{"id":36767,"date":"2015-03-22T09:37:56","date_gmt":"2015-03-22T12:37:56","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=36767"},"modified":"2016-02-11T09:43:35","modified_gmt":"2016-02-11T12:43:35","slug":"boteco-uma-deus-e-tres-demonios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/03\/22\/boteco-uma-deus-e-tres-demonios\/","title":{"rendered":"Boteco: uma DeuS e tr\u00eas dem\u00f4nios"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/deus2.jpg\" alt=\"deus2.jpg\" \/><\/p>\n<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>por Marcelo Costa<\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">De responsabilidade da Brouwerij Bosteels, uma cervejaria belga localizada em Buggenhout, cidade de menos de 15 mil habitantes a pouco mais de meia hora de Bruxelas, a DeuS Brut des Flandres foi, durante muito tempo, a cerveja mais cara encontrada nas prateleiras do Brasil. Enquanto em sua terra natal o pre\u00e7o n\u00e3o ultrapassa 20 euros (na convers\u00e3o de hoje, quase R$ 70), no Brasil, a DeuS Brut des Flandres passou anos sendo vendida entre R$ 200 e R$ 250. Ainda hoje h\u00e1 lugares que mant\u00e9m esse pre\u00e7o (absurdo), mas j\u00e1 \u00e9 poss\u00edvel encontra-la entre R$ 120 e R$ 150. Essa garrafa, por exemplo, foi comprada no P\u00e3o de A\u00e7\u00facar em dezembro de 2012, quando o supermercado fez uma promo\u00e7\u00e3o colocando-a ao pre\u00e7o de R$ 89,90. Decidi garantir uma garrafa, pois julguei que valia pagar R$ 20 a mais em rela\u00e7\u00e3o a gringa do que arriscar trazer uma da B\u00e9lgica e ela quebrar na mala.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/deus3.jpg\" alt=\"deus3.jpg\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas por que a DeuS \u00e9 t\u00e3o cara, se na B\u00e9lgica uma cerveja excelente vai custar entre 5 e 6 euros, n\u00e3o mais que isso (garrafas de 330 ml; as de 750 ml ficam entre 10 e 12 euros, mas a DeuS custa 18)? Bem, a DeuS \u00e9 uma cerveja\u2026 \u201cespecial\u201d, integra o estilo Bi\u00e8re Brut e tem um modo de produ\u00e7\u00e3o peculiar: com produ\u00e7\u00e3o limitada a 15 mil garrafas por ano, a DeuS Brut des Flandres atravessa um longo processo de fermenta\u00e7\u00e3o. Na primeira fase, ainda em Buggenhout, na B\u00e9lgica, a DeuS passa pela produ\u00e7\u00e3o tradicional com malte de cevada, l\u00fapulo, levedura e \u00e1gua. Na segunda fase, a cerveja \u00e9 enviada para Reims, na regi\u00e3o de Champagne, na Fran\u00e7a, onde passa pelo processo champenoise, repousa em caves, e, ap\u00f3s uma segunda fermenta\u00e7\u00e3o, matura durante um ano. Ap\u00f3s o processo de remuage (retirada dos sedimentos alocados no gargalo da garrafa), ela segue para a B\u00e9lgica e dali pra voc\u00ea.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/deus1.jpg\" alt=\"deus1.jpg\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alocada em uma bela garrafa de champagne com direito a rolha de corti\u00e7a (igual a vinhos), assim que aberta e despejada na ta\u00e7a (de prefer\u00eancia no modelo flauta semelhante ao de champagne), a DeuS apresenta uma bela colora\u00e7\u00e3o dourada com creme branco de m\u00e9dia forma\u00e7\u00e3o e perman\u00eancia. No nariz, acidez t\u00edpica de champagne embebida em do\u00e7ura maltada caramelada (com leve toque de baunilha) mais herbal condimentado (feno, hortel\u00e3 e capim-lim\u00e3o), frutado (uva verde) e sugest\u00e3o de gengibre. \u00c9 poss\u00edvel perceber os 11.5% de \u00e1lcool, que n\u00e3o assustam, mas avisam que est\u00e3o ali. Na boca, a alta carbonata\u00e7\u00e3o explode de forma mel\u00f3dica com do\u00e7ura maltada (mais mel que caramelo), amargor de \u00e1lcool com toque c\u00edtrico (maracuj\u00e1), ac\u00e9tico e herbal. H\u00e1 pouco azedume (essa garrafa \u00e9 da safra 2011), mas \u00e9 poss\u00edvel percebe-lo. O final \u00e9 picante, caramelado, frutado e sutilmente ac\u00e9tico. No retrogosto, mel, \u00e1lcool suave, frutado (um pouco de laranja e maracuj\u00e1 embebidos em \u00e1lcool) e felicidade. Uau.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/lucifer.jpg\" alt=\"lucifer.jpg\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A hist\u00f3ria da Lucifer come\u00e7a nos anos 50, quando ela come\u00e7ou a ser produzida pela Brouwerij Vondel. De l\u00e1 pra c\u00e1, o nome Lucifer (sem receita definida) passou pelas Brouwerij Artois, Rodenbach e Riva, que foi quem apostou numa receita de Belgian Strong Ale (inspirada no sucesso da Duvel). Ap\u00f3s a Riva abrir fal\u00eancia em 2002, ser vendida, renomeada como Liefmans Breweries, e falir de novo em 2007, a cervejaria foi adquirida pela Moortgat, casa da\u2026 Duvel, que focou na linha Liefmans e fez um acordo com a Het Anker (casa da Gouden Carolus), que assumiu em 2009 a responsabilidade de recolocar a Lucifer no mercado. O resultado \u00e9 uma cerveja de colora\u00e7\u00e3o dourada com creme branco de \u00f3tima forma\u00e7\u00e3o e m\u00e9dia alta perman\u00eancia. No nariz, do\u00e7ura caramelada e frutado em primeiro plano (p\u00eassego, banana e frutas cristalizadas) mais c\u00edtrico (ma\u00e7\u00e3 verde e uva) e leve ac\u00e9tico. Na boca, do\u00e7ura frutada (calda de p\u00eassego com um tiquinho dos 8% de \u00e1lcool) no primeiro toque, leve picancia na sequencia e uma \u00f3tima e variada paleta frutada (ma\u00e7\u00e3 verde, lim\u00e3o, p\u00eassego). No final, caldo de p\u00eassego com cacha\u00e7a e frutas cristalizadas. No retrogosto, frutado, ac\u00e9tico e picante. Boa.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/satan.jpg\" alt=\"satan.jpg\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m da B\u00e9lgica, mas muito mais antiga, a Brouwerij De Block foi fundada em 1887 no local em que outra cervejaria atuava desde o s\u00e9culo XIV, na pequena vila de Peizegem, anexa a cidade de Merchtem (pouco mais de 15 mil habitantes e a cerca de meia hora de Bruxelas). Com menos de 10 receitas no card\u00e1pio, a grande estrela da casa \u00e9 a Satan, produzida em duas vers\u00f5es: Gold e Red (Ambar). De colora\u00e7\u00e3o dourada com creme branco de boa forma\u00e7\u00e3o e m\u00e9dia perman\u00eancia, a Satan Gold apresenta um aroma maltado, com do\u00e7ura de caramelo (com um toque de \u00e1lcool sugestionando licor), frutas secas e leve c\u00edtrico (ma\u00e7\u00e3 e uva com leve remiss\u00e3o a vinho branco). Na boca, textura sedosa (quase licorosa) e do\u00e7ura caramelada no primeiro toque acompanhada de \u00e1lcool, que se apresenta sem nenhuma timidez, aquecendo o percurso. H\u00e1 frutado pelo caminho (ma\u00e7\u00e3, uva e pera) e leve c\u00edtrico numa cerveja que finaliza inicialmente doce para fechar suavemente amarga e picante. No retrogosto, leve acidez, mel, malte e \u00e1lcool. Boa.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/belezebuth.jpg\" alt=\"belezebuth.jpg\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De Ronchin, uma vila francesa de pouco mais de 3 mil habitantes pr\u00f3xima de Lille, a Brasserie Grain d\u2019Orge surge com a afamada linha Belzebuth (produzida na Holanda), que consiste de uma Golden Strong Lager de 8.4%, uma Imperial Pils de 11,8% e, mama mia, uma cacetada de 13% de \u00e1lcool. Das tr\u00eas, a Belzebuth Extra Strong Ale 11,8 foi a escolhida para representar a turma. Sua receita une \u00e1gua, malte de cevada, arroz, dextrose (um derivado da convers\u00e3o enzim\u00e1tica do amido de milho), caramelo arom\u00e1tico e l\u00fapulo. De colora\u00e7\u00e3o \u00e2mbar caramelada e creme alaranjado de m\u00e9dia forma\u00e7\u00e3o e perman\u00eancia, a Belzebuth Extra Strong Ale 11,8 apresenta bastante do\u00e7ura no aroma (mel, caramelo, a\u00e7\u00facar) e leve toque de cereais. O \u00e1lcool, ainda que n\u00e3o descarado, pode ser percebido em notas que remetem a licor. Na boca, textura sedosa, quase licorosa, aquecendo a l\u00edngua fervorosamente tal qual tequila, ainda que traga junto bastante do\u00e7ura de mel e caramelo. O conjunto, de forma impressionante, n\u00e3o \u00e9 agressivo, mas o \u00e1lcool \u00e9 percebido em todo gole. O final, longo, \u00e9 caramelado e alco\u00f3lico com leve toque c\u00edtrico enquanto o retrogosto traz aquecimento e do\u00e7ura. Interessante (mas ordin\u00e1ria).<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/belezebuth1.jpg\" alt=\"belezebuth1.jpg\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Balan\u00e7o<\/strong><br \/>\nCome\u00e7ando essa sequencia de Deus e Diabo (que tamb\u00e9m poderia incluir a Duvel &#8211; dem\u00f4nio na l\u00edngua flamenga) com a DeuS Brut des Flandres e ficando absolutamente maravilhado. Ela \u00e9\u2026 foda (desculpe algu\u00e9m ai cima). N\u00e3o vale o pre\u00e7o de mercado no Brasil (R$ 150 em m\u00e9dia), mas uns R$ 60, R$ 70 no m\u00e1ximo na gringa s\u00e3o um bom investimento. N\u00e3o \u00e9 uma cerveja para qualquer momento, ainda que possa combinar com diversas situa\u00e7\u00f5es. E, envelhecida, ela perde um pouco o car\u00e1ter radical que a vers\u00e3o mais nova prop\u00f5e (e assusta incautos)\u2026 e melhora. Mas saiba: \u00e9 uma grande cerveja\u2026 para momentos especiais. A primeira da linha de cervejas demon\u00edacas \u00e9 a Lucifer Het Anker, uma tentativa de Duvel mais melada e frutada (com leve lembran\u00e7a de Tripel Karmliet). N\u00e3o brilha com as duas cervejas que copia, mas \u00e9 saborosa. A Satan Gold parece ter mais personalidade, ainda que, desde o primeiro momento, deixa o \u00e1lcool percept\u00edvel num conjunto que parece separar bem do\u00e7ura, frutas e \u00e1lcool. Fechando o quarteto, a Belzebuth Extra Strong Ale 11,8 me surpreendeu, j\u00e1 que eu esperava algo muito pior. A receita se baseia no equil\u00edbrio entre o exagero de \u00e1lcool (11,8%) e a do\u00e7ura do malte, e aquece que \u00e9 uma beleza sem soar t\u00e3o agressiva. A rigor, \u00e9 uma Malt Liquor que visa embebedar rapidamente oferecendo pouco desafio ao paladar, e se seu intuito \u00e9 esse beba moderadamente. Esse dem\u00f4nio vai querer sua ressaca depois. V\u00e1 devagar.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/lucifer2.jpg\" alt=\"lucifer2.jpg\" \/><\/p>\n<p>DeuS Brut des Flandres<br \/>\n&#8211; Produto: Bi\u00e8re Brut<br \/>\n&#8211; Nacionalidade: B\u00e9lgica<br \/>\n&#8211; Gradua\u00e7\u00e3o alco\u00f3lica: 11,5%<br \/>\n&#8211; Nota: 4,90\/5<br \/>\n&#8211; Pre\u00e7o pago em S\u00e3o Paulo: R$ 90 \u2013 750 ml<\/p>\n<p>Lucifer Het Anker<br \/>\n&#8211; Produto: Belgian Golden Strong Ale<br \/>\n&#8211; Nacionalidade: B\u00e9lgica<br \/>\n&#8211; Gradua\u00e7\u00e3o alco\u00f3lica: 8%<br \/>\n&#8211; Nota: 3,20\/5<br \/>\n&#8211; Pre\u00e7o pago em S\u00e3o Paulo: R$ 19 \u2013 330 ml<\/p>\n<p>Satan Gold<br \/>\n&#8211; Produto: Belgian Golden Strong Ale<br \/>\n&#8211; Nacionalidade: B\u00e9lgica<br \/>\n&#8211; Gradua\u00e7\u00e3o alco\u00f3lica: 8%<br \/>\n&#8211; Nota: 3,21\/5<br \/>\n&#8211; Pre\u00e7o pago em S\u00e3o Paulo: R$ 19 \u2013 330 ml<\/p>\n<p>Belzebuth Extra Strong Ale 11,8<br \/>\n&#8211; Produto: Malt Liquor<br \/>\n&#8211; Nacionalidade: B\u00e9lgica<br \/>\n&#8211; Gradua\u00e7\u00e3o alco\u00f3lica: 11,8%<br \/>\n&#8211; Nota: 2,84\/5<br \/>\n&#8211; Pre\u00e7o pago em S\u00e3o Paulo: R$ 10 \u2013 500 ml<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/satan1.jpg\" alt=\"satan1.jpg\" \/><\/p>\n<p><strong>Leia tamb\u00e9m<\/strong><br \/>\n&#8211; Top 1001 Cervejas, por Marcelo Costa (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2010\/01\/01\/top-1001-cervejas-marcelo-costa\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Leia sobre outras cervejas (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/category\/boteco\/\">aqui<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Marcelo Costa\nCome\u00e7ando essa sequencia de Deus e Diabo (que tamb\u00e9m poderia incluir a Duvel &#8211; dem\u00f4nio na l\u00edngua flamenga) com a DeuS Brut des Flandres e ficando absolutamente maravilhado\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/03\/22\/boteco-uma-deus-e-tres-demonios\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[347],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/36767"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=36767"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/36767\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":36770,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/36767\/revisions\/36770"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=36767"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=36767"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=36767"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}