{"id":38725,"date":"2016-07-08T23:23:22","date_gmt":"2016-07-09T02:23:22","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=38725"},"modified":"2018-08-02T10:13:43","modified_gmt":"2018-08-02T13:13:43","slug":"entrevista-bixiga-70","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2016\/07\/08\/entrevista-bixiga-70\/","title":{"rendered":"Entrevista: Bixiga 70"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por <a href=\"https:\/\/twitter.com\/leovinhas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Leonardo Vinhas<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cGroove\u201d \u00e9 uma palavra que pode ser entendida de muitas formas: padr\u00e3o sonoro, for\u00e7a da natureza, convite \u00e0 dan\u00e7a. \u201cTranse\u201d entra quase nas mesmas categorias. E, n\u00e3o raro, ambas s\u00e3o equ\u00edvocos de vocabul\u00e1rio, palavras mal usadas e mal entendidas. Sem usar o verbo, a banda Bixiga 70 une ambos os signos sem dar margem para compreens\u00f5es equivocadas: seu groove leva ao transe, simples assim. A reboque, ainda trazem um discurso pol\u00edtico e social que \u00e9 t\u00e3o incisivo quanto sua musicalidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A identidade art\u00edstica do Bixiga 70 \u00e9 moldada por fatores geogr\u00e1ficos e humanos, como conta o baterista D\u00e9cio 7 nessa entrevista ao Scream &amp; Yell. Por\u00e9m, a numerosa agrupa\u00e7\u00e3o (10 m\u00fasicos) tem como consenso a miss\u00e3o de levar os ouvintes a outros estados de consci\u00eancia. E \u00e9 o sucesso no cumprimento dessa meta que faz do Bixiga 70 uma das bandas mais relevantes do cen\u00e1rio independente dos \u00faltimos 10 anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Instrumental, auto-gerida e com influ\u00eancias distantes do mainstream, o combo paulista conseguiu manter-se fiel \u00e0 sua proposta sem comprometer o meio de vida de seus integrantes ou a dignidade de suas premissas art\u00edsticas. N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 clich\u00ea. A presen\u00e7a da banda no tradicional festival de Glastonbury, na Inglaterra, neste 2016, n\u00e3o foi mera casualidade, como tamb\u00e9m n\u00e3o o foi eles terem dividido palco com Tony Allen, baterista lend\u00e1rio que tocou com Fela Kuti, justamente em um Fela Day. Tudo \u00e9 resultado de uma estrat\u00e9gia consciente e de um trabalho orientado para esse fim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O novo \u00e1lbum, primeiro a n\u00e3o ser titulado de forma sequencial, \u00e9 \u201c<a href=\"http:\/\/www.bixiga70.com.br\/#!copan-connection\/x4wmi\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">The Copan Connection<\/a>\u201d. Nele, o parceiro de longa data Victor Rice (norte-americano radicado no Brasil, ex-integrante das bandas The Scofflwas e Easy Star All-Stars) transforma faixas das tr\u00eas placas anteriores em dub, numa ponte que liga Jamaica, \u00c1frica, Pernambuco e muitas outras localidades. Poucos dias antes de embarcar para Glastonbury (onde, contagiado, o p\u00fablico brit\u00e2nico fez festa e at\u00e9 trenzinho no show), o baterista D\u00e9cio 7 explicou a g\u00eanese desse novo rebento e discorreu sobre as implica\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e espirituais da sua m\u00fasica.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/du4FMt8og2Y?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mesmo que associado ao afrobeat, o Bixiga 70 incorpora muitas outras influ\u00eancias, como a m\u00fasica da tradi\u00e7\u00e3o religiosa afro-brasileira, o funk setentista&#8230; Queria saber se, na percep\u00e7\u00e3o de voc\u00eas, o dub dialoga com essa base de refer\u00eancias ou se ele entrou mais como uma vontade de experimentar algo novo.<\/strong><br \/>\nVou te explicar um pouco da nossa origem, porque eu e o Cristiano Scabello somos os dois s\u00f3cios-fundadores do Est\u00fadio Traquitana, que tem muito a ver n\u00e3o s\u00f3 com o nome da banda, mas com o trabalho que a gente desenvolve. E u e o Cris tocamos juntos h\u00e1 16 anos. T\u00ednhamos uma banda de reggae chamada Afetos, que come\u00e7ou no col\u00e9gio e foi se profissionalizando, participou bastante do circuito reggae de S\u00e3o Paulo e do Brasil. Os cantores sa\u00edram mais tarde, e a gente foi se encaminhando naturalmente para um som instrumental. Foi quando a gente come\u00e7ou a tocar num lugar chamado Susi em Transe, aqui em S\u00e3o Paulo, na rua Vit\u00f3ria. O lugar tinha a festa Dubvers\u00e3o Sound System. Ent\u00e3o o dub faz parte da nossa forma\u00e7\u00e3o musical de raiz. Temos uma banda, o Rockers Control, que trabalha h\u00e1 uns 12 anos com essa linguagem. A nossa liga\u00e7\u00e3o com o Victor veio a partir da\u00ed. \u00c9 a continuidade de um trabalho que j\u00e1 faz\u00edamos com o Rockers Control.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ter batizado o disco de \u201cThe Copan Connection\u201d tem 110% a ver com o Victor, imagino, j\u00e1 que ele, mesmo sendo norte-americano, \u00e9 sin\u00f4nimo de dub no Brasil.<\/strong><br \/>\nCom certeza. E olha, nosso est\u00fadio fica no Bixiga. O MZK, que faz nossas artes, mora naquele edif\u00edcio grand\u00e3o que tem no fim da (Avenida) Rio Branco (no centro de S\u00e3o Paulo). A gente brinca que faz o nosso disco inteiro naquele tri\u00e2ngulo Bixiga-Copan-Rio Branco. A janela da sala do MZK d\u00e1 para a janela do Victor (risos). A gente brinca que tem um tri\u00e2ngulo onde fazemos nossos discos, da\u00ed \u201cThe Copan Connection\u201d. E desde o primeiro disco que a gente desenvolve esse trabalho. Desde nosso primeiro vinil, quando lan\u00e7amos o compacto \u201cTema de Malaika\u201d, temos esse h\u00e1bito de zerar os faders e fazer o remix, a vers\u00e3o dub. Foi bem natural, org\u00e2nico. A gente nem pensava: \u201cNossa, vamos lan\u00e7ar os dubs\u201d. Mas pensei em lan\u00e7ar um compacto como se fazia na Jamaica: a can\u00e7\u00e3o original e o dub de outro lado. O segundo disco a gente fez pelo [selo norte-americano] Names You Can Trust, que lan\u00e7ou \u201cOcupai\u201d e \u201cKalimba\u201d, duas faixas do segundo disco que foram como tinham sa\u00eddo mesmo. A\u00ed nem sa\u00edram dubs. Mas eu tinha lan\u00e7ado a ideia dos dubs pro Chris Eckman (ex-The Walkabouts), do selo alem\u00e3o Glitter Beat, que est\u00e1 sendo o grande respons\u00e1vel pela divulga\u00e7\u00e3o do nosso terceiro \u00e1lbum pela Europa. O Chris se empolgou muito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bem, voc\u00ea citou a Alemanha, e isso d\u00e1 brecha para falarmos da carreira internacional do Bixiga 70, que \u00e9 bastante movimentada. Chama a aten\u00e7\u00e3o porque isso vai na contram\u00e3o do que diz a enorme maioria dos produtores e palestrantes de festivais e encontros pelo pa\u00eds. O papo sempre \u00e9: \u201cTenham um formato enxuto, que facilite viagens\u201d; \u201cDupla \u00e9 o melhor formato, pois economiza at\u00e9 em quarto de hotel\u201d. E voc\u00eas s\u00e3o uma agremia\u00e7\u00e3o de 10 m\u00fasicos, que faz um som sem letras. A m\u00fasica instrumental no Brasil tem uma longa tradi\u00e7\u00e3o que remonta at\u00e9 \u00e0s orquestras do r\u00e1dio, nos anos 1940, mas mesmo assim n\u00e3o \u00e9 preciso ser estudioso para saber que os instrumentais sumiram do mainstream nacional e estrangeiro h\u00e1 tempos. A que voc\u00ea atribui o fato de que essa realidade totalmente at\u00edpica do Bixiga 70, que contradiz esses ditames mesmo do mercado \u201calternativo\u201d, esteja dando t\u00e3o certo?<\/strong><br \/>\n\u00c9 at\u00e9 engra\u00e7ado, porque tem uma frase do Marcelo Dworecki, baixista da banda, que diz que o Bixiga 70 \u00e9 a festa do improv\u00e1vel (risos). Acho que d\u00e1 at\u00e9 uma resumida t\u00e9cnica dessa an\u00e1lise que voc\u00ea fez, e que eu nunca tinha visto ningu\u00e9m fazer uma an\u00e1lise completa do ponto de vista art\u00edstico e mercadol\u00f3gico assim (risos), mas a gente reflete sobre isso \u00e0s vezes. Sou muito envolvido com o processo j\u00e1 desde dentro, n\u00e3o sei me distanciar tanto para olhar de fora, mas acho que a chave do nosso trabalho \u00e9 o trabalho (risos). O trabalho constante, disciplinado. Desde o come\u00e7o da banda a gente tem objetivos claros, criou metas. Todos t\u00eam uma carreira musical de 15 anos ou mais, j\u00e1 criou uma hist\u00f3ria na m\u00fasica independente. Acho que a gente adquiriu um conhecimento para saber tudo o que dava errado, tudo o que a gente n\u00e3o queria fazer mesmo n\u00e3o tendo uma clareza de qual caminho seguir. J\u00e1 tem uma parte que \u00e9 uma sorte mesmo, de reunir um grupo de pessoas t\u00e3o especiais e talentosas que se prop\u00f4s a fazer um trabalho coletivo num momento em que o mundo est\u00e1 com uma tend\u00eancia mais individualista. Acho que o ponto-chave da hist\u00f3ria \u00e9 o bairro do Bixiga, o nosso est\u00fadio Traquitana, que foi onde a banda nasceu e \u00e9 onde a gente desenvolve nossos projetos. Acho que isso contribui muito para essa receita, para a gente conseguir organizar melhor nosso trabalho. Mas acredito muito na for\u00e7a da m\u00fasica mesmo. Existe sim a estrat\u00e9gia de mercado, a gente procura fazer as coisas de forma sincronizada, a gente tem a autogest\u00e3o que faz uma diferen\u00e7a. N\u00e3o temos feito muito isso, mas a gente costumava se reunir uma vez por semana para cuidar de fun\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas e burocr\u00e1ticas da banda. N\u00e3o \u00e9 todo mundo que tem essa dupla fun\u00e7\u00e3o, mas metade da banda sim. Tivemos a sorte de ter a resposta do p\u00fablico. \u00c9 isso que alimenta o artista. A gente vai jogando o trabalho pro mundo e aquilo vai retornando, alimentando essa cadeia. A gente \u00e9 muito feliz de conseguir viver essa realidade que, como voc\u00ea disse, tinha tudo para dar errado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quando o primeiro disco de voc\u00eas saiu, ele chegou at\u00e9 mim de v\u00e1rias formas diferentes: por amigos, por agenda de shows constante, por mat\u00e9rias nos mais variados tipos de ve\u00edculos. Ent\u00e3o imagino que o \u00e1lbum de estreia teve um peso grande para voc\u00eas, al\u00e9m de ser uma prova de que voc\u00eas j\u00e1 tinham mesmo essa organiza\u00e7\u00e3o de trabalho, essa estrat\u00e9gia.<\/strong><br \/>\nEssa coisa do primeiro disco \u00e9 importante para o artista se estabelecer e mostrar seu trabalho. Acho que a gente teve essa sorte. Isso que voc\u00ea falou de chegarmos por v\u00e1rios lados \u00e9 a for\u00e7a do trabalho em si, a disciplina e o trabalho&#8230; A gente gravou o primeiro disco, a banda tinha seis meses! O processo era muito cru. Por todo mundo ali trabalhar com \u00e1udio, ter v\u00e1rios produtores dentro da banda, gravamos o disco rapidamente. Mas n\u00e3o t\u00ednhamos no\u00e7\u00e3o da repercuss\u00e3o que o disco teria. Foi muito legal o disco foi chegando muito r\u00e1pido, foi agradando. Desde agosto de 2010, a gente ensaia uma vez por semana, toda semana. Em determinados per\u00edodos, chegam a ser tr\u00eas ou quatro. A gente trabalha bastante. E dentro desse contexto, \u00e9 legal fazer um disco pelo qual voc\u00ea \u00e9 reconhecido. Mas \u00e9 a primeira p\u00e1gina. Para depois voc\u00ea seguir desenvolvendo um caminho art\u00edstico que valha a pena ser acompanhado e vivido, o trabalho aumenta.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/2u1B2Gr1uW8?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O convite para o Glastonbury \u00e9 consequ\u00eancia desse trabalho? Foi algo que voc\u00eas buscaram conscientemente?<\/strong><br \/>\nA coisa do Glastonbury veio especificamente na Semana Internacional da M\u00fasica, em S\u00e3o Paulo (A SIM S\u00e3o Paulo). Fizemos um show case de 20 minutos e o curador desse palco no qual a gente vai tocar ouviu e gostou. J\u00e1 tinha ouvido falar da gente, porque a gente j\u00e1 tem uma carreira internacional que est\u00e1 muito ligada a feiras, coisas assim. A gente foi tocar no Porto Musical, em Recife, 2012, e foi convidado pelo Peter Hvalkof, curador do Roskilde, (para tocar) na Dinamarca. A gente estava num momento de transi\u00e7\u00e3o, de gerenciamento, foi uma loucura. Com pouca grana, e viajar para tocar num festival? \u201cVamos comprar uma passagem no cart\u00e3o de cr\u00e9dito para mostrar nossa m\u00fasica pro mundo\u201d. E deu certo! A gente come\u00e7ou a percorrer esses caminhos: tocou no SIM, no Porto Musical, foi tocar no Global Fest, dos EUA, em janeiro do ano passado, e \u00e9 o mesmo esquema: com nossos recursos, guardando dinheiro de disco&#8230; A gente investe bastante nesse mercado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mesmo sem usar palavras no som, o Bixiga 70 tem uma declara\u00e7\u00e3o pol\u00edtica clara. H\u00e1 um estilo de vida associado, h\u00e1 a proposta de quebra de preconceitos, a presen\u00e7a em eventos que tenham um car\u00e1ter mais combativo. O pr\u00f3prio nome da banda j\u00e1 \u00e9 uma declara\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, por j\u00e1 trazer tanto uma carta de apresenta\u00e7\u00e3o est\u00e9tica como um conceito geogr\u00e1fico e temporal. O quanto isso \u00e9 importante na percep\u00e7\u00e3o das pessoas \u2013 ou melhor, o quanto voc\u00eas querem que as pessoas percebam isso?<\/strong><br \/>\nFalando assim, de uma postura pol\u00edtica, n\u00f3s consideramos que trabalhar especificamente com a arte, fazendo aquilo que a gente acredita da forma que a gente acredita, com as ferramentas que n\u00f3s temos, criando nosso meio art\u00edstico&#8230; essa cultura do fa\u00e7a-voc\u00ea-mesmo que a gente tem como forma\u00e7\u00e3o de base da m\u00fasica j\u00e1 \u00e9 uma posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica perante a sociedade, ao mundo, aos pol\u00edticos. E perante a vida. Porque sobreviver de arte j\u00e1 \u00e9 um desafio. Levando em considera\u00e7\u00e3o todo o sistema s\u00f3cio-econ\u00f4mico-pol\u00edtico do pa\u00eds, acho que a pessoa se dispor a viver somente disso, eu encaro como uma postura pol\u00edtica. A gente se coloca referente a quest\u00f5es pol\u00edticas, sociais, de racismo, de machismo, de desigualdade, porque pra gente isso \u00e9 necess\u00e1rio como seres humanos, e acho que pra quem trabalha com arte de uma forma verdadeira \u00e9 dif\u00edcil dissociar a vida pessoal da art\u00edstica. A gente acha mais que uma obriga\u00e7\u00e3o se colocar em quest\u00f5es de interesse coletivo onde a maioria pode se beneficiar. Falar sobre o bairro, sobre o Centro De S\u00e3o Paulo, que \u00e9 um lugar que foi esquecido e abandonado, que teve sua \u00e9poca de glamour e foi sendo depreciado pela especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria e pela gentrifica\u00e7\u00e3o, \u00e9 uma obriga\u00e7\u00e3o nossa, por carregarmos o nome do bairro na banda. Por ser um bairro em que as pessoas se conhecem, est\u00e3o na rua, se cumprimentam enquanto caminham&#8230; de forma geral (acontece o contr\u00e1rio), \u00e9 se fechar, se proteger, fechar escolas, levantar pres\u00eddio, morar num condom\u00ednio cheio de contas pra pagar&#8230; Acho que a gente faz um discurso do que a gente acredita de fato.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Na Virada Cultural deste ano houve muitas pessoas que se manifestaram politicamente, inclusive com mais eloqu\u00eancia do que apenas gritando \u201cFora, Temer\u201d. O p\u00fablico do show de voc\u00eas, ali\u00e1s, foi um dos que manifestou mais intensamente esse comportamento. Na percep\u00e7\u00e3o de voc\u00eas, esse tipo de atitude ainda \u00e9 um foco isolado, pertinente a um grupo muito pequeno de pessoas, ou j\u00e1 se nota alguma mudan\u00e7a de fato na atitude pol\u00edtica das pessoas, especialmente as mais jovens?<\/strong><br \/>\nEst\u00e1 mais que claro pra todo mundo que tem um m\u00ednimo de percep\u00e7\u00e3o e n\u00e3o est\u00e1 t\u00e3o sujeito \u00e0s informa\u00e7\u00f5es da m\u00eddia&#8230; Parece que a gente vive um momento cr\u00edtico de intoler\u00e2ncia mundial. A gente teve essa sensa\u00e7\u00e3o na Europa h\u00e1 uns dois anos atr\u00e1s, quando a extrema direita ficou mais forte. Existem v\u00e1rios movimentos de repress\u00e3o em atividade no mundo, e isso \u00e9 preocupante. Teoricamente era para a civiliza\u00e7\u00e3o estar evoluindo (risos). \u00c9 um momento em que as pessoas est\u00e3o parando para refletir sobre tudo que est\u00e1 acontecendo. Particularmente fiquei perplexo com o que est\u00e1 acontecendo no Brasil, acho que todos devem estar. Depois de voc\u00ea ver anos de um governo trabalhando para o povo, mesmo que com v\u00e1rios defeitos, e ter uma presidenta eleita pelo povo ser destitu\u00edda dessa forma por pessoas altamente question\u00e1veis, acredito que isso faz parte de um processo de aliena\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o. Da contrainforma\u00e7\u00e3o, na verdade. Mesmo com todas as pessoas podendo expressar seu ponto de vista nas m\u00eddias sociais, existe, de certa forma, muita manipula\u00e7\u00e3o na informa\u00e7\u00e3o. E certas pessoas n\u00e3o desenvolveram o h\u00e1bito do questionamento. N\u00e3o do questionamento negativo, mas de entender o processo das coisas que est\u00e3o acontecendo. A isso se soma um individualismo muito grande, que \u00e9 parte desse momento do mundo tamb\u00e9m. As pessoas se preocupam demais com o que vai afetar diretamente a vida delas individualmente. Chegar\u00e1 um momento em que isso vai ter que mudar, nem que seja pelas condi\u00e7\u00f5es de sa\u00fade do planeta. As pessoas v\u00e3o ter que se unir mais em torno de um objetivo comum.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Por tudo o que n\u00f3s falamos at\u00e9 aqui, fica claro que voc\u00eas t\u00eam uma vis\u00e3o da m\u00fasica como arte, e n\u00e3o apenas entretenimento. Claro que voc\u00ea pode se entreter com ela, mas h\u00e1 essa preocupa\u00e7\u00e3o com outros papeis que ela pode exercer. J\u00e1 vi muitos shows de voc\u00eas, presenciei algumas situa\u00e7\u00f5es de espectadores estarem se entregando totalmente ao momento, uma esp\u00e9cie de transe mesmo&#8230;<\/strong><br \/>\nSim. A gente j\u00e1 teve diversos relatos incr\u00edveis. De eu estar saindo de um show e uma pessoa parar pra me falar: \u201cP\u00f4, esse show me lavou a alma\u201d, \u201cEstava passando por um momento dif\u00edcil e esse show melhorou minha vida\u201d&#8230; Quando a pessoa consegue se libertar f\u00edsica e espiritualmente e sair das coisas que afetam o dia a dia, isso faz muito bem, e nossa m\u00fasica tem esse objetivo mesmo. \u00c9 uma coisa trabalhada conscientemente desde o in\u00edcio da banda. A gente tem dois percussionistas ogans na banda, o pr\u00f3prio Cris Scabello e o R\u00f4mulo Nardes. Eu j\u00e1 toquei em diversas festas em terreiro, mas n\u00e3o tenho uma liga\u00e7\u00e3o religiosa. Mas nossa cultura musical tem uma base muito forte na m\u00fasica nag\u00f4, do candombl\u00e9 de Pernambuco. O Eder \u201cO\u201d Rocha, que era do Mestre Ambr\u00f3sio, \u00e9 um cara muito importante nessa forma\u00e7\u00e3o nossa. Ele \u00e9 um mestre mesmo: eu, o Cris e v\u00e1rios amigos em comum estudamos com ele. A gente sempre teve, tanto atrav\u00e9s do terreiro como do reggae e do dub, muita liga\u00e7\u00e3o com a m\u00fasica m\u00e2ntrica, que te leva a um estado de concentra\u00e7\u00e3o, um estado alterado de consci\u00eancia, ao \u00eaxtase. Quando a gente montou a orquestra e come\u00e7ou a trabalhar essas coisas, t\u00ednhamos a inten\u00e7\u00e3o de alegrar o povo. A gente usa muito essa express\u00e3o, \u201calegrar o povo\u201d, e n\u00e3o \u00e9 de uma forma banal. \u00c9 trazer energia, trazer a alegria de a pessoa poder movimentar o corpo e dan\u00e7ar, viver o momento de uma forma diferente. Por isso sempre o tambor esteve presente nas tradi\u00e7\u00f5es ritual\u00edsticas. Ele \u00e9 uma ferramenta do transe. Sem d\u00favida foi por isso que a Igreja Cat\u00f3lica o tirou dos ritos. E a gente est\u00e1 tendo um desdobramento dessa percep\u00e7\u00e3o: o Rubens Crispim, que \u00e9 um cara que fez um minidoc sobre a gente l\u00e1 em Nova Iorque, foi chamado para filmar os nossos shows no SESC Pompeia do lan\u00e7amento do nosso terceiro disco. L\u00e1 ele conheceu o Milton Leal, um produtor executivo e jornalista que entrou num transe absoluto com nossa m\u00fasica. E eles come\u00e7aram a conversar sobre a ideia de fazer um filme que contasse a hist\u00f3ria da banda atrav\u00e9s desse transe. Eles abra\u00e7aram a ideia, e foram com a gente para os Estados Unidos, acompanharam nossos shows por l\u00e1, e tamb\u00e9m outros shows no Rio e em S\u00e3o Paulo. O filme vai se chamar \u201cSegue o Baile\u201d, com esse vi\u00e9s do transe atrav\u00e9s da m\u00fasica.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/QB1rvnTVt0c?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>\u2013 Leonardo Vinhas (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/#%21\/leovinhas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@leovinhas<\/a>) assina a se\u00e7\u00e3o Conex\u00e3o Latina (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/tag\/conexao_latina\/\">aqui<\/a>) no Scream &amp; Yell.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/category\/musica\/\">MAIS SOBRE M\u00daSICA, ENTREVISTAS E REVIEWS NO SCREAM &amp; YELL<\/a><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"A identidade art\u00edstica do Bixiga 70 \u00e9 moldada por fatores geogr\u00e1ficos e humanos, como conta o baterista D\u00e9cio 7\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2016\/07\/08\/entrevista-bixiga-70\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":6,"featured_media":48321,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[2073],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/38725"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=38725"}],"version-history":[{"count":9,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/38725\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":48324,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/38725\/revisions\/48324"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/48321"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=38725"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=38725"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=38725"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}