{"id":32144,"date":"2015-08-21T10:36:08","date_gmt":"2015-08-21T13:36:08","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=32144"},"modified":"2017-07-14T10:44:26","modified_gmt":"2017-07-14T13:44:26","slug":"a-brasilia-azul-na-distancia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/08\/21\/a-brasilia-azul-na-distancia\/","title":{"rendered":"Sob o CEL: A Bras\u00edlia Azul Na Dist\u00e2ncia"},"content":{"rendered":"<h3 style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-32145\" title=\"infinite1\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/infinite1.jpg\" alt=\"\" \/><\/h3>\n<h3 style=\"text-align: center;\"><strong><span>Sob o CEL #30<br \/>\nA Bras\u00edlia Azul na Dist\u00e2ncia<\/span><br \/>\npor <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/carloseduardo.lima.90\" target=\"_blank\">Carlos Eduardo Lima<\/a><\/strong><\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sem muita convic\u00e7\u00e3o e motivado pela vontade da minha esposa, fui ver &#8220;Sentimentos Que Curam&#8221; no cinema. \u00c9 um filme no qual Mark Ruffalo \u00e9 Cameron, um descendente de fam\u00edlia tradicional e rica de Boston, mas tem transtorno obsessivo-compulsivo. Mesmo assim, ele se casa com Maggie (Zoe Saldana) e o casal tem duas filhas, Amelia (Imogene Wolodarsky) e Faith (Ashley Aufderheide). Claro, a vida n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil pra eles, Cameron n\u00e3o consegue emprego, obrigando Maggie a se virar pra criar as duas meninas. A trama se situa em 1978, quando Amelia j\u00e1 tem 10 anos e o casal est\u00e1 separado, mas se relacionando cordialmente. Maggie decide cursar um mestrado em Nova York e n\u00e3o v\u00ea outra pessoa para cuidar das meninas que n\u00e3o seja Cameron, que decide ajudar. A rela\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia muda gradativamente e esta \u00e9 toda a hist\u00f3ria de &#8220;Infinitely Polar Bear&#8221;, dirigido por Maya Forbes a partir de roteiro pr\u00f3prio. Claro, trata-se de uma s\u00e9rie de reminisc\u00eancias de alguma pessoa nos seus 40 e tantos anos de idade, saudosa do s\u00e9culo 20 e de como as coisas costumavam ser. Digo, as m\u00ednimas coisas. Minha suspeita se confirma a partir do fato de que Maya \u00e9 a m\u00e3e de Imogene.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 f\u00e1cil analisar o filme dessa forma, como mais um comp\u00eandio de mem\u00f3rias afetuosas, uma trama sem vil\u00e3o, algo pouco, digamos, inovador no cinema, mas, como sempre digo: n\u00e3o sou bom em analisar filmes, me apego a cenas e situa\u00e7\u00f5es que podem ser banais para os entendidos e passo a medir o valor que vou atribuir (ou n\u00e3o) a partir desses detalhes. Exemplifico neste caso: h\u00e1 tr\u00eas cenas em &#8220;Sentimentos Que Curam&#8221; que me fizeram chorar baixinho no escuro, t\u00e3o baixinho que \u2013 acho \u2013 ningu\u00e9m notou. At\u00e9 porque, a rigor, talvez s\u00f3 a \u00faltima delas seja digna disso. Portanto, se voc\u00ea pretende ver o filme (vale \u00e0 pena, \u00e9 bom), vou estragar sua jornada descrevendo tr\u00eas cenas, mas n\u00e3o vou dar qualquer informa\u00e7\u00e3o sobre elas no contexto do filme, portanto, acredito que n\u00e3o ser\u00e3o spoilers cl\u00e1ssicos. De qualquer forma, se voc\u00ea \u00e9 maluco por ineditismo e surpresas constantes, pare de ler por aqui e v\u00e1 para dois par\u00e1grafos adiante, ok? Passada a primeira meia-hora de filme, j\u00e1 sabemos que Maggie precisar\u00e1 cursar seu mestrado e Cameron cuidar\u00e1 das meninas. Como bom bipolar, ele alterna momentos de estado de esp\u00edrito e uma de suas manias \u00e9&#8230; trocar de carro. Vemos que ele passeia por Boston com as meninas a bordo de uma luminosa \u2013 por\u00e9m detonad\u00edssima &#8211; Citroen Eurowagon, azul com teto branco, provavelmente fabricada em 1971. O carro morre constantemente, precisando de reparos, at\u00e9 que Cameron decide troc\u00e1-lo e o faz sem avisar as filhas. Ele deixa a Citroen no p\u00e1tio de uma oficina e pega um Dodge Valiant, para desespero das meninas, especialmente Amelia, que v\u00ea a velha caminhonete azul sumindo na dist\u00e2ncia, a partir do vidro traseiro do novo carro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A segunda cena \u00e9 um desses clipes que os diretores inserem nos longas para dar ritmo, para contextualizar a trama no tempo, para tornar a narrativa mais fofa, v\u00e1 saber. O fato \u00e9 que me pegam quase sempre e n\u00e3o foi diferente quando, ao som de &#8220;The Oogum Boogum Song&#8221;, pequena preciosidade Soul de Brenton Woods, gravada em 1967, uma sorridente Zoe Saldana surge descendo de um \u00f4nibus, para rever a fam\u00edlia depois de duas semanas longe. A c\u00e2mera meio lenta, a m\u00fasica alegre, a alegria que foi obtida na cena, tudo t\u00e3o no lugar, verdadeiro quando vemos algu\u00e9m de quem sentimos falta, pegou o velho cora\u00e7\u00e3o em cheio. Fazer o qu\u00ea, gente? A terceira cena \u00e9 bastante singela e mostra Cameron se despedindo das filhas, que decidem fazer outros programas, que n\u00e3o o passeio de barco no Rio Charles que ele havia planejado para aquela tarde. Faith vai passar \u00e0 tarde com uma amiga e Amelia vai ao cinema com outra \u2013 ou algo assim \u2013 e Cameron tenta persuadi-las at\u00e9 que desiste e concorda. As duas v\u00e3o andando pelo p\u00e1tio da escola e cuidam para n\u00e3o olhar pra tr\u00e1s, uma vez que esse gesto \u00e9 certeza de que v\u00e3o capitular ao verem o pai com cara amuada, pedindo que elas voltem. Amelia chora durante o percurso de n\u00e3o mais que cinquenta passos, decidindo se deve ou n\u00e3o ir ao cinema, se ficar com o pai n\u00e3o \u00e9 melhor, se ele vai ficar triste, se vai sofrer, algo assim. Ao fim do caminho, ela olha e v\u00ea Cameron ao longe, acenando e fazendo gra\u00e7a. A sensa\u00e7\u00e3o de al\u00edvio da menina \u00e9 palp\u00e1vel, enquanto sobe o volume de uma infal\u00edvel &#8220;Run Of The Mill&#8221;, de George Harrison, safra &#8220;All Things Must Pass&#8221;. Mais uma vez, o velho cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o aguentou.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/MX4tPTpw2vA\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/MX4tPTpw2vA\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda hoje, uns 41 anos depois, ainda vejo um carro azul na dist\u00e2ncia. Era bem mais novo que a Amelia do filme, eu tinha entre quatro e cinco anos, quando meu av\u00f4 me levou a uma concession\u00e1ria Volkswagen em Correas, distrito de Petr\u00f3polis, na regi\u00e3o serrana do Rio. Era um procedimento de rotina, nada especial e era sempre legal andar na Bras\u00edlia azul-celeste, que ele comprara ali mesmo, cerca de um ano antes. Vejam, era 1975, tempo em que o Queen gravava &#8220;A Night At The Opera&#8221;, Bowie mandava ver em &#8220;Young Americans&#8221; e Marvin Gaye se preparava para excursionar pela Europa tendo em mente gravar o colossal \u00e1lbum ao vivo &#8220;Live At London&#8221;, que sairia no ano seguinte. Meu velho av\u00f4, um coronel da Aeron\u00e1utica, bigodudo e careca, sabia que eu gostava do carro e pretendia troc\u00e1-lo por outra Bras\u00edlia, um ano mais moderna. Todo o processo foi escondido de mim, claro, afinal de contas, eu era uma crian\u00e7a pequena. Posso dizer, entretanto, que lembro nitidamente de sair do carro azul e entrar no branco, achando legal, vendo alguma diferen\u00e7a no volante, no painel, curtindo o cheiro de carro novo. Jamais esperaria que aquilo fosse definitivo, afinal de contas, aquele apraz\u00edvel autom\u00f3vel azul era, por assim dizer, meu companheiro de alguma forma. N\u00e3o sei se foi pelo inesperado ou pela ang\u00fastia em ver aquela Bras\u00edlia azul ficando pequena na dist\u00e2ncia, irremediavelmente para tr\u00e1s, condenada a viver em alguma curva do passado, a habitar alguma feliz auto-estrada da mem\u00f3ria, na qual ela anda com o Herbie e o Mach 5 mas posso afirmar que ainda vejo aquele carro ficando para tr\u00e1s e lembro de sua placa, BD-1941.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Me conforta saber que n\u00e3o sou o \u00fanico que sente essas coisas por carros, apesar de n\u00e3o dirigir e ter perdido o interesse por ele sistematicamente. Bruce Springsteen metaforiza os autom\u00f3veis como entes m\u00e1gicos que permitem fugas da pobreza ou da realidade, pequenos acessos para uma dimens\u00e3o em que tudo \u00e9 mais poss\u00edvel. Os Beach Boys tamb\u00e9m tiveram seu apre\u00e7o por carros, especialmente o in\u00edcio da carreira, com can\u00e7\u00f5es maravilhosas como &#8220;Little Deuce Coupe&#8221; ou &#8220;409&#8221;, mas tamb\u00e9m com uma maravilha esquecida chamada &#8220;The Ballad Of Ole&#8217;Betsy&#8221;, na qual temos Brian Wilson e companhia narrando as hist\u00f3rias de um velho carro, que teria sido fabricado em 1932 (32 anos antes do lan\u00e7amento da can\u00e7\u00e3o, em 1964) e que teria visto muitos lugares, andado por muitas estradas, abrigado muitas pessoas, acelerando e reduzindo ao longo da grande caminhada da vida. Agora &#8211; no presente da can\u00e7\u00e3o &#8211; o velho calhambeque j\u00e1 n\u00e3o rodava de um lado para o outro e s\u00f3 restava aos rapazes da praia, v\u00ea-lo ser ultrapassado pelos novos modelos, irremediavelmente fadado ao esquecimento. S\u00e9rio, isso tudo \u00e9 muito triste.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Temo que esse tipo de tristeza, que, de certa forma, legitima a exist\u00eancia, se perca no passado &#8211; olha a\u00ed, \u00e9 a tristeza da tristeza. S\u00e9rio, insisto no postulado. Em uma sociedade que se funda no consumismo desenfredo e no desapego do que se compra, na certeza de que durar\u00e1 pouco e ser\u00e1 substitu\u00eddo por algo necessariamente mais eficiente, n\u00e3o restar\u00e1 muito espa\u00e7o para que algu\u00e9m se apegue a algo. A descartabilidade \u00e9 o nosso presente e tende a se intensificar cada vez mais no futuro. De alguma forma, acredito que um peda\u00e7o meu ficou l\u00e1, ao lado daquela Bras\u00edlia azul, modelo 1974, sumindo na dist\u00e2ncia da Estrada Uni\u00e3o-Ind\u00fastria. \u00c9 o destino de todos n\u00f3s, nos despeda\u00e7armos ao longo da exist\u00eancia, por mais dram\u00e1tico que pare\u00e7a e por mais inesperado que seja ver um filme nos fazer lembrar de algo t\u00e3o precioso e importante.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/Ekili7pbZFE\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/Ekili7pbZFE\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; CEL \u00e9 <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/carloseduardo.lima.90\" target=\"_blank\">Carlos Eduardo Lima<\/a> (siga\u00a0<a href=\"http:\/\/twitter.com\/#%21\/celeolimite\" target=\"_blank\">@celeolimite<\/a>), respons\u00e1vel pela coluna Sob o CEL no Scream &amp; Yell, uma vers\u00e3o renovada de sua primeira coluna no site, <a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/outros\/cel24.htm\" target=\"_blank\">O CEL \u00e9 o Limite<\/a>, que ele estreou em 05 de maio de 2002. Tamb\u00e9m \u00e9 locutor e produtor na empresa <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/RadioVitrola.net\" target=\"_blank\">R\u00e1dio Vitrola<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/tag\/sob_o_ceu\/\"><strong>LEIA OUTRAS COLUNAS DE CARLOS EDUARDO LIMA NO SCREAM &amp; YELL<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Sob o CEL #30\nCEL escreve sobre tr\u00eas cenas do filme \u201cSentimentos Que Curam\u201d que o fizeram chorar baixinho no escuro do cinema\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/08\/21\/a-brasilia-azul-na-distancia\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":44,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[46],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32144"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/44"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=32144"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32144\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":34828,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32144\/revisions\/34828"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=32144"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=32144"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=32144"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}