{"id":39257,"date":"2016-08-17T17:29:43","date_gmt":"2016-08-17T20:29:43","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=39257"},"modified":"2016-10-04T07:41:14","modified_gmt":"2016-10-04T10:41:14","slug":"entrevista-sentidor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2016\/08\/17\/entrevista-sentidor\/","title":{"rendered":"Entrevista: Sentidor"},"content":{"rendered":"<h3 style=\"text-align: center;\"><strong>por <a href=\"https:\/\/twitter.com\/brunorplisboa\" target=\"_blank\">Bruno Lisboa<\/a><\/strong><\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jo\u00e3o Carvalho \u00e9 um dos m\u00fasicos mais prol\u00edficos, vers\u00e1teis e interessantes do cen\u00e1rio mineiro atual. Em seu vasto curr\u00edculo constam as fun\u00e7\u00f5es de jornalista, produtor, compositor e guitarrista da banda <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2016\/07\/15\/entrevista-el-toro-fuerte\/\">El Toro Fuerte<\/a>. Como se n\u00e3o bastasse tantas atividades, Carvalho dedica seu tempo e criatividade a uma extensa carreira solo e, desde 2012, sob o codinome Sentidor, aposta numa sonoridade ligada a m\u00fasica eletr\u00f4nica com ares experimentais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ap\u00f3s o celebrado e ensolarado &#8220;Dil\u00favio&#8221; (2015), o Sentidor lan\u00e7ou em 2016 o \u00e1lbum duplo &#8220;Memoro Fantomo_Rio Preto&#8221;, trabalho no qual segue sua sonoridade habitual, por\u00e9m com ares mais introspectivos e alinhados a imagens. Este trabalho (<a href=\"https:\/\/sentidor.bandcamp.com\/album\/memoro-fantomo-rio-preto\" target=\"_blank\">liberado gratuitamente no Bandcamp do artista<\/a>) exibe can\u00e7\u00f5es (dentre elas a su\u00edte \u201cRio Preto\u201d, dividida em cinco partes) e marca o in\u00edcio da parceria de Jo\u00e3o Carvalho com o coletivo <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/geracaoperdidamg\" target=\"_blank\">Gera\u00e7\u00e3o Perdida de Minas Gerais<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na entrevista abaixo, Jo\u00e3o fala sobre o m\u00e9todo de cria\u00e7\u00e3o do novo disco do Sentidor (\u201cFoi um processo muito intenso\u201d), suas influ\u00eancias (\u201cTenho sido muito influenciado pela no\u00e7\u00e3o de uma arte multim\u00eddia, de pol\u00edtica participativa, de artistas experimentais\u201d), a entrada para o coletivo (&#8220;Acho que est\u00e1 todo mundo meio fora da zona de conforto, e isso \u00e9 uma coisa muito bonita pra acontecer\u201d), a interfer\u00eancia do cotidiano em seu m\u00e9todo de composi\u00e7\u00e3o e muito mais.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" style=\"border: 0; width: 100%; height: 120px;\" src=\"https:\/\/bandcamp.com\/EmbeddedPlayer\/album=3799046556\/size=large\/bgcol=333333\/linkcol=4ec5ec\/tracklist=false\/artwork=small\/transparent=true\/\" width=\"300\" height=\"150\" seamless=\"\"><a href=\"http:\/\/sentidor.bandcamp.com\/album\/memoro-fantomo-rio-preto\">Memoro Fantomo_Rio Preto by Sentidor<\/a><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Em &#8220;Memoro Fantomo_Rio Preto&#8221; voc\u00ea coloca o seu experimentalismo habitual numa \u00f3tica instrumental alinhada a imagem. Como foi o processo de cria\u00e7\u00e3o deste trabalho?<\/strong><br \/>\nFoi um processo muito intenso, e at\u00e9 pouco tempo atr\u00e1s eu n\u00e3o tinha nem certeza de que ia se tornar um \u00e1lbum. Como digo em alguns dos textos do disco, as can\u00e7\u00f5es foram compostas nos \u00faltimos 8 meses, e todas elas s\u00e3o uma esp\u00e9cie de transmuta\u00e7\u00e3o de um processo depressivo. Foi algo em dada medida muito inconsciente, no sentido de que n\u00e3o foi um esfor\u00e7o intencional. Eu costumava chegar em casa depois das noites mais pesadas, me sentava em frente ao computador e come\u00e7ava a compor as paisagens sonoras que se tornaram as m\u00fasicas do \u00e1lbum. Hoje percebo que foi um processo meio de musicoterapia, de medita\u00e7\u00e3o transcendental (risos). Um amigo jornalista me disse uma vez (e sempre repito isso) que os discos do Sentidor soavam como se fossem um scanner sonoro do meu c\u00e9rebro, retratos do que acontecia na minha cabe\u00e7a em momentos espec\u00edficos, com todo o caos e desordem caracter\u00edsticos de um c\u00e9rebro encarando uma crise depressiva. Essa ideia do registro, de uma arte que \u00e9 ao mesmo tempo incrivelmente abstrata e tamb\u00e9m documental, acabou por me fazer querer transformar o \u00e1lbum numa experi\u00eancia um pouco mais abrangente do que m\u00fasica. Tenho sido muito influenciado pela no\u00e7\u00e3o de uma arte multim\u00eddia, de pol\u00edtica participativa, de artistas experimentais como a Holly Herndon e o Tim Hecker. \u00c9 a\u00ed que entram as fotos e os textos. S\u00e3o dois hobbies meus que sempre tiveram um papel importante na cria\u00e7\u00e3o da minha m\u00fasica, e resolvi transformar eles em partes ativas da obra final. Ali\u00e1s, a ideia \u00e9 justamente que n\u00e3o exista uma obra final, e que as pessoas possam vivenciar esse disco da mesma forma processual e incompleta que eu vivenciei.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Al\u00e9m do Holly Herdon e do Tim Hecker, no release voc\u00ea tamb\u00e9m cita o Sigur R\u00f3s como influ\u00eancias do \u00e1lbum. De que maneira cada um destes artistas colaborou para a composi\u00e7\u00e3o do disco?<\/strong><br \/>\nHolly Herndon, Tim Hecker e Sigur R\u00f3s s\u00e3o tr\u00eas artistas que transitam de alguma forma entre o eletr\u00f4nico e o experimental. Al\u00e9m de serem m\u00fasicos que eu ouvia quase que diariamente durante o processo de composi\u00e7\u00e3o \u2013 e acho que isso fica bem expl\u00edcito em algumas m\u00fasicas \u2013 me interessou muito a liga\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que o som deles estabelece. Recentemente o Sigur R\u00f3s lan\u00e7ou uma iniciativa-disco-happening em que eles transmitiram 24 horas de m\u00fasica ambiente generativa criada ao vivo, numa esp\u00e9cie de manifesto pela desacelera\u00e7\u00e3o da vida cotidiana. O \u00faltimo disco da Holly Herndon \u2013 que abriu a turn\u00ea do Radiohead na Europa recentemente \u2013 aborda temas como o neo-futurismo e discute tecnologias open-source como forma de constru\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, auto gest\u00e3o e empoderamento dos artistas independentes. O \u00faltimo disco do Tim Hecker \u00e9 uma provoca\u00e7\u00e3o do choque entre a cultura cl\u00e1ssica e a pop, e levanta quest\u00f5es interessant\u00edssimas sobre a ind\u00fastria cultural, a apropria\u00e7\u00e3o e a capacidade de subvers\u00e3o das tecnologias. S\u00e3o todas tem\u00e1ticas que est\u00e3o presentes no processo de feitura do \u201cMemoro Fantomo_Rio Preto\u201d. Al\u00e9m da quest\u00e3o mais presente da depress\u00e3o, me foquei bastante durante o processo de composi\u00e7\u00e3o em transformar o disco numa obra aberta, uma esp\u00e9cie de n\u00e3o-m\u00fasica mais fluida, que permitisse a participa\u00e7\u00e3o do ouvinte na constru\u00e7\u00e3o dos significados e nos s\u00edmbolos que formam o disco. Tudo isso aconteceu em boa parte por inspira\u00e7\u00e3o desses artistas acima, al\u00e9m de que s\u00e3o exemplos de \u201cvanguarda\u201d musical que me mostraram que n\u00e3o tinha problema em pirar um pouco mais nas minhas composi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A turn\u00ea do novo disco iniciou-se em S\u00e3o Paulo. Como foi receptividade do novo material? E como o mesmo se alinha ao vivo aos trabalhos anteriores?<\/strong><br \/>\nInesperadamente boa (risos). Essa turn\u00ea e at\u00e9 mesmo a data de lan\u00e7amento do disco, foi tudo feito meio em cima da hora. Eu fico muito tempo guardando material, e quando me dou conta j\u00e1 n\u00e3o aguento mais esperar, da\u00ed sai tudo meio desorganizadamente. No s\u00e1bado fiz a primeira apresenta\u00e7\u00e3o completa do Sentidor, na Luthieria do Gustavo Athayde, do Bike, em S\u00e3o Paulo. Fiquei muito nervoso, at\u00e9 porque o outro show era do Jonathan Tadeu, que n\u00e3o \u00e9 exatamente o mesmo estilo de som do Sentidor, apesar de estarmos sempre juntos. Mas a verdade \u00e9 que a recep\u00e7\u00e3o foi maravilhosa, e acho que pode ter sido o melhor show do Sentidor que j\u00e1 toquei. O clima intimista era exatamente o necess\u00e1rio, e conversando com as pessoas depois do show, deu pra perceber que elas foram tocadas com a intensidade que eu sonhava. Foi uma coisa muito bonita, mesmo. Os shows do Sentidor costumam ser assim. Geralmente n\u00e3o ficam muito cheios, mas as pessoas que se tocam com o som ficam emocionadas MESMO. Quanto ao futuro, admito que ainda n\u00e3o preparei todos os detalhes do show. Essa ida a S\u00e3o Paulo serviu como teste, pra decidir se o formato estava funcionando ou n\u00e3o. O que posso dizer \u00e9 que tenho a inten\u00e7\u00e3o de viajar pelo pa\u00eds com esse disco, e que as apresenta\u00e7\u00f5es do \u201cMemoro Fantomo_Rio Preto\u201d devem investir muito mais na elabora\u00e7\u00e3o do concerto ao vivo como sendo uma obra nova, diferente do disco. Tenho trabalhado alguns elementos de performance, e pretendo costurar uma obra visual espec\u00edfica para os shows, assim como fiz no &#8220;Not\u00edcias do Nosso Mundo&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como se dera a sua entrada para o coletivo Gera\u00e7\u00e3o Perdida? Qual a import\u00e2ncia deles para a sua nova guinada?<\/strong><br \/>\nA entrada pra Gera\u00e7\u00e3o perdida \u00e9 uma coisa curiosa porque, em alguma medida, n\u00e3o foi realmente uma novidade. Conhe\u00e7o os meninos desde mais ou menos uns dois anos atr\u00e1s, e desde ent\u00e3o toco como m\u00fasico de apoio do Jonathan Tadeu. Produzi o disco do Fernando Motta, que tamb\u00e9m foi lan\u00e7ado pela Gera\u00e7\u00e3o. O que quero dizer \u00e9 que sempre fomos amigos e sempre estivemos tocando juntos&#8230; Ent\u00e3o foi algo natural, e em alguma medida, era s\u00f3 uma quest\u00e3o de tempo (risos). Aqui em Belo Horizonte, acho que a Gera\u00e7\u00e3o Perdida sempre foi o grupo que me pareceu mais aberto, conceitualmente, socialmente e tudo mais. Era o \u00fanico trampo da cidade que eu conseguia imaginar aceitando as viagens do Sentidor. O Jonathan j\u00e1 tinha at\u00e9 me feito o convite anteriormente, mas na \u00e9poca eu estava envolvido com uma label do Peru. Eventualmente o contato acabou n\u00e3o dando certo e por fim resolvi aceitar o convite pra Gera\u00e7\u00e3o. Estou muito orgulhoso e ansioso por essa parceria, porque acho que \u00e9 algo novo pra todos os envolvidos. Se n\u00e3o me engano, \u00e9 o primeiro disco instrumental do selo, acho que nunca tinham se envolvido com algo assim t\u00e3o experimental (risos). Do meu lado, tamb\u00e9m \u00e9 a primeira vez que lan\u00e7o um disco por um selo, e \u00e9 muito interessante tamb\u00e9m essa mistura de p\u00fablico que est\u00e1 rolando, inevitavelmente. Acho que est\u00e1 todo mundo meio fora da zona de conforto, e isso \u00e9 uma coisa muito bonita pra acontecer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Em paralelo ao Sentidor, voc\u00ea p\u00e9 produtor e co-coordena as a\u00e7\u00f5es da El Toro Fuerte, entre outras atividades. Como conciliar tantos trabalhos?<\/strong><br \/>\nEu me fa\u00e7o essa pergunta quase todos os dias (risos). Al\u00e9m da m\u00fasica, sou estudante de jornalismo e fazia est\u00e1gio tamb\u00e9m. No in\u00edcio desse ano acabei surtando, justamente por conta dessa carga excessiva, e da\u00ed decidi repensar a minha vida, minhas prioridades e coisas do tipo. Foi meio por conta desse momento que decidi trancar a faculdade, largar o est\u00e1gio e arriscar minhas fichas com a m\u00fasica. Desde ent\u00e3o tenho me dedicado quase que completamente a trabalhar com som, compor, fazer as turn\u00eas que a gente sempre teve vontade de fazer, e produzir discos. Estou come\u00e7ando a trabalhar com dois novos artistas (que prefiro n\u00e3o revelar ainda) e tudo indica que posso ter feito a escolha certa investindo em m\u00fasica. \u00c9 algo que me deixa realizado de uma forma que o jornalismo nunca conseguiu, e a gente est\u00e1 num momento de ver as iniciativas crescerem e darem frutos, ent\u00e3o \u00e9 algo que me deixa bem animado. O fato do Sentidor ser um trabalho solo tamb\u00e9m facilita a divis\u00e3o de tempo com a Toro. Meu ritmo de produ\u00e7\u00e3o \u00e9 bem r\u00e1pido, ent\u00e3o acabo produzindo muita coisa nos intervalos em que n\u00e3o estou trabalhando com a banda. Inclusive, se tudo der certo, lan\u00e7o ainda mais um disco esse ano, de outro projeto (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Suas composi\u00e7\u00f5es s\u00e3o marcadas pela pessoalidade. Como o cotidiano interfere no seu fazer musical?<\/strong><br \/>\nAcho que os sons do Sentidor funcionam como uma forma de di\u00e1rio abstrato. As composi\u00e7\u00f5es derivam diretamente de sonhos, experi\u00eancias sensoriais ou espirituais, na maioria das vezes. Os clipes ao longo da discografia, assim como as fotografias e os textos que fazem parte do ultimo disco, s\u00e3o registros \u2013 novamente \u2013 quase documentais do meu cotidiano, alterados apenas pelas edi\u00e7\u00f5es visuais \u201cpsicod\u00e9licas\u201d, um tipo de transe da vida comum. \u00c9 algo que acabei por aprender em algumas escolas de cinema independente. Jonas Mekas, Agnes Varda, Chris Marker sempre deram muita import\u00e2ncia a essa arte da realidade, do cotidiano, algo em alguma medida afastado do espet\u00e1culo. Acho que acabei por absorver essas ideias num guia para os meus trabalhos. Nunca gostei de escrever di\u00e1rios, mas a minha produ\u00e7\u00e3o musical acaba ocorrendo dessa forma: quase todos os dias escrevo algum trecho, alguma textura ou alguma ideia que eventualmente se transforma em algo mais complexo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Poucos meses separam &#8220;Memoro Fantomo_Rio Preto&#8221; de &#8220;Dil\u00favio&#8221;. O primeiro soa mais introspectivo enquanto o segundo mais ensolarado. Ambos foram compostos na mesma \u00e9poca?<\/strong><br \/>\nA quest\u00e3o \u00e9 que, apesar de ter sido lan\u00e7ado em dezembro do ano passado, o \u201cDil\u00favio\u201d (2015) \u00e9 um disco que ficou bastante tempo no forno. Acho que ele \u00e9 um disco um pouco menos maduro, tanto musical quanto conceitualmente, mas realmente \u00e9 um trabalho mais ensolarado. Ele quase n\u00e3o versa sobre depress\u00e3o, e tem uma liga\u00e7\u00e3o muito mais forte com temas como o amor e a espiritualidade\/religiosidade. Acredito que ele foi composto cerca de um ano antes do \u201cMemoro Fantomo _ Rio Preto\u201d. Ainda assim, vejo uma liga\u00e7\u00e3o muito forte entre eles. Parece uma esp\u00e9cie de evolu\u00e7\u00e3o natural, j\u00e1 que todas as tem\u00e1ticas do \u201cDil\u00favio\u201d e at\u00e9 mesmo alguns dos seus timbres tamb\u00e9m est\u00e3o ali no \u00faltimo disco. \u00c9 um processo de evolu\u00e7\u00e3o que acompanhou muito bem a minha evolu\u00e7\u00e3o ps\u00edquica no mesmo intervalo de tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea um dos artistas mais inquietos da atualidade em Minas Gerais, estado que, ali\u00e1s, vive um grande momento art\u00edstico. Como voc\u00ea v\u00ea o cen\u00e1rio atual?<\/strong><br \/>\nPoxa, muito obrigado pelo elogio! (risos). Mas sim, tenho uma rela\u00e7\u00e3o dupla com Belo Horizonte. Talvez seja assim com todas as cidades natais. Acho que, se formos pensar nos \u00faltimos 10 anos, a cidade est\u00e1 fervilhando. A cena rap conquistou um espa\u00e7o merecido depois de anos de briga com a prefeitura e os \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos. A m\u00fasica independente, em alguma medida, obteve reconhecimento in\u00e9dito nos \u00faltimos anos. O que, de forma alguma, me impede de considerar o cen\u00e1rio musical mineiro um dos mais conservadores com os quais j\u00e1 tive contato. Um amigo me disse outra vez que a cena pol\u00edtica (e tamb\u00e9m a art\u00edstica) da cidade abre pouqu\u00edssimo espa\u00e7o para discord\u00e2ncia, conflito, debate. \u00c9 uma das maiores cr\u00edticas que eu teria pra fazer sobre o cen\u00e1rio hoje. \u00c9 triste porque mesmo os movimentos alternativos acabam por encarnar uma esp\u00e9cie de hegemonia, \u00e0s vezes, e \u00e9 um bocado dif\u00edcil lidar com essas situa\u00e7\u00f5es. As pessoas acabam por cair em alguns lugares comuns, no v\u00edcio de depender de acess\u00f3rias de imprensa, de recorrer sempre aos mesmos espa\u00e7os, dos mesmos esquemas e dos mesmos festivais. Tenho orgulho de dizer que a cidade j\u00e1 absorveu o funk e outros movimentos culturais marginalizados em alguma medida, mas essa absor\u00e7\u00e3o \u00e9 muitas vezes rasa e pouco politizada. As constru\u00e7\u00f5es sociais se cristalizam aqui com uma velocidade absurda, e por mais que isso seja bom no sentido de constru\u00e7\u00e3o de grupos que se identificam, esse processo tamb\u00e9m torna a chegada de novos artistas um pouco dif\u00edcil. O mesmo acontece com a evolu\u00e7\u00e3o dos pr\u00f3prios estilos musicais, eu acho. Demorei um bom tempo at\u00e9 encontrar \u201ca minha galera\u201d. \u00c9 essa a cena com a qual tenho me identificado mais, recentemente: a Gera\u00e7\u00e3o Perdida e outros selos mais voltados pra m\u00fasica experimental (Seminal Records sempre manda algumas paradas por aqui, o Henrique Iwao por exemplo). Amo demais tamb\u00e9m a Fam\u00edlia de Rua, Roger Deff, Douglas Din, Barbara Sweet e outros artistas do tipo. Um dos meus maiores sonhos hoje \u00e9 produzir um disco de algum rapper daqui. \u00c9 um pessoal que tem come\u00e7ado a explorar novos espa\u00e7os, novos formatos e at\u00e9 mesmo novos estilos musicais. Acho que a quest\u00e3o \u00e9 essa: a abertura estil\u00edstica \u2013 e por que n\u00e3o social \u2013 da cidade ainda \u00e9 um bocado question\u00e1vel (risos). E o problema \u00e9 que, \u00e0s vezes, a defesa de um certo sucesso da cena acaba por silenciar cr\u00edticas tremendamente v\u00e1lidas. No mais, apesar dos pesares, tenho me sentido cada vez mais \u00e0 vontade na cidade. O processo acontece aos poucos, mas temos visto os nossos projetos sendo mais respeitados e considerados, e mesmo mais xingados e criticados! No final das contas, \u00e9 s\u00f3 um processo natural de dial\u00e9tica. A gente tem que empurrar os limites mesmo, arrumar confus\u00e3o, reclamar e criticar at\u00e9 n\u00e3o poder mais. Isso n\u00e3o quer dizer que eu odeie a minha cidade ou os artistas dela, mas \u00e9 a partir desses processos \u00e0s vezes desconfort\u00e1veis que as coisas avan\u00e7am.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quais s\u00e3o seus os planos futuros?<\/strong><br \/>\nAcredito que o mais breve vai ser a divulga\u00e7\u00e3o do disco. Tenho uma turn\u00ea marcada pro Nordeste com o Jonathan Tadeu, e ainda nem realizei o show de lan\u00e7amento aqui em Belo Horizonte mesmo. Fiz uma parceria com o Coelho Radioactivo, de Portugal, que deve sair numa colet\u00e2nea de l\u00e1 em algum momento em breve. E n\u00e3o consigo, j\u00e1 estou produzindo mais material in\u00e9dito pro Sentidor (risos). Pretendo gravar mais alguns projetos e lan\u00e7ar outros discos ainda esse ano, mas ainda \u00e9 cedo pra dar mais detalhes. No mais, tenho os compromissos com a El Toro Fuerte e devo come\u00e7ar a produzir dois discos de artistas mineiros ainda nesse ano. Agora que comecei a pagar minhas contas com m\u00fasicas, tenho trabalhado com trilhas sonoras, grava\u00e7\u00f5es e coisas do tipo.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><object width=\"752\" height=\"440\" classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/6HaS9Xr9V1U\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"752\" height=\"440\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/6HaS9Xr9V1U\" \/><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Bruno Lisboa (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/brunorplisboa\" target=\"_blank\">@brunorplisboa<\/a>) \u00e9 redator\/colunista do <a href=\"http:\/\/pignes.com\" target=\"_blank\">Pigner<\/a> e do <a href=\"http:\/\/www.opoderosoresumao.com\/\" target=\"_blank\">O Poder do Resum\u00e3o<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/category\/musica\/\">MAIS SOBRE M\u00daSICA, ENTREVISTAS E REVIEWS NO SCREAM &amp; YELL<\/a><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Ap\u00f3s o celebrado e ensolarado \u201cDil\u00favio\u201d (2015), o Sentidor lan\u00e7a em 2016 um \u00e1lbum duplo no qual segue sua sonoridade habitual, por\u00e9m com ares introspectivos e alinhados a imagens\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2016\/08\/17\/entrevista-sentidor\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":4,"featured_media":39460,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[822,354,821,820],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/39257"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=39257"}],"version-history":[{"count":9,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/39257\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":39694,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/39257\/revisions\/39694"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/39460"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=39257"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=39257"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=39257"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}