{"id":35695,"date":"2015-12-02T16:56:42","date_gmt":"2015-12-02T18:56:42","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=35695"},"modified":"2023-03-28T23:07:09","modified_gmt":"2023-03-29T02:07:09","slug":"entrevista-nobat-fala-sobre-o-novato","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/12\/02\/entrevista-nobat-fala-sobre-o-novato\/","title":{"rendered":"Entrevista: Nobat fala sobre &#8220;O Novato&#8221;"},"content":{"rendered":"<h3 style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-35696\" title=\"luannobat1\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/luannobat1.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/luannobat1.jpg 600w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/luannobat1-150x100.jpg 150w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/luannobat1-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/h3>\n<h3 style=\"text-align: center;\"><strong>por <a href=\"http:\/\/twitter.com\/lafaietejunior\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Lafaiete J\u00fanior<\/a><\/strong><\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><\/strong>Nobat nasceu em Belo Horizonte e ainda na inf\u00e2ncia foi morar na cidade de Tr\u00eas Marias, interior de Minas Gerais. No meio da adolesc\u00eancia voltou para a capital do estado. \u201cA cabe\u00e7a deu uma bagun\u00e7ada, as realidades eram muito antag\u00f4nicas. No interior eu desconhecia de muito longe os meios de socializa\u00e7\u00e3o que os jovens de uma cidade grande tinham\u201d, relembra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 2012, aos 21 anos, Nobat lan\u00e7ou seu primeiro trabalho, \u201cDisco Arranhado\u201d, um \u00e1lbum de rock que gritava por aten\u00e7\u00e3o em meio aos seus pares. Passados tr\u00eas anos o m\u00fasico entrega sua segunda obra: \u201cO Novato\u201d (dispon\u00edvel para download no <a href=\"https:\/\/soundcloud.com\/nobatmusic\/sets\/o-novato\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Soundcloud<\/a>) \u00e9 um salto musical e est\u00e9tico que chama aten\u00e7\u00e3o por si s\u00f3, sem elevar o tom. Atrelado a isso est\u00e1 uma busca do m\u00fasico para reencontrar sua voz art\u00edstica, algo que vem desde antes de come\u00e7ar de fato a produ\u00e7\u00e3o do \u00e1lbum. E essa voz \u00e9 percept\u00edvel nas 10 faixas do disco, que foi produzido por Daniel Nunes, da banda Constantina, e tem participa\u00e7\u00f5es de Helio Flanders, Tata Aeroplano e Julia Branco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nessa entrevista ao Scream &amp; Yell, Nobat demonstra ser um jovem aparentemente bem centrado e com os dois p\u00e9s fincados ao ch\u00e3o. Seja falando sobre seus primeiros passos na m\u00fasica, o aprendizado na produ\u00e7\u00e3o d\u2019 \u201cO Novato\u201d, a glamouriza\u00e7\u00e3o das bandas independentes, a m\u00fasica e a cultura de Belo Horizonte hoje, a gera\u00e7\u00e3o Y, o poss\u00edvel impacto na m\u00fasica brasileira de selos patrocinados por grandes empresas e muito mais. Confira!<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"100%\" height=\"550\" scrolling=\"no\" frameborder=\"no\" src=\"https:\/\/w.soundcloud.com\/player\/?url=https%3A\/\/api.soundcloud.com\/playlists\/156785997&amp;color=ff5500&amp;auto_play=false&amp;hide_related=false&amp;show_comments=true&amp;show_user=true&amp;show_reposts=false\"><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cO Novato\u201d me parece ser um novo come\u00e7o na sua carreira, tamanho \u00e9 o salto em rela\u00e7\u00e3o ao teu primeiro trabalho (\u201cDisco Arranhado\u201d, de 2012). Talvez at\u00e9 por isso a escolha do pr\u00f3prio nome. Voc\u00ea chegou a pensar nisso para construir esse \u00e1lbum, como se fosse uma esp\u00e9cie de desafio pra voc\u00ea mesmo?<\/strong><br \/>\nCom certeza! \u00c9 engra\u00e7ada essa coisa do nome do disco porque \u00e9 bem sintoma de tudo essa hist\u00f3ria. \u201cO Novato\u201d foi uma m\u00fasica que fiz em cima de um poema do Marcelo Diniz, um poeta e amigo de Belo Horizonte. Fizemos essa m\u00fasica no col\u00e9gio, acho que est\u00e1vamos no segundo ano do ensino m\u00e9dio. Naquela \u00e9poca eu compunha coisas assim, retratos das minhas experi\u00eancias e do meu referencial musical tamb\u00e9m. Quando cheguei ao final da adolesc\u00eancia, achei que eu era pedante demais e me desinteressei por isso tudo, quis porque quis fazer rock, coisas mais simples e diretas e nunca fui muito bom nisso, sempre fui meio prolixo, meio herm\u00e9tico&#8230; e eram essas coisas que eu gostava. Construir [o \u00e1lbum] \u201cO Novato\u201d me fez voltar \u00e0s origens que, naquele momento, eram novas pra mim e absolutamente desconhecidas por todos que me conheciam e sabiam do meu trabalho. Era tamb\u00e9m um momento de uma reformata\u00e7\u00e3o de imagin\u00e1rio, um processo de auto-descoberta e de mudan\u00e7a imensa dos meus desejos e ang\u00fastias. O disco revela um novato que de fato sou em tudo isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ainda nessa coisa de olhar para os dois discos: seu primeiro trabalho soa mais rebelde, rock. Talvez mais adolescente mesmo, no sentido de gritar para ser percebido pelo mundo. Ainda assim com letras meio que desesperan\u00e7osas. E agora \u201cO Novato\u201d me parece ter uma introspec\u00e7\u00e3o e melancolia para todos os lados, o que me parece ser uma caracter\u00edstica do mundo contempor\u00e2neo. Voc\u00ea acredita que esse lance do ambiente \u00e0 sua volta te leva para esses caminhos musicais?<\/strong><br \/>\nLancei o \u201cDisco Arranhado\u201d com 21 anos de idade, hoje tenho 25. Acho que al\u00e9m das quest\u00f5es todas da pergunta anterior, h\u00e1 sim o universo \u00e0 minha volta. A gera\u00e7\u00e3o Y na qual me incluo \u00e9 um lote de humanoides que n\u00e3o deu muito certo pros padr\u00f5es que o sistema vigente exige. Digo isso por v\u00e1rios motivos, mas sobretudo pelas frustra\u00e7\u00f5es que percebo nos meus amigos, primos, colegas que entraram no tal universo do mercado de trabalho. O mito do vencedor fracassou em n\u00f3s, n\u00e3o nos estimula nada, \u00e9 extremamente tedioso pra gente. Sabe aquela figura do executivo bem sucedido com suas roupas executivas, aquele celular e maletinha? Aquilo n\u00e3o \u00e9 uma aspira\u00e7\u00e3o pra gente, pelo que posso captar. Tamb\u00e9m fomos filhos de uma classe m\u00e9dia que introjetou em n\u00f3s uma no\u00e7\u00e3o de que \u00e9ramos especiais, a escola tamb\u00e9m fez isso e a disputa era a base das rela\u00e7\u00f5es pessoais. Quando adolescente, todo mundo queria ser mais bonito, mais esperto, mais inteligente, melhor naquele esporte que o outro. Disputamos o tempo inteiro. De tudo que nos foi dado, s\u00f3 sobrou uma gigantesca parcela de ego e isso tem se mostrado uma caracter\u00edstica ruim a meu ver, da\u00ed a melancolia indissoci\u00e1vel. H\u00e1 tamb\u00e9m a influ\u00eancia de artistas anteriores que grifaram e introduziram na m\u00fasica pop mundial essa quest\u00e3o, claro, e isso me influencia como influencia a todos que comp\u00f5em.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E quais s\u00e3o esses artistas pra voc\u00ea?<\/strong><br \/>\nTemos uma leva gigantesca de artistas que fizeram isso. Poderia citar Lou Reed, David Bowie, Billy Corgan, Thom Yorke. H\u00e1 pouco tempo li um artigo da revista Piau\u00ed tamb\u00e9m super interessante falando um pouco sobre esses dilemas da gera\u00e7\u00e3o Y com o mundo contempor\u00e2neo e associando as letras do Los Hermanos \u00e0 todas as quest\u00f5es que enfrentam essas pessoas. Sempre achei que o Los Hermanos tinha conseguido um feito incr\u00edvel que era o de ter alcan\u00e7ado coisas do inconsciente coletivo dessa gera\u00e7\u00e3o, mas nunca havia relacionado isso \u00e0s letras e esse artigo me elucidou uma s\u00e9rie de quest\u00f5es que me fazem colocar o Los Hermanos, sobretudo o Marcelo Camelo, nesse lugar tamb\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E voc\u00ea pensava em algo espec\u00edfico sobre esse lance do Los Hermanos ter alcan\u00e7ado o inconsciente coletivo dessa gera\u00e7\u00e3o? J\u00e1 que n\u00e3o relacionava isso \u00e0s letras&#8230; Como voc\u00ea achava ou acha que a banda chegou onde chegou?<\/strong><br \/>\nEu simplesmente identificava uma pot\u00eancia muito ampla, extremamente abrangente na obra dos Hermanos, mas n\u00e3o entendia muito bem porqu\u00ea. No col\u00e9gio, na \u00e9poca de ensino m\u00e9dio, eu e uns pouqu\u00edssimos colegas\/amigos \u00e9ramos muito f\u00e3s de Los Hermanos e vez ou outra toc\u00e1vamos as m\u00fasicas nos corredores do col\u00e9gio, na sala entre uma aula e outra, nos recreios&#8230; fomos meio que &#8220;espalhando&#8221; pra uma galera. Terminou que o hino da minha sala naquele ano foi &#8220;Sentimental&#8221;, cant\u00e1vamos aquilo a plenos pulm\u00f5es e todo mundo vivia aquela experi\u00eancia de corpo e alma mesmo, n\u00e3o porque \u00e9ramos grandes amigos e uma turma extremamente unida, mas porque essa m\u00fasica nos unia num canto comum. A galera que n\u00e3o dava a m\u00ednima pra m\u00fasica, aqueles que adoravam, os alternativos, os playboys e patricinhas, os nerds, todo mundo entoava aquilo em alto tom porque aquele universo havia sido apresentado a eles, bastou ouvirem pra se pregarem naquilo. Eu sabia que havia algo naquelas m\u00fasicas que falava pra todo mundo, mas n\u00e3o sabia o que era exatamente. Suspeitava da melancolia nas melodias que \u00e9, sem d\u00favida, um componente forte nesse sentido, mas a letra eu nunca tinha parado pra associar. N\u00e3o sei o que necessariamente fez a banda chegar onde chegou em termos de carreira, sucesso e p\u00fablico, nem se trata disso a quest\u00e3o pra mim &#8211; as causas desse fato tem in\u00fameras vari\u00e1veis que desconhe\u00e7o completamente, at\u00e9 porque Los Hermanos foi uma banda que viveu uma grande estrutura, lan\u00e7ou discos pela Abril, enfim&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/3_Nl3I1gQ2c\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/3_Nl3I1gQ2c\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voltando um pouco: como era a sua adolesc\u00eancia? O que voc\u00ea ouvia?<\/strong><br \/>\nTive uma adolesc\u00eancia que \u00e9 um retrato de paradoxos intensos, por assim dizer. Nasci em Belo Horizonte, mas no final da inf\u00e2ncia me mudei pra uma cidade pacata do interior de Minas Gerais, Tr\u00eas Marias. L\u00e1 \u00e9 um lugar cheio de refer\u00eancias da literatura, Manoelz\u00e3o, personagem de Guimar\u00e3es Rosa vivia em Andrequic\u00e9, um distrito a vinte minutos de onde eu morava, tive o prazer de conhec\u00ea-lo pessoalmente, entre outras coisas. Havia muitos escritores independentes autorais, sempre rolava o lan\u00e7amento de um livro da ou sobre a cidade que era repleta de lendas tamb\u00e9m. Por essas e outras raz\u00f5es, me envolvi muito cedo com os livros. Em termos de m\u00fasica, minha principal escola sempre foi minha casa. L\u00e1 ouvia-se de tudo, mas a m\u00fasica popular brasileira, especialmente o Clube da Esquina, tinha um destaque maior. Meus pais s\u00e3o muito festivos, bo\u00eamios, quase beatniks e nas festas frequentes l\u00e1 em casa ouvia-se e tocava-se de tudo \u2013 meu pai \u00e9 um excelente violonista, mas n\u00e3o \u00e9 profissional. No in\u00edcio da adolesc\u00eancia fui apresentado ao universo do rock e do hip hop, eram os anos 2000 e o rap tinha uma crescente absurda. Ouvi discos de muitos artistas de ambientes est\u00e9ticos diversos e aprendi a tocar viol\u00e3o tamb\u00e9m nessa \u00e9poca. Me lembro de umas coisas como Vin\u00edcius de Moraes, L\u00f4 Borges, Beto Guedes, Gonzaguinha, Beatles, Legi\u00e3o Urbana, Caetano, Gil, Chico, Ednardo, Belchior, sei l\u00e1&#8230; Depois, no meio da adolesc\u00eancia, tive que voltar pra BH e esse foi um per\u00edodo muito dif\u00edcil, mas tamb\u00e9m extremamente importante e definidor. A cabe\u00e7a deu uma bagun\u00e7ada, as realidades eram muito antag\u00f4nicas. No interior eu desconhecia de muito longe os meios de socializa\u00e7\u00e3o que os jovens de uma cidade grande tinham. A \u00fanica quest\u00e3o que existia era o hor\u00e1rio da pelada e quando \u00edamos nos encontrar pra tocar algum instrumento, andar de bicicleta pela cidade, ir ao clube pra nadar e fazer coisas, at\u00e9 bolinha de gude rolava. Em BH havia a for\u00e7a da publicidade, roupas de marca, tecnologia, o enjaulamento em fun\u00e7\u00e3o do transito e da viol\u00eancia urbana. Enfim, um universo totalmente outro em que fui entrando com dor aos poucos, mas nunca sofri com socializa\u00e7\u00e3o. Fiz amigos muito cedo e guardei pro meu quarto minhas frustra\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea j\u00e1 fazia m\u00fasica quando era adolescente? Quando isso come\u00e7ou na sua vida?<\/strong><br \/>\nA primeira m\u00fasica que fiz mesmo foi com uns 12 anos, mais ou menos. Uma coisa meio CPM 22 horrorosa, mas tenho super carinho por ela e me lembro at\u00e9 hoje da letra pat\u00e9tica e da melodia assombrosa. Aquele foi o in\u00edcio das coisas, foi quando virei a chavinha na minha cabe\u00e7a que me tornava poss\u00edvel criar minhas pr\u00f3prias m\u00fasicas ao inv\u00e9s de s\u00f3 reproduzir aquelas que eu gostava. Foi muito importante perceber que aquilo era um meio de express\u00e3o, me permitiu muita coisa aquele gesto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Nesse per\u00edodo voc\u00ea chegou a ter banda ou alguma coisa do tipo? Ou era algo mais seu mesmo?<\/strong><br \/>\nEra algo mais meu. As bandas que tive nesse per\u00edodo n\u00e3o eram nada a s\u00e9rio e nem mesmo autorais. Nunca fizemos nenhum show. Compunha m\u00fasicas pra mim e mostrava aos meus amigos sem fazer a menor ideia de o que eu faria com aquilo, muito menos como ou quando.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea disse que se envolveu desde cedo com os livros. O que voc\u00ea lia e curte ler hoje?<\/strong><br \/>\nNo in\u00edcio, na inf\u00e2ncia me lembro de ter lido alguns cl\u00e1ssicos que meus pais e tios deram, tipo \u201cCapit\u00e3es da Areia\u201d, \u201cMoreninha\u201d, \u201cDom Casmurro\u201d, \u201cInvaho\u00e9\u201d, coisas assim, mas tamb\u00e9m era fissurado por uma cole\u00e7\u00e3o chamada Turma dos Tigres e lia Sidney Sheldon, Agatha Christie &#8211; minha m\u00e3e tinha quase tudo e eu delirava quando novinho naquelas tramas policiais, depois me desinteressei. No in\u00edcio da adolesc\u00eancia j\u00e1 cai no Guimar\u00e3es por for\u00e7a da cidade, mas na \u00e9poca n\u00e3o entendi nada, s\u00f3 fui recuperar mais a frente. Drummond foi me aplicado nessa \u00e9poca tamb\u00e9m e foi minha primeira grande imers\u00e3o na poesia, tive um professor de literatura foda que soube muito bem como aplicar. H\u00e1 pouco tempo eu tive muito envolvido com o existencialismo e algumas de suas tang\u00eancias. \u201cO Mito de S\u00edsifo\u201d, do Albert Camus, \u201cVigiar e Punir\u201d, do Foucault, o \u201cOutsider\u201d, do Colin Wilson, que \u00e9 um ensaio incr\u00edvel sobre a presen\u00e7a do \u201cestranh\u00f3ide\u201d na arte textual, em v\u00e1rios g\u00eaneros (poesia, romances, cantigas) do s\u00e9culo XV ao XX, mas depois dei uma aliviada porque eram livros \u201cpesados\u201d demais. Ganhei recentemente a antologia completa da Ana Cristina C\u00e9sar, chamada \u201cPo\u00e9tica\u201d, e t\u00f4 em orgasmos m\u00faltiplos, descobri outra guru na minha vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Pra voc\u00ea qual \u00e9 a maior diferen\u00e7a entre o Nobat de 2012 e o Nobat de 2015? E existe alguma semelhan\u00e7a entre eles?<\/strong><br \/>\nNossa, essa pergunta \u00e9 dif\u00edcil demais! Acho que as diferen\u00e7as s\u00e3o muitas e elas pautam comportamentos e performances que montam uma distin\u00e7\u00e3o clara. O Nobat de 2012 era mais pessimista, por incr\u00edvel que pare\u00e7a, e um tanto mais animado com tudo tamb\u00e9m. O \u201ceu\u201d de agora \u00e9 mais tranquilo e otimista, mas curiosamente mais relaxado com tudo. Sou mais organizado hoje em dia tamb\u00e9m e como artista sei que encaro de maneira mais profissional o fazer, apesar de que tamb\u00e9m tenho uma vis\u00e3o menos empolgada com os cen\u00e1rios do que tinha antes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E qual a sua vis\u00e3o dos cen\u00e1rios de antes e agora?<\/strong><br \/>\nAh, minha vis\u00e3o, pra ser bem honesto, muda todos os dias. Cada vez surge uma coisa que confirma umas vis\u00f5es e outras que me fazem renegar alguns pontos. Acho que o cen\u00e1rio hoje tem uma pot\u00eancia absurda e pode crescer muito com suas pr\u00f3prias pernas. Cada artista hoje tem condi\u00e7\u00f5es de trilhar seu caminho sem depender de modelos pr\u00e9-estabelecidos por nenhuma estrutura e muito menos por outros artistas que acham que j\u00e1 sabem o que tem que ser feito ou aquilo que n\u00e3o deve ser feito, n\u00e9? Agora surgiram esses selos todos a\u00ed que t\u00eam patroc\u00ednios consider\u00e1veis de grandes marcas e est\u00e3o aplicando isso em algumas carreiras independentes. Um exemplo disso \u00e9 o StereoMono, selo do [produtor musical Carlos Eduardo] Miranda bancado por uma grande marca de cerveja e que pegou algumas bandas, como o Boogarins, por exemplo. Tenho uma vis\u00e3o muito turva do que isso pode significar e como vai impactar na cena brasileira. N\u00e3o sei se far\u00e1 bem pra toda uma cena ou se vai criar mais um clube de privilegiados como faziam as majors na \u00e9poca \u00e1urea da ind\u00fastria fonogr\u00e1fica e distanciar ainda mais os outros artistas do p\u00fablico potencial deles, sabe? \u00c9 dif\u00edcil porque percebo pelos festivais onde vou ou que produzo que passou a existir um p\u00fablico, mesmo que restrito, que glamourizou o independente e criou rela\u00e7\u00f5es diretas com bandas e artistas de todo o pa\u00eds justamente porque ficou um buraco entre a queda da ind\u00fastria (o fim da interven\u00e7\u00e3o de grandes estruturas no mercado alternativo e de rock) e essa reerguida do independente mesmo. \u00c9 claro que \u00e9 \u00f3timo ver uma banda foda como Boogarins recebendo retorno e aten\u00e7\u00e3o pelo belo trabalho que sempre fizeram, os caras s\u00e3o correria e talentosos pra caramba. N\u00e3o \u00e9 deles que t\u00f4 falando. Mas fico com medo do que v\u00e3o ser os pr\u00f3ximos momentos do cen\u00e1rio nacional depois dessas interven\u00e7\u00f5es de grandes estruturas novamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/MB-5p5tvc7w\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/MB-5p5tvc7w\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9, n\u00e3o parece ser poss\u00edvel prever o que vai rolar&#8230; Li uma vez algum m\u00fasico, que n\u00e3o lembro quem \u00e9, falando que o cen\u00e1rio ainda era unido do jeito que \u00e9 porque ningu\u00e9m ainda tinha &#8220;estourado&#8221; nos moldes da velha ind\u00fastria. O que voc\u00ea acha disso?<\/strong><br \/>\nFaz sentido. Acredito mesmo que o fato de estar todo mundo num mesmo universo ou pelo menos bem pr\u00f3ximos um do outro cria uma consist\u00eancia nas rela\u00e7\u00f5es e uma teia mais &#8220;justa&#8221; e firme, digamos assim. Os envolvidos de todos os projetos e estruturas terminam sendo um pouco mais solid\u00e1rios porque sabem que t\u00e1 todo mundo na mesma e a tarefa n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil pra ningu\u00e9m, o interesse \u00e9 no TODO tamb\u00e9m e n\u00e3o apenas num projeto. A galera passou a perceber a import\u00e2ncia do TODO pras coisas rolarem de modo mais consistente. Quando o interesse acontece no TODO, a partir de uma est\u00e9tica ou de um grupo, as pessoas acabam produzindo mais e melhor a favor desse TODO, o que faz o TODO crescer e ampliar suas possibilidades. Podemos chamar esse TODO de cena ou qualquer coisa que d\u00ea essa ideia. Digo isso, mas acredito que seja muito importante pra esse momento agora que v\u00e1rios projetos estourem, tipo o pr\u00f3prio Boogarins, que al\u00e9m de uma banda super talentosa \u00e9 tamb\u00e9m uma galera do rol\u00ea. Mas ia ser massa mesmo se fossem v\u00e1rios. Isso vai propor uma nova rela\u00e7\u00e3o com a m\u00fasica em v\u00e1rios n\u00edveis e pode ressignificar padr\u00f5es muito engessados que h\u00e1 tempos s\u00e3o a pauta principal dos ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o em massa, do p\u00fablico em geral e pode reposicionar v\u00e1rios holofotes pra outros territ\u00f3rios da m\u00fasica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>J\u00e1 que voc\u00ea falou disso&#8230; O que voc\u00ea acha desse lance da glamouriza\u00e7\u00e3o do independente?<\/strong><br \/>\nAcho interessante. Sempre houve essa figura pelo que vejo e leio. A galera que ia comprar zines nas bancas, que gravava fitas k7 ou que se reunia nos anos 80 pra juntar moedas e comprar juntos o \u00faltimo e rec\u00e9m-lan\u00e7ado disco do Hojerizah, por exemplo \u2013 um amigo me disse que fazia isso com sua turma de adolesc\u00eancia. \u00c9 massa porque pra pessoa que faz isso \u00e9 uma maneira de se sentir diferente, descolada, conhecer aquilo que ningu\u00e9m conhece e sair falando e mostrando pra todo mundo. Pro lado de c\u00e1 \u00e9 importante porque \u00e9 isso que faz a coisa toda valer a pena e fazer sentido. Se n\u00e3o houver quem goste dessas coisas que n\u00e3o est\u00e3o na TV, nas r\u00e1dios e na grande m\u00eddia (mesmo a da internet) e d\u00ea alguma import\u00e2ncia especial a elas, n\u00e3o h\u00e1 porque sairmos dos est\u00fadios ou dos nossos quartos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Qual a import\u00e2ncia do Daniel Nunes, do Constantina, na produ\u00e7\u00e3o do disco?<\/strong><br \/>\nA import\u00e2ncia do Daniel \u00e9 toda. Sem ele n\u00e3o havia a menor chance de realizar esse disco. Ele teve a sensibilidade de entrar no universo do disco e abrir as portas dele pra outras possibilidades tamb\u00e9m. Ele me provocou quest\u00f5es importantes pra que eu ou mudasse ou aprendesse a defender melhor as inten\u00e7\u00f5es do disco, isso me deixou mais seguro quanto ao que tinha que ser feito e aquilo que deveria ser descartado. Outro ponto importante foi a colabora\u00e7\u00e3o ou transforma\u00e7\u00e3o completa de alguns arranjos \u2013 \u201cO Novato\u201d, faixa-t\u00edtulo, tem interven\u00e7\u00f5es do Daniel que fizeram da m\u00fasica outro lugar; \u201cComo Sempre\u201d e \u201cOutros Dias\u201d t\u00eam outras paisagens bem mais maduras do que tinham antes e por a\u00ed vai. O processo das grava\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m foi muito rico, artesanal, feito \u00e0 m\u00e3o e pensado humanamente, tudo proposto e arquitetado pelo Daniel. Foi uma parceria fundamental pra que pud\u00e9ssemos publicar o disco dentro das suas riquezas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O que voc\u00ea aprendeu durante a produ\u00e7\u00e3o d&#8217;\u201cO Novato\u201d?<\/strong><br \/>\nAprendi muita coisa, nossa! Me tornei outro ser humano e outro m\u00fasico ao sair do Pequeno Quarto, ateli\u00ea do Dani onde gravamos todas as coisas. Aprendi a esperar o tempo das coisas que devem ser feitas, ditas, conclu\u00eddas em pensamento. Aprendi a respeitar muito o trabalho de outras pessoas e a me desinteressar completamente por um h\u00e1bito costumeiro de sempre exercer um olhar \u00e1cido e cr\u00edtico em rela\u00e7\u00e3o a tudo e todos. Aprendi a import\u00e2ncia do sil\u00eancio e o continente presente em cada possibilidade. Ver o Daniel usando pr\u00e9-amplificadores, colch\u00f5es, posicionando microfones feito um cientista maluco e encontrando aquele som que n\u00f3s definimos por meio de conversas e trocas de refer\u00eancias me animou muito tamb\u00e9m a investir em conhecimento e em equipamentos pra que eu possa, num futuro pr\u00f3ximo, registrar minhas pr\u00f3prias coisas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Por que fazer uma m\u00fasica para (ou sobre) o Bruno C\u00e9sar, da banda Hotel Catete? E por que convidar o Tat\u00e1 Aeroplano para participar da faixa?<\/strong><br \/>\nNa verdade, essa m\u00fasica foi feita em cima de uma hist\u00f3ria que ouvi do pr\u00f3prio Bruno C\u00e9sar, que \u00e9 um artista que eu admiro cada vez mais e uma pessoa por quem tenho um carinho imenso. Nem sei se deveria registrar isso aqui, mas n\u00e3o vou ter tempo de pedir permiss\u00e3o pra ele! (risos) Certa vez, Bruno me procurou pelo telefone ou pelo Facebook, n\u00e3o me lembro, pra me contar que estava super mal e triste, da\u00ed fomos nos encontrar no [Edif\u00edcio] Maletta e ele me contou o que estava vivendo com aquela paix\u00e3o costumeira no agir dele e at\u00e9 mesmo nas can\u00e7\u00f5es do Hotel Catete. Aquilo me estourou a cabe\u00e7a e comecei no dia mesmo a escrever os primeiros versos da can\u00e7\u00e3o enquanto contornava as palavras com a melodia torta que eu descobri ali. A inten\u00e7\u00e3o era pegar uma coisa bem sambolero, samba-can\u00e7\u00e3o, aquele melodrama de Lupic\u00ednio Rodrigues, Ataulfo Alves, Vicente Celestino, Nelson Gon\u00e7alves e transportar para a contemporaneidade \u2013 coisas que fazem muito bem o Hotel Catete e o pr\u00f3prio Tat\u00e1 Aeroplano em sua carreira solo. Foi deles que eu bebi essa possibilidade. O Tat\u00e1 tinha vindo participar da abertura do VAC [Ver\u00e3o Arte Contempor\u00e2nea] 2015 no Museu da Pampulha no final do ano passado e depois do show que ele fez com a Frame Circus e a Zero Um, dois projetos dele com Paulo Beto, fomos pro Baixo Centro e depois pra minha casa. Apresentei a can\u00e7\u00e3o e o convidei pra participar no disco e ele topou. Depois ele esqueceu, mas topou de novo! (risos)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/BOiF7YoLnJk\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/BOiF7YoLnJk\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E como rolou a parceria com Helio Flanders em &#8220;N\u00e3o Deu&#8221;?<\/strong><br \/>\nEssa m\u00fasica fala sobre as v\u00e1rias rela\u00e7\u00f5es que constru\u00ed na minha vida com a cidade de S\u00e3o Paulo. Mantenho uma rela\u00e7\u00e3o paradoxal com aquele lugar, um misto de deslumbre e desilus\u00e3o, de encanto e rejei\u00e7\u00e3o, de desejo e ang\u00fastia. Quando terminei de compor a can\u00e7\u00e3o, fiquei cantarolando a m\u00fasica e percebi que havia ali uma influ\u00eancia enorme do canto do Helio Flanders e fiquei brincando que gostaria muito que ele participasse \u2013 j\u00e1 tinha at\u00e9 pensado em quais partes logo quando fiz a letra e a melodia no viol\u00e3o. Um certo dia, fiz os arranjos da m\u00fasica num software de programa\u00e7\u00e3o eletr\u00f4nica e mandei pra ele como quem n\u00e3o espera nada, s\u00f3 pra fazer o que tinha que fazer. Eu ia gravar um v\u00eddeo pra revista Rolling Stone e queria que ele participasse ali. Pra minha surpresa, em poucas horas ele respondeu e topou fazer parte do v\u00eddeo e depois do disco. A m\u00fasica \u00e9 sobre a rela\u00e7\u00e3o com S\u00e3o Paulo e \u00e9 interpretada por dois \u201cestrangeiros\u201d, meio que do mato \u2013 tudo bem que hoje Helio \u00e9 quase um paulistano depois de tanto tempo morando na cidade, mas \u00e9 de Cuiab\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ainda falando em parcerias&#8230; Se n\u00e3o me engano a faixa &#8220;LSD&#8221;, com a Julia Branco, foi a primeira do disco que voc\u00ea soltou, l\u00e1 em 2013. E j\u00e1 indicava uma guinada em rela\u00e7\u00e3o ao seu primeiro disco. Era uma maneira de preparar as pessoas que te acompanham para o que viria ou era pra voc\u00ea mesmo se encontrar?<\/strong><br \/>\nEra um pouco de cada coisa. Queria me reencontrar e comunicar a quem estava por perto dessa busca por mim mesmo na experi\u00eancia art\u00edstica e tamb\u00e9m na social. Lancei a m\u00fasica porque me empolgou muito a conclus\u00e3o dela no est\u00fadio e houve tamb\u00e9m uma ansiedade em compartilhar aquilo. Eram os primeiros passos d\u2019\u201cO Novato\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O disco n\u00e3o tem exatamente uma banda fixa te acompanhando por todas as faixas e \u00e9 repleto de participa\u00e7\u00f5es. Por que essa escolha?<\/strong><br \/>\nEsse disco em termos est\u00e9ticos musicais \u00e9 tamb\u00e9m uma consequ\u00eancia do que tem acontecido e do que pude experimentar em Belo Horizonte indo a shows e ouvindo discos dos artistas e bandas daqui. A cidade tem explodido sua criatividade e tem uma das principais safras da m\u00fasica independente autoral contempor\u00e2nea no Brasil. Era um anseio inicial meu convidar cada m\u00fasico que influenciou cada arranjo pra que aquilo tivesse a pluralidade que desejava e a refer\u00eancia que merecia cada can\u00e7\u00e3o. Foi um privil\u00e9gio poder realizar isso em parte e homenagear, digamos, os artistas e bandas que influenciaram a composi\u00e7\u00e3o ou os arranjos das m\u00fasicas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>No meio do niilismo do disco tem a faixa &#8220;Lu\u00edsa&#8221;, que \u00e9 possivelmente a \u00fanica can\u00e7\u00e3o mais colorida e esperan\u00e7osa de todo o \u00e1lbum. Fale um pouco sobre o que a m\u00fasica e a musa representam pra voc\u00ea.<\/strong><br \/>\nLu\u00edsa \u00e9 minha namorada, com quem divido minha passagem pelo planeta lado a lado. Somos corpos irm\u00e3os e \u00e9 com ela tamb\u00e9m que compartilho os trabalhos dentro do projeto: fazemos a produ\u00e7\u00e3o, negociamos shows, divulgamos o trabalho pra jornalistas e produtores, produzimos material, foto, v\u00eddeos, enfim&#8230; \u00c9 ao lado dela que vivencio as coisas e, a princ\u00edpio, era uma m\u00fasica que n\u00e3o iria entrar no disco, mas algumas opini\u00f5es nas quais confio muito \u2013 incluindo a dela, claro \u2013 n\u00e3o permitiram que a can\u00e7\u00e3o ficasse de fora. Eu tamb\u00e9m passei a ler de forma diferente e gostei de ter uma m\u00fasica assim no \u00e1lbum que \u00e9 denso demais tem hora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O disco todo \u00e9 bem org\u00e2nico, mas acredito que a faixa &#8220;Como Sempre&#8221; seja a mais org\u00e2nica de todas, confere?<\/strong><br \/>\nAcredito que as mais org\u00e2nicas sejam as duas m\u00fasicas do final do disco, \u201cJudith\u201d e ela. Foi uma loucura a hist\u00f3ria dessa can\u00e7\u00e3o no processo. Eu havia desenhado um arranjo pra ela com clarone, harpa, sintetizador e bateria e foi a primeira m\u00fasica que mandei pro Daniel quando ele ainda estava na Europa estudando. Eu pensava tamb\u00e9m nela como uma m\u00fasica do meio do projeto, tipo a quinta faixa. Acho que me lembro de ouvir o Dani dizer que essa era a m\u00fasica favorita dele pela letra e melodia. Foi a primeira m\u00fasica em que ele prop\u00f4s alguma coisa tamb\u00e9m, me mandou de l\u00e1 mesmo um experimento com uma paisagem eletr\u00f4nica como introdu\u00e7\u00e3o. Eu, a princ\u00edpio achei muito bonito, mas depois achei que era uma beleza um pouco doce demais pra atmosfera que eu percebia e desejava pra \u201cComo Sempre\u201d. Da\u00ed fomos tentando fazer as coisas e respeitei muito a inquieta\u00e7\u00e3o do Dani naquilo, eu sabia que ele tinha algo com a faixa e estava muito curioso pra ver onde chegaria aquela movimenta\u00e7\u00e3o. Ela terminou sendo a \u00faltima m\u00fasica em que trabalhamos. J\u00e1 hav\u00edamos gravado tudo e est\u00e1vamos na semana final do disco quando percebemos que era hora de mexer de vez nela e foi quando rolou o grande estalo no Daniel. Ele percebeu que o disco estava come\u00e7ando com um prel\u00fadio, aquela paisagem sonora na introdu\u00e7\u00e3o de \u201cO Novato\u201d [faixa-t\u00edtulo], da\u00ed ele prop\u00f4s que coloc\u00e1ssemos \u201cComo Sempre\u201d fechando o \u00e1lbum, pra que ela fosse uma esp\u00e9cie de posl\u00fadio e sugeriu um arranjo com a viola, as vozes e texturas que ele mesmo construiu. Achei foda porque o disco j\u00e1 estava com as instrumenta\u00e7\u00f5es muito pesadas e a m\u00fasica seria s\u00f3 mais uma com aquele tanto de instrumento. Fora o fato de que o arranjo previsto anteriormente enterrava a letra da m\u00fasica que \u00e9 de uma import\u00e2ncia fundamental pra percep\u00e7\u00e3o de tudo ali.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea citou a m\u00fasica &#8220;Judith&#8221;. Existe de fato algu\u00e9m que \u00e9 personagem ou inspira\u00e7\u00e3o pra essa?<\/strong><br \/>\nEssa m\u00fasica \u00e9 sobre a hist\u00f3ria de amor entre dois amigos meus. Um se chamava Thiago e outro Julian e a letra narra a paix\u00e3o acontecendo pelos olhos do Thiago. Nunca tinha visto Thiago se apaixonar e quando aquilo aconteceu foi de uma beleza rara poder acompanhar as confus\u00f5es na cabe\u00e7a dele, como amigo. E isso fez com quem eu escrevesse a letra e can\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O que voc\u00ea acha da m\u00fasica produzida em Belo Horizonte hoje? O que mais te encanta e at\u00e9 mesmo o que n\u00e3o te agrada?<\/strong><br \/>\nComo eu disse anteriormente, a m\u00fasica produzida em BH \u00e9 a principal refer\u00eancia pra feitura desse disco. Acredito que aqui estamos produzindo bem coisas muito corajosas e que merecem muito destaque. Sou f\u00e3 demais de algumas coisas como Constantina, Dibigode, A Fase Rosa, Iconili, Zimun, Roger Deff, LG Lopes, C\u00e2mera, Valsa Bin\u00e1ria, Hotel Catete, Carmen Fem&#8230; \u00c9 tanta coisa que fica dif\u00edcil lembrar de tudo. A cidade tamb\u00e9m tem vivido uma revolu\u00e7\u00e3o impressionante nos formatos de produ\u00e7\u00e3o de eventos e ocupa\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os p\u00fablicos. O carnaval daqui j\u00e1 \u00e9 uma realidade que considero bel\u00edssima, al\u00e9m de outras propostas que lotam a agenda da semana cultural e art\u00edstica aqui. O que n\u00e3o gosto \u00e9 o fato da cidade ainda ser representativa da cena cover, mesmo respeitando muito quem faz esse trabalho (at\u00e9 porque quem faz se diverte e t\u00e1 levantando a\u00ed sua grana), mas ver a cidade construindo uma imagem t\u00e3o bonita e importante em sua cena autoral e perceber que as pessoas daqui ainda n\u00e3o compraram de vez isso, constatar que a galera ainda prefere gastar muito dinheiro pra ver se reproduzir bandas e artistas passados (ainda que eternos) \u00e9 o diagn\u00f3stico mais indiscut\u00edvel de que ainda temos muito o que fazer. \u00c9 um paradoxo chat\u00edssimo e sempre perigoso. O novo aqui ainda \u00e9 um problema s\u00e9rio e isso s\u00f3 engorda as montanhas que os artistas t\u00eam que atravessar pra conseguir fazer seu trabalho sobreviver.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E o que a pr\u00f3pria Belo Horizonte representa na sua vida? Qual a tua rela\u00e7\u00e3o com a cidade?<\/strong><br \/>\nAmo Belo Horizonte, acho uma cidade incr\u00edvel, bel\u00edssima de verdade. Tem problemas s\u00e9rios, um prefeito que n\u00e3o gosta de gente, uma l\u00f3gica urbana cada vez mais perversa que prima por interesses empresariais e cumpre apenas os compromissos eleitorais firmados com os grandes financiadores de campanhas, que tenta apagar a hist\u00f3ria da cidade rabiscando verticalmente lugares que s\u00e3o ber\u00e7os importantes como Lagoinha, Santa Tereza e tudo mais. No entanto a juventude daqui, entre erros e acertos, tem se movimentado bastante e tem se empoderado da cidade de uma maneira inteligente. O baixo centro da cidade \u00e9 uma prova disso todo final de semana. Os eventos gratuitos, em pra\u00e7as, em estacionamentos, em edif\u00edcios abandonados s\u00e3o uma ponta de esperan\u00e7a. O Espa\u00e7o Comum Luiz Estrela \u00e9 uma esperan\u00e7a. O Duelo de MCs \u00e9 uma esperan\u00e7a. O carnaval de Belo Horizonte \u00e9 uma realidade que inflama muito essa esperan\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Tirando a m\u00fasica, o que voc\u00ea acha que mais te influencia para fazer m\u00fasica?<\/strong><br \/>\nUltimamente o cinema e as artes pl\u00e1sticas. A literatura sempre foi tamb\u00e9m foi um componente muito vivo na feitura dos meus experimentos na arte em geral. Mas ultimamente o cinema tomou uma import\u00e2ncia maior e as artes pl\u00e1sticas, por sua versatilidade e formatos mais amplos, tamb\u00e9m t\u00eam me provocado mais nesse momento da vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea pode falar sobre os filmes e artistas\/trabalhos de artes pl\u00e1sticas que t\u00eam te provocado? E o motivo pelo qual te provocam, se \u00e9 que \u00e9 poss\u00edvel verbalizar isso.<\/strong><br \/>\nNossa, \u00e9 tanta coisa que a gente vai assimilando que vai ser dif\u00edcil recuperar tudo assim, mas sei que o disco \u00e9 bem cinematogr\u00e1fico naquilo que capto em Lars von Trier, por exemplo \u2013 que revela tudo com trilhas sonoras muito impiedosas -, \u201cMelancolia\u201d e \u201cAnticristo\u201d, por serem mais arrastados, lentos e r\u00edgidos me parecem mais conectados ao imagin\u00e1rio do disco e podiam ser panfletos do que disse. Francis Bacon foi um artista que visitei por muitas vezes enquanto realizava o disco e, com certeza, me trouxe signos que foram traduzidos ali. O trabalho dele \u00e9 de uma subvers\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 imagem e, sobretudo, ao corpo, que me pareceu muito associado ao que eu percebia na concep\u00e7\u00e3o de \u201cO Novato\u201d, que \u00e9 aquele que se revela obliquamente, aos poucos, sempre nas quinas. Existe uma artista alem\u00e3 contempor\u00e2nea que tamb\u00e9m peguei por esse lance do Bacon, a Alexandra Levasseur. Ela comp\u00f4s uma s\u00e9rie de obras que, sem d\u00favida alguma, tem total rela\u00e7\u00e3o com \u201cO Novato\u201d. Ela foi uma das principais refer\u00eancias minhas, inclusive, pra concep\u00e7\u00e3o do projeto gr\u00e1fico antes de convidar o Bruno Nunes (Caixa Amarela), que \u00e9 o outro artista visual que muito me prop\u00f5e e que foi quem fez a capa. O Frederico Amoz, artista belo-horizontino a quem dedico o disco, \u00e9 uma pessoa com quem conversei muito sobre a voz, sobre a m\u00fasica que emplastifica, d\u00e1 formas e curvas ao sil\u00eancio. Tem um fot\u00f3grafo americano, acho, Tom Cabrera, que tamb\u00e9m me trouxe muitas informa\u00e7\u00f5es e que usei muito como refer\u00eancia pelas texturas nas fotografias, principalmente, e novamente pelo aspecto disforme das suas imagens. Fora coisas de mestres como Oiticica, Tunga, Cildo Meireles, que me fazem muito a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quais discos voc\u00ea tem ouvido nos \u00faltimos tempos?<\/strong><br \/>\nOs que n\u00e3o saem de jeito nenhum da playlist s\u00e3o o novo \u00e1lbum da Elza Soares, \u201cA Mulher do Fim do Mundo\u201d, \u201cFinally We Are No One\u201d, da banda islandesa M\u00fam, o \u201cUrubu\u201d do Tom Jobim, \u201cHail to the thief\u201d, do Radiohead, \u201cNa Loucura e na Lucidez\u201d, do Tat\u00e1 Aeroplano e sempre h\u00e1 algo do Ca\u00ea. Por \u00faltimo agora tenho furado o \u201cOnqot\u00f4\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O que voc\u00ea espera para o seu futuro?<\/strong><br \/>\nPor hora, pretendo circular no Brasil todo, quero levar esse show pra cada estado do pa\u00eds, passar por festivais interessantes. Por enquanto s\u00f3 temos datas confirmadas em Belo Horizonte, Curitiba e S\u00e3o Paulo. Tenho um sonho tamb\u00e9m de realizar o vinil d\u2019 \u201cO Novato\u201d. Espero que possa continuar fazendo m\u00fasicas e experimentos na arte, em qualquer outra linguagem. J\u00e1 estou compondo m\u00fasicas pra um novo disco que n\u00e3o sei como e quando vai ser, muito menos seu nome ou planos, vou aos poucos descobrindo seus desenhos. Tamb\u00e9m pretendo fazer uma instala\u00e7\u00e3o que j\u00e1 arquitetei e que pretendo lan\u00e7ar no in\u00edcio desse ano agora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea j\u00e1 fez instala\u00e7\u00e3o antes? Qual seu envolvimento com esse universo?<\/strong><br \/>\nNa verdade, costumo frequentar muitas instala\u00e7\u00f5es, mas nunca fiz uma antes. \u00c9 um desejo novo que surgiu como apreciador. A minha \u00fanica experi\u00eancia direta com a linguagem aconteceu quando assinei a dire\u00e7\u00e3o musical da performance-instala\u00e7\u00e3o Roxo, do multiartista Tiago Tereza, que estreou na Virada Cultural da UFMG, abrindo o show do Hermeto Pascoal. No mais, meu contato com instala\u00e7\u00f5es se deu somente como receptor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Na minha percep\u00e7\u00e3o \u201cO Novato\u201d \u00e9 um disco mais niilista. E com isso penso no nosso mundo hoje, que est\u00e1 cada vez mais estranho, sem sentido, sei l\u00e1&#8230; Voc\u00ea acha que o mundo tem jeito?<\/strong><br \/>\nOtimista que sou, gostaria de dizer o contr\u00e1rio, mas realista que tenho sido digo hoje que o mundo n\u00e3o tem jeito. Mas acho que nunca teve e as coisas rumaram sempre em dire\u00e7\u00e3o ao caos. Estamos experimentando o in\u00edcio de um sacode pesado no mundo todo e a energia do planeta t\u00e1 meio pesada. Acredito muito nas pessoas, todo mundo tem jeito, a quest\u00e3o s\u00e3o as estruturas imale\u00e1veis que n\u00e3o cedem nem ao sinal do mais tr\u00e1gico contexto.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/rtLyRFlrTHs\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/rtLyRFlrTHs\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Lafaiete J\u00fanior (<a href=\"http:\/\/twitter.com\/lafaietejunior\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@lafaietejunior<\/a>) \u00e9 jornalista e assina o blog <a href=\"http:\/\/veiaurbana.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Veia Urbana<\/a><\/p>\n<p><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><br \/>\n&#8211; Luan Nobat: &#8220;A Tropic\u00e1lia foi fundamental na minha adolesc\u00eancia&#8221; (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/02\/06\/entrevista-luan-nobat\/\">aqui<\/a>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/category\/musica\/\">MAIS SOBRE M\u00daSICA, ENTREVISTAS E REVIEWS NO SCREAM &amp; YELL<\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Lafaiete J\u00fanior\n\u201cO Novato\u201d (dispon\u00edvel para download no Soundcloud) \u00e9 um salto musical e est\u00e9tico que chama aten\u00e7\u00e3o por si s\u00f3, sem elevar o tom. \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/12\/02\/entrevista-nobat-fala-sobre-o-novato\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/35695"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=35695"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/35695\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":73504,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/35695\/revisions\/73504"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=35695"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=35695"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=35695"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}