{"id":36956,"date":"2016-02-22T23:51:43","date_gmt":"2016-02-23T02:51:43","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=36956"},"modified":"2024-01-09T18:07:35","modified_gmt":"2024-01-09T21:07:35","slug":"viagem-ao-utero-do-psicodalia-ou","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2016\/02\/22\/viagem-ao-utero-do-psicodalia-ou\/","title":{"rendered":"Psicod\u00e1lia 2016: Viagem ao \u00fatero do Psicod\u00e1lia ou como dan\u00e7ar uma revolu\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<h3 style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-36959\" title=\"psicodalia4\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/psicodalia4.jpg\" alt=\"\"><\/h3>\n<h3 style=\"text-align: center;\"><strong>Texto por <\/strong><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/cristiano.castilho.9\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>Cristiano Castilho<\/strong><\/a><strong><br \/>\nFotos por <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/walterthoms\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Walter Thoms<\/a><\/strong><\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Me chame de Pulga. Daqui a pouco voc\u00ea vai saber mais sobre mim, ou n\u00e3o, mas o que interessa agora \u00e9 esse sujeito cabeludo e chapado tocando \u201cD\u00ea Um Rol\u00ea\u201d em frente ao laguinho. \u201cN\u00e3o se assuste pessoa\/ se eu lhe disser que a vida \u00e9 boa\u201d. O engra\u00e7ado \u00e9 que voc\u00ea sente quando o Psicod\u00e1lia come\u00e7a. Acabou de come\u00e7ar. Porra, o cabeludo est\u00e1 tocando Novos Baianos chapado pra cacete. Seus \u00f3culos escuros querem cair do nariz, e h\u00e1 os dedos sujos de terra e os p\u00e9s encardidos num sol peludo de s\u00e1bado \u00e0 tarde. Poderia at\u00e9 ser chamado de mendigo caso estivesse tentando ser quem \u00e9 em Curitiba ou em outra cidade inventada, mas aqui \u00e9 s\u00f3 mais um cara em comunh\u00e3o com uma felicidade estranhamente estendida, que n\u00e3o te deixa de ressaca tampouco te cobra quando n\u00e3o est\u00e1 presente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cBoa tarde, pessoaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaal\u201d, anuncia uma jornalista rechonchuda que surge do nada com seus clich\u00eas engatilhados: c\u00e2mera na m\u00e3o, fones no ouvido, colete preto para bloquinhos e canetas e uma falta de sensibilidade maior do que a bunda do pi\u00e1 que acaba de entrar no lago. \u201cVou pedir para voc\u00eas gritarem \u2018Psicod\u00e1lia\u2019 bem alto, t\u00e1?\u201d Os viol\u00f5es silenciam, o baseado quase apaga, alguns riem do desconforto. H\u00e1 um pequeno embate entre nosso violeiro-f\u00e3-de-Novos-Baianos-potencialmente-mendigo e a rep\u00f3rter, que tem jogo de cintura quase suficiente. A grava\u00e7\u00e3o antinatural acontece. H\u00e1 outra realidade imensa gritando na sua frente e o que voc\u00ea quer \u00e9 se submeter ao \u00f3bvio vomitado? Pensei em dizer isso a ela depois, mas fui dar um rol\u00ea porque eu sou Pulga, sou amor da cabe\u00e7a aos p\u00e9s.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-36965\" title=\"psicodalia2\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/psicodalia2.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/psicodalia2.jpg 600w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/psicodalia2-150x100.jpg 150w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/psicodalia2-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Babava por uma cerveja. Uma Brahma de R$ 4,50 geladinha servida num copinho estilizado do em que dois bichos, o que parece ser um urso e um gato, e dois humanos, dividem instrumentos e cumprimentos. Sou Pulga e quero ser mais bicho por causa do copinho. Qual a porra do problema em tomar banho frio? Qual o problema em n\u00e3o tomar banho? \u201cMeu corpo, minha senten\u00e7a\u201d, ouvi algu\u00e9m falar no caminho at\u00e9 aqui. No bar ganho uma aten\u00e7\u00e3o inesperada, de novo. \u00c9 um servi\u00e7o, mas h\u00e1 um acordo. Saca s\u00f3: quem te serve \u00e9 a mesma pessoa que canta Novos Baianos. A mesma que n\u00e3o tolera a viol\u00eancia, o sexismo, o preconceito, o Beto Richa, o Alckmin, a PM, o Cunha. \u00c9 a mesma que toma cerveja. O que ela precisa fazer \u00e9 passar o laser de uma maquininha que parece um pequeno aspirador de p\u00f3 em seu cart\u00e3o magn\u00e9tico, entregar sua bera, dizer \u2018obrigado\u2019 e \u2018pr\u00f3ximo\u2019 nesta ordem, isso quando a conversa n\u00e3o engata pra valer e cria uma fila da qual ningu\u00e9m reclama.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pego minha brahminha e com V. e M. sigo em qualquer dire\u00e7\u00e3o. Passa um pouco do meio dia, e os melhores shows ir\u00e3o acontecer \u00e0 noite. H\u00e1 diversos campings na Fazenda Evaristo, em Rio Negrinho, um vale com a temperatura de uma panela de press\u00e3o no interior de Santa Catarina: Secos &amp; Molhados, Os Mutantes, Camping dos Jovens. \u00c9 engra\u00e7ado voc\u00ea ouvir pessoas perguntando, \u201cei, Pulga, onde c\u00ea est\u00e1 morando\u201d?, para se referir ao lugar em que voc\u00ea armou a barraca. As voltas \u00e0 toa com V. e M. servem para ambientar a cabe\u00e7a, fugir do sol, sentar um pouco na grama e encontrar uma poeta.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-36960\" title=\"psicodalia5\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/psicodalia5.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/psicodalia5.jpg 600w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/psicodalia5-150x100.jpg 150w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/psicodalia5-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quem vejo ao lado do Palco do Sol \u00e9 a Alice Ruiz, vi\u00fava de Paulo Leminski. Veste roupas leves, tem o cabelo cinza embolado e fuma cigarro de palha. Alice venceu dois pr\u00eamios Jabuti de Poesia. Sua fama de arisca desvela-se quando um amigo de um amigo dela retoma cumprimentos formais, talvez em sinal de respeito exagerado. \u201cN\u00f3s j\u00e1 fomos apresentados\u201d, assevera Alice, tragando em seguida. Ela repergunta meu nome, \u201cComo \u00e9 mesmo?\u201d, e eu repito: \u201cPulga, meu nome \u00e9 Pulga.\u201d Penso que seria bacana dizer que gosto muito do seu poema tal, mas nunca ali Alice Ruiz. S\u00f3 Leminski: \u201cAmeixas\/ame-as ou deixe-as\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As nuvens aglutinam-se num c\u00e9u cinza aparentemente impenetr\u00e1vel, mas n\u00e3o chove nunca. Vim de excurs\u00e3o e paguei R$ 420 no ingresso, por seis dias de Psicod\u00e1lia, para ver outras 4.999 pessoas. Economizei o ano todo e n\u00e3o acho caro por aquilo que o festival me proporciona, dentro e fora de mim. Trouxe lonas pretas e alaranjadas pensando na possibilidade da chuva. Com V. e M., tomo um comprimido rosa em forma de porquinho e vamos em busca de outra brahma para ent\u00e3o assistir ao show dos Vulcani\u00f3ticos, um grupo de m\u00fasica-teatro cuja mensagem e performance s\u00e3o avassaladoras. J\u00e1 flutuando em frente ao palco, vejo o fim do show-manifesto: todos os integrantes pelados e cobertos com uma esp\u00e9cie de lama cinza. Eles se abra\u00e7am, n\u00f3s nos abra\u00e7amos e as luzes brilham como uma Sirius no c\u00e9u limpo. Estamos muito felizes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-36967\" title=\"psicodalia6\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/psicodalia6.jpg\" alt=\"\"><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esqueci de contar que \u00e0 tardinha rolou um campeonato de caipirinhas, para \u201cdegustadores e jurados.\u201d Tamb\u00e9m tem disso, o imponderado somado \u00e0 criatividade quase o tempo todo. Perdoem a falta de cronologia, mas o tempo no Psicod\u00e1lia volta a ser apenas uma conven\u00e7\u00e3o. Logo depois de encontrar Alice Ruiz e pegar mais uma brahminha, est\u00e1vamos exatamente no meio dos dois palcos principais. \u00c0 esquerda, a Na\u00e7\u00e3o Zumbi passava o som. \u00c0 direita, a Banda Mais Bonita da Cidade fazia seu show. Parecia o contr\u00e1rio. Poder versus afetividade barata, manifesto de caranguejos dan\u00e7antes antenados contra condescend\u00eancia. Nem t\u00ednhamos tomado o porquinho ainda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acaba o show da Na\u00e7\u00e3o Zumbi e quero muito comer um p\u00e3o com ovo, tomate e queijo. R$ 6,50. Eu trouxe comida. Fiz sandu\u00edches no p\u00e3o de forma branco para economizar. Estou desempregado e tal. Mas nunca devemos passar vontade, no Psicod\u00e1lia e na vida. Quem me atende \u00e9 o bom e velho Felipe. Lembro que ele tamb\u00e9m trabalhou no festival do ano passado. Cabelos compridos desgrenhadinhos, pele cor de laranja e uma calma invej\u00e1vel. Pe\u00e7o mais uma brahminha antes de ir observar a noite em frente ao lago, onde vagalumes iluminam pontualmente o som ao redor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De novo o tempo. Num evento como esse, em que sua exist\u00eancia \u00e9 celebrada, h\u00e1 um delicioso conflito: n\u00e3o se sabe ao certo quando umdiaacabaeoutrotermina. Porque, quando n\u00e3o h\u00e1 m\u00fasica, h\u00e1 pessoas gritando por gritar, celebrando Cartola com flautinha e viol\u00e3o, pintando a cara como \u00edndios que v\u00e3o para uma miss\u00e3o s\u00f3 de paz. Sentimos o \u00faltimo ronco do porquinho antes de assistir ao show de Francisco el Hombre, banda cujo vocalista tem a voz de um Geddy Lee apaixonado por Brian Molko. Tocam um cover de Manu Chao, e fico aficionado pelo guitarrista de vestido verde. Dou descanso aos meus all-stars velhotes e deito no saco de dormir. A barraca tem teto, mas consigo ver estrelas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-36961\" title=\"psicodalia3\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/psicodalia3.jpg\" alt=\"\"><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bate 9 horas e o calor faz todos sa\u00edrem de suas tocas em forma de iglu como ursos que acabam de repente seu per\u00edodo de hiberna\u00e7\u00e3o. O despertar da comunidade, mais ou menos na mesma hora, cria todo um ritual. Neste dia, a R\u00e1dio Kombi toca o \u201cYellow Submarine\u201d de cabo a rabo, ent\u00e3o tomo banho frio no escuro cantando \u201cOnly a Northern Song.\u201d Meu nome \u00e9 Pulga e meu beatle favorito \u00e9 o Harrison. Fiz um amigo na fila do banho. Ele me emprestou um cigarro e conversamos enquanto limp\u00e1vamos as remelas. S\u00f3 iria reencontr\u00e1-lo dois dias depois, no caminho para uma brahminha. Nos abra\u00e7amos como se sent\u00edssemos saudades daquilo que n\u00e3o aconteceu. No caminho de volta \u00e0 barraca, homens sem camisa e meninas de biqu\u00edni equilibravam shampoos e sabonetes e calcinhas e cuecas e toalhas debaixo do bra\u00e7o, enquanto a tirolesa abria um z\u00edper no c\u00e9u azul l\u00e1 de cima: \u201czzzzzzzzzzhhhhhhhhhhiiiiiiiiiuuuuu.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">V., M. e eu colocamos um papel na boca \u00e0s 17h30. Meia hora depois est\u00e1vamos no cinema do Psicod\u00e1lia, que exibia uma mostra de um brit\u00e2nico chamado Norman McLaren. Sentado em um engradado de cerveja azul virado de ponta-cabe\u00e7a, vi um v\u00eddeo em que os passos r\u00edtmicos de um sapateador se transformavam em som de videogame. Quadradinhos coloridos se uniam e se dispersavam conforme a m\u00fasica, num cen\u00e1rio que mudava de cor a todo instante. Depois, uma anima\u00e7\u00e3o com um ator de verdade refletia sobre a Guerra Fria com a ajuda de uma flor alaranjada e sapeca. Em outro filme, um casal de dan\u00e7arinos transcendia, e deixava rastros de seus passos com a ajuda de uma m\u00fasica bel\u00edssima. V. estava no ch\u00e3o olhando a lona branca do cinema, eu queria ser Gene Kelly e Pina Bausch ao mesmo tempo e M., incr\u00e9dulo, se perguntava \u201cque que \u00e9 isso\u201d?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-36966\" title=\"psicodalia8\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/psicodalia8.jpg\" alt=\"\"><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O c\u00e9u come\u00e7ava a se mexer quando um trator pilotado por um garoto com cara de imigrante polaco passou por n\u00f3s num dos muitos caminhos da fazenda. Cinco meninas nos convidaram para participar da corrida lis\u00e9rgica-aleat\u00f3ria. Um rapaz muito insistente seguiu o ve\u00edculo numa subida desumana e com a nossa ajuda se atracou \u00e0 carreta. Aplausos!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pouco antes do p\u00f4r do sol dou um beijo numa palha\u00e7a. Em frente ao lago, deito na grama e olho para o c\u00e9u. O que vejo \u00e9 um buraco azul lutando contra nuvens cinzas. Quando crian\u00e7a, me ensinaram a ver carneirinhos em nuvens fofas e branquinhas, agora vejo formas no negativo disso. \u00c9 o que est\u00e1 atr\u00e1s da nuvem que realmente importa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tento me concentrar naquele azulzinho, mas um sujeito com sotaque carioca parece ter ca\u00eddo do disco voador errado. Conversando com M., diz que veio de avi\u00e3o e que comprou uma barraca no aeroporto. Est\u00e1 sozinho, \u00e9 m\u00fasico e acha Mozart in\u00fatil. N\u00e3o vi sua cara, s\u00f3 ouvi sua voz. A nuvem cinza acaba com o feixe de azul. Sai, bad.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">V. e eu caminhamos aleatoriamente pela fazenda. Descobrimos uma menina que carregava luzes no pesco\u00e7o e isso foi impressionante. Fiquei intrigado com uma figura de madeira encostada no que parecia ser uma pista de bocha abandonada: parecia o sol da bandeira do Uruguai, mas sustentava uma careta sisuda e enigm\u00e1tica. Algo parecia me consumir por dentro, e andar era dif\u00edcil. N\u00e3o eram passos b\u00eabados. Caminh\u00e1vamos sobre uma geleia de morango em temperatura ambiente. De longe, ouvimos o show de Steppenwolf e a celebra\u00e7\u00e3o de \u201cBorn to be Wild\u201d ao vivo, aquele tipo de m\u00fasica que parece pertencer a algum outro lugar temporal-afetivo, que parece ter sa\u00eddo diretamente do jogo Rock N\u2019 Roll Racing para um palco num festival psicod\u00e9lico em que o c\u00e9u se abre de vez em quando. Durmo como um beb\u00ea rec\u00e9m-amamentado.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-36962\" title=\"psicodalia7\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/psicodalia7.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/psicodalia7.jpg 600w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/psicodalia7-150x100.jpg 150w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/psicodalia7-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O \u00fanico ritual da vida real que mantenho aqui \u00e9 cagar pela manh\u00e3. Logo antes do banho. Ent\u00e3o estou l\u00e1 sentado, apreciando o momento, quando leio na parte interna da porta de madeira uma poesia dedicada \u00e0 Vaca Psicod\u00e9lica. Quem escreveu foi Israel Reis, em 2012. A\u00ed, des\u00e7o os olhos e leio isso<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cPorque a cabe\u00e7a da gente \u00e9 uma s\u00f3, e as coisas que h\u00e1 e que est\u00e3o para haver s\u00e3o demais de muitas, muito maiores diferentes, e a gente tem de necessitar de aumentar a cabe\u00e7a, para o total. Todos os sucedidos acontecendo, o sentir forte da gente &#8211; o que produz os ventos. S\u00f3 se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de \u00f3dio, se a gente tem amor. Qualquer amor j\u00e1 \u00e9 um pouquinho de sa\u00fade, um descanso na loucura.\u201d \u00c9 Guimar\u00e3es Rosa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vou ao acampamento de V. saber se ele est\u00e1 vivo. Deito com a barriga para cima ap\u00f3s beber duas cuias de chimarr\u00e3o. H\u00e1 formigas no ch\u00e3o e o dia brilha. Cogito cochilar, mas F., um amigo de V. de 20 anos ou menos, comenta sobre os discos d\u2019Os Mutantes. Faz um paralelo interessant\u00edssimo sobre porque \u201cAcabou Chorare\u201d, de 1972, n\u00e3o representa mais a Tropic\u00e1lia, e sim um outro momento muito brasileiro, que aconteceu gra\u00e7as a Jo\u00e3o Gilberto. Com meus \u00f3culos escuros procuro imagens no fundo das nuvens, mas o que ou\u00e7o s\u00e3o discuss\u00f5es bem embasadas sobre a sexualidade e a cria\u00e7\u00e3o de Allen Ginsberg e outros poetas beats, sobre a loucura bem-vinda de Hunter Thompson, os Hells Angels, e \u201cO Teste do \u00c1cido do Refresco El\u00e9trico\u201d, do Tom Wolfe. Sempre andamos em boa companhia.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-36968\" title=\"psicodalia10\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/psicodalia10.jpg\" alt=\"\"><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estou com saudades do bom e velho Felipe e de seu p\u00e3o com ovo. Ressaca da forma como a conhecemos n\u00e3o existe, mas um cafezinho tamb\u00e9m iria bem. Eles enchem o copo at\u00e9 a altura em que o urso-gato faz um acorde no viol\u00e3o. No caminho at\u00e9 Felipe, ou\u00e7o na R\u00e1dio Kombi, a mesma que tocou \u201cYellow Submarine\u201d inteiro e que promove festinhas tem\u00e1ticas \u00e0s 4h20, que A BANDA SALADA DE BATATA PRECISA DE UMA GUITARRA EMPRESTADA.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0 noite, M. e eu tomamos um comprimido preto que, descubro depois, tem entalhada em uma de suas faces a carinha do Mickey. V. desaparece. Provavelmente est\u00e1 sentado na grama pensando no que seria a vida se ela fosse sempre assim. Me decepciono com o show do Cidad\u00e3o Instigado. Est\u00e1 arrastado e insosso, as m\u00fasicas do disco novo n\u00e3o acontecem. O que acontece \u00e9 Elza Soares.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se em 2015 todos choraram com a melancolia agridoce de Arnaldo Baptista, em 2016 o Psicod\u00e1lia ajudou a ressuscitar a mulher do fim do mundo. M. e eu j\u00e1 sent\u00edamos uma brisa maravilhosa quando vimos Elza e seu vestido roxo e prateado sentada numa esp\u00e9cie de trono. Nada de arrog\u00e2ncia, era devo\u00e7\u00e3o. Quase toda a banda que gravou seu \u00faltimo disco estava l\u00e1, botando gasolina naquela fagulha intermin\u00e1vel. Num momento particularmente emocionante, todos entraram em uma esp\u00e9cie de forma\u00e7\u00e3o militar e a reverenciaram da maneira t\u00e3o am\u00e1vel que o ex\u00e9rcito jamais ir\u00e1 entender.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dan\u00e7amos para uma rainha sentada antes de embarcar numa rave pirata promovida pela Confraria da Costa, antes de sentir a batata da perna rasgar durante a festa com m\u00fasicas dos balc\u00e3s promovida pela r\u00e1dio, de bailar no saloon ao som de Luis Caldas. Tieta do agreste\/lua cheia de tes\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 restri\u00e7\u00f5es no fim do mundo. E ao contr\u00e1rio do ningu\u00e9m \u00e9 de ningu\u00e9m que simboliza a potencial boa balada nas cidades inventadas, aqui todo mundo \u00e9 de todo mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-36963\" title=\"psicodalia1\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/psicodalia1.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"399\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/psicodalia1.jpg 600w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/psicodalia1-150x99.jpg 150w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/psicodalia1-300x199.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 o \u00faltimo dia. Olho para o c\u00e9u e lembro de uma palestra que vimos n\u00e3o sei quando, \u00e0 beira do lago, sobre o cosmos. Quem falava era um homem-mo\u00e7a, cabeludo, de vestido, barriguinha peluda proeminente e unhas cor-de-rosa. Por uma hora, ficamos a maior parte da manh\u00e3 e da tarde sentados observando o nada, o futebol improvisado em que ningu\u00e9m joga contra ningu\u00e9m e a recrea\u00e7\u00e3o adulta: homens e mulheres se atracam em posi\u00e7\u00f5es que dariam um novo kamasutra. Perante o cosmos, um dia n\u00e3o \u00e9 nada, voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 nada, ent\u00e3o desencana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Encontramos outro vencedor do pr\u00eamio Jabuti com um baseado na m\u00e3o, e conversamos por muito tempo sobre o mundo, o jornalismo, o mercado, a Elza. Rimos mais do que argumentamos. Seu filho est\u00e1 ali, tomando provavelmente a d\u00e9cima nona brahminha do dia. Ele divide o beck com o pai como se divide um abra\u00e7o. \u00c9 ele quem avisa sobre uma festa secreta que ir\u00e1 homenagear Fl\u00e1vio Basso, o J\u00fapiter ma\u00e7\u00e3. \u00c9 ele quem, mergulhado em \u201cEasy Rider\u201d, exibido no cinema na noite anterior, nos avisa que devemos nos proteger dos caipiras armados que tentaram impedir Denis Hooper e Peter Fonda de festejar o mardi gras em Nova Orleans e etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O maior show anuncia o fim. Nan\u00e1 Vasconcelos abre um buraco na fazenda enorme, transporta a plateia para o rio Amazonas em minutos, dribla o som ruim e vira uma entidade poderosa e imponente. Divide o p\u00fablico em duas metades, e comanda uma missa xam\u00e2nica, em que que a venera\u00e7\u00e3o \u00e9 pelo que est\u00e1 exatamente no espa\u00e7o entre n\u00f3s. Porque apesar da presen\u00e7a constante, nosso deus \u00e9 multiforme. Tem a cara de um apache e de Villa-Lobos, emula sons da \u00c1frica e do Brasil escravo ainda enlutado. S\u00e3o 10, 15? minutos de um transe hipn\u00f3tico. N\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para mais nada dentro da minha cabe\u00e7a, ent\u00e3o desfale\u00e7o f\u00edsica e psicologicamente ao tentar entender o tamanho daquilo e sigo para a barraca para respirar e pensar no que acabamos de presenciar, um show antol\u00f3gico porque anal\u00f3gico ao extremo, uma comunh\u00e3o natural em que a h\u00f3stia era a mistura de olhares.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Caminhando em dire\u00e7\u00e3o ao Camping dos Jovens, ou\u00e7o o baile moderno da N\u00f4made Orquestra, cerejinha deste cookie. H\u00e1 o chiado da plateia, m\u00fasicas infinitas e acordes-bomba. Dentro da quentura da barraca, gargalho sozinho. Me sinto no \u00fatero de algo muito poderoso e me pergunto, como j\u00e1 se perguntaram tantos aqui: do que vale uma revolu\u00e7\u00e3o se n\u00e3o podemos dan\u00e7\u00e1-la?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-36964\" title=\"psicodalia9\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/psicodalia9.jpg\" alt=\"\"><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Cristiano Castilo (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/criscastilho\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@criscastilho<\/a>) \u00e9 jornalista.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/category\/musica\/\">MAIS SOBRE M\u00daSICA, ENTREVISTAS E REVIEWS NO SCREAM &amp; YELL<\/a><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\u2026como dan\u00e7ar uma revolu\u00e7\u00e3o: &#8220;Me chame de Pulga. 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