{"id":33084,"date":"2011-12-14T14:59:47","date_gmt":"2011-12-14T17:59:47","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=33084"},"modified":"2015-09-11T15:01:48","modified_gmt":"2015-09-11T18:01:48","slug":"blog-do-editor-sobre-critica-musical-e-web","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2011\/12\/14\/blog-do-editor-sobre-critica-musical-e-web\/","title":{"rendered":"Blog do Editor: Sobre cr\u00edtica musical e web"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>A Tatiana Vargas est\u00e1 concluindo a gradua\u00e7\u00e3o em Estudos de M\u00eddia, pela UFF, e defende nesta semana seu TCC cujo tema \u00e9 Cr\u00edtica Musical e Web 2.0. Alguns meses atr\u00e1s ela me mandou essa batelada de perguntas, que respondi na \u00e9poca e publico agora (desejando boa sorte pra ela na banca)&#8230;<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Alguns cr\u00edticos, jornalistas e pesquisadores do assunto afirmam que a cr\u00edtica cultural vive um momento dif\u00edcil, devido a limita\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o destinado \u00e0s an\u00e1lises mais acuradas na m\u00eddia, enquanto \u00e9 cada vez mais comum, por exemplo, not\u00edcias no melhor estilo notas sobre celebridades. Vc acredita que a cr\u00edtica est\u00e1 em um contexto de crise?<\/strong><br \/>\nEst\u00e1, mas n\u00e3o por falta de espa\u00e7o. A internet est\u00e1 ai com o espa\u00e7o para quem quiser fazer um trabalho bem feito. Basta querer. A crise, na verdade, demanda de algo mais complexo: a populariza\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria. Nos anos 60 e come\u00e7o dos 70, uma cr\u00edtica negativa poderia causar o fracasso de um filme\/disco\/pe\u00e7a. Muito porque o principal ve\u00edculo de informa\u00e7\u00e3o era o jornal. Assim que a coisa toda se tornou mega, a cr\u00edtica ficou de lado. A ind\u00fastria &#8211; atrav\u00e9s do marketing e da publicidade &#8211; passou a falar direto com o comprador. Houve ainda um certo respiro nos anos 80\/90 no Brasil, mas precisamos entender que vinh\u00e1mos de um contexto de ditadura, em que a opini\u00e3o era vigiada. Com a chegada da internet (e a internacionaliza\u00e7\u00e3o do mercado com Amazon e lojas online al\u00e9m dos downloads ilegais), o p\u00fablico passou a ter um acesso mais f\u00e1cil a coisas que antes ele conhecia por um formador de opini\u00e3o. Isso tudo tirou a for\u00e7a da cr\u00edtica, mas \u00e9 um retrato de \u00e9poca. N\u00e3o d\u00e1 para ser nost\u00e1lgico e ficar chorando sobre a coca-cola derramada. A cr\u00edtica ainda tem um valor imenso que \u00e9 entender o contexto cultural. Um cr\u00edtico \u00e9 quase um fil\u00f3sofo moderno&#8230; (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Em sua opini\u00e3o, existe um jornalismo musical pr\u00f3prio da internet e outro sob a l\u00f3gica da m\u00eddia impressa? O suporte pode conferir diferentes caracter\u00edsticas em termos de qualidade \u00e0 cobertura do universo musical?<\/strong><br \/>\nS\u00e3o duas m\u00eddias completamente diferentes. Jornal \u00e9 di\u00e1rio (revistas s\u00e3o semanais, quinzenais, mensais), internet \u00e9 segundo a segundo. No entanto, o formato como se empacota a not\u00edcia pode ser diferente, mas a not\u00edcia \u00e9 a mesma. A vantagem da internet \u00e9 que ela possibilita agregar outras m\u00eddias. \u00c9 poss\u00edvel falar de um disco e, no mesmo texto, incluir as m\u00fasicas para o leitor ler e ouvir &#8211; algo imposs\u00edvel no impresso. No entanto, o impresso (assim como a televis\u00e3o) ainda tem uma for\u00e7a imensa balizada no costume das pessoas. Se est\u00e1 no jornal, se est\u00e1 na TV, \u00e9 verdade (algo, claro, bastante duvidoso, mas real). A internet, at\u00e9 pela quantidade de hoax, ainda n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o levada \u00e0 s\u00e9rio pelo usu\u00e1rio quanto deveria. No entanto, ela ainda permite cobertura em tempo real, criticas r\u00e1pidas e agilidade na informa\u00e7\u00e3o, material que se for conduzido por algu\u00e9m de talento pode render muito mais do que o publicado em impresso (at\u00e9 pela limita\u00e7\u00e3o de espa\u00e7o).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A urg\u00eancia do jornalismo, especialmente em tempos de internet, que acaba exigindo que se acompanhe os fatos praticamente em tempo real, influencia o exerc\u00edcio da cr\u00edtica? A qualidade de uma resenha pode ser afetada por essa necessidade de se cobrir os fatos?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o acredito. Claro que quanto mais se ouve um disco, mais se conhece ele, por\u00e9m, o estranhamento do novo e a adequa\u00e7\u00e3o das repetidas audi\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m pode pender contra o objeto de estudo. Ainda assim, quantas vezes um cr\u00edtico de cinema, teatro ou literatura consume seu objeto de estudo antes de escrever uma cr\u00edtica? Pegue uma critica de 1800 sobre uma sinfonia erudita: o cara n\u00e3o ouviu aquela pe\u00e7a dez vezes para escrever. Voc\u00ea tem um contato com o objeto de arte e ele age de alguma forma em voc\u00ea. E \u00e9 isso que voc\u00ea precisa entender, refletir e embazar. Por\u00e9m, cr\u00edtica \u00e9 uma coisa. Acompanhar fatos \u00e9 outra. A cr\u00edtica se alimenta do hard news, mas ela tem seu pr\u00f3prio tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Pode-se dizer que h\u00e1 uma ambiguidade na atua\u00e7\u00e3o do cr\u00edtico profissional em um ve\u00edculo de grande repercuss\u00e3o\/m\u00eddia tradicional, ao mesmo tempo em que este pode manter um espa\u00e7o pr\u00f3prio para produzir conte\u00fado sobre m\u00fasica &#8211; considerando que h\u00e1 a possibilidade de sair na frente da imprensa ao noticiar um novo \u00e1lbum e at\u00e9 mesmo fazer a cr\u00edtica do mesmo?<\/strong><br \/>\nMas noticiar n\u00e3o \u00e9 cr\u00edtica. A diferen\u00e7a come\u00e7a por ai. Fazer a cr\u00edtica antecipadamente \u00e9 algo que existe desde a Idade M\u00e9dia. Algu\u00e9m tinha acesso ao material antes e escrevia. N\u00e3o entendi a ambiguidade &#8211; a n\u00e3o ser que voc\u00ea esteja falando de um jornalista que reporta not\u00edcias e tamb\u00e9m \u00e9 cr\u00edtico. Se for isso \u00e9 preciso definir o que \u00e9 cr\u00edtica como conceito. Escrever um par\u00e1grafo sobre um disco n\u00e3o \u00e9 a mesma coisa que tentar entender sua posi\u00e7\u00e3o no tempo \/ espa\u00e7o &#8211; que deveria ser a inten\u00e7\u00e3o da cr\u00edtica. O que isso disco diz sobre a sociedade? \u00c9 bom n\u00e3o confundir coment\u00e1rio com cr\u00edtica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Alguns ve\u00edculos de grande repercuss\u00e3o j\u00e1 se adaptam \u00e0 l\u00f3gica da web (um exemplo interessante vem da ocasi\u00e3o em que o \u00e1lbum &#8220;Angles&#8221;, do Strokes, vazou e alguns sites e impressos o resenharam, mesmo considerando a natureza &#8220;ilegal&#8221; do download). Vc acredita que a cr\u00edtica pode ser comprometida, considerando os problemas caracter\u00edsticos da din\u00e2mica da web, como a qualidade inferior dos arquivos dos \u00e1lbuns que vazam, aus\u00eancia de ficha t\u00e9cnica trazendo informa\u00e7\u00f5es que poderiam ajudar na an\u00e1lise e at\u00e9 mesmo, faixas que ainda n\u00e3o est\u00e3o finalizadas?<\/strong><br \/>\nUm disco \u00e9 uma obra de arte fechada. Pensando assim, capa e encarte fazem parte do pacote. Como algu\u00e9m poderia pensar em resenhar &#8220;Sargeant Peppers&#8221; sem aquela capa? Ainda assim, estamos falando de m\u00fasica, certo. A ficha t\u00e9cnica \u00e9 algo extremamente importante para saber quem fez o que dentro daquele produto de arte &#8211; e como isso influencia o resultado final. Mas, na m\u00fasica pop principalmente, \u00e9 tudo t\u00e3o resumido no contexto de produ\u00e7\u00e3o que muitas vezes mesmo a ficha t\u00e9cnica \u00e9 dispens\u00e1vel. L\u00f3gico que a chance de algu\u00e9m cometer um equivoco \u00e9 enorme. Mas isso diz mais sobre quem l\u00ea do que quem escreve.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O que voc\u00ea pensa acerca da dissemina\u00e7\u00e3o de blogs e sites amadores que se prop\u00f5em a escrever sobre o meio musical?<\/strong><br \/>\nAcho sensacional, mas isso n\u00e3o \u00e9 critica. Obviamente, existem aqueles que se destacam, e que muitas vezes conseguem realizar um trabalho melhor do que o que est\u00e1 feito na grande m\u00eddia. Mas \u00e9 raro, muito raro. No entanto, ajuda a disseminar a informa\u00e7\u00e3o, a ideia de argumenta\u00e7\u00e3o, e uma sociedade necessita de pessoas que saibam argumentar. Ainda assim \u00e9 preciso verificar que um f\u00e3 escrevendo na maioria das vezes n\u00e3o \u00e9 argumenta\u00e7\u00e3o, e sim puxa\u00e7\u00e3o de saco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Em sua opini\u00e3o, o que leva uma pessoa a dedicar seu tempo livre a um projeto na web, &#8211; como um site sobre m\u00fasica &#8211; mesmo sem receber nenhum retorno material pelo trabalho realizado?<\/strong><br \/>\nExistem milh\u00f5es de formas de passar o tempo. Essa \u00e9 uma delas. Tem gente que se realiza colecionando tampinhas, por exemplo. Vai muito de cada um, como um hobby.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Qual \u00e9 a import\u00e2ncia da cr\u00edtica hoje?<\/strong><br \/>\nSinceramente, n\u00e3o sei. Vivemos em um mundo cada vez mais capitalista em que o lema &#8220;n\u00e3o pense, consuma&#8221; \u00e9 levado ao extremo. A cr\u00edtica prop\u00f5e uma reflex\u00e3o sobre isso &#8211; ou deveria. Acho o pensamento cr\u00edtico essencial, mas pensar cansa. E o p\u00fablico do novo s\u00e9culo parece ter nascido cansado. Uma pena. Ainda assim, os fil\u00f3sofos modernos persistem. Espero que, um dia, n\u00e3o sejam expostos em jaulas como um ser em extin\u00e7\u00e3o. Mas dai para o fim do mundo seria um pulinho.<\/p>\n<p align=\"center\"><a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/tag\/respostas\/\">Veja outras entrevistas aqui<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"&#8220;Um disco \u00e9 uma obra de arte fechada. Pensando assim, capa e encarte fazem parte do pacote. 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