{"id":38993,"date":"2016-07-27T11:23:03","date_gmt":"2016-07-27T14:23:03","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=38993"},"modified":"2016-08-31T13:58:14","modified_gmt":"2016-08-31T16:58:14","slug":"conexao-latina-pascuala-ilabaca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2016\/07\/27\/conexao-latina-pascuala-ilabaca\/","title":{"rendered":"Conex\u00e3o Latina: Pascuala Ilabaca"},"content":{"rendered":"<h3 style=\"text-align: center;\"><strong>por <a href=\"https:\/\/twitter.com\/leovinhas\" target=\"_blank\">Leonardo Vinhas<\/a><\/strong><\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">A passagem curta, de apenas tr\u00eas apresenta\u00e7\u00f5es, da chilena <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/pascualailabaca\/\" target=\"_blank\">Pascuala Ilabaca<\/a> pelo Brasil rendeu f\u00e3s apaixonados. Se duvida, pergunte ao p\u00fablico que compareceu aos shows de Rio de Janeiro, S\u00e3o Paulo e Caxias do Sul em abril de 2016: acompanhada de sua banda, Fauna, a cantora e compositora entregou, em cada uma dessas noites, um espet\u00e1culo composto de elementos art\u00edsticos de seu pa\u00eds, de outros pa\u00edses latino-americanos, do jazz estadunidense e da \u00cdndia. A m\u00fasica era o motor e o motivo dos shows, mas a est\u00e9tica que a dan\u00e7a, o figurino e os elementos c\u00eanicos que a acompanhavam n\u00e3o podiam ser ignorados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao contr\u00e1rio da meticulosa assepsia oca \u00e0 Cirque du Soleil t\u00e3o facilmente encontr\u00e1vel nas \u201cdivas\u201d do pop, as apresenta\u00e7\u00f5es de Pascuala Ilabaca y Fauna tinham aquele sentimento de oportunidade \u00fanica que caracterizam os shows mais marcantes. Tanto que alguns m\u00fasicos que se apresentariam ap\u00f3s ela perguntavam uns aos outros: \u201cO que a gente vai fazer depois de uma coisa dessas?\u201d Era compreens\u00edvel: mesmo que viesse boa m\u00fasica na sequ\u00eancia, seria dif\u00edcil superar o que veio como algo que n\u00e3o pode ser chamado de nada que n\u00e3o seja \u201cgrande arte\u201d. O sorriso daquela elegante jovem chilena no palco se tornava o chileno de todo o p\u00fablico presente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entender a constru\u00e7\u00e3o da carreira e das can\u00e7\u00f5es que comp\u00f5em o corpo do trabalho de Pascuala Ilabaca foi o prop\u00f3sito desta entrevista, concedida poucos dias ap\u00f3s ela ter sido anunciada como vencedora do Pr\u00eamio Pulsar (o mais importante da ind\u00fastria fonogr\u00e1fica chilena) de Melhor Cantora e Compositora. A hist\u00f3ria da mo\u00e7a renderia um filme \u2013 mas ela optou por transform\u00e1-la em discos. Portanto, entenda essa entrevista como uma esp\u00e9cie de \u201ctrailer musical\u201d de um dos trabalhos mais significativos da m\u00fasica latino-americana contempor\u00e2nea.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><object width=\"600\" height=\"340\" classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/1O8Akna-Mis\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/1O8Akna-Mis\" \/><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea ganhou o Pr\u00eamio Pulsar de Melhor Cantautora. Al\u00e9m de ser um reconhecimento da ind\u00fastria, o que representa isso para voc\u00ea, pessoal e artisticamente, nesse momento da sua carreira?<\/strong><br \/>\nPara mim \u00e9 muito importante que tenha sido com \u201cRey Loj\u201d (2015). No ano passado fui indicada tamb\u00e9m com um disco que \u00e9 um tributo aos grandes compositores e poetas chilenos, \u201cMe Saco el Sombrero\u201d (2014). No \u201cRey Loj\u201d, sinto que me expressei muito livremente, deixei correr a criatividade, e me preocupei a fazer tudo 100% do meu gosto, da qualidade do meu som \u00e0 express\u00e3o musical. \u00c9 um disco que me representa muito \u2013 tamb\u00e9m pela tem\u00e1tica do tempo. Quando terminei o disco, senti que ele \u00e9 um disco que me agradou demais. \u00c9 um disco ousado, estranho, tem muitas can\u00e7\u00f5es e algumas muito longas, diferentes entre si, mas todas com uma mesma tem\u00e1tica. Pensei que a opini\u00e3o geral era de que achariam o disco uma loucura, mas, quando ele saiu, meus amigos mais pr\u00f3ximos me diziam \u201cuauuuu\u201d! Falaram que eu entrei numa viagem muito profunda com esse disco. \u00c9 menos folcl\u00f3rico, e o Chile est\u00e1 em uma etapa de lutar por reivindicar a identidade chilena. Ainda assim, esse \u00e1lbum traz m\u00fasica da \u00cdndia, \u00e9 mais aberto, mais&#8230; \u201cworld\u201d. Me fortalece e me faz sentir segura que tenha sido esse o disco que ganhou o pr\u00eamio. Ele mostra que tenho que confiar em mim mesma, tenho que fazer a m\u00fasica do jeito que ela nasce em mim, sem sentir medo, confiar nessa busca criativa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Tamb\u00e9m \u00e9 um disco que parece deix\u00e1-la muito \u00e0 vontade no palco.<\/strong><br \/>\nSim. Por exemplo, ontem fiz um show no Cine Arte de Vi\u00f1a del Mar, e incorporei essa can\u00e7\u00e3o \u201cSabatanasa\u201d, que \u00e9 em hindi e tem mais de 14 minutos ao vivo (no disco, dura 11min23seg). Em um festival massivo \u2013 ou em qualquer inst\u00e2ncia \u2013 tocar uma can\u00e7\u00e3o que dura 14 minutos \u00e9 um risco, n\u00e3o? Mesmo assim, ela funcionou muito bem. Lembro-me que no festival de Caxias do Sul essa can\u00e7\u00e3o foi justamente um dos momentos mais bonitos da apresenta\u00e7\u00e3o: havia crian\u00e7as e av\u00f3s no p\u00fablico, e me causa uma alegria enorme que uma crian\u00e7a v\u00e1 a um concerto e escute uma can\u00e7\u00e3o assim. S\u00e3o escassas as can\u00e7\u00f5es assim!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>J\u00e1 que falamos de show: \u00e9 impressionante notar que, ao vivo, n\u00e3o acontece algo do tipo \u201cPascuala Ilabaca e o resto\u201d. Fauna, sua banda, se porta mesmo como um coletivo, todos voc\u00eas atuam em uma unidade muito aparente, e cada um tem seu momento protag\u00f4nico, n\u00e3o \u00e9 um show centrado apenas na sua figura. Ent\u00e3o gostaria que voc\u00ea me contasse sobre como eles participam do seu processo criativo.<\/strong><br \/>\nMe interessa muito que se valorize o instrumental. No mundo da ind\u00fastria pop e da imprensa, criou-se a tradi\u00e7\u00e3o de concentrar-se demais nos vocalistas. Ok, d\u00e1 para entender que exista esse foco nos artistas solos, mas mesmo nesses casos h\u00e1 uma enorme falta de informa\u00e7\u00e3o sobre as bandas que acompanham esses cantores. N\u00e3o h\u00e1 nem informa\u00e7\u00f5es sobre os instrumentos que est\u00e3o na grava\u00e7\u00e3o. Me perguntam como me coube tocar o acorde\u00e3o, \u201cum instrumento t\u00e3o estranho\u201d. Mas na m\u00fasica tradicional chilena os estilos todos t\u00eam acorde\u00e3o: cumbia, tango, cueca&#8230; Mas s\u00e3o g\u00eaneros em que o vocalista n\u00e3o toca um instrumento, ent\u00e3o as pessoas nem notam! Mas isso \u00e9 uma falta de educa\u00e7\u00e3o tremenda, escutar todo dia uma m\u00fasica que tem acorde\u00e3o e consider\u00e1-lo um instrumento estranho. Em nenhum show o acordeonista tem papel central, ent\u00e3o ele vira um instrumento invis\u00edvel. Por isso fa\u00e7o quest\u00e3o que os m\u00fasicos apare\u00e7am claramente nos shows. Inclusive acompanhando com meu corpo! Se o guitarrista est\u00e1 tocando, me aproximo e aponto para ele. No come\u00e7o da minha carreira, eu via v\u00eddeos que faziam dos meus shows em que me filmavam cantando, e a\u00ed vinha o solo de guitarra, e continuavam filmando a mim (risos). Isso me aborrecia muito. Nunca davam protagonismo ao instrumentista, por isso fa\u00e7o essas dan\u00e7as que me colocam perto do instrumentista, at\u00e9 me ajoelho em frente de alguns, para que as pessoas tenham o m\u00fasico em evid\u00eancia. Inicialmente eu comecei como um trio de voz, guitarra e bateria \u2013 porque nunca fui solista, sempre estive acompanhada de m\u00fasicos. Quando gravamos o primeiro disco, \u201cPascuala canta a Violeta\u201d (2008), era esse formato cru, mas logo incorporamos um baixista nos shows. Miguel, o saxofonista, era m\u00fasico convidado, e logo ele passou a fazer parte de todos os shows. Ent\u00e3o foi em 2010 que se consolidou esse formato quinteto. J\u00e1 s\u00e3o ent\u00e3o quase seis anos em que fazemos cerca de 100 shows a cada ano. Ou seja, s\u00e3o mais de 500 shows juntos! Ent\u00e3o por isso todo esse entrosamento que se v\u00ea no palco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea nasceu na Espanha, mas cresceu no Chile, \u00e9 isso?<\/strong><br \/>\nSim. Mas fui muito pequena para o Chile. O que acontece \u00e9 que meus pais, que s\u00e3o chilenos, s\u00e3o dois artistas que foram morar na Espanha nos anos 1980, porque era a \u00e9poca da ditadura. Em 1988 voltamos ao Chile, e em 1989 foi a volta da democracia no pa\u00eds.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Pergunto isso porque a m\u00fasica chilena pega muito forte. E voc\u00ea citou Violeta Parra, certamente sua maior refer\u00eancia. Mas imagino que outros membros da fam\u00edlia Parra tenham impacto na sua forma\u00e7\u00e3o cultural, n\u00e3o?<\/strong><br \/>\nSim. Todos os irm\u00e3os mais velhos de Violeta, por exemplo. Violeta sempre disse sobre seu irm\u00e3o, o poeta Nicanor Parra, que \u201csem Nicanor n\u00e3o existe Violeta\u201d. Era um g\u00eanio f\u00edsico e po\u00e9tico que influenciou na educa\u00e7\u00e3o de todos os seus irm\u00e3os. Ele saiu para estudar em Santiago, e depois mandou buscar Violeta para salv\u00e1-la da vida no campo em meio \u00e0 pobreza e \u00e0s dificuldades em que eles viviam. Ent\u00e3o Nicanor foi importante para ela, e \u00e9 para mim tamb\u00e9m. Gosto dos poetas que n\u00e3o s\u00e3o grandiloquentes. Os que usam palavras simples, cotidianas, e com essas conseguem expressar sentimentos muito profundos. \u00c9 o caso de Nicanor. Roberto Parra tamb\u00e9m. Ele \u00e9 do teatro e escreveu minha obra favorita, \u201cLa Negra Ester\u201d, que se passa no porto de San Antonio, cidade que fica ao lado de Valpara\u00edso, e fala sobre os m\u00fasicos que tocam nos bares de prostitutas. E \u00e9 uma hist\u00f3ria que eu vivi de muito perto. Meu pai, Gonzalo Ilabaca, \u00e9 pintor, e quando eu tinha seis, sete anos, escreveu um livro e fez uma exposi\u00e7\u00e3o de desenhos sobre o bairro de prostitutas mais importante de Valpara\u00edso. Eu o acompanhei em todo esse processo. Eu era uma crian\u00e7a de sete anos que me enfiava ali no meio, dan\u00e7ava em cima das mesas na frente dos marinheiros, conversava com a filha da dona&#8230; Me criei nesse mundo de Valpara\u00edso que j\u00e1 morreu. Esse per\u00edodo em que os marinheiros chegavam a Valpara\u00edso e passavam por l\u00e1 acabou, agora s\u00f3 resta a nostalgia. Ent\u00e3o para mim esse mundo de um artista que se mete em um bar de prostitutas para contar sua hist\u00f3ria \u00e9 a hist\u00f3ria da minha vida. Por isso essa obra \u00e9 t\u00e3o importante para mim. Al\u00e9m disso, \u00e9 um musical! E com muitas palavras cotidianas, com g\u00edrias. Para mim, \u00e9 uma influ\u00eancia muito grande. Todos os irm\u00e3os de Violeta me influenciaram muito, e tamb\u00e9m Isabel e \u00c1ngel, com quem j\u00e1 toquei muitas vezes e s\u00e3o referentes. Minha m\u00e3e era fan\u00e1tica de Isabel Parra, e essa foi a primeira influ\u00eancia de canto que tive. Quando comecei a estudar canto, eu odiava o vibrato. Os cantores populares, de r\u00e1dio, usavam muito isso, para tentar impressionar. Ainda usam (risos). Pelo menos por aqui, n\u00e3o sei no Brasil&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ainda temos isso, sim. J\u00e1 tivemos mais, mas continua, sem d\u00favida.<\/strong><br \/>\nEnt\u00e3o, os cantores rom\u00e2nticos s\u00e3o muito: (imita um vibrato exagerado). Isabel Parra n\u00e3o fazia isso. Sempre me encantou a limpeza que ela tinha como int\u00e9rprete. Uma voz muito clara, natural e espont\u00e2nea. Aprendi a cantar escutando a m\u00fasica dela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Poeta, dramaturgo&#8230; J\u00e1 se nota que suas influ\u00eancias apontam para uma proposta que vai al\u00e9m do musical. E a dan\u00e7a \u00e9 parte essencial das suas apresenta\u00e7\u00f5es. O que voc\u00ea busca com essa variedade toda, especialmente a variedade c\u00eanica? Qual o conceito?<\/strong><br \/>\nUm dos \u00edcones que mais me influencia \u00e9 o \u00edcone da mulher latino-americana, a mulher que n\u00e3o separa a arte como uma cria\u00e7\u00e3o mental e sim a vive como uma experi\u00eancia de vida. Quando se vai \u00e0 Guatemala, \u00e0 Col\u00f4mbia, se sente que as pessoas n\u00e3o est\u00e3o apenas fazendo um objeto art\u00edstico. Quando elas fazem uma roupa, \u00e9 algo que v\u00e3o usar no dia a dia. Ela vai vestir arte, comer arte, criar arte. \u00c9 a arte como alimento, como vestimenta, e \u00e9 essa maneira integral de viver a arte que me interessa. Pode ter todo tipo de gente no meu show: pessoas mais visuais, ou mais sensoriais, ou mais racionais. Ent\u00e3o eu gosto de ter todo o tipo de informa\u00e7\u00f5es na minha m\u00fasica. Muitas das ideias que me influenciaram n\u00e3o s\u00e3o necessariamente musicais. Podem vir de experi\u00eancias, como passar quatro dias dan\u00e7ando numa festa popular, fantasiada de borboleta, n\u00e3o sei&#8230; Ao traduzir a experi\u00eancia, essa coisa de dan\u00e7ar vestida de borboleta no deserto, quero levar as pessoas a esse mundo de desertos, tudo com o objetivo de apaixonar as pessoas do p\u00fablico e liga-las a esses valores, \u00e0 magia das tradi\u00e7\u00f5es populares que pode se perder com tanta tecnologia. Eu gosto do mundo do circo, por exemplo. O circo popular \u00e9 cotidiano, toda cidade pode ter um. Ele \u00e9 como o cinema: pode ter todas as artes incorporadas, \u00e9 um trabalho coletivo, tem a ess\u00eancia da viagem. Ali voc\u00ea vai e come, ri, chora, se surpreende, tudo se mistura. Isso para mim \u00e9 o ideal de uma obra musical.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O fato de ter vivido na \u00cdndia colabora para isso tamb\u00e9m, n\u00e3o? Afinal, \u00e9 um pa\u00eds onde a cultura est\u00e1 toda interligada, n\u00e3o \u00e9 natural separar a comida da dan\u00e7a, da festa, da roupa, da m\u00fasica ou do que seja.<\/strong><br \/>\nMorei dois anos por l\u00e1. Primeiro morei com minha fam\u00edlia quando eu tinha 12 anos. Fiquei l\u00e1 por um ano, e foi quando comecei a me dar conta de que n\u00e3o existe apenas um mundo. Mas a \u00cdndia \u00e9 outro mundo: um submundo, uma bolha de mundo que existe em outra parte. Depois fui ao M\u00e9xico e conheci ainda outro mundo, e a\u00ed comecei a me dar conta de que todas as formas dos diferentes mundos s\u00e3o subjetivas. N\u00e3o existe uma forma de mundo que domine tudo. E tamb\u00e9m n\u00e3o existe Oriente e Ocidente. Isso \u00e9 mentira. Tenho tantas coisas em comum com um hindu como tenho com um alem\u00e3o ou um grego. Isso me serviu muito para minha vida. Depois, de 2009 para 2010, passei mais um ano l\u00e1 para estudar canto. O que mais aprendi foi a linguagem da improvisa\u00e7\u00e3o, e nos c\u00f3digos da \u00cdndia, isso quer dizer que existem formas para improvisar que podem ter longa dura\u00e7\u00e3o. O modo de viver o tempo \u00e9 diferente. Uma can\u00e7\u00e3o pode durar um minuto ou uma hora. Isso me aportou muito musicalmente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea convidou <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/RenataRosaOfficial\/\" target=\"_blank\">Renata Rosa<\/a>, outra cantora de personalidade muito forte. Por mais que o trabalho dela seja s\u00f3lido, n\u00e3o \u00e9 muito conhecido do p\u00fablico brasileiro. E voc\u00ea n\u00e3o s\u00f3 conhecia como at\u00e9 tocou uma can\u00e7\u00e3o dela \u2013 tanto com ela no palco, em S\u00e3o Paulo, como com sua banda, em Caxias do Sul. Como voc\u00eas se conectaram?<\/strong><br \/>\nUm dia, eu estava trabalhando no computador e me chegou uma mensagem da Lola, do Perota Chingo (um quarteto formado por homens e mulheres de diferentes nacionalidades), dizendo para eu escutar \u201cMorena\u201d, da Renata Rosa. Uma can\u00e7\u00e3o muito lenta, muito triste, terr\u00edvel. No mesmo dia, minha irm\u00e3 me mandou uma mensagem recomendando a mesma can\u00e7\u00e3o, dizendo \u201colha que lindo isso\u201d. No mesmo dia, de dois lugares diferentes me chega esse tesouro que \u00e9 Renata Rosa e eu come\u00e7o a ouvir e ouvir. Li o pouco que h\u00e1 sobre ela, e senti que ela \u00e9 uma mulher empoderada, poderosa, que compilou a m\u00fasica da sua regi\u00e3o e conhece os luthiers velhinhos, os velhos que tocam instrumentos. E ela tem a corporalidade, a dan\u00e7a, \u00e9 assim que ela vive a m\u00fasica. Ela me interessou muito por ser assim: investigadora, compiladora, mas tamb\u00e9m porque aborda tudo isso de uma maneira muito criativa. Podem misturar po\u00e9tica e tradi\u00e7\u00e3o, e seus m\u00fasicos n\u00e3o s\u00e3o 100% tradicionais. Nos v\u00eddeos dava para ver m\u00fasicos rastaf\u00e1ri, sei l\u00e1, havia uma simbiose \u2013 estamos falando de gente que ouviu m\u00fasica tradicional na inf\u00e2ncia, ainda ouve, mas que no mesmo dia pode ouvir Lhasa de Sela ou Bj\u00f6rk. Essa forma t\u00e3o livre de Renata Rosa ver sua m\u00fasica me conquistou, e acho que essa \u00e9 uma vis\u00e3o que eu e ela compartilhamos. Para as pessoas que s\u00e3o muito tradicionais, isso pode ser chocante. Isso aconteceu comigo no Chile. Mesmo m\u00fasicos mais ligados \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o me vieram com cobran\u00e7as: \u201cComo voc\u00ea toca esse ritmo X e usa essa roupa Y? Eles n\u00e3o andam juntos\u201d. Ou \u201cEsse \u00e9 um ritmo de celebra\u00e7\u00e3o dos mortos e voc\u00ea o usa para falar da vida\u201d. No fundo, essas regras n\u00e3o me interessam. Quero viver o folclore de forma livre, tal como ele nasce em mim. \u00c9 essa liberdade que vejo em Renata.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Conversei uma vez com um m\u00fasico de chamam\u00e9 que me disse que o pior erro que podem cometer os novos m\u00fasicos do estilo \u00e9 querer toc\u00e1-lo como ele sempre foi tocado. \u201cO que n\u00e3o evolui acaba morrendo\u201d, ele dizia. Mas muitos preferem entender o folclore como um patrim\u00f4nio imut\u00e1vel.<\/strong><br \/>\nO folclore est\u00e1 sempre ligado ao nacionalismo, e esse est\u00e1 sempre ligado \u00e0s regras, \u00e0 rigidez pol\u00edtica. E como a pol\u00edtica, ele quer se aproveitar da imagem do povo. \u00c9 um assunto delicado. Por exemplo, a cueca, que \u00e9 um ritmo tradicional da zona central do Chile, foi proclamada a dan\u00e7a oficial do pa\u00eds durante a ditadura, e por isso os trajes da dan\u00e7a passaram a ser sempre nas cores da bandeira. E no fim, o que temos que conseguir \u00e9 desmilitarizar o folclore, porque se eu quero fazer folclore n\u00e3o vou me vestir com as cores da bandeira, isso \u00e9 uma estupidez. E as pessoas do campo que fazem o folclore n\u00e3o nasceram vestindo-se de branco, azul e vermelho. Quem vai tocar a cueca que se vista da forma que quiser! Por um tempo fui aluna de Margot Loyola (nota: compositora, m\u00fasica e pesquisadora do folclore chileno), e ela dizia que tinha que se reconhecer o hip hop como folclore chileno. Ela morreu no ano passado, bem velhinha j\u00e1 (nota: faleceu prestes a completar 97 anos), ent\u00e3o as pessoas diziam que ela estava louca por causa da idade (risos). Mas essa \u00e9 a coisa mais l\u00facida! Porque essa \u00e9 a poesia mais vigente. O hip hop \u00e9 o que est\u00e1 contando como \u00e9 a vida no Chile de hoje, que est\u00e1 na rua, que tem essa po\u00e9tica do cotidiano. Ent\u00e3o obviamente pode ser folclore chileno, por que n\u00e3o?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Claro. O folclore \u00e9 a m\u00fasica que se comunica com as pessoas. \u00c9 da\u00ed que vem o \u201cfolk\u201d da express\u00e3o, afinal. Mudando um pouco o assunto: eu estive no Chile duas vezes, e foi uma dificuldade brutal encontrar discos \u00e0 venda. Loja de disco mesmo, n\u00e3o encontrei nenhuma! Em uma ou outra livraria havia CDs, e s\u00f3. E isso em grandes cidades. As pessoas j\u00e1 nem sabiam se existiam lojas assim ou n\u00e3o.<\/strong><br \/>\nO formato f\u00edsico j\u00e1 n\u00e3o faz diferen\u00e7a aqui.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Certo. E para voc\u00ea, uma artista com tantos discos, qual \u00e9 o sentido de continuar lan\u00e7ando um \u00e1lbum? O lado art\u00edstico \u00e9 compreens\u00edvel, claro, todos j\u00e1 sabemos. Mas um artista precisa sobreviver. E se as pessoas n\u00e3o compram um disco \u2013 um produto nada barato para fazer \u2013 qual \u00e9 a raz\u00e3o de continuar editando-os?<\/strong><br \/>\n\u00c9 um fardo. Eu tenho seis discos editados. Ou melhor, publicados, porque n\u00e3o est\u00e3o todos em cat\u00e1logo. Uma noite dessas, eu me peguei pensando no que teria que fazer para reeditar todos, porque n\u00e3o posso pagar a reedi\u00e7\u00e3o dos seis. E selo algum ir\u00e1 reedit\u00e1-los, porque aqui n\u00e3o se faz isso. Al\u00e9m disso, j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 mais lojas de distribui\u00e7\u00e3o nacional por aqui, acabaram todas. Como voc\u00ea disse, sou muito visual, por isso o f\u00edsico me encanta. Por outro lado a cultura de internet \u00e9 massiva no mundo, mas n\u00e3o \u00e9 tudo. No Chile, pelo menos, existem pessoas que simplesmente n\u00e3o t\u00eam acesso \u00e0 m\u00fasica pela internet, principalmente no universo mais popular chileno. Nesses lugares, a compra de um disco \u00e9 uma oportunidade de educa\u00e7\u00e3o. Estamos vivendo uma crise de educa\u00e7\u00e3o no pa\u00eds. Ent\u00e3o eu prefiro ter um disco f\u00edsico, que possa chegar a essas pessoas. Se ficamos s\u00f3 com a internet, ok, mas assim a m\u00fasica chega apenas a quem j\u00e1 tem certo n\u00edvel de educa\u00e7\u00e3o. Ou veja o caso dos mais velhos, que s\u00f3 escutam discos f\u00edsicos. Se a m\u00fasica do dia a dia n\u00e3o virar CD ou vinil ou cassete, eles v\u00e3o continuar ouvindo m\u00fasicas feitas at\u00e9 os anos 90 e s\u00f3. Ent\u00e3o a mim me interessa estar conectado com todo tipo de pessoa, e n\u00e3o s\u00f3 conectada com a web. E h\u00e1 outra diferen\u00e7a: a m\u00fasica que vem pela internet \u00e9 geralmente escutada com fones de ouvido, em um espa\u00e7o \u00edntimo. A m\u00fasica f\u00edsica \u00e9 um espa\u00e7o familiar, ressoa pela sala, \u00e9 compartilhada em uma festa. Por isso luto para ter discos.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><object width=\"600\" height=\"340\" classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/W1Grj3_qdZI\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/W1Grj3_qdZI\" \/><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><object width=\"600\" height=\"340\" classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/4l8lwIw4dQk\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/4l8lwIw4dQk\" \/><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><object width=\"600\" height=\"340\" classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/THQhTfSgmfA\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/THQhTfSgmfA\" \/><\/object><\/p>\n<p>\u2013 Leonardo Vinhas (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/#%21\/leovinhas\" target=\"_blank\">@leovinhas<\/a>) assina a se\u00e7\u00e3o Conex\u00e3o Latina (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/tag\/conexao_latina\/\">aqui<\/a>) no Scream &amp; Yell.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/category\/musica\/\">MAIS SOBRE M\u00daSICA, ENTREVISTAS E REVIEWS NO SCREAM &amp; YELL<\/a><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Vencedora do Pr\u00eamio Pulsar 2016 (o mais importante do Chile) de Melhor Cantora e Compositora, conhe\u00e7a Pascuala Ilabaca \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2016\/07\/27\/conexao-latina-pascuala-ilabaca\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":6,"featured_media":39689,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[45,955],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/38993"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=38993"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/38993\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":39690,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/38993\/revisions\/39690"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/39689"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=38993"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=38993"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=38993"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}