{"id":33115,"date":"2013-11-14T15:20:50","date_gmt":"2013-11-14T18:20:50","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=33115"},"modified":"2015-09-11T15:22:16","modified_gmt":"2015-09-11T18:22:16","slug":"blog-do-editor-uma-entrevista-que-nao-terminou","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/11\/14\/blog-do-editor-uma-entrevista-que-nao-terminou\/","title":{"rendered":"Blog do Editor: Uma entrevista que n\u00e3o terminou"},"content":{"rendered":"<p><em><span class=\"gmail_sendername\">Entrevista concedida a Lafaiete J\u00fanior entre janeiro e junho de 2011 (acho)&#8230;<br \/>\n<\/span><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Qual sua primeira lembran\u00e7a musical?<\/strong><br \/>\nJorge Ben. E Vinicius. Meu pai tinha uma cole\u00e7\u00e3o extensa de MPB, e rolavam v\u00e1rias festas em casa. Uma lembran\u00e7a marcante: dia do assassinato de John Lennon. Minha m\u00e3e, na sala, chorou muito. E eu n\u00e3o entendia o motivo&#8230; hoje at\u00e9 eu choraria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como foi sua adolesc\u00eancia? Passou, literalmente, entre discos e livros?<\/strong><br \/>\nSim. Fiz carteirinha de todas as bibliotecas de Taubat\u00e9, ent\u00e3o n\u00e3o passava uma semana sequer com o mesmo livro. Devorava. Quando n\u00e3o tinha nada interessante para ler, relia. Nessas fiquei meses com o &#8220;Obras Completas&#8221;, do Oscar Wilde, em casa. E fiquei f\u00e3 de uma cole\u00e7\u00e3o completa de obras do Shakespeare, uma edi\u00e7\u00e3o antiga repleta de ap\u00eandices. Procuro ela at\u00e9 hoje para comprar. J\u00e1 os vinis come\u00e7aram aos 12, 13 anos. Eu e outro amigo discotec\u00e1vamos nas festinhas da rua. Paralelamente, o rock nacional estava surgindo, e muita coisa boa acontecendo. Logo depois veio a Bizz. Um mundo novo se abriu. Com 16 anos minha casa j\u00e1 era o ponto de encontro da turma, o local em que todo mundo ia beber e fumar ouvindo boa m\u00fasica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Isso foi em que ano? E voc\u00ea lembra quais foram teus primeiros vinis nessa \u00e9poca? E as capas da Bizz?<\/strong><br \/>\n1982\/1983 mais ou menos. Primeiros vinis&#8230; &#8220;Radioatividade&#8221;, da Blitz (tamb\u00e9m meu primeiro &#8220;grande&#8221; show &#8211; risos); &#8220;Ballads&#8221;, uma colet\u00e2nea com 20 baladas dos Beatles e um disco da Rita Lee com o Erasmo. J\u00e1 na \u00e9poca da Bizz, 1985\/1986, come\u00e7aram as compras desenfreadas, coisa de entrar na loja e sair de uma s\u00f3 vez com o &#8220;Dois&#8221;, da Legi\u00e3o, o &#8220;Selvagem&#8221;, dos Paralamas, o &#8220;Rock Errou&#8221;, do Lob\u00e3o, o &#8220;N\u00f3s Vamos Invadir Sua Praia&#8221;, do Ultraje e o &#8220;Vivendo e N\u00e3o Aprendendo&#8221;, do Ira!. Capas da Bizz&#8230; Bruce estampou a capa da edi\u00e7\u00e3o n\u00famero 1 da revista. Tenho a cole\u00e7\u00e3o completa, e essa particularmente est\u00e1 detonada\u00e7a de tanto que li. Ainda hoje, se alguma refer\u00eancia me vem a cabe\u00e7a quando estou escrevendo, vou direto na revista conferir. \u00c9 mais r\u00e1pido do que colocar o CD-Rom no computador (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Massa! Sua personalidade e repert\u00f3rio musical s\u00e3o bem pautados pela Bizz ent\u00e3o. Qual a import\u00e2ncia da revista para sua forma\u00e7\u00e3o profissional e at\u00e9 mesmo pessoal?<\/strong><br \/>\nAcho que \u00e9 imposs\u00edvel de mensurar a import\u00e2ncia da revista na minha forma\u00e7\u00e3o e na minha vida pessoal. O fato de ser jornalista tem a ver com a revista tamb\u00e9m, muito embora meu pai tenha sido a grande inspira\u00e7\u00e3o para a profiss\u00e3o, mas a revista&#8230; putz, ela tornou vi\u00e1vel a ideia que eu tinha do que eu queria ser. Foi fundamental no meu crescimento como profissional. Quando voc\u00ea passa sua adolesc\u00eancia lendo Ana Maria Bahiana, Alex Antunes e Andr\u00e9 Forastieri, sua vida s\u00f3 pode melhorar (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Eu &#8220;descobri&#8221; o Andr\u00e9 Forastieri em um post no teu blog. Pirei. E j\u00e1 comprei revista s\u00f3 porque tinha o nome dele (risos). Virou uma refer\u00eancia. E voc\u00ea acha que as revistas que tratam de m\u00fasica hoje no Brasil t\u00eam esse &#8220;poder&#8221; de influ\u00eancia sobre os jovens? Pra formar uma poss\u00edvel nova gera\u00e7\u00e3o de profissionais&#8230; Como a Billboard e a Rolling Stone, por exemplo.<\/strong><br \/>\nN\u00e3o, n\u00e3o tem. Infelizmente. Falta jornalismo opinativo no Brasil. Uma revista j\u00e1 chega \u00e0s bancas atrasada em rela\u00e7\u00e3o a internet, pela velocidade da informa\u00e7\u00e3o. Ter textos opinativos, coisas mais pessoais, poderiam dar uma personalidade para a publica\u00e7\u00e3o e seduzir o leitor. \u00c9 preciso seduzir o leitor. Por outro lado, existem v\u00e1rios profissionais na internet fazendo isso. J\u00e1 recebi diversos e-mails de gente contando que decidiu fazer jornalismo devido ao Scream &amp; Yell.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E desses profissionais da internet que voc\u00ea fala, consegue citar alguns que voc\u00ea gosta?<\/strong><br \/>\nTem muita gente nova bacana nas esquinas da internet. O pessoal do Urbanaque, do Move That Jukebox, por exemplo, s\u00e3o bons pacas no que se prop\u00f5e. N\u00e3o \u00e9 a toa que nos juntamos sob o guarda-chuva Confraria Pop. Eu acredito neles, acredito no potencial. Da mesma forma que acredito e admiro o Coquetel Molotov, o La Cumbuca, o Alto Falante, o El Cabong e muitos outros.  Mas se for para citar vou ficar com um monte de gente que migrou do papel para a web, nomes como o pr\u00f3prio Forastieri, o Alexandre Matias e o L\u00facio Ribeiro, caras que continuam em contato com o papel, mas cuja vida j\u00e1 fica dif\u00edcil de ser dissociada da internet<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Agora sobre o Scream &amp; Yell. Com surgiu a ideia dele? O que voc\u00ea pretendia?<\/strong><br \/>\nSurgiu da maneira mais prosaica poss\u00edvel. Um amigo apareceu em casa num 25 de dezembro me propondo fazer um fanzine. N\u00e3o lembro se chegamos a discutir isso antes, de onde ele tirou a ideia de fazer um fanzine. Dois grandes amigos da minha turma j\u00e1 tinham feito um fanzine, o Gambiarra, e talvez eu at\u00e9 tenha comentado sobre com o Jo\u00e3o Marcelo, o cara que batizou o Scream &amp; Yell, mas realmente n\u00e3o lembro de onde ele tirou a ideia. S\u00f3 lembro que ali na mesma hora desenhamos como seria o n\u00famero 1 do Scream &amp; Yell em papel. O foco naquele momento era falar da cena musical de Taubat\u00e9, nada mais do que isso. Tanto que no n\u00famero 1 temos entrevistas com bandas de l\u00e1&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E sobre esse contexto do in\u00edcio do Scream &amp; Yell&#8230; Consegue fazer um paralelo da cena musical que voc\u00ea tinha contato na \u00e9poca com a cena atual? O que mais mudou, o que n\u00e3o mudou&#8230; Como voc\u00ea percebe esses dois momentos&#8230;<\/strong><br \/>\nPuxa, dif\u00edcil. Eu morava em Taubat\u00e9, uma ilha entre S\u00e3o Paulo e Rio de Janeiro que n\u00e3o absorvia nada de bom e parecia longe demais das capitais. Taubat\u00e9 era uma cidade metal. At\u00e9 brinquei de roadie de banda trash l\u00e1. A cena era muito distante, e chegava a mim pela Ilustrada e pela Bizz. Naquela \u00e9poca &#8211; 1995\/1996 &#8211; era dif\u00edcil copiar CDs, os MP3 ainda n\u00e3o eram febre e o correio ainda era uma fonte inesgot\u00e1vel de troca de informa\u00e7\u00f5es musicais (via fanzines). Hoje vivemos no per\u00edodo da m\u00faltipla informa\u00e7\u00e3o. Temos acesso a mais discos que conseguimos ouvir, a mais textos que conseguimos ler. Conseguir a aten\u00e7\u00e3o do leitor \u00e9 uma vit\u00f3ria hoje em dia. 15 anos atr\u00e1s era mais f\u00e1cil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O Scream &amp; Yell durou quanto tempo no papel? Tem vontade de voltar para o papel?<\/strong><br \/>\nPra voc\u00ea ver como o tempo passa, tive que ir atr\u00e1s dos originais para confirmar as datas, todas perdidas na mem\u00f3ria. O #1, com Kiss na capa, era para ter sa\u00eddo em janeiro de 1997. Fizemos nos \u00faltimos dias de 1996, editamos, mas na hora de imprimir n\u00e3o conseguimos patroc\u00ednio. Ent\u00e3o o Jo\u00e3o, que fazia o fanzine comigo, se acidentou e morreu. Aposentei a ideia. S\u00f3 voltei a ela no final de 1998, quando um cara, que tinha visto uma vers\u00e3o pirata do n\u00famero 1 do Scream &amp; Yell (risos) me pilhou para voltar com o zine (que na verdade nem tinha ido \u2013 risos). A edi\u00e7\u00e3o n\u00famero 2 saiu em janeiro de 1999 com Chris Isaak na capa. Ficamos super orgulhosos de coloc\u00e1-lo em destaque. Aproveitei o embalo e finalizei a primeira edi\u00e7\u00e3o, e lancei. Comecei a distribuir ela com o #3, que tinha o Echo and The Bunnymen na capa. O #4 saiu em junho, e foi uma edi\u00e7\u00e3o especial de dia dos namorados (com poesia, indica\u00e7\u00e3o do \u201cBaladas Sangrentas\u201d, do Wander Wildner, para ouvir e um texto bel\u00edssimo que o Thales de Menezes, na \u00e9poca na Folha de S\u00e3o Paulo, liberou para n\u00f3s: \u201cRomance com alma Rock and Roll). O #5 tinha o cineasta Kevin Smith na capa e saiu em agosto de 1999. O #6 e \u00faltimo saiu apenas em mar\u00e7o de 2000 com Jerry Lee Lewis na capa e uma tiragem de 1000 exemplares. Sempre tive vontade de fazer uma edi\u00e7\u00e3o em papel novamente. Adoro os textos impressos. Qualquer hora me aventuro novamente. \u00c9 uma porta aberta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O Scream &amp; Yell \u00e9 um site de cultura pop&#8230; O que \u00e9 cultura pop pra voc\u00ea?<\/strong><br \/>\nO site come\u00e7ou com um foco em cultura pop, pegando o lado popular das artes. Ent\u00e3o na literatura, no come\u00e7o, fal\u00e1vamos de Nick Hornby. Em cinema, de Quentin Tarantino. Ou seja, busc\u00e1vamos elementos populares que aproximassem essas artes da m\u00fasica pop. Com o tempo, por\u00e9m, fomos ampliando o leque, tentando mostrar para o leitor que n\u00e3o h\u00e1 diferen\u00e7a para n\u00f3s entre Gustav Mahler, Christopher Nolan, Wado e Bohumil Hrabal. Eles s\u00e3o todos objetos transformadores da cultura, agentes que podem ampliar a sua vis\u00e3o sobre o mundo. O cerne da cria\u00e7\u00e3o do Scream &amp; Yell, instintivamente, foi esse: falar de cultura de uma maneira que essa cultura amplie o universo do leitor \u2013 como as revistas e jornais e livros que li fizeram comigo. Ent\u00e3o, voltando ao inicio da sua pergunta, cultura pop para n\u00f3s hoje em dia \u00e9 tudo. Exatamente tudo. Pra que limitar se o mundo, de alguma forma, se ampliou com a internet, mas tudo est\u00e1 muito mais pr\u00f3ximo, n\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>J\u00e1 aconteceu alguma coisa engra\u00e7ada ou diferente relacionada com algum texto que voc\u00ea escreveu? Algu\u00e9m que n\u00e3o gostou e tal&#8230;<\/strong><br \/>\nDezenas de vezes, dezenas. Para o bem e para o mal (risos). Para o bem existe um monte de gente que diz que conheceu tal banda, tal filme ou descobriu tal coisa atrav\u00e9s do site. \u00c9 daquelas coisas que d\u00e3o orgulho. J\u00e1 o contr\u00e1rio tamb\u00e9m ocorre. Muita gente discorda de um texto e leva para um lado pessoal do tipo: &#8220;Voc\u00ea est\u00e1 com inveja do Dinho Ouro Preto&#8221;. Ou: &#8220;Chris Martin \u00e9 famoso e quem \u00e9 voc\u00ea? Ningu\u00e9m&#8221;. Fazer o que nessa hora? Rir. (risos)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Aquela pergunta chata: Marcelo Costa por Marcelo Costa. Rola alguma defini\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nHaha, pergunta suspeita (risos). Acho que vale mais perguntar para algumas pessoas que me conhecem, jornalistas amigos, sabe. Acredito mais neles do que em mim (risos). Mas, vou tentar me resumir numa linha: um cara que alcan\u00e7ou o seu sonho, mas ainda n\u00e3o quer dormir. Diz muito&#8230; \ud83d\ude42<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Nesse caso (de hist\u00f3ria engra\u00e7ada sobre algum texto), n\u00e3o aconteceu de algu\u00e9m querer tirar satisfa\u00e7\u00e3o com voc\u00ea pessoalmente n\u00e3o, n\u00e9? (risos)<\/strong><br \/>\nN\u00e3o, mas estamos ai (risos). Uma vez escrevi um texto que apontava algumas coisas que considerava defeitos em um disco, e encontrei um dos caras da banda uns tempos depois: &#8220;A gente curtiu o que voc\u00ea falou porque voc\u00ea foi e ouviu o disco. Tem gente na banda que concordou, outro discordou, mas respeitamos a sua opini\u00e3o&#8221;. Acho que \u00e9 por esse lado. N\u00e3o teria a manha de fazer algo para sacanear uma banda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 poss\u00edvel notar nos seus textos uma paix\u00e3o por aquilo que voc\u00ea faz. O que esse tal ato de escrever significa pra voc\u00ea?<\/strong><br \/>\n\u00c9 como se fosse respirar, n\u00e3o consigo pensar em outra coisa. Se tenho muitas ideias, e n\u00e3o escrevo, durmo mal (mesmo dormindo \u00e0s 23h, por exemplo). Se fico acordado at\u00e9 \u00e0s 3 da manh\u00e3 e escrevo um texto que me satisfa\u00e7a, durmo feliz (mesmo dormindo menos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Qual banda ou artista te acompanha pela vida? Por qu\u00ea?<\/strong><br \/>\nEstava vendo a minha Last.Fm dia desses e fiquei surpreso: mais de 129 mil m\u00fasicas ouvidas, mas os artistas que mais ouvi tem tudo 1800 m\u00fasicas, e s\u00e3o poucos: Wilco, Costello, Dylan, R.E.M. e Radiohead. Mas ent\u00e3o lhe digo que a banda que me acompanha \u00e9 o Echo and The Bunnymen, que est\u00e1 l\u00e1 embaixo na tabela, em 18 lugar. Mas s\u00e3o os discos deles que vou buscar quando quero ouvir alguma coisa especial. Como escrevi certeza vez, em uma coluna para a revista Noize, o Echo me explica. Isso \u00e9 muito especial para quem ama a m\u00fasica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>De que voc\u00ea tem medo?<\/strong><br \/>\nDe milh\u00f5es de coisas, o que n\u00e3o quer dizer que n\u00e3o eu n\u00e3o v\u00e1 enfrentar estes medos. Medo obriga voc\u00ea a lutar. E eu sou leonino. Adoro uma briga. risos<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Em quais momentos voc\u00ea ouve m\u00fasica? Voc\u00ea consegue parar pra fazer apenas isso? Como \u00e9 essa rela\u00e7\u00e3o mais &#8220;intima&#8221; que voc\u00ea tem com a m\u00fasica?<\/strong><br \/>\nPutz, passo o dia inteiro com um fone de ouvido com algo rolando, mas n\u00e3o \u00e9 a mesma coisa que ouvir em casa, prestando aten\u00e7\u00e3o, sabe. Ouvir m\u00fasica no trabalho \u00e9 mais para ter um primeiro contato mesmo. Meu momento com a m\u00fasica \u00e9 em casa, no meu som. Sou daqueles que s\u00f3 sabe se gostou mesmo de um disco se ouviu ele no seu pr\u00f3prio som, pois ele \u00e9 a minha refer\u00eancia para m\u00fasica (risos). Mas isso de parar para ouvir \u00e9 bem raro hoje em dia. Ou\u00e7o mais para escrever. Costumo dizer que se estou ouvindo muito um disco, preciso escrever logo sobre ele para esgot\u00e1-lo e coloc\u00e1-lo na estante. \u00c9 tipo uma terapia. Muita gente quer escrever sobre m\u00fasica, e o que ningu\u00e9m conta para elas \u00e9 que elas v\u00e3o precisar ver shows de bandas que n\u00e3o gostam e receber discos de artistas ruins. E o ato de ouvir m\u00fasica pode se transformar numa obriga\u00e7\u00e3o. Inevitavelmente acaba se transformando, mas ainda consigo me emocionar ouvindo um disco e vendo um show. Acho que meu cora\u00e7\u00e3o ainda n\u00e3o caiu nas garras da arteriosclerose do &#8220;classic rock&#8221;, como definiu certa vez Ana Maria Bahiana (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea agora comanda o podcast Scream &amp; Yell on The Radio junto com o Tiago Agostini, na R\u00e1dio Levis. Como tem sido essa nova empreitada? Fale um pouco sobre isso, de quem foi a ideia etc.<\/strong><br \/>\nNa verdade agora somos quatro. Al\u00e9m de mim e do Agostini contamos com a presen\u00e7a do Marco Tomazzoni (jornalista cultural do iG e colaborador do Scream) e do Tiago Trigo (tamb\u00e9m colaborador do Scream). N\u00f3s formamos uma &#8220;fam\u00edlia&#8221; Seinfeld e andamos juntos j\u00e1 faz um bom tempo, o que faz com que muitas ideias apare\u00e7am e desapare\u00e7am. Uma delas foi a de fazer um podcast. Chegamos a marcar data para gravar, ou ao menos estruturar a parada, mas n\u00e3o rolou. Uns seis meses depois recebi o convite da R\u00e1dio Levis para fazer um programa l\u00e1, gravado no est\u00fadio deles para ser exibido na programa\u00e7\u00e3o e disponibilizado para download. A ideia inicial era come\u00e7ar em quarteto, mas fui testando, observando o terreno. Come\u00e7amos eu e Agostini, mas agora j\u00e1 estamos os quatro juntos, o que d\u00e1 uma din\u00e2mica interessante ao programa. E \u00e9 um programa para falar sobre m\u00fasica. Foi mais ou menos isso que o Edu Parez, da Levis, nos pediu. Um olhar aprofundado, cr\u00edtico e informativo sobre o que anda rolando. Al\u00e9m disso decidimos montar alguns programas especiais, e s\u00e3o eles que est\u00e3o se destacando mais. A edi\u00e7\u00e3o 6, inspirada no document\u00e1rio \u201cUma Noite em 67\u201d ficou excelente. No geral, ainda temos que melhorar muito. R\u00e1dio \u00e9 uma m\u00eddia totalmente particular, mas a possibilidade do download do programa \u00e9 simplesmente maravilhosa. Muita gente j\u00e1 nos escreveu dizendo que nos ouve no celular indo para o trabalho. Um amigo carioca disse que se divertiu muito com um programa (exatamente o 6) ouvindo numa caminhada no cal\u00e7ad\u00e3o do Rio. Chegou em casa e foi atr\u00e1s de algumas raridades que tocamos. Bacana isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E qual sua rela\u00e7\u00e3o com as r\u00e1dios? Voc\u00ea ainda acredita nas FMs?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o s\u00f3 acredito como aposto todas as minhas fichas de que as coisas s\u00f3 podem mudar no Pa\u00eds quando essa nova gera\u00e7\u00e3o tomar as r\u00e1dios. As grandes ind\u00fastrias brasileiras cavaram sua pr\u00f3pria sepultura apostando pesadamente no jab\u00e1. O que acontece \u00e9 que h\u00e1 pouco espa\u00e7o (quase nenhum, na verdade) para o novo, pois as r\u00e1dios dependem do jab\u00e1 e n\u00e3o v\u00e3o abrir um espa\u00e7o para algo novo, pois como ela vai oferecer de gra\u00e7a algo que tem gente que ainda paga para ocupar. Assim, o espa\u00e7o livre \u00e9 ocupado por classic rock. Os Estados Unidos conseguiram sobreviver, de certa forma, porque o circuito de college radios firmou-se como definidor de tend\u00eancias para a juventude buscando sempre o novo. Abriu espa\u00e7o para que muita gente legal surgisse. N\u00e3o temos esse canal no Brasil, que permite ao novo artista ser conhecido pela massa, que ainda consome o r\u00e1dio. A R\u00e1dio Oi tem um desenho \u00f3timo, mas \u00e9 preciso conquistar as demais emissoras. Como escreveu Wado, \u00e9 preciso fazer funcionar a reforma agr\u00e1ria do ar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Qual o texto de outra pessoa voc\u00ea gostaria de ter escrito? Algum motivo espec\u00edfico? E em rela\u00e7\u00e3o aos textos que voc\u00ea escreveu existe um que voc\u00ea gosta mais que outros? Por qu\u00ea?<\/strong><br \/>\nNossa, eu gostaria de ter escrito centenas de textos. Coisas do Andr\u00e9 Forastieri, do Tony Parsons, do Simon Reynolds e da Ana Maria Bahiana, v\u00e1rias. N\u00e3o \u00e9 a toa que criei uma se\u00e7\u00e3o no site chamada &#8220;<a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/secoes\/antologica.html\" target=\"_blank\">Mat\u00e9rias Antol\u00f3gicas<\/a>&#8220;. Tenho v\u00e1rios textos meus queridos&#8230; alguns por motivos pessoais, outros que acho que consegui me expressar bem, e ainda alguns problem\u00e1ticos na constru\u00e7\u00e3o, mas que mesmo assim se tornaram queridos. Alguns, de cabe\u00e7a. &#8220;<a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/cinema\/magw.html\" target=\"_blank\">Tudo simplesmente acontece<\/a>&#8221; (resenha sobre o filme &#8220;Magn\u00f3lia&#8221;) e &#8220;O gosto amargo nos l\u00e1bios de nossa alma&#8221; (texto sobre o filme &#8220;<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/2008\/02\/11\/sangue-negro\/\" target=\"_blank\">Sangue Negro<\/a>&#8220;), &#8220;No\u00e9&#8221; (resenha sobre &#8220;<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2009\/03\/09\/hail-to-the-thief-e-a-volta-das-guitarras\/\" target=\"_blank\">Hail To The Thief<\/a>&#8220;, do Radiohead), &#8220;<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2008\/03\/07\/bob-dylan-e-o-retrato-borrado-da-era-de-ouro-do-rock-n-roll\/\" target=\"_blank\">Bob Dylan, um retrato borrado da era de ouro do rock \u2018n roll<\/a>&#8221; (sobre o show dele em S\u00e3o Paulo) e as entrevistas com <a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/musica\/ianinterviewmac.html\" target=\"_blank\">Ian McCulloch<\/a>, <a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/literatura\/andretakeda.htm\" target=\"_blank\">Andr\u00e9 Takeda<\/a> e <a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/literatura\/fernandayoungum.html\" target=\"_blank\">Fernanda Young<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Voc\u00ea se sente realizado com o Scream &amp; Yell? Ou falta alguma coisa?<br \/>\nRealizadissimo. O Scream &amp; Yell chegou a lugares que nunca imaginei que ele iria chegar. Ele entrou na vida de milhares de pessoas como a m\u00fasica entrou na minha vida. E mais do que isso, ele se transformou em um ve\u00edculo com uma cara de honestidade que me traz um orgulho imenso. Nesse quesito n\u00e3o falta nada, mas a gente sempre quer mais, quer que o site cres\u00e7a, quer sobreviver do site (at\u00e9 para se dedicar mais a ele), quer amplificar as discuss\u00f5es ali, quer o mundo, mas estamos contentes com o peda\u00e7o de terra que conquistamos at\u00e9 hoje. Ou seja, ainda falta dinheiro. O que n\u00e3o me impede de me sentir realizado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Aproveitando isso&#8230; como voc\u00ea percebe e encara a import\u00e2ncia que o Scream &amp; Yell tem para essas pessoas a que voc\u00ea se refere? Rola uma cobran\u00e7a maior da sua parte em decorr\u00eancia dessa import\u00e2ncia?<\/strong><br \/>\nSinceramente, n\u00e3o costumo pensar muito nisso. Busco manter um padr\u00e3o, e mantendo esse padr\u00e3o estaremos satisfazendo a n\u00f3s e a todos aqueles que encaram o site como algo especial. Mas encaro como um imenso reconhecimento, sem d\u00favida. A cobran\u00e7a naturalmente \u00e9 maior, mas fazemos as coisas da forma mais natural poss\u00edvel. Continuo escrevendo para mim mesmo, sendo o meu primeiro leitor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como voc\u00ea imagina que ser\u00e1 teu futuro e o do Scream &amp; Yell?<\/strong><br \/>\nJim Morrison escreveu certa vez: o futuro \u00e9 incerto e o fim est\u00e1 sempre pr\u00f3ximo. E \u00e9 exatamente assim que me sinto. Tem semanas que d\u00e1 uma vontade imensa de jogar tudo pro alto. Fico planejando a melhor maneira de dar cabo ao site sem me sentir culpado, essas coisas. O Scream &amp; Yell \u00e9 um filho e como tal exige muita aten\u00e7\u00e3o. \u00c0s vezes a estafa bate e fica dif\u00edcil manter o bom humor. Por outro lado, 2010 foi o melhor ano do site. Disparado. N\u00e3o s\u00f3 o melhor ano editorial (acho at\u00e9 que editorialmente tivemos anos t\u00e3o bons quanto este), mas 2010 foi o ano em que surgiram mais oportunidades de neg\u00f3cio com o site. Parcerias, publi-editoriais, an\u00fancios. D\u00e1 para dizer que 2010 ser\u00e1 o primeiro ano que o Scream &amp; Yell fechar\u00e1 no azul. E isso cria \u00f3timas perspectivas para o futuro. As portas est\u00e3o sendo abertas para o site, e n\u00e3o tem como pular fora do trem agora. Mas n\u00e3o posso bater o martelo e dizer que quero passar os pr\u00f3ximos dois anos fazendo isso. Ou melhor, se fosse s\u00f3 fazer isso, tudo bem, mas o Scream &amp; Yell \u00e9 o que fa\u00e7o na hora de folga (ou seja, na hora de folga eu &#8220;trabalho&#8221; no Scream &amp; Yell). E o futuro do site influencia o meu futuro. As melhores coisas que aconteceram na minha vida profissional foram conquistadas atrav\u00e9s do site. O plano no momento \u00e9 seguir em frente e aproveitar esse momento de crescimento (do site e do mercado) e ver aonde vamos todos parar. E, sinceramente, eu n\u00e3o tenho a m\u00ednima ideia de onde tudo isso vai parar&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O Scream &amp; Yell j\u00e1 acabou e voltou duas vezes, n\u00e9? Decidiu parar nas duas ocasi\u00f5es por esses motivos que falou? E por que decidiu voltar?<\/strong><br \/>\nA primeira foi no susto. Estava acabando o contrato de um emprego, e eu acreditava que muita coisa iria mudar, e que entre elas eu n\u00e3o teria mais tempo para tocar o site. E pra deixar o site \u00e0s moscas, melhor terminar. Por\u00e9m, assim que anunciei o fim, uma centena de emails come\u00e7ou a lotar a minha caixa com mensagens de carinho, agradecimentos e pedidos para continuar. N\u00e3o teve como. O site acabou por uma semana, sem sair do ar. Em 2003, o site n\u00e3o chegou a acabar, mas deu uma parada t\u00e3o grande que desisti da capa tradicional e coloquei o blog como principal. Entre outubro de 2003 e maio de 2004 s\u00f3 tivemos um blog na capa. Fui retomando as atualiza\u00e7\u00f5es conforme as coisas foram entrando nos eixos. Por que voltar? Porque \u00e9 uma coisa muito legal de fazer, e eu queria provar que era poss\u00edvel continuar, que bastava ter for\u00e7a de vontade. N\u00e3o queria desistir. Queria manter esse canal de conversa\/contato com o mundo. E desde junho de 2004 o site vem se mantendo firme com uma atualiza\u00e7\u00e3o constante. A conversa est\u00e1 durando&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Na hist\u00f3ria do Scream &amp; Yell voc\u00ea consegue citar dois momentos opostos: um que te deu muito orgulho e outro que nem tanto?<\/strong><br \/>\nMomentos de orgulho s\u00e3o muitos. De verdade. Na primeira vez em que decidi acabar com o site (2003) recebi uma quantidade t\u00e3o grande de e-mails e telefonemas que me senti obrigado a, de alguma forma, continuar. Foi tipo uma realiza\u00e7\u00e3o: &#8220;as pessoas se importam com esse site&#8221;. Foi um momento de muito orgulho. Tamb\u00e9m foi sensacional participar do Semin\u00e1rio Internacional de Jornalismo do Ita\u00fa Cultural ao lado do Jan Feld, do UOL, e do Alex Needham, do Guardian: um site independente ao lado de um dos maiores portais do Pa\u00eds e de um dos maiores jornais do mundo. Quanto a momentos ruins&#8230; n\u00e3o saberia listar um momento espec\u00edfico. Acho que a falta de tempo faz com que muitas vezes um texto entre no site sem ter sido burilado, pensado, trabalhado adequadamente. Isso muitas vezes me frustra. Por outro lado, quando publico um texto bacana, isso me d\u00e1 um sopro de energia, uma vontade de continuar fazendo isso por muito tempo.<\/p>\n<p align=\"center\"><a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/tag\/respostas\/\">Veja outras entrevistas aqui<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Jim Morrison escreveu certa vez: o futuro \u00e9 incerto e o fim est\u00e1 sempre pr\u00f3ximo. E \u00e9 exatamente assim que me sinto. 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