{"id":38187,"date":"2016-05-11T10:56:04","date_gmt":"2016-05-11T13:56:04","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=38187"},"modified":"2023-12-11T13:10:16","modified_gmt":"2023-12-11T16:10:16","slug":"o-desolador-grito-politico-de-anohni","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2016\/05\/11\/o-desolador-grito-politico-de-anohni\/","title":{"rendered":"Cr\u00edtica: \u201cHopelessness\u201d, o desolador grito pol\u00edtico de ANOHNI"},"content":{"rendered":"<h3 style=\"text-align: center;\"><strong>por <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/renan.machadoguerra\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Renan Guerra<\/a><\/strong><\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Antony Hegarty j\u00e1 tinha uma s\u00f3lida carreira ao lado do \u201cThe Johnsons\u201d, com quatro discos, entre eles o premiado \u201cI Am a Bird Now\u201d (2005), e colecionava in\u00fameras participa\u00e7\u00f5es e colabora\u00e7\u00f5es com artistas como Bj\u00f6rk, Marina Abramovic e Hercules &amp; Love Affair quando, em meados do ano passado, resolveu assumir sua persona ANOHNI (assim mesmo, estilizado em letras garrafais) falando abertamente sobre sua transsexualidade e prometendo um disco ao lado de Oneohtrix Point Never e Hudson Mowhake, dois nomes essenciais da atual m\u00fasica eletr\u00f4nica experimental.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Indicada em 2016 ao Oscar de melhor can\u00e7\u00e3o original, por \u201cManta Ray\u201d, ao lado de J. Ralph, a cantora fez um expl\u00edcito boicote ao evento e passou a falar cada vez mais sobre suas escolhas pol\u00edticas e sobre a import\u00e2ncia disso em suas atitudes art\u00edsticas. Com isso, suas m\u00fasicas, que anteriormente falavam sobre amores, dores e d\u00fabias sexualidades, gdanharam fortes contornos sociais, como em \u201c4 Dregrees\u201d, can\u00e7\u00e3o dan\u00e7ante e explosiva que versa sobre o aquecimento global e as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas lan\u00e7ada em solidariedade a Confer\u00eancia do Clima de Paris, a COP21, que aconteceu em dezembro de 2015.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estava selado: a poesia lancinante de ANOHNI lan\u00e7ava-se sobre a pol\u00edtica mundial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O cen\u00e1rio se tornou ainda mais assombroso com o lan\u00e7amento de \u201cDrone Bomb Me\u201d, um doloroso relato de uma menina atingida por m\u00edsseis lan\u00e7ados por drone, dolorosamente estampado nos olhos lacrimantes de uma entregue Naomi Campbell, protagonista do videoclipe da faixa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O primeiro \u00e1lbum de ANOHNI, \u201c<a href=\"https:\/\/anohni.bandcamp.com\/album\/hopelessness\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Hopelessness<\/a>\u201d, lan\u00e7ado no in\u00edcio de maio de 2016, a leva por camadas sonoras que ela j\u00e1 havia testado em suas colabora\u00e7\u00f5es com Bj\u00f6rk e Hercules &amp; Love Affair, por\u00e9m aqui utilizando experimentos mais distintos, que contrap\u00f5em sua voz org\u00e2nica (quase l\u00edrica) com a frieza matem\u00e1tica das batidas eletr\u00f4nicas. Essa sonoridade desconexa e complexa adv\u00e9m da produ\u00e7\u00e3o dedicada de Oneohtrix Point Never e Hudson Mowhake, que tamb\u00e9m colaboraram em algumas composi\u00e7\u00f5es do disco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Guardian classificou \u201cHopelessness\u201d como \u201co grande \u00e1lbum de protesto dos \u00faltimos muitos anos\u201d, o que j\u00e1 ratifica a dimens\u00e3o desse trabalho, por\u00e9m h\u00e1 uma clara distin\u00e7\u00e3o entre aquilo que cham\u00e1vamos de \u00e1lbum de protesto l\u00e1 nos idos dos anos 60\/70 (discos repletos de can\u00e7\u00f5es que utilizavam mem\u00f3rias do passado e do presente na tentativa de mudar \/ melhorar o futuro) e isso que ANOHNI nos apresenta agora, e que pode ser definido em uma palavra: esperan\u00e7a. \u201cHopelessness\u201d \u00e9 \u00e1rido, doloroso, completamente desesperan\u00e7ado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A desesperan\u00e7a \u00e9 exposta de forma direta na faixa \u201cObama\u201d, um delicado poema que fala sobre a decep\u00e7\u00e3o com os grampos e as espionagens norte-americanas, expostas no esc\u00e2ndalo do WikiLeaks. Esse \u2018big brother\u2019 norte-americano acaba permeando toda a trajet\u00f3ria do disco, costurando temas como tortura, opress\u00e3o e preserva\u00e7\u00e3o ambiental. Essa persona que observa todos os nossos passos ganha vida ainda sobre o olhar ironicamente paternal cantado em \u201cWatch Me\u201d, que fala sobre um \u201cdaddy\u201d que nos observa enquanto vemos pornografia ou em nossas conversas familiares, numa sanha de nos proteger do terrorismo ou dos abusadores infantis.<br \/>\nEssa tens\u00e3o e medo constante de nosso tempo \u00e9 captado de forma certeira pelos versos de ANOHNI e, especialmente, pela produ\u00e7\u00e3o delicada. Cada beat desconstru\u00eddo e distorcido nos d\u00e1 a gama desse cen\u00e1rio in\u00f3spito. E ANOHNI n\u00e3o nos apresenta um olhar complacente, do tipo \u201celes s\u00e3o nossos algozes e n\u00f3s meras v\u00edtimas indefesas\u201d: n\u00e3o, ela acerta no cerne das \u201cnossas culpas\u201d quando pergunta \u201cHow did I become a virus?\u201d, na faixa-t\u00edtulo do disco. E, num des\u00e2nimo despiedoso, entoa na pen\u00faltima faixa: \u201cI don\u2019t care much about you \/ I don\u2019t give a shit what happens to you \/ Now we blew it all away \/ Hopelessness \/ I feel the hopelessness.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No todo, os personagens que permeiam \u201cHopelessness\u201d s\u00e3o t\u00e3o distintos e, mesmo assim, t\u00e3o interconectados, desde o presidente norte-americano at\u00e9 os torturadores de Guant\u00e1namo, todos sob esse manto de prote\u00e7\u00e3o e seguran\u00e7a cada vez mais falho, interposto a nossa constante e consider\u00e1vel \u201cvirtualiza\u00e7\u00e3o\u201d. Isso tudo \u00e9 resumido na gloriosa \u201cMarrow\u201d, que encerra o disco relembrando que todos, agora, somos norte-americanos. N\u00e3o importa se brasileiros, chineses ou tailandeses, a cultura dominadora nos suga e nos incorpora nesse c\u00edrculo de autodestrui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E, no final das contas, \u00e9 como se este fosse um disco para dan\u00e7armos sobre os escombros. Sem nenhuma sa\u00edda. Atordoados. Dancemos.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-78543\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/05\/anohni2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"750\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/05\/anohni2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/05\/anohni2-300x300.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/05\/anohni2-150x150.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/renan.machadoguerra\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Renan Guerra<\/a> \u00e9 jornalista e colabora com o sites <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/YouMeDancin\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">You! Me! Dancing!<\/a> e <a href=\"http:\/\/www.bateafita.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Bate a Fita<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><br \/>\n&#8211; Antony exibiu em S\u00e3o Paulo (em 2015) um espet\u00e1culo muito pessoal (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/07\/03\/antony-and-the-ohnos-ao-vivo-em-sp\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">aqui<\/a>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/category\/musica\/\">MAIS SOBRE M\u00daSICA, ENTREVISTAS E REVIEWS NO SCREAM &amp; YELL<\/a><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Renan Guerra\n\u201cHopelessness\u201d, o primeiro \u00e1lbum de Antony Hegarty como ANOHNI, \u00e9 \u00e1rido, doloroso, completamente desesperan\u00e7ado\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2016\/05\/11\/o-desolador-grito-politico-de-anohni\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":3,"featured_media":78547,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[6955],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/38187"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=38187"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/38187\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":78548,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/38187\/revisions\/78548"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/78547"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=38187"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=38187"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=38187"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}