram muito de mim. Virei meio filho do Ronaldo B\u00f4scoli. Ele todo dia ia me deixar num lugar onde ele n\u00e3o via ningu\u00e9m. Um dia ele subiu no apartamento e viu que eu estava dormindo no ch\u00e3o. No outro dia ele me levou pra morar com a Elis. Eu passei a ser um compositor, uma pessoa assediada, virei uma pessoa importante, uma pessoa que j\u00e1 tinha empres\u00e1rio, que j\u00e1 tinha gravadora. E ali realmente a minha vida mudou. Por conta disso, nesse mesmo teatro, um ano depois, o Cac\u00e1 Diegues me chamou pra fazer a \u201cJoana Francesa\u201d com o Chico e, no ano seguinte, nesse mesmo Teatro da Praia, no Rio de Janeiro, em Copacabana, eu subi ao palco com a dona Nara Le\u00e3o para um show chamado \u201cNara Muito Informal\u201d, porque a Nara n\u00e3o queria mais cantar. E como eu fiquei amigo do Cac\u00e1 e do Chico, o Cac\u00e1, que morava vizinho ao Menescal e foi quem levou a minha fita para a Elis, pediu para eu fazer um show com a Nara. E eu comecei cantando tr\u00eas m\u00fasicas nesse show e terminei praticamente tomando o show dela. Ela autorizando. \u201cVai, vai\u201d. Ela dizia: \u201cFagner, voc\u00ea tem que cantar! O povo te v\u00ea de uma maneira diferente. Voc\u00ea tem um neg\u00f3cio que eu s\u00f3 vejo com o Chico. N\u00e3o esque\u00e7a isso. O povo elege seus \u00eddolos\u201d. A\u00ed eu peguei corda [risos]. Eu sou um cara elegido pelo povo. O povo gosta de mim, gosta das besteiras que eu fa\u00e7o, da maneira como eu canto, do jeito diferente de cantar&#8230; de perder a formalidade. Muitas vezes eu me policio pra n\u00e3o fazer besteira, porque eu tenho tanta liberdade, o povo me d\u00e1 tanta liberdade que \u00e0s vezes eu abuso, t\u00e1 entendendo? Ent\u00e3o acho que j\u00e1 passei experi\u00eancias incr\u00edveis&#8230; Depois eu e o Fausto Nilo produzimos um disco da Nara chamado \u201cRomance Popular\u201d (1981), v\u00edtima de muita cr\u00edtica. Nara era uma pessoa revolucion\u00e1ria. Ela j\u00e1 tinha mexido com samba, com a bossa nova, com a jovem guarda e ela quis meter a m\u00e3o dela aqui no Nordeste. Deu \u201cRomance Popular\u201d. Ent\u00e3o fui um cara realmente aben\u00e7oado por ser lan\u00e7ado como autor por Elis Regina e ser lan\u00e7ado como cantor por Nara Le\u00e3o. H\u00e1 de se convir que a sorte bateu, n\u00e9? Na \u00e9poca eu fiz 12 pontos na Loteria Esportiva porque estava duro, precisando de dinheiro, e errei num Cear\u00e1 e Ferrovi\u00e1rio [<em>risos em geral da plateia \u2013 Fagner \u00e9 reconhecido como grande torcedor do rival Fortaleza, time que divide com o Cear\u00e1 a prefer\u00eancia dos torcedores cearenses por quase 100 anos<\/em>]. \u00c9 verdade. Eu estava duro na porta da TV Tupi, quem me dava comida era um gar\u00e7om cearense, porque o Belchior n\u00e3o dava, o Belchior era assim&#8230; [Fagner faz um gesto de m\u00e3o fechada]. E ele tinha dinheiro, mas ele n\u00e3o dava. E n\u00e3o me pagava. Ent\u00e3o eu estava desesperado e terminei jogando na loteria esportiva. Desesperado. Como eu gosto muito de futebol, joguei pouco e botei os palpites todos&#8230; O Cear\u00e1 estava em uma campanha extraordin\u00e1ria, tinha o melhor lateral esquerdo, a bola de prata. Naturalmente, o Ferrovi\u00e1rio n\u00e3o estava bem. Eu botei vit\u00f3ria do Cear\u00e1. Fiz doze pontos e perdi no Cear\u00e1 x Ferrovi\u00e1rio. [Mais risos] Ent\u00e3o, n\u00e3o nasci pra ganhar dinheiro fora da m\u00fasica. Desculpe se n\u00e3o te respondi. N\u00e3o sei. Eu n\u00e3o entendo tanto de futebol assim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas voc\u00ea continua jogando futebol?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o, estou devagar, mas se aparecer aqui eu fa\u00e7o uns pezinhos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E a sua parceria com Zico, &#8220;Batuqu\u00ea de Praia&#8221;?<\/strong><br \/>\nO Petr\u00facio [Maia] me mostrou essa m\u00fasica e eu gravei com o Martinho da Vila. Achei muito a cara do Rio. Nunca me meti muito do samba, at\u00e9 porque os sambistas falam: &#8216;P\u00f4, Fagner, voc\u00ea s\u00f3 canta em menor&#8217;. Eu sou chor\u00e3o, sou seresteiro. Aprendi serestas ouvindo Orlando Silva, Nelson Gon\u00e7alves, S\u00edlvio Caldas, Altemar Dultra, Cauby Peixoto. E eu gravei com esse povo todo, s\u00f3 n\u00e3o com o Altemar que j\u00e1 tinha morrido. Eu trouxe o S\u00edlvio Caldas pra cantar aqui no Theatro Jos\u00e9 de Alencar, s\u00f3 n\u00f3s dois. N\u00e3o sou sambista, mas essa m\u00fasica pintou, eu estava com o Martinho e ele gostou e n\u00f3s gravamos. S\u00f3 que na \u00e9poca a gravadora RCA Victor estava lan\u00e7ando um disco novo do Martinho da Vila e ficou com medo dessa nossa m\u00fasica estourar. Eles talvez n\u00e3o tivessem uma boa m\u00fasica na \u00e9poca e, quando viram a empolga\u00e7\u00e3o do Martinho com aquilo, suspenderam e impediram que eu gravasse essa m\u00fasica com o Martinho da Vila. E eu fiquei muito frustrado porque a m\u00fasica era muito boa. Era &#8216;Batuqu\u00ea de Praia&#8217; e &#8216;Cantos do Rio&#8217;. Eu e o Zico \u00e9ramos muito amigos, como somos at\u00e9 hoje, e eu botei a m\u00fasica pra tocar na casa dele. E o Zico adorou essa m\u00fasica. Eu disse, &#8216;ent\u00e3o vamos pro est\u00fadio&#8217;. &#8216;Eu?&#8217;, ele perguntou. &#8216;\u00c9, voc\u00ea, voc\u00ea mesmo&#8217;. E ele entrou no est\u00fadio e isso foi um grande sucesso aqui, principalmente no carnaval de Paracur\u00fa. S\u00f3 depois que entendi que eles n\u00e3o quiseram lan\u00e7ar aquela m\u00fasica (com o Martinho) porque talvez n\u00e3o tivessem uma m\u00fasica t\u00e3o bala.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/LQemmuLSroQ?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Um artista como voc\u00ea sabe que as suas m\u00fasicas tiveram import\u00e2ncia, tiveram participa\u00e7\u00e3o na vida das pessoas. Assim como voc\u00ea falou que este cinema teve uma participa\u00e7\u00e3o forte na sua vida, a sua m\u00fasica tem participa\u00e7\u00e3o na vida das pessoas. Teve gente que casou, descasou ouvindo as suas m\u00fasicas. Teve gente que conquistou o amor da sua vida e teve gente que perdeu o amor da sua vida. O que \u00e9 que significa pra voc\u00ea saber que aquilo que voc\u00ea comp\u00f4s tem essa import\u00e2ncia t\u00e3o grande na vida de outras pessoas?<\/strong><br \/>\nMinha m\u00fasica viajou muito na vida das pessoas porque eu tive grandes parceiros. E a\u00ed vou contar desde Fausto Nilo, Brand\u00e3o, Petr\u00facio Maia e Belchior aqui no Cear\u00e1. Chegando ao Rio de Janeiro&#8230; Abel Silva, Ferreira Gullar, a\u00ed, p\u00f4, eu vou viajar. E vai pegar os piauienses, desde o primeiro sucesso grande que eu fiz, &#8220;Revela\u00e7\u00e3o&#8221;, com o Clodo, Clim\u00e9rio, produzi disco dele. Quando digo que sou viajado, que sou um cara aberto, isso favoreceu porque tive oportunidade de gravar com grandes poetas, como o Francisco Carvalho. Esses poetas deram uma dimens\u00e3o enorme para a minha m\u00fasica. Os poetas que musiquei, Cec\u00edlia Meireles, Florbela Espanca. E realmente isso atingiu muitas pessoas. Foi a minha m\u00fasica, mas foi a poesia das pessoas que entraram. Eu j\u00e1 ouvi de tudo, de casamento&#8230; Ano passado fui fazer um show em Vit\u00f3ria e tinha uma mesa toda especial para um casal que se casou por causa das minhas m\u00fasicas, se separou e estavam h\u00e1 10 anos separados, mas estavam voltando o casamento, trazendo filhos e netos pra me ver em Vit\u00f3ria. Voc\u00ea n\u00e3o faz ideia do que isso?. Nomes&#8230; Preciso fazer o cadastro de quantos &#8216;Fagner&#8217; existem nesse pa\u00eds. Se fizerem um levantamento de &#8216;Fagner&#8217;, \u00e9 impressionante. A gente tem hoje um jogador que \u00e9 famoso e que deve estar entrando a\u00ed na sele\u00e7\u00e3o brasileira e que realmente foi (por minha causa)&#8230; Eu j\u00e1 ouvi tudo quanto \u00e9 de depoimento de gente que se casou. Mas ouvi um antes de ontem, na Serra da Piedade. Cheguei pra fazer um show, participar de um grande evento na Serra da Piedade, um lugar muito alto, muito milagroso, um lugar que te d\u00e1 uma energia. O programa estava muito mal organizado, uma log\u00edstica imposs\u00edvel, mas fui ali, n\u00e3o era nem pra estar, mas era uma prepara\u00e7\u00e3o para a vinda do Papa [segundo o jornal Estado de Minas, o Papa Francisco foi convidado para inaugurar em outubro de 2017 o Museu Maria Regina Mundi, a ser constru\u00eddo no alto da Serra da Piedade, em Caet\u00e9, na Grande BH], e uma homenagem ao Fernando Brant&#8230; Eu sabia que estava numa roubada, mas fui e aquilo me deu tanto trabalho&#8230; n\u00e3o sou mais aquele atleta de futebol. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o evento, estar ali, eu sabia que eu ia cantar a \u201cOra\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Francisco\u201d&#8230; Fui de manh\u00e3, passei o som e depois voltei \u00e0 tarde. E quando cheguei estava um bochicho \u2013 o povo mineiro me ama mais que o cearense. N\u00e3o tenho a menor d\u00favida disso, porque aquilo n\u00e3o \u00e9 amor, aquilo \u00e9 uma divindade. Aqui no Cear\u00e1 j\u00e1 \u00e9 uma obriga\u00e7\u00e3o gostar de mim de alguma forma porque eu sou conterr\u00e2neo, mas o que o povo mineiro faz comigo, os artistas mineiros tem ci\u00fame. Fico com vergonha daquele carinho daquele povo quando estou do lado de artistas. Sou um santo pra eles. E eu estava l\u00e1 \u00e0s duas horas da tarde e uma senhora, uma mo\u00e7a bonita, loira, chegou perto de mim e falou (e \u00e9 um lugar lindo, de carmelitas, \u00e9 um lugar santo): &#8220;Poxa, voc\u00ea veio de manh\u00e3 e eu queria te falar um neg\u00f3cio e n\u00e3o te falei porque voc\u00ea estava muito assediado, mas posso te falar agora?&#8221;. Eu disse: &#8220;Pode&#8221;. &#8220;Pois n\u00e3o, meu filho nasceu com seis meses, nasceu prematuro, teve muita dificuldade, mas botei ele num lugar ouvindo sua m\u00fasica. E ele sobreviveu&#8221;. Quer um neg\u00f3cio melhor do que esse? Olhei prum lado e tinha algu\u00e9m que estava comigo. &#8220;Caramba, n\u00e3o te falei que essa viagem n\u00e3o ia ser \u00e0 toa&#8221;. A mo\u00e7a perguntou: &#8220;Voc\u00ea pode bater uma foto?&#8221; Eu digo: &#8220;N\u00e3o, quero fazer um v\u00eddeo. Como \u00e9 o nome dele?&#8221; Ela falou: &#8220;Mateus&#8221;. A mulher chorando&#8230; Eu falei: &#8220;\u00d4, Mateus, que m\u00e3e guerreira. Poxa, quero mandar um abra\u00e7o e fiquei muito feliz de ter participado da sua vida, de ter sido importante pra voc\u00ea&#8221;. Ganhei o dia. Foi minha m\u00fasica, foram meus poetas que eu escolhi, foram as pessoas que deram sensibilidade. Eu nunca gravei nada por gravar, por imediatismo. Sim, me criei ouvindo r\u00e1dio e sei o que pode tocar. Isso eu n\u00e3o tenho nenhuma d\u00favida. Converso com qualquer disk j\u00f3quei, com qualquer programador, com qualquer diretor. Tanto que, pelas gravadoras que passei, nenhum diretor inventou de dizer o que \u00e9 que eu ia tocar, o que eu ia gravar. Nasci com isso, de m\u00fasica. Eu escutava aqui o Machado, as Dez Melhores, eu escutava r\u00e1dio direto. Domingo vinha As Dez Melhores&#8230; Sou ouvidor de Moacyr Franco, de Taiguara, de tudo, minha vida foi r\u00e1dio, meu pai foi cantor. P\u00f4, sou do ramo. O r\u00e1dio, a audi\u00e7\u00e3o est\u00e1 dentro, n\u00e3o vou conversar com um cara porque ele \u00e9 dono de uma r\u00e1dio&#8230; Uma vez entrou um diretor na Sony, ele entrou l\u00e1 porque chegou vendendo gravata. E foi pro meu est\u00fadio ver uma grava\u00e7\u00e3o minha e eu botei ele pra fora porque ele s\u00f3 dava opini\u00e3o errada. &#8220;Voc\u00ea \u00e9 diretor da Sony, mas voc\u00ea n\u00e3o sabe nada de m\u00fasica. N\u00e3o vem encher o meu saco&#8221;. Eu nasci com a m\u00fasica no peito. Ent\u00e3o vou com isso at\u00e9 o fim porque tenho origem nisso. Eu entrei em gravadora muito cedo. Aprendi com os melhores profissionais. Meu professor foi Menescal. Os primeiros est\u00fadios, os primeiros t\u00e9cnicos&#8230; Tenho que ter aprendido alguma coisa. E \u00e0s vezes sobra um pouco de falta de humildade pra dizer: &#8220;Porra, n\u00e3o enche o saco. Disso a\u00ed eu entendo&#8221;. (<em>Nota: houve uma pol\u00eamica sobre o show de Fagner na Serra da Piedade. O jornal mineiro O Tempo publicou uma mat\u00e9ria afirmando que Fagner derrubou\/teria deixado cair um viol\u00e3o que emprestara de um m\u00fasico local. O cantor Ednardo tamb\u00e9m publicou nas redes sociais uma nota diretamente endere\u00e7ada ao &#8220;camarada de estrada&#8221; sobre o ocorrido, &#8220;puxando-lhe as orelhas&#8221; virtualmente. Falando ao jornal O Povo, dias depois, Fagner <a href=\"http:\/\/www.opovo.com.br\/noticias\/brasil\/2016\/10\/atitude-de-fagner-em-show-incomoda-musicos-cantor-se-defende.html\" target=\"_blank\">reconheceu que se exaltara e pediu o contato do dono do viol\u00e3o para se retratar<\/a>&#8220;<\/em>).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Acredito que a maioria de n\u00f3s come\u00e7ou a escutar suas m\u00fasicas em LPs, depois passou pra CDs, hoje \u00e9 poss\u00edvel ouvir em streaming. Todo esse panorama de m\u00fasica, de gravadoras, de distribui\u00e7\u00e3o de m\u00fasica mudou bastante. Eu queria saber qual a sua opini\u00e3o, qual a sua vis\u00e3o sobre isso?<\/strong><br \/>\nCara, e se eu te disser que eu n\u00e3o acompanho isso? Eu juro. Sei que o meu contrato com a Sony, ele n\u00e3o visa essas novas ferramentas. Ent\u00e3o a gente ainda tem que conversar l\u00e1 porque sou um cara totalmente por fora. Tenho o Jones que me fala, que me mostra. Pra quem n\u00e3o conhece, o Jones \u00e9 um dos caras que trabalha h\u00e1 20 anos comigo, \u00e9 meu anjo da guarda. Ele cuida dessas coisas porque eu sou um cara totalmente por fora. Tenho um computador no Rio de Janeiro que eu nunca abri. Aprendi esse neg\u00f3cio de &#8220;zap&#8221; (Whatsapp) e de passar email. E para por a\u00ed. Se eu fizer um disco e as pessoas vierem com uma ideia de modernidade, acho que vou contratar a filha do Jo\u00e3o [um dos donos da Arte Produ\u00e7\u00f5es e respons\u00e1vel pelos shows no S\u00e3o Luiz], que disse que sabe tudo das coisas, porque eu n\u00e3o estou por dentro. Mas acho que o que est\u00e1 rolando pros outros est\u00e1 rolando pra mim. Tem um ditado nosso aqui que diz que o bom cabrito n\u00e3o berra. Eu brigo quando mando ligar pra Sony e falar que estou precisando do disco meu com o Luiz Gonzaga e eles dizem que est\u00e1 fora de cat\u00e1logo. Acho sacanagem e me irrito. Tenho um cat\u00e1logo extraordin\u00e1rio e gosto da pe\u00e7a, do CD, mando buscar. Sei de gente que compra por essas ferramentas, mas realmente eu estou por fora.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/CPKDgPTatII?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Se voc\u00ea fosse eleger os cinco discos mais importantes da sua carreira, quais seriam eles?<\/strong><br \/>\nVou tentar chutar e responder r\u00e1pido. O primeiro, \u201cManera Fru Fru, Manera\u201d (1973), porqu\u00ea o primeiro \u00e9 o disco que todo artista quer gravar. [pausa] Cinco? Acho que o \u201cOr\u00f3s\u201d (1977), ele tem uma cena totalmente fora do que eu poderia fazer. \u00c9 um disco em que cheguei nos Estados Unidos celebrado como grande m\u00fasico, porqu\u00ea eu estava de lado do Hermeto Pascoal. \u00c9 um disco diferente da curva da minha carreira. O \u201cTraduzir-se\u201d (1981) foi o disco mais importante da minha vida, porqu\u00ea \u00e9 uma aventura fora do Brasil. \u00c9 um maluco buscando sua identidade, de um pai liban\u00eas, de um som que n\u00e3o tinha nada a ver com aquilo. Tanto que, quando n\u00f3s gravamos, a gravadora falou: &#8220;Esse disco n\u00e3o \u00e9 pro Brasil&#8221;. E eu tinha ido pra Espanha lan\u00e7ar o disco \u201cFagner Canta em Espa\u00f1ol\u201d, com meus sucessos daqui, mas abortei esse disco pra fazer um disco onde botei Mercedes Sosa, Juan Manuel Serrat, trabalhei com uma outra cultura. Essa foi a minha maior viagem. E eu espero poder ainda ter chance de fazer isso com a m\u00fasica libanesa, que \u00e9 a m\u00fasica do meu pai. Eu venho treinando isso a\u00ed h\u00e1 uns tr\u00eas anos. Eu acho que o \u201cTraduzir-se\u201d foi o meu disco totalmente fora da curva. Isso fez com que eu fosse reconhecido. Fiquei dois anos como maior vendedor de discos da Am\u00e9rica Latina por um disco que a gravadora disse que n\u00e3o ia dar certo, entende? Esse disco fez a Mercedes Sosa voltar para o pa\u00eds dela. Um disco de amor, um disco de cultura. \u201cEu Canto &#8211; Quem Viver Chorar\u00e1\u201d (1978), que tem as can\u00e7\u00f5es \u201cRevela\u00e7\u00e3o\u201d, \u201cJura Secreta\u201d&#8230; O pr\u00f3prio disco que tem \u201cBorbulhas de Amor\u201d, [\u201cPedras Que Cantam\u201d, de 1991], que foi um disco com tr\u00eas, quatro sucessos&#8230; Enfim, s\u00e3o 40 discos, por a\u00ed, n\u00e9? Mas acho que o \u201cTraduzir-se\u201d \u00e9 um disco absolutamente fora da curva porque ele me tirou daqui do Brasil e eu fiz uma hist\u00f3ria na Am\u00e9rica Latina. Se hoje voc\u00ea v\u00ea algum artista brasileiro cantando com artista espanhol, quem inventou essa hist\u00f3ria fui eu. Voc\u00ea via Julio Iglesias brigando com o Roberto Carlos, quem queria ser o mais bonitinho da Am\u00e9rica Latina cantando m\u00fasica cafona, cantando m\u00fasica pra pov\u00e3o. Eu dei um tiro no p\u00e9. E acertei. Foi quando eu fiz um neg\u00f3cio misturando a Am\u00e9rica Latina, porqu\u00ea o brasileiro sempre olhou pros Estados Unidos, sempre deu as costas pra Am\u00e9rica Latina. Eu fui buscar esse povo, por isso que eles entenderam a mensagem. Foi o disco mais importante. O Tim Maia ligava muito pra mim e dizia: &#8220;Fagner, sai desse pa\u00eds. Bota aquele colete que tu tem, bota um gumex no cabelo e vai cantar em espanhol. Sai dessa merda desse pa\u00eds&#8221;. Viajei essa Am\u00e9rica Latina inteira e senti a import\u00e2ncia que as pessoas davam ao \u201cTraduzir-se\u201d&#8230; N\u00e3o era coisa de brasileiro n\u00e3o, de bossa nova, era pov\u00e3o mesmo&#8230; cantar no meio de \u00edndio no Peru, na Bol\u00edvia, no Chile&#8230; A\u00ed um dia, eu fui lan\u00e7ar esse disco em Miami, fiz Los Angeles, e um amigo meu chamado Laudir de Oliveira, que ainda est\u00e1 vivo e que tocou nove anos no Chicago, botou percuss\u00e3o na m\u00fasica americana, no pop americano, apareceu com dois empres\u00e1rios. Os caras queriam investir em mim: &#8220;Quero que voc\u00ea more em Miami e fa\u00e7a isso a\u00ed, more aqui e cante em espanhol. Quero que voc\u00ea seja um artista para brigar pelo mercado com Roberto Carlos e Julio Iglesias&#8221;. Eu falei: &#8220;N\u00e3o, n\u00e3o quero isso a\u00ed&#8221;. Me lembrei do Tim Maia. Eu quero cantar no Brasil porqu\u00ea \u00e9 a minha l\u00edngua. Eu quero ir pro meu Brasil. Abortei esse projeto. E abortei tamb\u00e9m um projeto no Jap\u00e3o. Eu fiz um disco no Jap\u00e3o com o Zico e quando foi na \u00faltima vez o cara falou: &#8220;Vem fazer um contrato aqui&#8221;. N\u00e3o. Meu desejo sempre foi cantar aqui mesmo.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/8-WOy1i8ipU?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Daniel Tavares (<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/daniel.tavares.96343\" target=\"_blank\">Facebook<\/a>) \u00e9 jornalista e mora em Fortaleza. A foto que abre o texto \u00e9 de Evaldo Gomes e a foto da coletiva de imprensa em Fortaleza \u00e9 da Arte Produ\u00e7\u00f5es (as duas s\u00e3o de divulga\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><br \/>\n&#8211; Nova gera\u00e7\u00e3o grava tributo a Belchior. Ou\u00e7a &#8220;Ainda Somos os Mesmos&#8221; (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2014\/03\/26\/download-ainda-somos-os-mesmos-belchior\/\" target=\"_blank\">aqui<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Para festejar seus 66 anos de idade, Fagner preparou um show especial em um teatro de Fortaleza que o marcou na inf\u00e2ncia\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2016\/11\/01\/entrevista-fagner\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":10,"featured_media":40900,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[1425],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/40899"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/10"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=40899"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/40899\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":40903,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/40899\/revisions\/40903"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/40900"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=40899"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=40899"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=40899"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}