{"id":34617,"date":"2008-09-26T12:27:28","date_gmt":"2008-09-26T15:27:28","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=34617"},"modified":"2015-10-11T12:31:48","modified_gmt":"2015-10-11T15:31:48","slug":"cinema-ensaio-sobre-a-cegueira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2008\/09\/26\/cinema-ensaio-sobre-a-cegueira\/","title":{"rendered":"Cinema: Ensaio Sobre a Cegueira"},"content":{"rendered":"<h3 style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-34618\" style=\"border: 1px solid black;\" title=\"ensaio_cegueira\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/ensaio_cegueira.jpg\" alt=\"\" width=\"340\" height=\"477\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/ensaio_cegueira.jpg 340w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/ensaio_cegueira-213x300.jpg 213w\" sizes=\"(max-width: 340px) 100vw, 340px\" \/><\/h3>\n<h3 style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #000000;\">por Marcelo Costa<\/span><\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #ffffff;\">Antes de qualquer coisa acho importante dizer: eu n\u00e3o li o livro (ainda). Amigos e muitos cr\u00edticos refor\u00e7am a fidelidade do roteiro ao livro, mas quando digo que n\u00e3o li estou me despindo de uma pretensa compara\u00e7\u00e3o entre literatura e cinema, e tamb\u00e9m de uma expectativa formada no \u00e2mago (muitas vezes inconscientemente) que procure respostas emocionais que transformem a ansiedade em algo toc\u00e1vel e reconhec\u00edvel.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #ffffff;\"> <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #ffffff;\">O desconhecimento da hist\u00f3ria torna o espectador ref\u00e9m do roteiro, inevitavelmente, afinal ele n\u00e3o sabe o que vem pela frente e por experi\u00eancia, destreza ou chute forma pequenos n\u00facleos opinativos em sua mente que caminham para l\u00e1 e para c\u00e1 conforme a fita vai desenrolando na tela. \u00c9 um jogo interessante entre diretor e espectador que, quando bem executado, gera filmes inesquec\u00edveis.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #ffffff;\"> <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #ffffff;\">\u201cEnsaio sobre a Cegueira\u201d nasce valorizado como hist\u00f3ria. Baseado na obra hom\u00f4nima do escritor portugu\u00eas Jos\u00e9 Saramago, agraciado com o Nobel de Literatura em 1998, a hist\u00f3ria \u00e9 devastadora. Aborda uma epidemia de cegueira em uma cidade qualquer que come\u00e7a infectando um homem e, depois, toma toda a popula\u00e7\u00e3o e a joga em uma espiral de desencontros cujos valores s\u00e3o esquecidos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #ffffff;\"> <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #ffffff;\">O tema \u00e9 caro a v\u00e1rios escritores \u2013 \u201cA Peste\u201d, de Albert Camus (cujo inimigo tamb\u00e9m \u00e9 uma epidemia), \u201cO Macaco e a Ess\u00eancia\u201d, de Aldous Huxley (a fuma\u00e7a negra causada pela bomba nuclear em uma terceira guerra mundial devasta a civiliza\u00e7\u00e3o) e mesmo \u201cBlecaute\u201d, de Marcelo Rubens Paiva (com tr\u00eas amigos em uma S\u00e3o Paulo devastada) \u2013 cujo pessimismo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 humanidade fica evidente.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #ffffff;\"> <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #ffffff;\">Para esta adapta\u00e7\u00e3o, Fernando Meirelles cercou-se de alguns dos seus colaboradores (C\u00e9sar Charlone na fotografia, Daniel Rezende na edi\u00e7\u00e3o) e de um time estrelado de atores do qual fazem parte Julianne Moore, Mark Ruffalo, Alice Braga, Don McKellar, Danny Glover e Gael Garcia Bernal. O filme foi rodado em Toronto, no Canad\u00e1, em S\u00e3o Paulo e Osasco no Brasil e Montevid\u00e9u no Uruguai, e apesar de todo o esfor\u00e7o o resultado soa\u2026 incompleto, distante.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #ffffff;\"> <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #ffffff;\">Se o roteiro de \u201cEnsaio sobre a Cegueira\u201d \u00e9 fiel ao livro, e o livro \u00e9 um cl\u00e1ssico da literatura moderna, qual o motivo do filme n\u00e3o funcionar? Talvez seja a op\u00e7\u00e3o da dire\u00e7\u00e3o em torn\u00e1-lo distante de seu p\u00fablico. A estiliza\u00e7\u00e3o fotogr\u00e1fica \u00e9 bel\u00edssima, mas inibe o espectador que acaba por fim n\u00e3o se envolvendo com a hist\u00f3ria, por mais que a hist\u00f3ria seja envolvente.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #ffffff;\"> <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #ffffff;\">Colocado na posi\u00e7\u00e3o de observador, o espectador enfrenta um segundo problema, talvez o maior do filme: a sujeira visual exibida nos corredores, nos destro\u00e7os de ruas famosas de S\u00e3o Paulo \u00e9 muito maior do que a sujeira moral proposta pelo roteiro. Fernando Meirelles parece ter amaciado o formato visual do discurso para n\u00e3o chocar o p\u00fablico, e a sujeira moral \u00e9 um dos grandes atrativos de \u201cEnsaio sobre a Cegueira\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #ffffff;\"> <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #ffffff;\">Meirelles j\u00e1 havia feito o mesmo em \u201cCidade de Deus\u201d alcan\u00e7ando um resultado excepcional ao contar a hist\u00f3ria da favela carioca com um certo tom de humor, c\u00e2mera e edi\u00e7\u00e3o fren\u00e9ticas e muita a\u00e7\u00e3o, op\u00e7\u00f5es que amaciavam a realidade dura de um territ\u00f3rio dominado pelo tr\u00e1fico de drogas, vivendo chacinas recorrentes e com \u201cgovernantes\u201d locais que desafiavam o Estado.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #ffffff;\"> <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #ffffff;\">Em \u201cEnsaio sobre a Cegueira\u201d, por\u00e9m, a op\u00e7\u00e3o parece n\u00e3o funcionar. As cenas est\u00e3o ali, mas n\u00e3o causam impacto. A derrocada da sociedade na vis\u00e3o de Jos\u00e9 Saramago \u00e9 completamente pessimista, e n\u00e3o d\u00e1 para o p\u00fablico ficar alheio a esta vis\u00e3o. Por\u00e9m, tudo se ap\u00f3ia na bel\u00edssima met\u00e1fora da cena final, l\u00edrica, <\/span>dos cegos que v\u00eaem<span style=\"color: #ffffff;\">, pois o espectador deixa a sala achando que a humanidade tem solu\u00e7\u00e3o, mesmo com toda barb\u00e1rie exibida minutos antes.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #ffffff;\"> <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #ffffff;\">Entre a sutileza do discurso cinematogr\u00e1fico e a met\u00e1fora deslumbrante de seu final arrebatador (e talvez r\u00e1pido demais \u2013 o que pode escapar ao p\u00fablico), \u201cEnsaio sobre a Cegueira\u201d est\u00e1 longe de ser um filme ruim assim como tamb\u00e9m n\u00e3o exibe os dotes t\u00e3o caros a um filme cl\u00e1ssico. Fica no meio do caminho e at\u00e9 pode abrir os olhos de algumas pessoas, mas o m\u00e9rito ser\u00e1 muito mais do paciente do que do m\u00e9dico. N\u00e3o ser\u00e1 sempre assim?<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/AyYZA7bLsYA\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/AyYZA7bLsYA\"><\/embed><\/object><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Marcelo Costa\nEntre a sutileza do discurso cinematogr\u00e1fico e a met\u00e1fora deslumbrante de seu final arrebatador (e talvez r\u00e1pido demais \u2013 o que pode escapar ao p\u00fablico)&#8230;\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2008\/09\/26\/cinema-ensaio-sobre-a-cegueira\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/34617"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=34617"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/34617\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":34619,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/34617\/revisions\/34619"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=34617"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=34617"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=34617"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}