{"id":39979,"date":"2016-09-06T12:02:43","date_gmt":"2016-09-06T15:02:43","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=39979"},"modified":"2016-10-28T19:29:09","modified_gmt":"2016-10-28T21:29:09","slug":"entrevista-eric-assmar-trio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2016\/09\/06\/entrevista-eric-assmar-trio\/","title":{"rendered":"Entrevista: Eric Assmar Trio"},"content":{"rendered":"<h3 style=\"text-align: center;\"><strong>por <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\">Jo\u00e3o Paulo Barreto<\/a><\/strong><\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em uma <a href=\"http:\/\/atarde.uol.com.br\/cultura\/musica\/noticias\/1787599-novo-album-confirma-talento-inegavel-do-eric-assmar-trio\" target=\"_blank\">\u00f3tima mat\u00e9ria<\/a> sobre o lan\u00e7amento de \u201c<a href=\"http:\/\/www.ericassmar.com.br\/\" target=\"_blank\">Morning<\/a>\u201d, segundo disco autoral da Eric Assmar Trio, o jornalista e cr\u00edtico musical do jornal A Tarde, Chico Castro Jr, salientou o fato de que seria um equ\u00edvoco dizer que talento se herda de modo gen\u00e9tico. Basta lembrar-se de caras como Julian Lennon ou Edinho, filho do Pel\u00e9. Nessa curiosa observa\u00e7\u00e3o, entretanto, Chico afirma que a exce\u00e7\u00e3o que confirma a regra est\u00e1 no jovem Eric Assmar, filho do ex\u00edmio guitarrista e pioneiro bluesman de Salvador, \u00c1lvaro Assmar. Chico foi na mosca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lan\u00e7ando seu segundo disco autoral aos 28 anos de idade, Eric alcan\u00e7ou uma maturidade art\u00edstica que nos faz querer imaginar (com certa empolga\u00e7\u00e3o) o que o tempo o permitir\u00e1 construir em termos musicais nos pr\u00f3ximos 30 anos, intervalo exato que o separa de seu pai. Com 58 anos, \u00c1lvaro Assmar \u00e9 um dos pilares do blues no Brasil e maior representante do estilo na Bahia. Seguindo uma carreira acad\u00eamica em paralelo \u00e0 de cantor e compositor, o guitarrista Eric Assmar tamb\u00e9m \u00e9 etnomusic\u00f3logo, tendo conclu\u00eddo um mestrado no campo da pesquisa do blues no seu estado de origem. Al\u00e9m disso, j\u00e1 engrenou um doutorado na \u00e1rea da educa\u00e7\u00e3o musical voltada para o blues.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m do seu power trio, Eric costuma tocar em diversas bandas de Salvador, com destaque para a Mojo Blues Band, na qual toca junto a seu pai, e, com atividade frequente na noite soteropolitana com o trio, Eric tamb\u00e9m acompanha a Cavern Beatles, grupo cover dos rapazes de Liverpool e que foi fundado em 2008 junto a <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2016\/07\/20\/tres-perguntas-ted-simoes\/\" target=\"_blank\">Ted Sim\u00f5es<\/a>, Estevam Dantas e Rafael Zumaeta. Neste papo, o vencedor do Pr\u00eamio Caymmi de M\u00fasica, edi\u00e7\u00e3o 2015, fala sobre seu processo de composi\u00e7\u00e3o; das dificuldades iniciais para criar as m\u00fasicas do seu primeiro disco, de 2012; do modo como a crueza e a dificuldade na cria\u00e7\u00e3o do \u00e1lbum de estreia cederam lugar a uma fluidez e maior planejamento para o \u00e1lbum seguinte, \u201cMorning\u201d, al\u00e9m de abordar suas influ\u00eancias no blues e sua face acad\u00eamica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sem se considerar um artista, mas, sim, um oper\u00e1rio da m\u00fasica, Eric n\u00e3o se deslumbra com nenhum tipo de glamouriza\u00e7\u00e3o. \u201cViso construir uma carreira. Tendo muito a refletir a respeito e digo isso \u00e0s pessoas ao meu redor. N\u00e3o olho para mim mesmo como um artista. Olho para mim como um trabalhador, como um oper\u00e1rio da m\u00fasica\u201d, pontua o guitarrista. De fato, pensar no que o Eric Assmar Trio ainda poder\u00e1 construir em termos m\u00fasica para o futuro \u00e9 algo deveras empolgante. Confira o papo.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"750\" height=\"422\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/cN6R7-MMekI?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Eu queria come\u00e7ar o papo falando um pouco do \u00e1lbum de estreia da Eric Assmar Trio, o disco de 2012. Trata-se de um trabalho em que, comparando ao \u201cMorning\u201d, \u00e9 percept\u00edvel uma roupagem mais crua. Fale um pouco dessa experi\u00eancia.<\/strong><br \/>\nNo disco de estreia teve aquela coisa de ter sido o primeir\u00e3o, sabe? Minha primeira experi\u00eancia como compositor pensando em um contexto de \u00e1lbum. Penso num disco como uma unidade, principalmente por conta das refer\u00eancias que tive desde sempre ouvindo m\u00fasica. Tenho uma tend\u00eancia de pensar em um \u00e1lbum n\u00e3o como um catado de can\u00e7\u00f5es juntas ao acaso, mas que haja algum tipo de comunica\u00e7\u00e3o interna entre elas. Algum tipo de harmonia interna que fa\u00e7a sentido para elas estarem ali, juntas, no mesmo material. Para o primeiro, eu tinha algumas composi\u00e7\u00f5es da \u00e9poca da minha adolesc\u00eancia, quando comecei a escrever (nota: Eric lan\u00e7ou o disco de estreia do trio aos 25 anos). Eram apenas umas anota\u00e7\u00f5es, eu ainda n\u00e3o tinha come\u00e7ado a pensar em fazer m\u00fasicas para um contexto de \u00e1lbum. Quando me submeti a isso, foi um processo que deu trabalho. Demorou para as m\u00fasicas sa\u00edrem. E demorou para eu conseguir dar forma a elas. Eu queria que fossem m\u00fasicas em que eu conseguisse ter uma realidade de um power trio na grava\u00e7\u00e3o. Era esse o conceito que eu tinha em mente. O que eu quero dizer com isso? Grava\u00e7\u00e3o ao vivo, mesmo, sabe? Direto do est\u00fadio. Sem qualquer coisa adicional. Sem o overdub, que \u00e9 como eles chamam quando voc\u00ea vai gravar uma guitarra base e depois coloca outra guitarra por cima, outra melodia, outro solo. Aqui, se voc\u00ea vai solar, a base est\u00e1 l\u00e1, nua. S\u00f3 o baixo e a batera. At\u00e9 mesmo quando voc\u00ea ouve o primeiro disco, d\u00e1 para perceber algumas imperfei\u00e7\u00f5es, com a guitarra meio fora de tempo e isso \u00e9 de prop\u00f3sito. A gente o deixou respirar da maneira mais org\u00e2nica poss\u00edvel. Cresci ouvindo esse tipo de coisa, sabe? Eu estava ouvindo um disco do Johnny Winter dos anos 1970, chamado \u201cStill, Alive and Well\u201d. Ele \u00e9 um cara que escutei muito. E uma parte deste disco \u00e9 gravada desse jeito. \u00c9 um power trio. O primeiro \u00e1lbum dele, tamb\u00e9m. Existem alguns blues gravados assim, com um power trio no est\u00fadio, ao vivo, mesmo. No solo, ele vai l\u00e1, grava, erra uma nota, continua, e por ai vai. N\u00e3o t\u00e1 nem a\u00ed. Existe a cultura da valoriza\u00e7\u00e3o de uma performance mais org\u00e2nica, vamos dizer assim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Com o power trio, podemos dizer o Johnny Winter seria uma das inspira\u00e7\u00f5es?<\/strong><br \/>\nSim, ele e a Grand Funk Railroad, que, apesar de ter funk no nome, \u00e9 um grupo de rock bem cru dos anos 1970. Outra banda de power trio que me influenciou muito \u00e9 a Gov\u00b4t Mule. S\u00e3o caras que fizeram parte do Allman Brothers e se juntaram para formar esse grupo nos anos 1990, atuando como um power trio entre 1995 e 2000. At\u00e9 que o baixista faleceu em 2000 ou 2001, n\u00e3o me lembro exatamente (nota: Allen Wood, que morreu em agosto de 2000 aos 45 anos) e, desde ent\u00e3o, eles funcionam como um quarteto com outros integrantes. Mas todos eles remontam \u00e0 coisa do power trio. Da crueza no som. Pensei tamb\u00e9m nessa coisa das bandas grunge dos anos 1990. Por incr\u00edvel que pare\u00e7a, gosto bastante. Gosto muito de Pearl Jam. Outro que gosto muito, mas que a galera mais grunge tende a n\u00e3o gostar, \u00e9 o Silverchair. Gosto muito dos primeiros discos deles, com os caras novinhos ainda e em uma estrutura de power trio. Penso justamente nessa coisa. Um grupo que vem dessa cultura do blues, do rock and roll. Se voc\u00ea pensar no grunge como um comportamento, de como improvisar de um jeito mais agressivo, um jeito mais rude, vamos dizer assim, ent\u00e3o, para mim, tudo isso desembocou nesse primeiro disco. E, claro, n\u00e3o posso esquecer do Cream como uma grande influ\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E como se deu a mudan\u00e7a para o \u201cMorning\u201d?<\/strong><br \/>\n\u00c9 curioso que, ao ouvir o primeiro disco hoje, reconhe\u00e7o a import\u00e2ncia dele para meu amadurecimento como m\u00fasico. Foi importante que eu o tivesse feito do jeito que fiz. Mas no palco, ao vivo, voc\u00ea acaba descobrindo a maneira de tocar. E o segundo eu queria que fosse um pouco menos cru. Queria que ele fosse mais pensado como um disco de est\u00fadio, que tivesse um pouco mais desse cuidado. Foi exatamente o que eu pensei para o \u201cMorning\u201d. E ele acaba tendo uma coisa mais pop que, eu diria, vem um pouco da soul music. Escuto muito Stevie Wonder, Robert Cray, que \u00e9 um cara do blues, mas com uma veia soul. O Steve Ray Vaugh tamb\u00e9m. Ele \u00e9 um guitarrista refer\u00eancia. Todo cara que nasceu depois de 1980 e gosta de blues passou pelo Vaugh. Buddy Guy seria outro. Quando ele se mete a fazer algo mais soul, n\u00e3o tem pra ningu\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea citou o Cream e com a sua rela\u00e7\u00e3o com o blues, isso acabou me remetendo \u00e0quela grava\u00e7\u00e3o que a banda do Clapton fez da m\u00fasica do Skip James, \u201cI\u2019m So Glad\u201d. Recentemente, revi a s\u00e9rie de document\u00e1rios produzida por Martin Scorsese, \u201cThe Blues\u201d, e l\u00e1 existe um epis\u00f3dio que aborda bem a hist\u00f3ria do Skip James.<\/strong><br \/>\nIsso. Se n\u00e3o me engano \u00e9 o dirigido pelo Wim Wenders, n\u00e9? \u201cThe Soul of a Man\u201d. O Skip James, que tinha esse nome por nunca ficar no mesmo lugar muito tempo, ficou sumido muito tempo e foi redescoberto em meados dos anos 1960. O document\u00e1rio aborda isso muito bem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Exatamente. Eu queria aproveitar essa deixa para abordar sua experi\u00eancia acad\u00eamica, como pesquisador do blues. Nos extras do document\u00e1rio \u201cFeel Like Going Home\u201d, Scorsese fala sobre a import\u00e2ncia do blues ser mantido vivo pelos jovens que conhecem o movimento musical, desde a \u00c1frica at\u00e9 o delta do Mississippi. Ele afirma que quando os jovens se interessam pela hist\u00f3ria do blues, h\u00e1 uma importante apropria\u00e7\u00e3o, essencial para que n\u00e3o haja uma canibaliza\u00e7\u00e3o da cultura, que a tornaria descart\u00e1vel e decadente. Como um dos representantes de uma nova gera\u00e7\u00e3o autoral, como algu\u00e9m que estuda o blues de modo acad\u00eamico, qual sua opini\u00e3o sobre essa necessidade?<\/strong><br \/>\nA\u00ed entra o Eric Assmar etnomusic\u00f3logo. Fiz um mestrado na \u00e1rea da musicologia e essas s\u00e3o discuss\u00f5es que, nesse campo, est\u00e3o sempre vivas. \u00c9 justamente a coisa de voc\u00ea olhar para culturas, para lugares que n\u00e3o gozam de um local hegem\u00f4nico de poder. Olhar de uma maneira humanista. N\u00e3o canibalizando, sem exercer um poder de apropria\u00e7\u00e3o desigual sobre aquilo. \u00c9 voc\u00ea reconhecer o lugar de onde aquilo vem e reconhecer o local de prestigio daqueles mestres. O blues \u00e9 um tipo de can\u00e7\u00e3o de tradi\u00e7\u00e3o popular. Veio de povos negros escravizados. Um per\u00edodo terr\u00edvel de escravid\u00e3o no sul dos Estados Unidos. \u00c9 um tipo de m\u00fasica que possui uma trajet\u00f3ria de muito sofrimento. Com as migra\u00e7\u00f5es para os centros, o blues passou a ser, tamb\u00e9m, um tipo de can\u00e7\u00e3o urbana. Mas o importante \u00e9 voc\u00ea reconhecer essas tradi\u00e7\u00f5es, reconhecer de onde vieram os grandes mestres. Assim como toda cultura, O blues \u00e9 din\u00e2mico. Ele est\u00e1 sempre em muta\u00e7\u00e3o. As pessoas est\u00e3o sempre reelaborando aquela identidade. Eu mesmo, o blues que eu fa\u00e7o \u00e9 totalmente dilu\u00eddo em outras refer\u00eancias mais recentes, mais pr\u00f3ximas a mim. At\u00e9 o local onde as fa\u00e7o tamb\u00e9m, Salvador. Eu, inclusive, sou um cara branco, vivo em um bairro de classe m\u00e9dia. Venho de outro contexto. A m\u00fasica j\u00e1 teve essa migra\u00e7\u00e3o, no meu caso. Mas acho que \u00e9 muito importante voc\u00ea reconhecer de onde vem aquela musica e porque que ela \u00e9 diferente. Sem deixar de lado a tradi\u00e7\u00e3o e sem deixar de reconhecer e chamar a aten\u00e7\u00e3o para ela. Acho que at\u00e9 dentro desse repert\u00f3rio do blues, do cancioneiro, e do que se costuma praticar de blues nos dias de hoje, o discurso da tradi\u00e7\u00e3o \u00e9 muito forte. Em qualquer local do mundo aonde voc\u00ea vai, mais importante do que as novas composi\u00e7\u00f5es que s\u00e3o feitas, o que \u00e9 mais forte s\u00e3o as interpreta\u00e7\u00f5es do standards, das can\u00e7\u00f5es cl\u00e1ssicas. S\u00e3o can\u00e7\u00f5es de Robert Johnson, de Son House, can\u00e7\u00f5es de Howlin\u2019 Wolf, de Willie Dixon que pavimentaram esse legado da tradi\u00e7\u00e3o do blues. Esse discurso ainda \u00e9 muito forte. Eu, falando pessoalmente, tenho essa consci\u00eancia. Na verdade, n\u00e3o chamo nem de blues o que fa\u00e7o. \u00c9 uma coisa que j\u00e1 est\u00e1 t\u00e3o dilu\u00edda em outras refer\u00eancias, mas, enfim, tenho a refer\u00eancia do blues e n\u00e3o deixo de reconhecer. Acho importante essa fala do Scorsese nesse sentido. Do contrario, voc\u00ea utiliza aquela m\u00fasica de uma maneira predat\u00f3ria, como subsidio para chegar onde voc\u00ea quer sem dar o devido cr\u00e9dito, o devido reconhecimento a quem de fato pavimentou uma estrada que, sem essas pessoas, hoje n\u00e3o existiria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea poderia falar um pouco sobre sua experi\u00eancia como etnomusic\u00f3logo? Em que consistiu a sua pesquisa de mestrado e qual o tema de sua tese de doutorado?<\/strong><br \/>\nNo meu mestrado, fiz uma pesquisa sobre a trajet\u00f3ria do blues na cidade de Salvador. Foi uma pesquisa em que conversei com 13 pessoas da cena do blues daqui. Entre m\u00fasicos, f\u00e3s, produtores, desde os anos 1980 pra c\u00e1, que \u00e9 quando se tem not\u00edcias de pessoas efetivamente fazendo blues na cidade, nomeando a si pr\u00f3prios como bandas de blues. A partir dessas entrevistas, procurei identificar falas, sonoridades e peculiaridades discursivas do blues praticado aqui. No que ele difere do blues feito em Chicago nos anos 1930, por exemplo. Por que ele \u00e9 diferente? O que mudou? O que tem de peculiar? E nisso entram diversas quest\u00f5es. Entram os repert\u00f3rios, entram as pessoas que participam, a rela\u00e7\u00e3o do p\u00fablico local com isso, a rela\u00e7\u00e3o do blues com a m\u00eddia local, com a ind\u00fastria cultural e a din\u00e2mica que a gente tem j\u00e1 nos tempos contempor\u00e2neos. As casas de show locais, por exemplo, aquela coisa da cena musical, mesmo. Essa pesquisa gerou uma disserta\u00e7\u00e3o a respeito da pr\u00e1tica do blues aqui em Salvador. J\u00e1 no doutorado, estou dentro do campo da educa\u00e7\u00e3o musical. \u00c9 uma pesquisa sobre a pr\u00e1tica e ensino da guitarra blues. \u00c9 uma pesquisa que est\u00e1 come\u00e7ando agora, mas o mote b\u00e1sico dela, o mote principal, \u00e9 pensar de que maneira o entendimento das quest\u00f5es culturais identit\u00e1rias podem refletir no ensino e na aprendizagem do instrumento, tanto na guitarra quanto no blues. E isso de que maneira a pessoa pode entender o estudo do instrumento para alem das notas. \u00c9 justamente esse pensamento. Entender de onde \u00e9 que vem, entender quem \u00e9 voc\u00ea, o que voc\u00ea est\u00e1 fazendo, o que voc\u00ea fez com aquela m\u00fasica, quais s\u00e3o as refer\u00eancias, isso dentro do local onde voc\u00ea vive. E ter o entendimento cultural do pr\u00f3prio fazer musical.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E isso sem canibalizar a cultura, como disse Scorsese.<\/strong><br \/>\nExato. E entender que a pr\u00e1tica musical n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 bater uma paleta contra as cordas. \u00c9 importante o entendimento de que ela muda a depender do contexto em que voc\u00ea se situa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voltando a falar do seu novo \u00e1lbum, em um dos shows voc\u00ea fala sobre a influ\u00eancia do Carlos Santana em sua m\u00fasica e, no \u201cMorning\u201d, voc\u00ea trouxe a faixa \u201cParadise Highway\u201d nessa pegada semelhante a dele.<\/strong><br \/>\nExato. Naquela identidade de blues\/rock, mas sem o set de percuss\u00e3o que o Santana usa. A ideia era pensar naquela identidade, naquela coisa latina, de escalas, menor harm\u00f4nica e trazendo isso para o power trio. A influ\u00eancia, claro, veio de Santana. A letra de \u201cParadise Highway\u201d fala daquele lugar onde voc\u00ea esquece de tudo e fica curtindo com pessoas que valem a pena para voc\u00ea. E a refer\u00eancia ao Santana na faixa veio por conta de uma coisa que gosto, mesmo. Uma afinidade musical que tenho com a sua est\u00e9tica. Outro grupo nessa linha \u00e9 o Los Lonely Boys. Ele \u00e9 formado por tr\u00eas irm\u00e3os texanos que fazem um blues com um p\u00e9 tamb\u00e9m nessa coisa latina do Santana. Eles se dizem uma banda \u201cTexicana\u201d, aquela coisa TexMex, bem na fronteira entre os dois pa\u00edses. E eles cantam uma parte em ingl\u00eas, uma parte em espanhol. Fazem muitas harmonias vocais, da\u00ed tamb\u00e9m essa referencia de usar essas harmonias no \u201cMorning\u201d. Devo muito isso ao Los Lonely Boys. E, ali\u00e1s, \u00e9 uma coisa dentro do universo bluseiro. Essa coisa do power trio com Fender. Voc\u00ea sente o cheiro da m\u00fasica do Carlos Santana (risos). Em \u201cParadise Highway\u201d a gente contou a participa\u00e7\u00e3o do Jelber (Oliveira, conceituado e experiente tecladista de Salvador) com seu \u00f3rg\u00e3o Hammond.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"750\" height=\"422\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/vNYWg5xawAk?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Pois \u00e9. No show de lan\u00e7amento no teatro do IRDEB (Instituto de Radiodifus\u00e3o Educativa da Bahia) era percept\u00edvel uma rela\u00e7\u00e3o intensa do Jelber com o \u00f3rg\u00e3o Hammond. Ele parecia em um transe tocando aquele \u00f3rg\u00e3o. Como surgiu o convite para ele tocar no disco?<\/strong><br \/>\nJelber foi um menino com a gente. Ele se soltou, ficou bem feliz desde o inicio. Desde que o chamei para gravar o disco conosco, ele veio com um sorris\u00e3o de orelha a orelha, amarrad\u00e3o, super a fim de fazer. E, na grava\u00e7\u00e3o, de primeira ele matou. As duas m\u00fasicas que ele participa e que voc\u00ea escuta no disco s\u00e3o ambas de primeiro take (Nota: Jelber tamb\u00e9m toca em \u201cTime is Mine\u201d). Ele \u00e9 fant\u00e1stico. \u00c9 um produtor musical que est\u00e1 sempre trabalhando com muitas pessoas da cena musical daqui da cidade. O convite para o \u00e1lbum pintou pela amizade que eu j\u00e1 tinha com ele. Tocamos blues h\u00e1 alguns anos e era uma pessoa que eu olhava e pensava: \u201desse \u00e9 o cara\u201d. E esse ano n\u00f3s participamos juntos de um projeto do Pr\u00eamio Brasken. A entrega do pr\u00eamio contou com uma pe\u00e7a teatral que tinha uma banda de rock no palco e ele me chamou para tocar guitarra no espet\u00e1culo. Estivemos juntos ali e estreitamos o contato. Acabei o convidando para tocar no show de lan\u00e7amento do \u201cMorning\u201d, tamb\u00e9m. E foi aquele absurdo de performance. Ele \u00e9 um tecladista freelancer e toca v\u00e1rios tipos de m\u00fasicas diferentes, mas tem um entendimento fant\u00e1stico de blues. Caiu como uma luva para o power trio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea tocou no SXSW \u2013 South by Southwest Festival, em Austin, no Texas em 2009. Como foi essa experi\u00eancia?<\/strong><br \/>\nCara, foi massa! O South by Southwest \u00e9 um dos festivais de m\u00fasica independente mais conceituados do mundo. Acontece sempre no m\u00eas de mar\u00e7o e envolve m\u00fasica, cinema, rodadas de neg\u00f3cios na \u00e1rea cultural, sendo tamb\u00e9m um festival voltado para o encontro de produtores. O conceito dele na parte musical \u00e9 de voc\u00ea ter v\u00e1rias coisas acontecendo ao mesmo tempo, ocupando as casas de show da cidade. Austin j\u00e1 chegou a ser reconhecida como a capital da m\u00fasica ao vivo. Na ocasi\u00e3o em que estive l\u00e1, eram v\u00e1rias coisas acontecendo ao mesmo tempo e em palcos de diferentes portes. Voc\u00ea tinha desde um show surpresa do Metallica no Stubb\u2019s (popular casa de show de Austin), um show de Ben Harper no centro de conven\u00e7\u00f5es e teve o show de Vandex (ex-vocalista da \u00dateros em F\u00faria) que eu acompanhei como guitarrista, al\u00e9m de outras bandas brasileiras. Na ocasi\u00e3o, rolou inclusive um show de Gary Clark Jr., que hoje em dia j\u00e1 \u00e9 reconhecido no mundo todo, mas que na \u00e9poca ainda come\u00e7ava. E isso tudo acontecendo ao mesmo tempo, na mesma cidade. E foi uma experi\u00eancia foda. Muito legal. Pude ver muita coisa boa, tocar e trocar figurinha com muita gente bacana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E isso tudo antes de voc\u00ea come\u00e7ar a compor qualquer coisa do primeiro \u00e1lbum?<\/strong><br \/>\nExato. Nessa \u00e9poca, em 2009, eu n\u00e3o tinha nada pensado ainda para o primeiro \u00e1lbum. Serviu como um aprendizado, mas, ainda assim, \u00e9 aquela situa\u00e7\u00e3o que tudo vai agregando. Os anos v\u00e3o se passando e a gente nunca \u00e9 o mesmo. A gente sempre se ressignifica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A produ\u00e7\u00e3o dos seus dois discos conta com a presen\u00e7a de seu pai, o bluesman \u00c1lvaro Assmar. Como \u00e9 a experi\u00eancia de trabalhar com ele?<\/strong><br \/>\nO \u201cMorning\u201d ele produziu comigo. E o primeiro tamb\u00e9m foi ele que produziu. Meu pai esteve comigo durante todo o tempo e, sem duvidas, sem o apoio e sem o know how dele n\u00e3o teria sido do jeito que foi. Vale lembrar que, assim como o de estreia, o \u201cMorning\u201d \u00e9 um disco feito por um grupo pequeno de pessoas. Fomos eu, ele, Thiago (Brand\u00e3o, bateria), Zuma (Rafael Zumaeta, baixo) e M\u00e1rcio Portuga, que \u00e9 o nosso t\u00e9cnico de grava\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m do Luciano Peixoto que fez imagens do per\u00edodo de grava\u00e7\u00e3o. Esse grupo de pessoas eram as \u00fanicas que estavam no est\u00fadio. A parte de mixagem e masteriza\u00e7\u00e3o fiz com eles. O Jelber veio e gravou depois. Gravei uns viol\u00f5es adicionais, umas coisinhas de percuss\u00e3o, meia-lua, nada demais, j\u00e1 que n\u00e3o sou percussionista. O que gravei adicionalmente depois foram os viol\u00f5es nas duas primeiras m\u00fasicas, o Hammond de Jelber, e as partes de vozes, os backing volcal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quando voc\u00ea cita a sua disserta\u00e7\u00e3o de mestrado na pesquisa do blues aqui na Bahia, \u00e9 imposs\u00edvel n\u00e3o falar de \u00c1lvaro Assmar e sua trajet\u00f3ria de na m\u00fasica.<\/strong><br \/>\nSim, \u00e9 verdade. Na disserta\u00e7\u00e3o, eu falei da Cabo de Guerra, banda que ele teve nos anos 1980, da Blues An\u00f4nimo, o outro grupo em que ele tocou na \u00e9poca e que foi a primeira banda a usar o nome blues aqui em Salvador. Falei do bar Atelier (famoso reduto bluseiro em Salvador), da Talking Blues, grupos do come\u00e7o dos anos 1990 que tocaram por aqui. Tentei tra\u00e7ar essa trajet\u00f3ria de posse dos relatos das outras pessoas. \u00c9 uma hist\u00f3ria contada com os relatos delas. Na pesquisa, existem par\u00e1grafos imensos s\u00f3 com falas dessas pessoas. As falas transcritas e colocadas na pesquisa. Claro que tudo passa pela sua lente, pela sua an\u00e1lise, que \u00e9 voc\u00ea que est\u00e1 escrevendo, mas eu tentei n\u00e3o ser canibal, n\u00e3o ser violento com as falas das pessoas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Eu queria abordar essa ideia relacionada com a composi\u00e7\u00e3o. Ouvindo seu primeiro disco, vi que voc\u00ea teve um equil\u00edbrio de 11 m\u00fasicas, sendo cinco em portugu\u00eas, quatro em ingl\u00eas e duas instrumentais. J\u00e1 no \u201cMorning\u201d, h\u00e1 uma quase predomin\u00e2ncia de musicas em ingl\u00eas. Essa sua escolha de lan\u00e7ar quase todas em ingl\u00eas surgiu como? Foi um desafio na composi\u00e7\u00e3o? Uma escolha pessoal ou foi algo que simplesmente surgiu?<\/strong><br \/>\nNa verdade, n\u00e3o foi uma escolha. Foi o que surgiu. O primeiro disco deu mais trabalho. Briguei mais com as m\u00fasicas. Fui e voltei nas ideias, sabe? A parte de conceber as m\u00fasicas foi algo mais demorado. No segundo, em um espa\u00e7o de tr\u00eas meses, todas elas apareceram. Mais ou menos em meados de 2015, entre maio e julho, usando um equipamento de grava\u00e7\u00e3o caseiro, uma placa de \u00e1udio, fui dando forma a tudo e levava para o est\u00fadio. Na ocasi\u00e3o, fui realizando os ensaios com Zuma e Thiago Brand\u00e3o. Levava as m\u00fasicas e ia explicando (gesticula): \u201cA ideia \u00e9 essa, essa e essa, vamos l\u00e1, vamos fazer\u201d, e a gente foi costurando, foi dando forma \u00e0s can\u00e7\u00f5es. Foi tudo muito r\u00e1pido. Surpreendentemente r\u00e1pido. E as letras, se eu fosse compondo alguma coisa, pegava o viol\u00e3o, fazia uma parte instrumental primeiro seguindo algum esbo\u00e7o, alguma fagulha que surgia. \u00c0s vezes era uma melodia de voz que eu tentava musicar. E a fon\u00e9tica chamava palavras e temas em ingl\u00eas. A\u00ed fui deixando ela falar. Foi tudo bem org\u00e2nico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E com a faixa \u201cAqui\u201d, \u00fanica can\u00e7\u00e3o em portugu\u00eas no disco?<\/strong><br \/>\nPois \u00e9. A \u00fanica m\u00fasica onde isso n\u00e3o aconteceu foi \u201cAqui\u201d. Nesse caso, o texto em portugu\u00eas j\u00e1 foi aparecendo de cara. E \u201cAqui\u201d \u00e9 uma esp\u00e9cie de di\u00e1logo interno com \u201cO Que Vir\u00e1\u201d, do primeiro disco. Penso na can\u00e7\u00e3o \u201cAqui\u201d como uma \u201cO Que Vir\u00e1\u201d observada de 2016. Foi o meu pensamento para fazer assim. E foi uma melodia que saiu de modo bem espont\u00e2neo, super org\u00e2nica. A letra saiu super r\u00e1pida, tamb\u00e9m. E a diferen\u00e7a no processo de composi\u00e7\u00e3o \u00e9 que no segundo disco deixei a coisa fluir (pausa reflexiva). N\u00e3o que no primeiro eu tivesse segurado, mas n\u00e3o sei o porqu\u00ea. Em \u201cMorning\u201d, elas sa\u00edram desse jeito r\u00e1pido. \u201cAh, mas \u00e9 tudo em ingl\u00eas, as pessoas n\u00e3o entendem\u201d (imitando a voz). Sim, mas foi assim que veio para mim (risos). Vamos l\u00e1.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"750\" height=\"422\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/4j2J8vzoEYw?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>De fato, h\u00e1 certa resist\u00eancia do p\u00fablico para m\u00fasicas cantadas em ingl\u00eas por m\u00fasicos brasileiros.<\/strong><br \/>\nExistem correntes de pensamento. Existem pessoas que recriminam o fato de voc\u00ea cantar em ingl\u00eas. Ano passado, aqui em Salvador, teve um projeto chamado Invas\u00e3o Cultural. Eu e meu pai fizemos um show ac\u00fastico que j\u00e1 v\u00ednhamos realizando h\u00e1 um tempo. E a ideia do projeto era de ocupar espa\u00e7os p\u00fablicos, pra\u00e7as, em um dia de domingo aqui em Salvador. E o nosso show foi escalonado para ser em um domingo na orla nova de Itapo\u00e3. Doming\u00e3o, fim de tarde e a gente tocando l\u00e1, aquele clima que voc\u00ea conhece. O pessoal saindo da praia, passantes, gente que estava indo para algum lugar. E lembro que havia um cara meio que curtindo o som, nos observando. Ele estava na rua por acaso e, pela maneira como falou conosco, provavelmente n\u00e3o tinha um h\u00e1bito de ouvir ou proximidade com o blues. A\u00ed ele falou (imitando um sotaque carregado) \u201cEssas porra vem pra c\u00e1 ficar tocando m\u00fasica em ingl\u00eas, rapaz\u201d (risos). Foi engra\u00e7ado. O cara ficou destilando um discurso nacionalista desse jeito, rejeitando a refer\u00eancia estrangeira. Comecei a dar risada. Claro que isso \u00e9 uma caricatura de uma coisa que acontece. As pessoas, ainda mais na m\u00fasica independente daqui, no cen\u00e1rio de Salvador, tendem a valorizar algo que dialogue de uma maneira mais palp\u00e1vel com a Bahia, com elementos culturais do estado. Sobretudo nas pol\u00edticas p\u00fablicas, de editais. Percebo isso. Existem editais que destacam isso nas diretrizes de julgamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E para voc\u00ea \u00e9 mais f\u00e1cil compor em ingl\u00eas ou em portugu\u00eas?<\/strong><br \/>\nAcho que no blues e no rock, \u00e9 muito mais f\u00e1cil se escrever em ingl\u00eas. A l\u00edngua inglesa \u00e9 menos rica em possibilidades do que a portuguesa. O ingl\u00eas tem menos sin\u00f4nimos. Quantas possibilidades voc\u00ea tem de dizer a mesma coisa em portugu\u00eas, comparado com o ingl\u00eas? Pode ser que eu esteja errado, precisaria da opini\u00e3o de algu\u00e9m da \u00e1rea, algu\u00e9m das letras para me dizer. Mas acho que no portugu\u00eas voc\u00ea consegue dizer a mesma coisa, semanticamente falando, de diversas maneiras. Diferente do ingl\u00eas. No idioma ingl\u00eas, um \u201cI love you\u201d pode n\u00e3o soar banal ou idiota. J\u00e1 no portugu\u00eas, \u00e0s vezes um \u201cEu te amo\u201d pode soar bem banal. Ent\u00e3o, acho mais dif\u00edcil voc\u00ea dizer uma coisa no portugu\u00eas que exer\u00e7a comunica\u00e7\u00e3o e que n\u00e3o soe t\u00e3o idiota. J\u00e1 no ingl\u00eas, voc\u00ea pode dizer algo que pode at\u00e9 ser assim, mas por conta do jarg\u00e3o e do legado de can\u00e7\u00f5es que j\u00e1 se tem na m\u00fasica pop, can\u00e7\u00f5es que v\u00eaem do ingl\u00eas, do blues e do rock, n\u00e3o soam como can\u00e7\u00f5es banais. Soa menos idiota, vamos dizer assim (risos). A est\u00e9tica das m\u00fasicas foi concebida nesse idioma. O blues veio primeiro em ingl\u00eas, o rock veio primeiro em ingl\u00eas. Acaba sendo mais f\u00e1cil. Claro que voc\u00ea apela para os clich\u00eas. Na minha pesquisa, eu estava lendo um livro de um cara chamado Christopher Small, \u201cMusic, Society and Education\u201d. Tem um capitulo em que ele fala da trajet\u00f3ria do blues dentro dos Estados Unidos. Ele define o blues como uma can\u00e7\u00e3o que se aproxima do popular desde sua g\u00eanese at\u00e9 pela quest\u00e3o l\u00edrica, de texto. Existem os clich\u00eas que a tornam uma musica f\u00e1cil de ser dita, f\u00e1cil de ser cantada. (em voz carregada) \u201cI woke up this morning I found my baby\u201d (risos). Voc\u00ea tem os jarg\u00f5es dentro do blues, sabe? E isso meio que o aproxima das pessoas comuns, segundo o Christopher Small. E concordo que existem esses clich\u00eas. O cara pode fazer uma composi\u00e7\u00e3o que \u00e9 um cat\u00e1logo de clich\u00eas, mas, claro, o ideal \u00e9 que se espere que ele possa fazer algo que tenha a ver com a sua express\u00e3o, sem apelar para clich\u00eas. Mas, para mim, \u00e9 bem mais dif\u00edcil escrever blues em portugu\u00eas (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea citou diversas refer\u00eancias no cen\u00e1rio internacional. E do Brasil?<\/strong><br \/>\nOlha, no rock nacional, gosto muito das m\u00fasicas do Cazuza cantadas pelo Frejat. Gosto do Frejat como compositor, tamb\u00e9m, mas as interpreta\u00e7\u00f5es dele para as musicas do Bar\u00e3o Vermelho na fase Cazuza me agradam muito. Gosto muito dele como cantor. Al\u00e9m dele, o texto de Andr\u00e9 Christovam, um grande bluesman brasileiro. De blues em portugu\u00eas, o disco que ele gravou, o \u201cMandinga\u201d, possui um texto bem contundente. De letristas da can\u00e7\u00e3o popular, admiro muito o Belchior, cujas letras s\u00e3o bem faca na carne, sabe? Algo bem no estilo Neil Young, de quem gosto muito e \u00e9 uma coisa bem direta, que exerce uma comunica\u00e7\u00e3o sem complicar demais e, ao mesmo, tempo n\u00e3o \u00e9 banal. Claro que \u00e9 imposs\u00edvel n\u00e3o citar Gil, Caetano, Chico, esses caras s\u00e3o monstros. Mas, para citar as inspira\u00e7\u00f5es para meu trabalho, tento me identificar com coisas mais diretas, vamos dizer assim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Nos dois \u00e1lbuns do Eric Assmar Trio, encontramos tr\u00eas can\u00e7\u00f5es instrumentais: \u201cAbre Aspas\u201d e \u201cHanna\u201d no primeiro, e \u201cSun Goes Down\u201d no segundo. Como foi a escolha dessas m\u00fasicas nos discos e a op\u00e7\u00e3o por variar um pouco do blues instrumental j\u00e1 convencional?<\/strong><br \/>\n\u201cHanna\u201d era uma can\u00e7\u00e3o que eu j\u00e1 tinha. Havia escrito para minha cadela, Hanna, que j\u00e1 morreu. Era s\u00f3 um viol\u00e3o resonator com aquele slide e n\u00e3o tinha melodia ou uma forma pronta para ela. Eu s\u00f3 fiz adaptar a forma. Meu pai gravou um viol\u00e3o de base, gravei com o ressonator e demos forma a ela. Era uma can\u00e7\u00e3o que eu j\u00e1 tinha na gaveta desde 2006. Acabei dizendo que n\u00e3o, mas essa era uma que eu j\u00e1 tinha, sim. Havia me esquecido. J\u00e1 com \u201cAbre Aspas\u201d, o pensamento foi: vou fazer o uma introdu\u00e7\u00e3o para \u201cSangue no Olho\u201d (nota: a en\u00e9rgica can\u00e7\u00e3o que vem logo em seguida no disco). \u00c9 uma m\u00fasica instrumental, com um riff que havia me ocorrido. Pensei que seria interessante fazer isso aqui e a transformar em uma m\u00fasica para que, nos shows, eu tocasse uma antes da outra. No show de lan\u00e7amento, inclusive, ele come\u00e7ou com \u201cAbre Aspas\u201d e \u201cSangue no Olho\u201d. Ele come\u00e7ou com aquela coisa de introdu\u00e7\u00e3o de m\u00fasica. Pensei em uma introdu\u00e7\u00e3o instrumental e que tivesse o power trio descendo a m\u00e3o para, da\u00ed, entrar a \u201cSangue no Olho\u201d, que j\u00e1 era com letra. O pensamento foi justamente esse.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E \u201cSun Goes Down\u201d? J\u00e1 foi pensada como algo de encerramento, mesmo?<\/strong><br \/>\nNo \u201cMorning\u201d, ensaiei e compus as 10 primeiras m\u00fasicas. Esse \u00e9 o n\u00facleo do power trio. Para a 11\u00aa, \u201cSun Goes Down\u201d, usei um lap steel que foi feito por Jorge Marinho, luthier daqui de Salvador. Ele fez a partir do corpo de um viol\u00e3o velho, meio abandonado. Era uma coisa meio improvisada. Voc\u00ea olha para o acabamento e v\u00ea que era um viol\u00e3o meio tosco. N\u00e3o \u00e9 o acabamento de um lap steel convencional. Ele foi feito a partir do corpo de um viol\u00e3o, com captadores enrolados pelo pr\u00f3prio Marinho, mas gosto do som daquele neg\u00f3cio. O som dele \u00e9 fant\u00e1stico! Foi uma coisa que apareceu um corpo de viol\u00e3o l\u00e1, ele fez um ajuste e, pronto. \u201cAh, Eric, tome a\u00ed pra voc\u00ea de presente\u201d. E jogou em minha m\u00e3o (risos). E pensei: \u201cPorra, preciso fazer uma arte com isso, bicho\u201d. Nunca pude fazer uma musica com lap steel assim, para usar em shows, \u00e9 uma coisa que gosto de fazer. Gosto muito do Ben Harper. \u00c9 um artista que admiro bastante. Tanto suas ideias, a maneira como ele se posiciona na carreira, tanto seus textos e composi\u00e7\u00f5es, para mim \u00e9 um cara fenomenal. Sou muito f\u00e3 dele. E \u00e9 um cara que exala energia boa. Voc\u00ea olha para Ben Harper tocando e n\u00e3o tem como n\u00e3o ficar feliz, bicho (risos). O vi tocar em Austin, em 2009, e a energia era essa. Voc\u00ea o ver tocar e d\u00e1 vontade de sorrir (risos). Tem um disco dele chamado \u201cLifeline\u201d, de 2007. A \u00faltima faixa se chama justamente \u201cLifeline\u201d. Uma faixa cantada e ele com o lapsteel. E aquilo \u00e9 de uma calma, de uma paz de esp\u00edrito. Pensei: \u201cRapaz, eu poderia encerrar o disco com algum tema desse tipo.\u201d O detalhe era que eu queria um tema que n\u00e3o fosse previamente composto. E foi isso. Solta o rec, liga o lap e vamos gravar. Foi assim que gravei. Aqui mesmo nesse quarto, com esse sisteminha aqui (aponta para o computador na mesa em frente) e \u201cSun Goes Down\u201d acabou sendo composta na grava\u00e7\u00e3o. Claro, fiz um take, pensei um pouco, \u201cisso aqui pode ser de outra forma\u201d, e foi indo. Registrei e j\u00e1 ficou. \u201cSun Goes Down\u201d foi uma m\u00fasica composta no momento da grava\u00e7\u00e3o. No inicio, meio de improviso, mas depois eu criei um temazinho e fui desenvolvendo dentro desse tema. Tudo criado aqui na hora. Foi feito para ser uma coisa livre, mesmo. Algo meio et\u00e9reo. Sem a amarra de uma forma, sem a amarra de um ritmo constante. Justamente para que a pessoa entre na viagem e se acalme antes do disco acabar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ainda nesse vi\u00e9s das rela\u00e7\u00f5es internas que as faixas possuem, em algumas can\u00e7\u00f5es do primeiro \u00e1lbum, como \u201cSenhor\u201d, \u201cIn My Own Way\u201d e \u201cLonesome Walker\u201d senti que as letras trazem uma carga dram\u00e1tica mais pesada, entristecida. O primeiro disco trazia uma impress\u00e3o mais introspectiva dos seus personagens em suas can\u00e7\u00f5es. O personagem de \u201cLonesome Walker\u201d me lembrou um pouco o de \u201cOff He Goes\u201d, do Pearl Jam, por exemplo. O segundo, n\u00e3o. Ele \u00e9 mais leve, mais otimista, tamb\u00e9m. Apesar de possuir can\u00e7\u00f5es como \u201cTime is Mine\u201d, cujo peso da letra impressiona, trata-se inegavelmente de um disco mais otimista. Voc\u00ea credita a que essa mudan\u00e7a de tom entre as duas obras? Passagem do tempo? Amadurecimento?<\/strong><br \/>\nSim, com toda certeza. S\u00e3o momentos diferentes tamb\u00e9m. Acho que vivo um momento mais pleno das coisas, Mais leve, vamos dizer assim. N\u00e3o vou dizer que seja um momento no qual a gente saiba mais o que quer, mas um momento em que somos menos ignorantes, vamos dizer assim. O tempo vai passando, a gente continua ignorante, mas, um pouco menos, n\u00e9? (risos). Acho que tem mais a ver com isso. E, claro, h\u00e1 um di\u00e1logo com a parte musical. A quest\u00e3o do power trio, da crueza do primeiro \u00e1lbum, aquela coisa que comentei antes. Penso naquilo e acho que a dramaticidade das letras tem a ver com a maneira como ele foi gravado, com a sonoridade, com a capa em preto e branco, o concreto no projeto gr\u00e1fico. A foto da capa foi tirada em uma constru\u00e7\u00e3o. As internas t\u00eam um pouco disso. De pedras, paredes, tudo em preto e branco. Ele parece que n\u00e3o tem cores. O segundo \u00e9 mais colorido e isso meio que reflete em seu resultado, apesar de ter can\u00e7\u00f5es como Time is Mine, que possui uma carga dram\u00e1tica mais acentuada. Agora, o Morning n\u00e3o \u00e9 dramaticidade o tempo todo, essa coisa mais dark como o primeiro \u00e9. O primeiro trazia esse momento mais duro, vamos dizer assim. Eram temas mais duros, tamb\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Refletia algum momento especifico de sua vida?<\/strong><br \/>\nAcho que o primeiro tem a ver com&#8230; (pausa) Alguns personagens ali refletem alguns pensamentos meus. Quest\u00f5es que permearam a minha vida e olhares externos meus sobre outras coisas. N\u00e3o necessariamente coisas minhas. Hoje, olho para o primeiro disco e, s\u00f3 para citar de exemplo novamente, a can\u00e7\u00e3o \u201cAqui\u201d que est\u00e1 no \u201cMorning\u201d e a \u201cO Que Vir\u00e1\u201d, que est\u00e1 no primeiro. \u201cAqui\u201d j\u00e1 \u00e9 meio que um pensamento do tipo: \u201cmas n\u00e3o era bem assim, isso mudou. Mas voc\u00ea pode olhar tamb\u00e9m dessa forma\u201d, sabe? As coisas n\u00e3o precisam ser t\u00e3o preto no branco dentro de uma situa\u00e7\u00e3o X na qual voc\u00ea olha para aquilo de dentro. Quando os anos passam e voc\u00ea exerce a capacidade de olhar de fora, \u00e0s vezes algumas outras coisas aparecem para voc\u00ea. E \u00e9 mais ou menos por a\u00ed. \u201cMorning\u201d eu acho que \u00e9 um disco um pouco mais leve. Tem alguns temas meio duros, meio inc\u00f4modos, tamb\u00e9m, mas tratados sob uma outra \u00f3tica, um pouco mais otimista e at\u00e9 bem humorada, tamb\u00e9m. Faixas como \u201cWould you Love Me\u201d, por exemplo. \u00c9 uma letra que fala de um questionamento&#8230; (pausa). Gosto de deixar margem para quem quiser olhar e interpretar. E n\u00e3o pense necessariamente que \u00e9 uma coisa direta de uma pessoa. Mas ela trata de um tema que questiona alguma coisa. Um suposto interesse fugaz e mesquinho em uma coisa ou em uma pessoa. S\u00f3 que em uma m\u00fasica que \u00e9 um funkz\u00e3o todo alegre. Ent\u00e3o, acaba havendo essa quebra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Em rela\u00e7\u00e3o a m\u00fasicas alegres do disco, a que me veio \u00e0 mente agora foi \u201cDon\u00b4t Ever Lie\u201d por conta de sua pegada mais r\u00e1pida, mais en\u00e9rgica.<\/strong><br \/>\nMesmo? \u201cDon\u00b4t Ever Lie\u201d \u00e9 um jarg\u00e3o do blues. A letra dela fala mais daquele clich\u00ea conjugal do blues. Tem uma pegada en\u00e9rgica. \u00c9 a chamada levada shuffle invertido. Eu nunca tinha feito uma musica com essa levada e acabou que foi ela que veio primeiro (imita a introdu\u00e7\u00e3o de \u201cDon\u00b4t Ever Lie\u201d). Eu fazia improvisos nos \u00faltimos shows do trio, antes de compor a musica. Abria \u00e0s vezes os shows com essa levada, pois queria uma musica com algo do tipo e n\u00e3o tinha. A\u00ed parei e pensei: \u201cPera\u00ea, deixa eu pensar em um texto, deixa eu fazer uma coisa legal aqui\u201d (risos). A\u00ed surgiu \u201cDon\u00b4t Ever Lie\u201d.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"750\" height=\"422\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/hxCBIRCEZUw?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Curiosamente, consigo ver esse paralelo entre as faixas \u201cSenhor\u201d e \u201cTime is Mine\u201d, do \u201cMorning\u201d. Ambas se complementam naquele estado de catarse que elas oferecem. Do que trata a letra de \u201cSenhor\u201d?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o sei se necessariamente elas se complementam, mas concordo com voc\u00ea. Dentro desse contexto do todo, elas ocupam um lugar parecido no \u00e2mbito da dramaticidade em cada respectivo disco. \u201cSenhor\u201d \u00e9 meio que uma observa\u00e7\u00e3o minha sobre uma pessoa ou uma entidade em que colocam uma expectativa nela. Algu\u00e9m que pode ser um l\u00edder pol\u00edtico, pode ser um l\u00edder religioso, ou pode ser uma pessoa comum, como voc\u00ea, que em um dado momento as pessoas colocam em um pedestal, esperam de voc\u00ea uma coisa que no fundo voc\u00ea n\u00e3o se sente capaz de oferecer. Voc\u00ea s\u00f3 se sente como mais uma pessoa comum. A moral da hist\u00f3ria seria por ai, em meu entendimento. N\u00e3o superestimar as pessoas. Por exemplo, um l\u00edder pol\u00edtico \u00e9 uma pessoa que exerce uma influ\u00eancia sobre uma sociedade, h\u00e1 pessoas que o ap\u00f3iam, h\u00e1 pessoas que o criticam, mas no fundo \u00e9 uma pessoa que acorda de manh\u00e3, que escova os dentes, que come, como todo mundo. Uma pessoa que \u00e9 humana no sentido mais palp\u00e1vel. E, no fundo, uma expectativa merece ter cuidado para que n\u00e3o seja um peso muito al\u00e9m que voc\u00ea p\u00f5e nas costas de uma pessoa. Tem a ver com isso. O Senhor da can\u00e7\u00e3o seria o eu l\u00edrico gritando. Seria justamente essa pessoa gritando. Mas claro que, quem interpreta, desenha o que quer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Um pedido de socorro?<\/strong><br \/>\nSim, bem por a\u00ed.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Tragicamente, a gente v\u00ea muitos \u00eddolos passando por isso. Pedindo socorro em sil\u00eancio.<\/strong><br \/>\nAh, sim, v\u00e1rios. Michael Jackson, Robin Williams, Kurt Cobain, Amy Winehouse, s\u00f3 para citar alguns.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Exato. Existe esse modo da pessoa chegar a um n\u00edvel t\u00e3o grande de adora\u00e7\u00e3o a ponto de n\u00e3o conseguir lidar com isso. Hoje, estamos em uma \u00e9poca que com tanta fugacidade das redes sociais, voc\u00ea acaba dando muita import\u00e2ncia a sua imagem e a que fazem de voc\u00ea. Um meio n\u00e3o muito saud\u00e1vel de se levar a vida.<\/strong><br \/>\nExatamente. Voc\u00ea cai na sua pr\u00f3pria armadilha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como voc\u00ea encara isso na vida art\u00edstica? Como voc\u00ea se v\u00ea neste momento em rela\u00e7\u00e3o a identidade e a maturidade musical?<\/strong><br \/>\nViso construir uma carreira. Tendo muito a refletir a respeito e digo isso \u00e0s pessoas ao meu redor. N\u00e3o olho para mim mesmo como um artista. Olho para mim como um trabalhador, como um oper\u00e1rio da m\u00fasica. Voc\u00ea me acompanha, sabe que tenho v\u00e1rios trabalhos, toco com muitas bandas. Cuido tamb\u00e9m da parte administrativa da minha carreira, fa\u00e7o doutorado, me ligo na pesquisa musical, respiro esse universo 24h por dia. \u00c0s vezes de uma forma burocr\u00e1tica, outras de uma forma mais art\u00edstica. \u00c0s vezes mais acad\u00eamica. Mas, enfim, gosto de estar envolvido, gosto de arrega\u00e7ar as mangas, gosto de por a m\u00e3o na massa. Sou um cara que se identifica muito com isso. Meu ideal de vida \u00e9 continuar tendo uma sobreviv\u00eancia digna, ter o respeito das pessoas que se aproximam e se interessam pela m\u00fasica. Uma admira\u00e7\u00e3o qualitativa, vamos dizer assim. De pessoas que gostam, que se identificam com aquele trabalho. N\u00e3o porque acham seu cabelo bonito, sabe? Ou porque querem olhar no seu snapchat para ver onde voc\u00ea almo\u00e7ou, ou para ver onde voc\u00ea est\u00e1 malhando, esse tipo de coisa. Mas isso passa justamente muito longe da minha realidade. N\u00e3o fa\u00e7o uma m\u00fasica de massa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>D\u00e1 para viver dignamente de m\u00fasica tocando blues e rock em Salvador?<\/strong><br \/>\nA m\u00fasica que fa\u00e7o \u00e9 a de um segmento especifico, geralmente s\u00e3o pessoas que se interessam por aquilo, muitos guitarristas que tem o interesse pelo blues, pessoas j\u00e1 iniciadas pelo rock e no lugar que a gente mora, sabemos que isso \u00e9 um nicho. N\u00e3o \u00e9 algo para se ter deslumbre. A m\u00fasica que fa\u00e7o \u00e9 a m\u00fasica para um nicho. E pensando em mercado, 2016, com redes sociais, stream, d\u00e1 pra viver muito dignamente de m\u00fasica sem que voc\u00ea precise tocar no Faust\u00e3o, sem que voc\u00ea toque numa r\u00e1dio para atingir milh\u00f5es de pessoas. Busco isso. Fazer m\u00fasica para pessoas que se interessam. Claro, quero que minha m\u00fasica se expanda e encontre as pessoas. Quero que as pessoas tomem gosto por ela, fa\u00e7a essa ponte de di\u00e1logo, que comprem os discos, afinal, \u00e9 um trabalho independente, a gente precisa disso para fazer a roda rodar. Mas \u00e9 isso a\u00ed, cara. Acho que o principal \u00e9 fazer a m\u00fasica que voc\u00ea faz e fazer com cora\u00e7\u00e3o. Se voc\u00ea olha pra musica que faz e acredita nela, acho que algu\u00e9m se identifica e voc\u00ea j\u00e1 colhe esses frutos. J\u00e1 tem um pessoal que acompanha, claro que em uma propor\u00e7\u00e3o num\u00e9rica modesta. N\u00e3o estou lotando a Fonte Nova ou a Concha Ac\u00fastica, mas \u00e9 um pessoal que acompanha, que est\u00e1 sempre presente. Consigo gerir uma carreira. Vivo s\u00f3 de m\u00fasica desde a minha adolesc\u00eancia. Economicamente falando, consigo ter uma vida digna disso. Emocional e artisticamente, me sinto feliz por estar fazendo o que fa\u00e7o. Por ter conseguido materializar dois discos, por estar dando continuidade \u00e0 minha carreira. Meu foco agora \u00e9 poder expandir isso, estar em outros lugares, estar com novas pessoas e tocar, cara. N\u00e3o importa em que local. O importante s\u00e3o as pessoas que est\u00e3o nesse local. Quem consome, sabe? Quem consome n\u00e3o no sentido mercantil, mas no sentido de ouvir e se identificar. Criar uma sinergia com aquilo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ser f\u00e3 de blues em Salvador \u00e9 uma miss\u00e3o \u00e1rdua. Voc\u00ea acaba tendo que procurar bastante para encontrar essa tribo. E acaba por existir uma rela\u00e7\u00e3o de amizade entre os f\u00e3s que se esfor\u00e7am para estar nos shows. E que est\u00e3o sempre presentes, como voc\u00ea disse. Essa sinergia \u00e9 sincera. O blues tem essa coisa.<\/strong><br \/>\nSim, \u00e9 verdade. O rock and roll \u00e9 mais contaminado pelo glamour. O blues \u00e9 mais das pessoas comuns. O mesmo cara que est\u00e1 tocando \u00e9 o cara que ligou para o dono daquela casa, para o produtor daquele festival para fechar. Que est\u00e1 ali conversando com ele, que vai receber com ele. Carrega o equipamento, que contrata o pessoal que vai operar som, que vai fazer isso, aquilo. Sou o faz tudo. O cara que bate escanteio e que corre para cabecear. Sou um ser humano como voc\u00ea. Como voc\u00ea que tem sua correria de jornalista, tenho a minha como m\u00fasico e acho que, por ter me envolvido com todas essas etapas desde muito cedo, meio que tendo a n\u00e3o me identificar com a parte do artista que colhe os louros de ser um artista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Neste novo disco, o baterista Thiago Brand\u00e3o, que substituiu o Thiago Gomes, que tocou no primeiro, participa como backing vocal, algo que voc\u00ea n\u00e3o usava antes. E voc\u00ea continua a parceria com Rafael Zumaeta. Como \u00e9 a unidade da banda?<\/strong><br \/>\nA banda possui um contraponto interessante com Zuma e com o Thiago. Zuma \u00e9 o melhor baixista com quem j\u00e1 toquei. Para o que fa\u00e7o, acho que n\u00e3o teria trabalho melhor. Nunca toquei tanto tempo com um baixista quanto o que toco com ele. J\u00e1 s\u00e3o oito anos trabalhando juntos. Tenho uma identifica\u00e7\u00e3o muito grande com o cara. Percebo a diferen\u00e7a quando toco com outros baixistas. Claro, \u00e9 legal tocar com outras pessoas, mas o ideal de conforto, vamos dizer assim, \u00e9 o Zuma justamente pela aproxima\u00e7\u00e3o que temos. E o jeito dele plantad\u00e3o, \u00e0s vezes at\u00e9 fora do palco com sua postura apaziguadora de conflitos, sendo um cara mais centrado, um cara que me ajuda muito na parte de log\u00edstica das coisas, das bandas que a gente tem. E Thiago, um cara proativo, que trabalha muito, arrega\u00e7a as mangas. \u00c9 um cara mais en\u00e9rgico, que se envolve com a parte de composi\u00e7\u00e3o, parte criativa, de dar sugest\u00e3o de ideias. Eles se completam na banda. A personalidade de cada um faz com que essa engrenagem do trio role de uma maneira em que uma coisa favorece a outra. O elemento dos backing vocals, tamb\u00e9m. No caso, o primeiro disco foi gravado com o Thiago Gomes na bateria. Ele \u00e9 um amig\u00e3o, um irm\u00e3o meu que mora em S\u00e3o Paulo e precisou se afastar do trio por conta da mudan\u00e7a de cidade. Ap\u00f3s isso, n\u00f3s chegamos a fazer com F\u00e1bio Brand\u00e3o, outro amigo batera nosso. A\u00ed o Thiago Brand\u00e3o entrou na jogada com um elemento criativo que fez com que o trio ganhasse uma caracter\u00edstica mais roqueira com ele. Por conta do seu pr\u00f3prio jeito de tocar, da pr\u00f3pria escola dele. E ele inseriu esse elemento dos backing vocals, que era algo que eu j\u00e1 queria fazer baseado na heran\u00e7a da Grand Funk Railroad. E Thiago inseriu isso assim e casou bem. Os dois se equilibram do jeito que eles s\u00e3o. E eu um maluco no meio deles (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Dentre mortos e feridos, todos se salvam bem.<\/strong><br \/>\n(risos) Exatamente. \u00c9 a frase que eu queria dizer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O pr\u00f3prio Thiago Brand\u00e3o e o Zuma tocam com voc\u00ea na Cavern Beatles, ent\u00e3o, voc\u00eas j\u00e1 t\u00eam uma unidade que colabora bastante para um bom resultado.<\/strong><br \/>\nSim, exato. O Thiago j\u00e1 toca com o trio h\u00e1 tr\u00eas anos e entrou na Cavern mais recentemente, pouco mais de um ano. \u00c9 at\u00e9 um fruto da aproxima\u00e7\u00e3o da gente como trio, enfim. Brincando, vejo esses caras tr\u00eas, quatro vezes por semana. Tem vezes que um n\u00e3o quer nem olhar para a cara do outro. \u201cMeu Deus do c\u00e9u! Thiago e Zuma de novo!\u201d (risos) E eles devem olhar pra mim e dizer a mesma coisa (risos). Mas, enfim, faz parte. \u00c9 rotina. Pelo fato de a gente se produzir, de cuidar da parte burocr\u00e1tica, acho que isso d\u00e1 muito trabalho e, \u00e0s vezes, a rotina pode ser bem desgastante. Bem estressante, tamb\u00e9m. Mas no fundo, o saldo \u00e9 positivo. H\u00e1 um consenso interno de todos. De que a gente est\u00e1 ali porque tem uma coisa maior que a burocracia. A gente quer a m\u00fasica. A gente quer estar junto. A gente est\u00e1 satisfeito por tocarmos um com o outro. E isso fala mais alto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E como voc\u00ea lida com a experi\u00eancia de tocar cover dos Beatles e a necessidade de buscar identidade musical mais autoral?<\/strong><br \/>\nRapaz, o neg\u00f3cio \u00e9 que gosto de tocar na Cavern Beatles. Me divirto! \u00c0s vezes as pessoas geram aquela dicotomia e v\u00eam com um discurso de: \u201cAh, mas voc\u00ea tem o seu trabalho, por que voc\u00ea faz cover?\u201d Existe esse tipo de pensamento, mas a minha resposta \u00e9 muito simples e sem m\u00e1scaras: eu gosto de fazer. T\u00e3o somente isso. \u201cAh, mas voc\u00ea faz vinte, vinte e cinco shows por m\u00eas\u201d. Certo, nas tr\u00eas \u00faltimas semanas (essa entrevista foi feita em 23 de agosto) eu fiz vinte e cinco shows. \u00c9 um ritmo surreal voc\u00ea pensar em fazer tr\u00eas shows em uma noite. Correndo para l\u00e1 e pra c\u00e1. As pessoas dizem: \u201cMas rapaz, para que?\u201d Simples: porque eu gosto. \u00c9 algo que me exercita como cantor, como guitarrista, com o contato com o p\u00fablico, contato com banda. Acho que a figura que sou hoje tocando e cantando, seja com o trio, com a Cavern ou sozinho, a figura que sou no palco se deve muito \u00e0 experi\u00eancia de fazer shows em ritmo intenso. Desde bailes at\u00e9 shows com bandas de rock em lugares pequenos, at\u00e9 shows de blues com meu pai. S\u00e3o essas experi\u00eancias heterog\u00eaneas que tenho de situa\u00e7\u00f5es assim. Desde o cara que toca em banda de formatura e casamento at\u00e9 o cara que estava no festival de Londrina, no in\u00edcio de agosto. Ent\u00e3o acho que fazer de tudo contribui para que eu seja a pessoa que sou hoje em dia. N\u00e3o sei se \u00e9 bom ou ruim, mas acho que desinibe. Tanto em perfil, orat\u00f3ria, de como se comunicar com as pessoas, de como dar uma ideia para que voc\u00ea se fa\u00e7a entender, quanto em postura no palco. De ser voc\u00ea mesmo com as pessoas sem estar vestindo um personagem, sabe?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea acaba de lan\u00e7ar seu segundo disco autoral aos 28 anos de idade. \u00c9 cedo para dizer qual o pr\u00f3ximo passo?<\/strong><br \/>\nRapaz (pausa), timidamente, penso em um disco ao vivo. Com m\u00fasicas in\u00e9ditas e gravado ao vivo. Claro que com a inser\u00e7\u00e3o de uma ou outra dos dois discos j\u00e1 lan\u00e7ados, mas a sua maioria de in\u00e9ditas j\u00e1 com a tamancada delas ao vivo, sabe? Em que eu experimente com plat\u00e9ia. Mas, enfim, n\u00e3o sei se \u00e9 muito precoce ainda. Preciso saber primeiro o que vai aparecer de m\u00fasica para mim nesse meio tempo. Vez ou outra tem uma galera que me procura oferecendo m\u00fasica para gravar e tal, mas confesso que n\u00e3o sou muito simp\u00e1tico \u00e0 ideia justamente por achar que um disco \u00e9 uma oportunidade que voc\u00ea tem de ser voc\u00ea mesmo. De voc\u00ea verbalizar, expressar e soltar suas ideias. N\u00e3o que seja um dem\u00e9rito gravar letras de outras pessoas ou regravar algo, nada disso. Mas, para esse trabalho com o trio, eu acho que faz mais sentindo que eu conte a minha pr\u00f3pria hist\u00f3ria, sabe?<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"750\" height=\"422\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/x7sMYZMoHtM?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>&#8211; <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\">Jo\u00e3o Paulo Barreto<\/a> \u00e9 jornalista, cr\u00edtico de cinema e curador do <a href=\"http:\/\/coisadecinema.com.br\/\" target=\"_blank\">Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema<\/a>. Assina o blog <a href=\"http:\/\/pelicula-virtual.blogspot.com.br\/\" target=\"_blank\">Pel\u00edcula Virtual<\/a> e colabora para o jornal A Tarde.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"&#8220;D\u00e1 pra viver muito dignamente de m\u00fasica sem que voc\u00ea precise tocar no Faust\u00e3o&#8221;, avisa Eric, que est\u00e1 lan\u00e7ando seu segundo disco autoral\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2016\/09\/06\/entrevista-eric-assmar-trio\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":21,"featured_media":39980,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[1109,1108],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/39979"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=39979"}],"version-history":[{"count":9,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/39979\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":40502,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/39979\/revisions\/40502"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/39980"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=39979"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=39979"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=39979"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}