{"id":38382,"date":"2016-05-31T07:50:15","date_gmt":"2016-05-31T10:50:15","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=38382"},"modified":"2016-09-10T09:49:13","modified_gmt":"2016-09-10T12:49:13","slug":"entrevista-ugo-giorgetti","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2016\/05\/31\/entrevista-ugo-giorgetti\/","title":{"rendered":"Entrevista: Ugo Giorgetti"},"content":{"rendered":"<h3 style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/ugo1.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"401\" \/><\/h3>\n<h3 style=\"text-align: center;\"><strong>por <a href=\"https:\/\/twitter.com\/leovinhas\" target=\"_blank\">Leonardo Vinhas<\/a><\/strong><\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esque\u00e7a a hist\u00f3ria de que Ugo Giorgetti faz filmes sobre S\u00e3o Paulo. O cineasta, paulistano de nascen\u00e7a, usa bastante a cidade como pano de fundo, mas conta hist\u00f3rias sobre pessoas \u2013 e comportamentos, os mais assustadoramente comuns. \u201c<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/umanoiteemsampa\/\" target=\"_blank\">Uma Noite em Sampa<\/a>\u201d, seu filme mais recente, traz o apelido da capital paulista j\u00e1 no t\u00edtulo, mas \u00e9 um filme sobre o \u201cmedo paralisante\u201d \u2013 da viol\u00eancia, do diferente, e tamb\u00e9m o medo alimentado midiaticamente em notici\u00e1rios sadomasoquistas. E \u00e9 uma com\u00e9dia, quase inocente em sua simplicidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em \u201cUma Noite em Sampa\u201d, um grupo de pessoas vem do interior (Vinhedo, sugere um personagem) para uma noite com \u201cteatro e jantar\u201d, o clich\u00ea do \u201cprograma cultural\u201d da classe m\u00e9dia. Ap\u00f3s a pe\u00e7a, o grupo n\u00e3o consegue entrar no \u00f4nibus: o motorista desapareceu, e celulares e outros gadgets ficaram todos trancados no ve\u00edculo. Conforme as horas avan\u00e7am, pessoas se apresentam em cenas t\u00edpicas da madrugada \u2013 dois p\u00e9-rapados fumam um baseado, um homem passeia com o cachorro, mendigos se deitam \u2013 e nada parece tirar os turistas de seu estado de medo e letargia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sob algumas camadas de civilidade, os personagens de Ugo Giorgetti ocultam camadas de preconceito, tolice e inconsist\u00eancias. A encena\u00e7\u00e3o teatral, com direito a manequins contracenando com os atores (calma, isso far\u00e1 sentido no momento certo), e a quase aus\u00eancia de cen\u00e1rio, d\u00e3o um aspecto algo \u201cbizarro\u201d (defini\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio diretor) que pode n\u00e3o agradar a todos os espectadores. Mas n\u00e3o d\u00e1 para negar que Giorgetti entregou, mais uma vez, um filme provocante, e que, quanto mais se pensa a respeito, mais cativante se mostra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em seu modesto escrit\u00f3rio na Vila Madalena, que serve at\u00e9 de sala de ensaio para seus filmes, o diretor recebeu o Scream &amp; Yell para falar sobre seu mais recente lan\u00e7amento. Evidentemente que uma conversa com um dos diretores brasileiros mais apaixonados pelo cinema n\u00e3o ficaria s\u00f3 nisso. Teve espa\u00e7o para falar sobre os temas de seu filme, a experi\u00eancia cinematogr\u00e1fica, e o p\u00e9ssimo h\u00e1bito de fazer cinema \u201cno amor\u201d \u2013 isso \u00e9, sem remunerar adequadamente (ou de forma alguma) os profissionais envolvidos. E fica o aviso: alguns spoilers do filme est\u00e3o insinuados em uma ou outra pergunta.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><object width=\"600\" height=\"340\" classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/ujtMxLFD3sM\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/ujtMxLFD3sM\" \/><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Tanto \u201cUma Noite em Sampa\u201d (2016) como \u201cCidade Imagin\u00e1ria\u201d (2014) tem em comum o espa\u00e7o de tempo: ambos se passam na madrugada, com os personagens trocando suas impress\u00f5es e expectativas sobre S\u00e3o Paulo. Ainda que sejam expectativas diferentes&#8230;<\/strong><br \/>\n(interrompendo) Foi coincid\u00eancia total. Nunca tinha pensado nisso. Claro que o tema da espera se d\u00e1 nos dois. Mas isso n\u00e3o tinha me ocorrido. N\u00e3o houve inten\u00e7\u00e3o, n\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>De qualquer maneira, s\u00e3o expectativas diferentes. Os de \u201cCidade Imagin\u00e1ria\u201d n\u00e3o conhecem a cidade, e em \u201cUma Noite em Sampa\u201d \u00e9 dado a entender que todos, ou ao menos a maioria deles, em algum momento morou em S\u00e3o Paulo e fugiu da cidade. O que voc\u00ea acha que a cidade provoca nas pessoas? Por que seus personagens de \u201cUma Noite em Sampa\u201d, mesmo tendo conhecido a cidade, t\u00eam tanto medo do que ela pode oferecer?<\/strong><br \/>\nFrancamente, eu acho que existe esse medo disseminado, geral. H\u00e1 pessoas que saem muito pouco de casa \u00e0 noite. Voc\u00ea v\u00ea isso pelos muros, pelas grades, pelos port\u00f5es altos, pelos cachorros, voc\u00ea passa pela frente do pr\u00e9dio e ilumina um treco&#8230; Existe uma paranoia. Eu conhe\u00e7o pessoas que procuram n\u00e3o sair de casa, meu pr\u00e9dio tem gente assim. Evidentemente, \u00e9 uma cidade hostil. Nesse caso, tamb\u00e9m se aproxima do \u201cCidade Imagin\u00e1ria\u201d, porque eles [personagens] inventam uma cidade que n\u00e3o h\u00e1. Nesse caso, eles ficam esperando uma viol\u00eancia que n\u00e3o se d\u00e1. Mas podia se dar, claro. Nesse caso, era muito pouco prov\u00e1vel que se desse, visto que est\u00e3o em grupo. Mas voc\u00ea tem que partir do princ\u00edpio que s\u00e3o personagens que deixaram S\u00e3o Paulo, por isso s\u00e3o mais paranoicos ainda. Algu\u00e9m fala: \u201cN\u00f3s fomos por uma qualidade de vida, seguran\u00e7a etc\u201d. As pessoas se agrupam em torno disso. Mas a\u00ed tem um medo que paralisa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>N\u00e3o deixa de ser interessante notar que esses \u201cap\u00f3statas\u201d da metr\u00f3pole v\u00e3o parar em condom\u00ednios em busca de maior qualidade de vida e que eles acabam se isolando nesses lugares, em vez de se integrar. \u00c9 o caso desses grandes condom\u00ednios de casas, com muitas \u00e1reas de conviv\u00eancia que ningu\u00e9m frequenta, ou pr\u00e9dios de classe m\u00e9dia alta que t\u00eam todas as \u00e1reas de conviv\u00eancia poss\u00edveis mais que s\u00e3o usadas sempre pela mesma meia d\u00fazia de moradores.<\/strong><br \/>\nN\u00e3o sei. \u00c9 poss\u00edvel, \u00e9 poss\u00edvel. N\u00e3o frequento condom\u00ednios fora, n\u00e3o sei se as pessoas se comunicam ou n\u00e3o. Existe uma identidade de classe, essa que \u00e9 a verdade. Podem n\u00e3o ser os mesmos gostos pessoais, mas existe uma homogeneidade dentro de classes sociais, sem d\u00favida nenhuma. Voc\u00ea tem alguns elementos que s\u00e3o comuns a todas essas pessoas: o temor do desconhecido, a exclus\u00e3o do outro que ela n\u00e3o conhece, a amea\u00e7a que uma pessoa que n\u00e3o est\u00e1 estritamente dentro das regras pode suscitar&#8230; E \u00e0s vezes o cara faz parte do meio social deles tanto quanto eles pr\u00f3prios, mas o comportamento fora das regras repele. Ent\u00e3o o filme retrata mais do que o medo que paralisa, ele tamb\u00e9m investiga o comportamento que exclui o outro, o diferente, o desconhecido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Imagino que seja exatamente por isso que a \u00fanica personagem do grupo que interage com os outros \u00e9 a senhora cega&#8230;<\/strong><br \/>\nExatamente&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>&#8230;n\u00e3o s\u00f3 porque ela n\u00e3o v\u00ea, mas tamb\u00e9m pelo fato de que a idade dela a coloca em situa\u00e7\u00e3o de lembrar de uma S\u00e3o Paulo diferente.<\/strong><br \/>\nExatamente, exatamente. Essas pessoas s\u00e3o t\u00e3o imunes a se relacionarem com outras que uma cena que mais gostei de ter feito foi uma das finais, em que os lixeiros passam pelo local onde o grupo est\u00e1. Eles est\u00e3o ali trabalhando, e s\u00e3o um aux\u00edlio como outro qualquer. Poderiam simplesmente ter se aproximado da boleia e falado com eles, mas isso n\u00e3o ocorre a ningu\u00e9m. Eles s\u00e3o invis\u00edveis. Os lixeiros passam por l\u00e1, e ningu\u00e9m sequer olha para eles. E essa mulher cega ela faz parte de uma outra cidade que n\u00e3o \u00e9 essa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Num primeiro momento, tive dificuldade de entrar no esp\u00edrito do filme, porque morei anos na Bela Vista, ao lado do Bixiga. E o local onde o filme se passa \u00e9 logo acima da rua Treze de Maio, onde h\u00e1 bares e at\u00e9 uma academia 24 horas! Fora que h\u00e1 pr\u00e9dios residenciais, empresas, e at\u00e9 vias importantes, como a avenida Paulista e a avenida Brigadeiro Luis Ant\u00f4nio a uma curta dist\u00e2ncia. Mas com essa cena dos lixeiros ficou patente que estamos falando de pessoas que, mesmo tendo morado em S\u00e3o Paulo, provavelmente nunca caminharam a p\u00e9 por ali.<\/strong><br \/>\nJamais! O filme tem at\u00e9 uns aspectos&#8230; eu n\u00e3o diria surrealistas, mas bizarros. N\u00e3o \u00e9 neorrealismo. Eu tinha uma produtora na frente do Teatro Ruth Escobar nos anos 90. Quer dizer, n\u00e3o \u00e9 no s\u00e9culo XIII (risos). Eu frequento o Bixiga desde que comecei a trabalhar com cinema, o laborat\u00f3rio era na rua da Aboli\u00e7\u00e3o, depois passou para a Treze de Maio. Conhe\u00e7o a regi\u00e3o desde 1966, por a\u00ed. Eu acho que n\u00e3o \u00e9 o Bixiga o problema. Aquela situa\u00e7\u00e3o podia se dar at\u00e9 em frente ao Teatro da PUC, que aparentemente \u00e9 seguro. Mas o fato de voc\u00ea estar \u00e0 noite, em S\u00e3o Paulo, sozinho, j\u00e1 deflagra o medo. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o acredito em risco ali. Tanto que filmamos l\u00e1 e n\u00e3o tivemos nem barulho, que era nossa preocupa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Foram quantas noites de filmagem?<\/strong><br \/>\nOnze noites. Filmamos rapidinho porque o dinheiro que t\u00ednhamos era para isso. Foi filmado no final de julho de 2013.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Outra coisa que me chamou a aten\u00e7\u00e3o \u00e9 que em seus filmes as pessoas costumam ser muito diferentes entre si, mesmo que uma situa\u00e7\u00e3o em comum as una. Por\u00e9m, nesse o grupo \u00e9 muito homog\u00eaneo. A gente tem algumas pistas da identidade pessoal de um ou de outro, vemos algum tra\u00e7o pessoal, mas o comportamento, as atitudes e os valores s\u00e3o muito parecidos. Essa autoexclus\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao ambiente que os cerca \u00e9 o que os torna semelhantes?<\/strong><br \/>\nAcho que o que torna parecidos \u00e9 o extrato social no qual voc\u00ea convive. Quer queira ou n\u00e3o, todos fazemos parte de uma classe: eu, voc\u00ea, todo mundo. E s\u00e3o vasos comunicantes: ela influencia voc\u00ea e voc\u00ea a influencia. Ent\u00e3o as pessoas s\u00e3o mais parecidas em raz\u00e3o da conviv\u00eancia for\u00e7ada que voc\u00ea tem que ter com as pessoas da sua classe social.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Esse \u00e9 um comportamento muito brasileiro ou \u00e9 mais particular de S\u00e3o Paulo, capital e interior?<\/strong><br \/>\nEssa \u00e9 uma pergunta dif\u00edcil de responder, at\u00e9 porque eu s\u00f3 morei aqui. Nasci no Centro da cidade, sempre morei aqui. Visitei, claro, mas nunca morei fora. Me parece que S\u00e3o Paulo \u00e9 um pouco mais, claro. Na minha opini\u00e3o, o retrospecto pol\u00edtico de S\u00e3o Paulo \u00e9 terr\u00edvel. \u00c9 uma sucess\u00e3o de apoios ao que h\u00e1 de pior na pol\u00edtica brasileira. E n\u00e3o \u00e9 de hoje, \u00e9 de anos. Eu estou falando da Rep\u00fablica Velha. O conservadorismo dessa cidade vem de uma uni\u00e3o do imigrante que aparece no \u201cCidade Imagin\u00e1ria\u201d com os escravocratas do Imp\u00e9rio. Porra, velho, isso aqui n\u00e3o \u00e9 brincadeira! Talvez seja t\u00e3o conservadora quanto Pernambuco ou Bahia, mas nosso conservadorismo \u00e9 especial. \u00c9 complicado!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bem, e iniciativas como a Virada Cultural? Essas iniciativas que visam levar as pessoas de novo \u00e0s ruas, especialmente ao Centro, que virou uma \u00e1rea demonizada para muita gente. S\u00e3o atitudes de efeito? Ou s\u00e3o espasmos?<\/strong><br \/>\nIsso foi inspirado na Nuit Blanche de Paris, que \u00e9 totalmente diferente, porque l\u00e1 n\u00e3o tem a inseguran\u00e7a que tem aqui. Eu acho uma coisa que n\u00e3o \u00e9 nem cultural, pode ser Virada, e s\u00f3. \u00c9 uma sequ\u00eancia de entretenimentos, alguns melhores e outros piores, e que atrai fundamentalmente um tipo de gente. Voc\u00ea n\u00e3o vai encontrar um cara da minha idade l\u00e1, talvez nem da sua. \u00c9 um pessoal de 17 a 27 anos, e \u00e9 um pessoal que se enturma mais, naturalmente. \u00c9 da idade. Eles j\u00e1 iriam para a rua, impulsionados pela pr\u00f3pria idade e pelos contatos que eles t\u00eam. E aos 35 anos j\u00e1 n\u00e3o v\u00e3o fazer nada disso. Eu acho que \u00e9 um acontecimento mais pol\u00edtico, que pode ter sido feito at\u00e9 com boas inten\u00e7\u00f5es, eu acho. Mas me parece completamente sem efeito \u2013 sem o efeito que se quer, digo. Porque acaba a Virada e o Centro volta a ser o velho Centro, com Cracol\u00e2ndia e tal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/ugo3.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"314\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Falando em transforma\u00e7\u00f5es: em uma entrevista de 2012, voc\u00ea disse que cinema no Brasil era invi\u00e1vel, com o DVD e o Blu-ray virando o meio de prefer\u00eancia dos espectadores. Hoje, com Netflix, filmes online disseminados e as salas de cinema tomadas majoritariamente por produ\u00e7\u00f5es de apelo massivo, o cinema continua invi\u00e1vel ou algo mudou para melhor? Ao menos uma perspectiva de melhorar?<\/strong><br \/>\nDepende de como voc\u00ea analisa isso. Do ponto de vista de cinema, acabou. N\u00e3o existe mais. Do ponto de vista de feitura, o digital trouxe algum tipo de possibilidade. Tem modelos que custam 2 mil d\u00f3lares, 3 mil d\u00f3lares, que d\u00e1 para fazer um longa-metragem muito bem, sem nenhum problema. Montar tamb\u00e9m ficou muito simples. Voc\u00ea tem um programa de computador e monta um filme. Se voc\u00ea tem um grupo de amigos que s\u00e3o atores, fot\u00f3grafos e tal, voc\u00ea faz um filme mesmo. N\u00e3o \u00e9 como no meu tempo, que voc\u00ea tinha o 35mm e s\u00f3 de pensar em ir na Kodak voc\u00ea queria morrer. Agora, do ponto de vista do que \u00e9 o cinema, acabou. O mais grave para mim n\u00e3o \u00e9 o fato de ser digital, nada disso. \u00c9 a maneira de ver cinema. O Godard tinha uma frase fant\u00e1stica: cinema \u00e9 uma coisa que voc\u00ea v\u00ea no escuro, de baixo para cima e voc\u00ea est\u00e1 imerso naquilo. A TV \u00e9 uma coisa que voc\u00ea v\u00ea de cima para baixo, com luz, em um ambiente cheio de barulho. A maneira que voc\u00ea assiste \u00e9 que dita a experi\u00eancia. Voc\u00ea n\u00e3o l\u00ea um livro no meio de uma baderna, voc\u00ea tem que ter um ambiente para mergulhar no livro. Nesse sentido, a sala [de cinema] \u00e9 fundamental. N\u00e3o \u00e9 porque \u00e9 grande, com super defini\u00e7\u00e3o, nenhuma dessas bobagens. At\u00e9 porque a telinha da televis\u00e3o tem hoje uma qualidade fant\u00e1stica. Enfim, \u00e9 como voc\u00ea assiste um filme.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>N\u00e3o \u00e9 essa coisa de entrar em um Multiplex, com um saco enorme de pipoca.<\/strong><br \/>\n(expansivo) Mais ainda! E tem tamb\u00e9m como a televis\u00e3o trata o cinema. Eu nunca pensei que na minha vida fosse ver um filme do [Luchino] Visconti ou do [Akira] Kurosawa com uma porra de um logotipo do canal \u00e0 direita do quadro, com um locutor falando: \u201cdaqui a pouco voc\u00ea vai ver n\u00e3o sei o que&#8230;\u201d (exaltado) Isso \u00e9 um acinte! A televis\u00e3o trata o cinema como ela \u00e9, e cinema n\u00e3o \u00e9 televis\u00e3o. A maneira de ver, que desloca toda a aten\u00e7\u00e3o para uma coisa que n\u00e3o \u00e9 o velho cinema, que n\u00e3o tem nenhuma possibilidade de ser arte \u2013 se \u00e9 que um dia foi \u2013 enfim, o cinema acabou e n\u00e3o se fala mais nisso. (mais calmo) Mas vamos ver. A hist\u00f3ria se mexe. Podem come\u00e7ar umas seitas, 30 pessoas, 40, que v\u00e3o para uma sala, veem um filme&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea acha que seu p\u00fablico tem algumas dessas caracter\u00edsticas, s\u00e3o talvez parte dessa \u201cseita\u201d?<\/strong><br \/>\nNem sei se existe meu p\u00fablico (risos). Falando s\u00e9rio, n\u00e3o sei. Espero que sim, porque eu fa\u00e7o os filmes que eu gostaria de ver. Embora depois que fa\u00e7a vejo muitas coisas do filme que eu n\u00e3o gostaria de ter feito. Mas a proposta do filme em geral \u00e9 algo que eu gostaria de ver. Se tem algu\u00e9m que se identifica&#8230; \u00c9 dif\u00edcil aferir, tamb\u00e9m. A televis\u00e3o veio trazer uma dificuldade enorme. Quantos espectadores eu tenho? \u201cBoleiros\u201d (1998), por exemplo, teve milh\u00f5es de espectadores. Milh\u00f5es! Porque se voc\u00ea for ver quantas vezes ele passou na TV, passou na Globo, na Cultura, no Canal Brasil, foi DVD e VHS, passou em banca de jornal&#8230; Porra! O que foi m\u00e9dio foi justamente no cinema, como todos meus outros filmes. Mas \u00e9 no cinema onde entra a grana. Do resto n\u00e3o entrou nada, nem da Globo. S\u00f3 o que eles pagam como padr\u00e3o, o que \u00e9 pouco. Nesse sentido, qualquer filme faz mais espectadores na televis\u00e3o. Mas como? Com o cara vendo deitado, de cueca, com a mulher espremendo cravo nas costas? Isso n\u00e3o \u00e9 ver filme!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 demais perguntar: por que continuar fazendo filmes dentro desse cen\u00e1rio? Al\u00e9m, \u00e9 claro, de serem os filmes que voc\u00ea gostaria de ver?<\/strong><br \/>\nVou dar a resposta de quando perguntaram pro Drummond: \u201cpor que voc\u00ea escreve?\u201d. \u201cPorque eu sou escritor\u201d. Eu n\u00e3o tenho outra profiss\u00e3o. Tenho que enfrentar e aceitar os percal\u00e7os dessa produ\u00e7\u00e3o. Talvez se eu tivesse 30 anos&#8230; Mesmo assim, acho que n\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 por causa disso que a gente muda de profiss\u00e3o. Mas que \u00e9 complicado, \u00e9 muito complicado. Cinema n\u00e3o \u00e9 igual \u00e0s outras atividades: \u00e9 filho da Revolu\u00e7\u00e3o Industrial, \u00e9 filho da T\u00e9cnica. E a T\u00e9cnica t\u00e1 pouco ligando para n\u00f3s. Tem um cara carequinha, com um puta \u00f3culos, l\u00e1 em Los Angeles, que t\u00e1 pensando num aparelhinho que vai mudar minha vida! Quem \u00e9 o grande revolucion\u00e1rio do cinema, o cara que usa ou o que inventa a tecnologia?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bem, a t\u00e9cnica \u00e9 um meio. Em m\u00fasica se diz que o gravador de oito pistas no qual os Beatles gravaram o \u201cSgt. Pepper\u2019s\u201d&#8230; logo foi superado. N\u00e3o se pode dizer o mesmo de quem fez o disco.<\/strong><br \/>\nIsso \u00e9 verdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>J\u00e1 que voc\u00ea falou que, como todo realizador, encontra coisas nos seus filmes que, depois de feitos, gostaria de mudar: est\u00e1 satisfeito com \u201cUma Noite em Sampa\u201d?<\/strong><br \/>\nT\u00f4 satisfeito, porque tive que adequar o resultado&#8230; Cinema \u00e9 muito complicado, n\u00e9? Se voc\u00ea me perguntar por que fui fazer esse filme que se parece com uma pe\u00e7a de teatro, te digo que, dentre outras coisas, foi porque \u00e9 mais barato. A primeira coisa que um produtor que observa um pouco mais a atividade \u00e9 que \u00e9 no deslocamento onde o or\u00e7amento pode estourar. \u00c9 equipe, \u00e9 um carro que arrebenta no meio do caminho. Um mandamento para quem quer fazer um filme de baixo custo \u00e9 evitar troca de loca\u00e7\u00f5es. Come\u00e7a por a\u00ed. N\u00e3o foi uma escolha inteiramente pessoal. Para um filme que est\u00e1 dentro dessa armadura, filmado em 11 dias&#8230; E por que 11 dias? Porque eu tinha muito pouco dinheiro. Se eu fa\u00e7o em dois meses de filmagem, ningu\u00e9m ia aceitar o que eu ia pagar. E nem eu teria coragem de oferecer. Ganharam o digno para trabalharem 11 dias. Ent\u00e3o, dentro dessas acomoda\u00e7\u00f5es, \u00e9 um filme legal. Agora, abstraindo isso, que eu n\u00e3o sei, acho que tem algumas coisas que eu n\u00e3o gosto, mas que n\u00e3o vou te falar (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A escolha do elenco tamb\u00e9m tem a ver com essa quest\u00e3o or\u00e7ament\u00e1ria? Seus filmes sempre combinam nomes mais reconhecidos do p\u00fablico televisivo com outros mais ligados ao teatro. Neste \u00faltimo, fora a pequena ponta do Ot\u00e1vio Augusto, s\u00f3 temos a Chris Couto como um nome mais assimil\u00e1vel pelo grande p\u00fablico.<\/strong><br \/>\nAs pessoas gostam de ver coisas que j\u00e1 conhecem, ent\u00e3o essa escolha pode ter um impacto negativo. A raz\u00e3o neste caso n\u00e3o \u00e9 o dinheiro. Porque nunca vi um ator me dizer que n\u00e3o ia fazer o filme por causa do dinheiro \u2013 por maior que seja o nome, e olha que eu que j\u00e1 trabalhei com v\u00e1rios. J\u00e1 trabalhei com o Lima [Duarte], o [Antonio] Fagundes&#8230; Esse n\u00e3o \u00e9 o problema. O problema \u00e9 que os atores mais conhecidos est\u00e3o no Rio de Janeiro, porque n\u00e3o tem como n\u00e3o estar. Voc\u00ea quer um exemplo? Domingos Montagner. Ele \u00e9 um cara que conhe\u00e7o h\u00e1 muitos anos, j\u00e1 trabalhou comigo, fez um \u00f3timo papel. Tem uma baita carreira, mas sempre com \u00e1gua por aqui (indica o pesco\u00e7o). Ent\u00e3o teve uma oportunidade e teve que se mudar para o Rio de Janeiro. Esse cara que se mudou para o Rio, voc\u00ea n\u00e3o o pega para ensaiar. N\u00e3o tem como! O pessoal de S\u00e3o Paulo de teatro tem uma qualidade muito boa, s\u00e3o fant\u00e1sticos. E est\u00e3o aqui. No caso do \u201cUma Noite em Sampa\u201d, se o filme tivesse durado 13 dias, a produtora teria fechado! Eu tinha 12 para filmar, filmei em 11. Claro que tive que contar com a sorte \u2013 se tivesse chovido, poxa! Mas eu n\u00e3o podia correr riscos como um cara estar mal ensaiado, n\u00e3o estar t\u00e3o dentro do papel. Ent\u00e3o ensaiamos aqui dentro dessa sala. E todos vieram com aquela postura: \u201cTem que ser feito!\u201d. E isso continuou nas filmagens. Nos intervalos entre as cenas, o elenco dan\u00e7ava, o Thiago Amaral (ator), que foi para a \u00cdndia, trouxe umas m\u00fasicas muito loucas de l\u00e1 e p\u00f4s essas m\u00fasicas para o pessoal dan\u00e7ar na rua, para se aquecer. \u00c9 outra coisa, outra atitude. N\u00e3o que o pessoal de televis\u00e3o n\u00e3o tenha isso. Pega um Lima Duarte, um Flavio Migliaccio, eles t\u00eam isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como estamos nessa quest\u00e3o de teatro, vale perguntar se essa est\u00e9tica t\u00e3o teatral de \u201cUma Noite em Sampa\u201d \u00e9 uma esp\u00e9cie de metalinguagem para o teatro. Afinal, toda a a\u00e7\u00e3o acontece em torno de um teatro, o ritmo, a montagem, tamb\u00e9m \u00e9 bem teatral.<\/strong><br \/>\nPode ser, pode ser. Tem coisas que a gente faz e n\u00e3o sabe [porque]. Vai entender s\u00f3 depois. Ouvindo voc\u00ea falar, agora me ocorre que essa impress\u00e3o \u00e9 porque n\u00e3o tem cen\u00e1rio. \u00c9 fundo preto, p\u00f4! Quando as luzes do teatro apagam, fica todo o fundo da mesma cor. Um filme como o \u201cFesta\u201d (1989) tem a mesma estrutura, s\u00e3o tr\u00eas caras numa sala. Mas tem um cen\u00e1rio! Ent\u00e3o \u00e9 filme. \u00c9 engra\u00e7ado isso a\u00ed. Talvez seja teatral mesmo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sei que seu foco agora \u00e9 a promo\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o desse filme, mas devido \u00e0 pr\u00f3pria natureza do neg\u00f3cio, imagino que j\u00e1 tenha outro projeto em vista.<\/strong><br \/>\nEu t\u00f4 muito preocupado com tudo isso que t\u00e1 acontecendo a\u00ed. N\u00e3o politicamente, o Brasil \u00e9 assim, a cada n\u00e3o sei quantos anos \u00e9 expulso um presidente da Rep\u00fablica, outro se suicida, outro vai parar n\u00e3o sei aonde&#8230; T\u00f4 preocupado \u00e9 com o cinema mesmo. Tenho projeto! Mas n\u00e3o sei, rapaz&#8230; (hesita). Saio desse filme pensando no que vou fazer. Tenho o roteiro, foi devidamente reprovado, o parecerista disse que \u201ca ideia \u00e9 muito boa, mas est\u00e1 apenas esbo\u00e7ada\u201d. E eu respondi que o roteiro \u00e9 isso mesmo, sen\u00e3o seria um romance (risos). O que eu n\u00e3o vou fazer s\u00e3o s\u00e9ries para a televis\u00e3o. Eu n\u00e3o sei fazer isso. O que eles oferecem \u00e9 um desatino, \u00e9 um dinheiro que faz voc\u00ea se perguntar o que faz com aquilo. Sem contar que escolhem uns temas que pelo amor de Deus!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Nessa coisa de pagar: pelo que apurei, \u00e9 algo que voc\u00ea nunca deixou de fazer, de pagar a equipe. Porque existe um v\u00edcio \u2013 bastante nefasto, no meu entender \u2013 que \u00e9 um orgulho de dizer que tudo foi feito \u201cna amizade\u201d, \u201cpor amor ao cinema\u201d. O que significa sem remunera\u00e7\u00e3o.<\/strong><br \/>\nNingu\u00e9m trabalha de gra\u00e7a. Eu n\u00e3o fa\u00e7o isso. Nem com atores nem com a equipe t\u00e9cnica. Principalmente com a equipe t\u00e9cnica! Maquinistas, eletricistas, todo mundo t\u00eam que levar dinheiro para casa!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/ugo2.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"887\" \/><\/p>\n<p>&#8211; Leonardo Vinhas (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/#%21\/leovinhas\" target=\"_blank\">@leovinhas<\/a>) assina a se\u00e7\u00e3o Conex\u00e3o Latina (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/tag\/conexao_latina\/\">aqui<\/a>) no Scream &amp; Yell.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/category\/cinema\/\">MAIS SOBRE CINEMA E FILMES<\/a><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Leonardo Vinhas\nUgo Giorgetti est\u00e1 lan\u00e7ando &#8220;Uma Noite em Sampa&#8221; e fala aqui sobre o filme, sobre cinema no Brasil e outras coisas\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2016\/05\/31\/entrevista-ugo-giorgetti\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":6,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/38382"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=38382"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/38382\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":38738,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/38382\/revisions\/38738"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=38382"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=38382"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=38382"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}