{"id":31719,"date":"2015-07-23T12:16:08","date_gmt":"2015-07-23T15:16:08","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=31719"},"modified":"2023-03-29T01:48:15","modified_gmt":"2023-03-29T04:48:15","slug":"musica-carrie-lowell-sufjan-stevens","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/07\/23\/musica-carrie-lowell-sufjan-stevens\/","title":{"rendered":"M\u00fasica: Carrie &#038; Lowell, Sufjan Stevens"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-31720\" title=\"sufjan_stevens\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/sufjan_stevens.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<h3 style=\"text-align: center;\"><strong>por <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/gabriel.albuquer.1\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Gabriel Albuquerque<\/a><\/strong><\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em \u201c\u00c1lbum de Fam\u00edlia\u201d, Nelson Rodrigues desvela a perversidade, crueldade e os v\u00edcios que se escondem por tr\u00e1s da aparente felicidade, harmonia e uni\u00e3o das fotos do \u00e1lbum de fam\u00edlia. Os retratos escondem toda a m\u00e1goa, desilus\u00e3o e sofrimento que permeiam as rela\u00e7\u00f5es humanas. Criam uma sensa\u00e7\u00e3o de estabilidade. S\u00e3o a refer\u00eancia para nos lembrar dos bons momentos, funcionando como um escudo que nos protege de nossa infelicidade?\u2014?a qual preferimos ignorar, fingir que n\u00e3o existe. \u201cH\u00e1 uma esp\u00e9cie de imperativo de ser feliz, em todos os lugares, o tempo todo. Aconselham-nos isso da manh\u00e3 \u00e0 noite\u201d, nas palavras do fil\u00f3sofo Roger-Pol Droit.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cCarrie &amp; Lowell\u201d, o novo disco do cantor e compositor norte-americano Sufjan Stevens \u00e9 uma homenagem \u00e0 sua m\u00e3e, falecida no fim de 2012. Como na pe\u00e7a de Nelson, a imagem cristalizada do \u00e1lbum de fam\u00edlia (estampada na capa do \u00e1lbum, que mostra a m\u00e3e e o padrasto do m\u00fasico, os mesmos do t\u00edtulo) \u00e9 problematizada. O clich\u00ea da exalta\u00e7\u00e3o rom\u00e2ntica aos momentos grandiosos, do tipo F\u00e1bio Jr. e o pieguismo do seu pai her\u00f3i, d\u00e1 lugar a arranjos simples e letras extremamente pessoais, que exp\u00f5em n\u00e3o apenas a alegria demag\u00f3gica, mas tamb\u00e9m os traumas da rela\u00e7\u00e3o entre m\u00e3e e filho, contradit\u00f3ria e conturbada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No caso de Sufjan, uma hist\u00f3ria bem peculiar e delicada: Carrie sofria de alcoolismo, esquizofrenia e depress\u00e3o e por isso afastou-se do filho quando ele tinha apenas um ano de idade. Quando ela casou-se com Lowell, Sufjan teve a experi\u00eancia de passar cinco f\u00e9rias escolares com a m\u00e3e no ver\u00e3o. Tamb\u00e9m a via ocasionalmente em reuni\u00f5es de fam\u00edlia e estava junto a ela nos seus \u00faltimos momentos de vida no hospital, onde faleceu em decorr\u00eancia de um c\u00e2ncer no est\u00f4mago.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O cerne do \u00e1lbum \u00e9, portanto, a intimidade do seu compositor, que se expressa com uma crueza impressionante. N\u00e3o se encontra aqui o som \u00e9pico dos metais, violinos e coro de \u201cChicago\u201d, carro-chefe de seu repert\u00f3rio. Somente um viol\u00e3o, algumas vezes acompanhado por um discreto e afastado piano e pequenos backing vocals. A voz de Sufjan \u00e9 praticamente um sussurro, t\u00e3o fr\u00e1gil que Stevens parece estar a ponto de se despeda\u00e7ar a qualquer momento. A primeira impress\u00e3o \u00e9 de que as m\u00fasicas repetem a f\u00f3rmula batida do \u201cfofolk\u201d: melodias simples, singelas e bonitas, mas ins\u00edpidas, sem sangue, suor e l\u00e1grimas.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/dsGODTySH0E\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/dsGODTySH0E\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa ideia cai por terra conforme vamos adentrando com mais aten\u00e7\u00e3o no turbilh\u00e3o emocional de \u201cCarrie &amp; Lowell\u201d. A entrega confessional de Sufjan \u00e9 o que faz o disco passar longe do easy listening est\u00e9ril de m\u00fasica de elevador ou da \u201cm\u00fasica para relaxar\u201d. Logo nos primeiros versos da faixa de abertura \u201cDeath With Dignity\u201d, ele diz: \u201cspirit of my silence I can hear you \/ but I\u2019m afraid to be near you\u201d. Ou seja, Stevens vai lidar n\u00e3o exatamente com a morte de sua m\u00e3e, mas sim os seus pr\u00f3prios fantasmas, com o seu interior. O \u201cesp\u00edrito de seu sil\u00eancio\u201d nada mais \u00e9 do que a solitude?\u2014?que assusta a todos n\u00f3s, pois nos obriga a olhar para n\u00f3s mesmos. Um exerc\u00edcio que, se feito com honestidade, pode trazer resultados decepcionantes ao percebermos que n\u00e3o somos aquilo que pensamos \/ gostar\u00edamos de ser.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Durante todo o \u00e1lbum, Sufjan est\u00e1 buscando exorcizar os seus dem\u00f4nios em um calv\u00e1rio consigo mesmo. No subterr\u00e2neo da m\u00fasica lenta, contemplativa e suave, h\u00e1 uma luta violenta entre o compositor e ele mesmo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em entrevista ao Pitchfork, Stevens conta que come\u00e7ou a abusar de drogas e \u00e1lcool. \u201cEu comecei a acreditar que eu estava geneticamente, quimicamente, predisposto ao seu padr\u00e3o de destrui\u00e7\u00e3o [em rela\u00e7\u00e3o ao comportamento de sua m\u00e3e]\u201d. Confuso, ele tenta algumas vezes culp\u00e1-la pelo seu estado em desabafos raivosos, como \u201cDrawn To The Blood\u201d (\u201cO que eu fiz para merecer isso?\u201d, canta, quase aos prantos). Mas ele percebe o qu\u00e3o infantil e c\u00ednico \u00e9 simplesmente se vitimizar e eximir-se de toda sua responsabilidade. Na mesma entrevista, Sufjan diz:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cEu aprendi rapidamente que voc\u00ea n\u00e3o tem que ser preso pelo sofrimento e que, apesar da natureza disfuncional de sua fam\u00edlia, voc\u00ea \u00e9 um indiv\u00edduo em plena posse de sua vida. Eu vim a perceber que eu n\u00e3o estava possu\u00eddo por ela, ou encarcerado por sua doen\u00e7a mental. N\u00f3s culpamos nossos pais por um monte de merda, para o melhor e para o pior, mas \u00e9 uma simbiose. A paternidade \u00e9 um sacrif\u00edcio profundo.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Percebemos essa vis\u00e3o mais cr\u00edtica tamb\u00e9m na m\u00fasica. Em \u201cEugene\u201d, ele relembra pequenos momentos, at\u00e9 banais, como puxar a camisa da m\u00e3e pedindo para comprar iogurte ou o professor de nata\u00e7\u00e3o que mal sabia pronunciar seu nome, at\u00e9 chegar ao est\u00e1gio terminal, em que Carol est\u00e1 no hospital cercada por aparelhos e pr\u00f3xima da morte. E, enfim, o lamento pela rela\u00e7\u00e3o que ele poderia ter constru\u00eddo, mas agora, diante da morte, \u201co que resta \u00e9 apenas amargura, para o resto da minha vida, admitindo que o melhor est\u00e1 para tr\u00e1s\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/lJJT00wqlOo\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/lJJT00wqlOo\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na bel\u00edssima \u201cShould Have Know Better\u201d, segundo single do \u00e1lbum, Sufjan complementa sua vis\u00e3o. Reconhece sua atitude passiva (\u201cI waited for the remedy\u201d) e abre m\u00e3o dos julgamentos. Quando relembra o dia em que foi abandonado na locadora, ele n\u00e3o entra em conflito e apenas pede, resignado: \u201cseja meu descanso, seja minha fantasia\u201d. Aqui, apesar de melanc\u00f3lico, ele enxerga o passado com sobriedade (\u201cNada pode ser mudado. O passado ainda \u00e9 o passado, a ponte para lugar nenhum. Eu devia ter escrito uma carta explicando o que eu sinto, essa sensa\u00e7\u00e3o de vazio\u201d) e ainda parece ter uma pequena (pequena!) fa\u00edsca de esperan\u00e7a, em meio a versos como \u201cno reason to live\u201d, ao falar de sua sobrinha e da alegria que ela proporciona.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas o luto n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, e lidar com os problemas adormecidos tamb\u00e9m n\u00e3o. As feridas demoram a cicatrizar. Entre a histeria do apontar o dedo para os \u201cculpados\u201d at\u00e9 a percep\u00e7\u00e3o de suas responsabilidades, h\u00e1 um caminho longo e tortuoso de lamentos e desilus\u00f5es. Podemos perceb\u00ea-lo em \u201cThe Only Thing\u201d e \u201cNo Shade in The Shadow of The Cross\u201d. Na primeira, o compositor se pergunta como ir\u00e1 \u201cviver com seu fantasma\u201d e, na segunda, questiona sua f\u00e9 em Deus?\u2014?uma figura bastante recorrente nas letras de Sufjan.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre os desabafos raivosos, confiss\u00f5es angustiadas e lamentos melanc\u00f3licos, Sufjan Stevens comp\u00f5e um quadro impressionista sobre nossa rela\u00e7\u00e3o com a vida e a morte, amor e \u00f3dio, esperan\u00e7a e frustra\u00e7\u00e3o, desespero e conforto. A partir de experi\u00eancias pessoais, estabelece uma vis\u00e3o madura sobre as rela\u00e7\u00f5es humanas, a intimidade e imin\u00eancia da morte e capta diversas nuances da ampla gama de sentimentos e rea\u00e7\u00f5es com que encaramos a \u201cvelha da capa preta\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cCarrie &amp; Lowell\u201d \u00e9 um grande disco e sua for\u00e7a reside na surpreendente brutalidade e crueza da batalha \u00edntima que o compositor trava ao longo de suas m\u00fasicas e tamb\u00e9m na desmistifica\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es familiares e do afeto entre elas \u2014 complexas, confusas, conturbadas. Uma poderosa e comovente sensibilidade da experi\u00eancia cotidiana.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/qx1s_3CF07k\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/qx1s_3CF07k\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Gabriel Albuquerque (<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/gabriel.albuquer.1\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">www.facebook.com\/gabriel.albuquer.1<\/a>) escreve na <a href=\"https:\/\/revistapoleiro.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Revista Poleiro<\/a><\/p>\n<p><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><br \/>\n&#8211; Sufjan Stevens tenta juntar pe\u00e7as de um velho quebra-cabe\u00e7a incompleto (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/2015\/03\/16\/coluna-wado-e-sufjan-stevens\/\">aqui<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Gabriel Albuquerque\nUm grande disco cuja for\u00e7a reside na surpreendente brutalidade e crueza da batalha \u00edntima que o compositor trava&#8230;\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/07\/23\/musica-carrie-lowell-sufjan-stevens\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31719"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=31719"}],"version-history":[{"count":12,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31719\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":73701,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31719\/revisions\/73701"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=31719"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=31719"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=31719"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}