{"id":40553,"date":"2005-11-17T17:40:42","date_gmt":"2005-11-17T19:40:42","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=40553"},"modified":"2023-11-12T22:05:24","modified_gmt":"2023-11-13T01:05:24","slug":"no-direction-home-bob-dylan-de-martin-scorsese","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2005\/11\/17\/no-direction-home-bob-dylan-de-martin-scorsese\/","title":{"rendered":"&#8220;No Direction Home &#8211; Bob Dylan&#8221;, de Martin Scorsese"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>por Marcelo Costa<\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;N\u00e3o d\u00e1 para ser esperto e amar ao mesmo tempo&#8221;, diz Bob Dylan em certo trecho do document\u00e1rio &#8220;No Direction Home&#8221;. Com a frase, Dylan tentava explicar a implos\u00e3o do relacionamento com a cantora Joan Baez, tamb\u00e9m entrevistada para o filme. Uma corruptela do pensamento do cantor poderia tamb\u00e9m dizer que n\u00e3o d\u00e1 para ser genial e amado ao mesmo tempo. \u00c9 parece ser isso que o diretor Martin Scorsese explicita nas tr\u00eas horas e meia de imagens antol\u00f3gicas de &#8220;No Direction Home&#8221;, que acaba de ganhar edi\u00e7\u00e3o nacional em CD e DVD duplos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois de produzir a elogiada s\u00e9rie de filmes &#8220;The Blues&#8221;, Scorsese quis algo ainda maior: desvendar o mito Bob Dylan. &#8220;No Direction Home&#8221; foi feito exclusivamente para a televis\u00e3o, \u00e9 dividido em duas partes e centra foco no come\u00e7o da carreira do cantor, seguindo at\u00e9 sua ascens\u00e3o ao estrelado em 1966. Foi quando Dylan chocou seus f\u00e3s ao eletrificar o folk e abandonou gradualmente a imagem de cantor de protesto, associada ao folk singer Woody Guthrie e a can\u00e7\u00f5es como &#8220;Blowin&#8217; In The Wind&#8221; e &#8220;Hard Rain&#8221;. Dylan tinha apenas 25 anos em 1966 quando saiu em turn\u00ea pelo mundo, sendo vaiado todas as noites assim que terminava o set ac\u00fastico e come\u00e7ava o el\u00e9trico acompanhado pela The Band.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;No Direction Home&#8221; \u00e9 exemplar ao acompanhar Bob Dylan em sua escalada para a fama. Dois anos separam os shows em caf\u00e9s da Greenwich Village &#8211; em que o &#8220;cach\u00ea&#8221; era recebido em um cestinha de p\u00e3o que passava de m\u00e3o em m\u00e3o pelos frequentadores da casa &#8211; das apresenta\u00e7\u00f5es em lugares como o Madison Square Garden e o encerramento dos famosos Newport Folk Festival. Entre um e outro, um Dylan sonhador &#8211; e que se classificava como um &#8220;expedicion\u00e1rio da m\u00fasica &#8211; com muito senso de publicidade:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Eu nasci em Dulluth, Minnesota, em 1941. Fui para Gallup, Novo M\u00e9xico. Deste ent\u00e3o morei em Iowa, Dakota do Sul, Kansas, Dakota do Norte, por um tempo. Comecei tocando piano em festas, quando tinha 14 anos. Arvella Grey, uma cantora de rua de Chicago, me ensinou o blues h\u00e1 uns quatro ou cinco anos. Conheci um cara chamado Mance Lipscomb, de Navasota, Texas. Ouvi sua m\u00fasica. Fui apresentado a ele por seu neto, um f\u00e3 de rock and roll&#8221;. Esse era o release de apresenta\u00e7\u00e3o de Dylan aos 19 anos. Tirando o local de nascimento \u00e9 poss\u00edvel dizer que o resto \u00e9 quase tudo mentira. Dylan sabia que precisava ter uma hist\u00f3ria, e tratou de cria-la. Sair de Minnesota e ir para o Novo M\u00e9xico seria como ir de Porto Alegre para Manaus, duas vezes. Na \u00e9poca, Dylan tinha apenas 10 d\u00f3lares no bolso.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"750\" height=\"422\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/zIiOjlsTghE?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O primeiro DVD enfoca o lado hist\u00f3rico da carreira de Dylan, suas influ\u00eancias, as primeiras m\u00fasicas que ouviu (como a can\u00e7\u00e3o country &#8220;Drifting Too Far From Shore&#8221;), os primeiros cantores, gente como Hank Williams, Johnnie Ray (&#8220;Havia uma esp\u00e9cie de magia estranha na sua voz&#8221;), Muddy Watters, Gene Vincent &amp; The Bluecaps, Odetta, entre outros, mas Dylan n\u00e3o se diz influenciado por apenas uma pessoa. &#8220;Foi o som que me influenciou. N\u00e3o era propriamente quem. Era o som em si&#8221;, explica. E n\u00e3o s\u00f3 o som. Livros como &#8220;On The Road&#8221;, de Jack Keroauc, atores como James Dean e filmes como &#8220;O Selvagem&#8221;, com Marlon Brando, tamb\u00e9m moldaram o Dylan dos primeiros anos at\u00e9 a descoberta de Woody Guthrie.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Woody Guthrie \u00e9 uma das lendas da m\u00fasica country norte-americana. Esquerdista e socialista, Guthrie se apresentava com um viol\u00e3o com a seguinte frase: &#8220;Essa m\u00e1quina mata fascistas&#8221;. Lembre-se: estamos no final dos anos 50, come\u00e7o dos 60 e, liderados pelo senador Joseph McCarthy, a justi\u00e7a norte-americana persegue comunistas pelos EUA, seja no cinema, seja na m\u00fasica, no per\u00edodo que ficou conhecido como &#8220;ca\u00e7a \u00e0s bruxas&#8221;. Dylan ficou fascinado por Guthrie. &#8220;Ele tinha um som bem caracter\u00edstico. Al\u00e9m disso, ele dizia algo que acompanhava o som. Aquilo era bastante incomum para os meus ouvidos. Ele foi um radical. Suas m\u00fasicas tinham tend\u00eancia radical. Pensei: &#8216;\u00c9 isso que quero cantar'&#8221;, diz.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"750\" height=\"422\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Q_raYHGUA3Y?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No primeiro DVD, Scorsese deixa a hist\u00f3ria fluir, enxertando entre os relatos, pequenos trechos pol\u00eamicos de entrevistas com o p\u00fablico e de apresenta\u00e7\u00f5es de Dylan p\u00f3s 65. J\u00e1 o segundo DVD \u00e9 pura tens\u00e3o. Dylan abandona as can\u00e7\u00f5es de protesto (no document\u00e1rio, o m\u00fasico chega a se contradizer algumas vezes sobre ser ou n\u00e3o um cantor de protesto), a ala folk e vai ao encontro da fama ancorado pelo sucesso do single &#8220;Like a Rolling Stone&#8221;. Neste trecho, h\u00e1 muitas semelhan\u00e7as de &#8220;No Direction Home&#8221; com &#8220;Meeting People Easy&#8221;, document\u00e1rio que flagra o Radiohead na estrada ap\u00f3s o sucesso mundial do \u00e1lbum &#8220;Ok Computer&#8221;. Al\u00e9m de trazer reconhecimento e dinheiro, a fama tamb\u00e9m cobra seu quinh\u00e3o. No caso, os f\u00e3s de Dylan exigem o trovador dos primeiros anos, e abominam o formato de banda com que Dylan se apresenta ap\u00f3s 65. No show, f\u00e3s gritam para que o m\u00fasico volte pra casa, o chamam de traidor, Judas, e pedem: &#8220;Queremos o verdadeiro Dylan&#8221;. Exemplar s\u00e3o as sess\u00f5es de entrevistas ao redor do mundo, com jornalistas despreparados desfilando perguntas idiotas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Scorsese re\u00fane material raro dos famosos Newport Folk Festival, e dezenas de imagens de backstage e shows. Fica parecendo que para onde quer que o m\u00fasico fosse em 1965\/1966, haveria uma c\u00e2mera ligada. O diretor ainda entrevista pessoas importantes do cen\u00e1rio da \u00e9poca como os m\u00fasicos Pete Seeger, Maria Muldaur e Al Kooper, a ex-namorada Suze Rotolo (fotografada ao lado de Dylan na capa de &#8220;Freewheelin&#8221;), o promotor de m\u00fasica folk Harold Leventhal, o cineasta DA Pennebaker (diretor do document\u00e1rio &#8220;Don&#8217;t Look Back&#8221;, um dos mais famosos de Dylan) e o poeta beat Allen Ginsberg, al\u00e9m do pr\u00f3prio Bob Dylan, entre outros. O resultado \u00e9 um filme hist\u00f3rico que come\u00e7a de forma suave ao retratar os primeiros anos do compositor e termina de modo sombrio com gritos de &#8220;Judas&#8221; sendo direcionados para o m\u00fasico em um show em Londres.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre os extras, apari\u00e7\u00f5es raras do cantor em apresenta\u00e7\u00f5es de TV (destaque para o bel\u00edssimo registro de &#8220;Girl of The North Country&#8221; para uma TV canadense e Joan Baez interpretando &#8220;Love Is Just A Four Letter Word&#8221;), em shows e quartos de hotel completam o pacote de um document\u00e1rio essencial para se vislumbrar a grandiosidade e a genialidade do mito Bob Dylan. O CD segue a linha das &#8220;Bootleg Series&#8221; do cantor (que j\u00e1 est\u00e3o no n\u00famero 7) e compila 28 m\u00fasicas, sendo 26 vers\u00f5es nunca lan\u00e7adas anteriormente. Grava\u00e7\u00f5es caseiras, vers\u00f5es ao vivo, takes alternativos: \u00e9 tudo raridade e uma aula de rock and roll.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"750\" height=\"422\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/RHOdoJDgtrk?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Marcelo Costa (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/screamyell\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@screamyell<\/a>) \u00e9 editor do Scream &amp; Yell e assina a <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Calmantes com Champagne<\/a><\/p>\n<p><strong>Leia tamb\u00e9m<\/strong><br \/>\n\u2013 Bob Dylan ao vivo em S\u00e3o Paulo, 2008: retrato borrado da era de ouro do rock \u2018n roll (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2008\/03\/07\/bob-dylan-e-o-retrato-borrado-da-era-de-ouro-do-rock-n-roll\/\" target=\"_self\" rel=\"noopener\">aqui<\/a>)<br \/>\n\u2013 Bob Dylan ao vivo em Bras\u00edlia, 2012: Deixou todo mundo chapado (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/04\/22\/bob-dylan-ao-vivo-em-brasilia\/\" target=\"_self\" rel=\"noopener\">aqui<\/a>)<br \/>\n\u2013 Bob Dylan ao vivo em S\u00e3o Paulo, 2012: Uma noite inspirada (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/04\/22\/bob-dylan-ao-vivo-em-sao-paulo-2012\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">aqui<\/a>)<br \/>\n\u2013 \u201cThe Other Side of Mirror: Bob Dylan at the Newport\u201d, de Murray Lerner, \u00e9 essencial (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/07\/05\/alguns-filmes-do-7%C2%BA-in-editbrasil\/\" target=\"_self\" rel=\"noopener\">aqui<\/a>)<br \/>\n\u2013 Bob Dylan e a can\u00e7\u00e3o que mudou todas as can\u00e7\u00f5es: \u201cLike a Rolling Stone\u201d (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2010\/04\/20\/a-cancao-que-mudou-as-cancoes\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">aqui<\/a>)<br \/>\n\u2013 \u201cBob Dylan \u2013 Letra e M\u00fasica\u201d: Um passatempo ok, mas\u2026 v\u00e1 ouvir as originais (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2009\/04\/17\/george-harrison-paul-mccartney-e-bob-dylan\/\" target=\"_self\" rel=\"noopener\">aqui<\/a>)<br \/>\n\u2013 A bela trilha sonora do filme \u201cI\u2019m Not There\u201d, de Todd Haynes (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2007\/11\/05\/trilha-sonora-do-filme-im-not-there-e-o-disco-da-semana\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n\u2013 \u201cI\u2019m Not There\u201d, o mais pr\u00f3ximo que o p\u00fablico chegou de Bob Dylan (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2007\/11\/04\/mostra-de-sao-paulo-im-not-there\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n\u2013 Bob Dylan, Martin Scorcese e a Hist\u00f3ria Universal, por Marcelo Costa (<a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/outros\/macoito.htm\" target=\"_self\" rel=\"noopener\">aqui<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"&#8220;N\u00e3o d\u00e1 para ser esperto e amar ao mesmo tempo&#8221;, diz Bob Dylan em certo trecho do document\u00e1rio No Direction Home.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2005\/11\/17\/no-direction-home-bob-dylan-de-martin-scorsese\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":2,"featured_media":40554,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4,3],"tags":[1320,4162],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/40553"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=40553"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/40553\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":77918,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/40553\/revisions\/77918"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/40554"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=40553"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=40553"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=40553"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}