{"id":33488,"date":"2009-02-05T14:57:37","date_gmt":"2009-02-05T17:57:37","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=33488"},"modified":"2015-09-15T14:59:54","modified_gmt":"2015-09-15T17:59:54","slug":"blog-do-editor-voce-tem-um-violao-ai","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2009\/02\/05\/blog-do-editor-voce-tem-um-violao-ai\/","title":{"rendered":"Blog do Editor: Voc\u00ea tem um viol\u00e3o ai?"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><em>Trecho de \u201cChega de Saudade\u201d, livro de Ruy Castro<\/em><\/p>\n<div class=\"format_text\" style=\"text-align: justify;\">\n<p>\u201cPoucos meses antes, em meados de 1957, (Roberto) Menescal estava em  casa, na festa de bodas de prata de seus pais, no apartamento da Galeria  Menescal, quando bateram \u00e0 porta. Devia ser mais um convidado. Foi  abrir e um rapaz que ele nunca vira perguntou:<\/p>\n<p>\u201cVoc\u00ea tem um viol\u00e3o ai? Pod\u00edamos tocar alguma coisa\u201d.<\/p>\n<p>O rosto de Menescal transformou-se num ponto de interroga\u00e7\u00e3o. N\u00e3o  sabia o que dizer. Descobriu imediatamente quando o rapaz se apresentou:<\/p>\n<p>\u201cEu sou Jo\u00e3o Gilberto e quem me deu seu endere\u00e7o foi Edinho, do Trio Irakitan\u201d.<\/p>\n<p>Para Menescal, se aquele era Jo\u00e3o Gilberto, o nome de seu  ex-professor Edinho era dispens\u00e1vel como recomenda\u00e7\u00e3o. Ele j\u00e1 ouvira  falar em Jo\u00e3o Gilberto &#8211; e, no meio de jovens m\u00fasicos cariocas nos  \u00faltimos meses, quem n\u00e3o? Sabia que se tratava de um baiano meio louco e  genial, fabuloso no viol\u00e3o, cantor afinad\u00edssimo e que \u00e0s vezes aparecia  no Plaza. Convidou-o a entrar. Jo\u00e3o Gilberto atravessou as dezenas de  convidados como se eles fossem feitos de vapor &#8211; da mesma forma, ningu\u00e9m  o viu &#8211; e foram para um quarto nos fundos. N\u00e3o disse mais nada. Apenas  examinou o viol\u00e3o, afrouxou uma ou duas cravelhas, testou o  prolongamento das notas e cantou \u201cH\u00f4-ba-la-l\u00e1\u201d, sua pr\u00f3pria composi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Era um beguine &#8211; um ritmo caribenho que, mesmo em 1957, j\u00e1 estava  mais do que esquecido se n\u00e3o fosse por aquela can\u00e7\u00e3o de Cole Porter.  Menescal n\u00e3o entendeu direito a letra, e ainda que ela fizesse muito  sentido, ele, como a maioria dos m\u00fasicos, n\u00e3o dava import\u00e2ncia a letras.  E quem queria saber de letras diante do que ele estava ouvindo?<\/p>\n<p>A voz de Jo\u00e3o Gilberto era um instrumento &#8211; mais exatamente, um  trombone &#8211; de alt\u00edssima precis\u00e3o, e ele fazia cada s\u00edlaba cair sobre  cada acorde como se as duas coisas tivessem nascido juntas. O que era  espantoso, porque o homem cantava num andamento e tocava em outro. Na  realidade, n\u00e3o parecia cantar &#8211; dizia as palavras baixinho, como  Menescal j\u00e1 ouvira outros fazendo. Mas ele sentia que Jo\u00e3o Gilberto, se  quisesse, seria capaz de se fazer ouvir l\u00e1 na sala, com ou sem festa.  Jo\u00e3o Gilberto cantou \u201cH\u00f4-ba-la-la\u201d cinco ou seis vezes, com m\u00ednimas  altera\u00e7\u00f5es, mas cada vers\u00e3o parecia melhor que a anterior. E que diabo  de ritmo era aquele que ele fazia? Menescal n\u00e3o resistiu. Pegou-o pelo  bra\u00e7o, com viol\u00e3o e tudo, e saiu com ele pela noite. Ia exibi-lo aos  amigos.<\/p>\n<p>Come\u00e7ou pelo apartamento de Ronaldo B\u00f4scoli, na Rua Otaviano Hudson.  Jo\u00e3o Gilberto cantou \u201cH\u00f4-ba-la-la\u201d incont\u00e1veis vezes. Cantou tamb\u00e9m uma  outra can\u00e7\u00e3o sua, esquisit\u00edssima, chamada \u201cBim Bom\u201d, e uma s\u00e9rie de  sambas que eles nunca tinham ouvido &#8211; e que Jo\u00e3o Gilberto ia  identificando como tendo sido grandes sucessos desse ou daquele conjunto  vocal do passado. Em apenas uma noite e quase todo o dia seguinte  (ningu\u00e9m dormiu), ele lhes abriu os ouvidos para uma m\u00fasica brasileira  muito mais rica do jamais haviam imaginado. E, quando lhes falou de suas  admira\u00e7\u00f5es &#8211; L\u00facio Alves, Dick Farney, Johnny Alf, Jo\u00e3o Donato, Luiz  Bonf\u00e1, Tom Jobim, Tito Madi, Dolores Duran, Newtom Mendon\u00e7a, v\u00e1rios  deles seus amigos -, eles entenderam tudo. Para Menescal e B\u00f4scoli,  naquela noite, Jo\u00e3o Gilberto era a realidade encarnada do que, at\u00e9  ent\u00e3o, eles vinham procurando \u00e0s cegas, meio pelo tato.<\/p>\n<p>Da casa de B\u00f4scoli, completamente insones, foram logo de manh\u00e3 ao  apartamento de Nara, onde a epifania se repetiu, e, de l\u00e1, \u00e0 casa de An\u00e1  e Lu, na Urca. Menescal queria aprender aquela batida que Jo\u00e3o Gilberto  fazia no viol\u00e3o &#8211; aquele jeito de tocar acordes, n\u00e3o notas, produzindo  harmonia e ritmo de uma s\u00f3 vez. Durante essa perigrina\u00e7\u00e3o de quase dois  dias, sem pausas, ele n\u00e3o tirava os olhos das m\u00e3os de Jo\u00e3o Gilberto.  Particularmente da m\u00e3o direita: Menescal observou que os dedos polegar e  m\u00ednimo de Jo\u00e3o Gilberto se esticavam, formando quase uma reta, enquanto  os tr\u00eas dedos do meio faziam a pegada e retesavam todos os m\u00fasculos do  seu antebra\u00e7o. E ele, Menescal, se achava professor de viol\u00e3o!<\/p>\n<p>E havia as coisas que Jo\u00e3o Gilberto falava enquanto iam de casa em  casa e de volta ao apartamento de Ronaldo. Poesia, por exemplo. Carlos  Drummond de Andrade era claramente o seu favorito, mas ele tamb\u00e9m  recitou, de cor, trechos inteiros de \u201cCartas a um Jovem Poeta\u201d, do  alem\u00e3o Rainer Maria Rilke. Literatura era uma preocupa\u00e7\u00e3o remota dos  m\u00fasicos, inclusive cantores, e era in\u00e9dito ouvir um deles citando  escritores com tanto desembara\u00e7o. Em outro momento, Jo\u00e3o Gilberto  come\u00e7ou a falar de t\u00e9cnicas de emiss\u00e3o de voz. Tinha admira\u00e7\u00e3o pela  maneira como Dick Farney controlava a respira\u00e7\u00e3o ao cantar, conseguindo  soltar quil\u00f4metrosde frases num \u00fanico f\u00f4lego, \u201capesar de fumar dois  ma\u00e7os de Continental por dia\u201d. (Menescal observou depois que, durante  todo o tempo em que estiveram juntos, Jo\u00e3o Gilberto n\u00e3o fumou e parecia  resmungar quando algu\u00e9m acendia um cigarro ao seu lado. E tamb\u00e9m n\u00e3o  bebeu, o que era duplamente estranho. Poxa, todo mundo bebia ou  fumava!).<\/p>\n<p>Mas o que deixou Menescal atarantado foi quando Jo\u00e3o Gilberto  explicou-lhe como exercicitava t\u00e9cnicas dos iogues para respirar, e como  isso lhe permitia espichar ou encurtar as frases musicais, sem perder  s\u00edlabas e sem se cansar. Os exemplos vinham uns atr\u00e1s dos outros. Tudo  aquilo repicava nos ouvidos de Menescal como pepitas douradas e ele  percebeu, fascinado, que estava ficando preso \u00e0quele homem. A imagem que  lhe veio \u00e0 cabe\u00e7a, para definir Jo\u00e3o Gilberto, foi a de uma aranha em  sua teia, tecendo sedu\u00e7\u00f5es ao redor de moscas. Precisava tomar cuidado.  Pois n\u00e3o adiantou de nada saber disso: quando se despediu dele na rua e  voltou pra casa, a fim de tentar dormir, j\u00e1 estava falando, pensando e  se comportando como Jo\u00e3o Gilberto\u201d.<\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Poucos meses antes, em meados de 1957, (Roberto) Menescal estava em casa, na festa de bodas de prata de seus pais, no apartamento da Galeria Menescal, quando bateram \u00e0 porta. \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2009\/02\/05\/blog-do-editor-voce-tem-um-violao-ai\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[330],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33488"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=33488"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33488\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":33489,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33488\/revisions\/33489"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=33488"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=33488"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=33488"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}