{"id":31649,"date":"2015-07-20T14:12:10","date_gmt":"2015-07-20T17:12:10","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=31649"},"modified":"2018-06-28T09:33:05","modified_gmt":"2018-06-28T12:33:05","slug":"entrevista-dingo-bells","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/07\/20\/entrevista-dingo-bells\/","title":{"rendered":"Entrevista: Dingo Bells (2015)"},"content":{"rendered":"<h3 style=\"text-align: center;\"><strong>por\u00a0<a href=\"https:\/\/twitter.com\/noacapelas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Bruno Capelas<\/a><\/strong><\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma \u201cvelha banda nova\u201d. Com mais de uma d\u00e9cada de estrada e muitos f\u00e3s em Porto Alegre (mas desconhecidos fora da capital ga\u00facha), a Dingo Bells chega ao primeiro disco apenas em 2015. \u201cFazer um disco demora um pouco mais do que fazer um tweet, n\u00e9?\u201d, brinca Diogo Brochmann, guitarrista da banda, que no come\u00e7o do ano lan\u00e7ou seu trabalho de estreia, \u201cMaravilhas da Vida Moderna\u201d. Produzido por Marcelo Fruet (P\u00fablica, Apanhador S\u00f3), o \u00e1lbum se destaca por dois grandes fios condutores: a sonoridade que remete diretamente aos anos 1970, e a ironia existencial que permeia boa parte de suas letras \u2013 tudo embalado em uma abordagem pop.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cQueremos agradar ao cara que gosta de comprar fone de ouvido para ouvir m\u00fasica em casa, mas ao mesmo tempo queremos tocar no r\u00e1dio e soar diretos e acess\u00edveis para algu\u00e9m que justamente n\u00e3o esteja prestando aten\u00e7\u00e3o\u201d, comenta o baixista Felipe Kautz \u2013 completa a forma\u00e7\u00e3o da banda o vocalista e baterista Rodrigo Fischmann. Os tr\u00eas bateram um papo animado com o Scream &amp; Yell no in\u00edcio de junho, nas mesas coloridas da lanchonete do Centro Cultural S\u00e3o Paulo, dias antes do show de lan\u00e7amento de \u201cMaravilhas da Vida Moderna\u201d no capital paulista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Financiado por uma campanha de crowdfunding que pediu R$ 20 mil \u2013 e arrecadou 20% a mais que o almejado \u2013, \u201cMaravilhas da Vida Moderna\u201d j\u00e1 foi descrito por a\u00ed como representante da \u201cnova m\u00fasica ga\u00facha\u201d e \u201cum disco para quem est\u00e1 entre os 25 e os 35\u201d. Na entrevista, o trio \u2013 que toca junto desde o Ensino Fundamental e hoje beira os 30, como evidencia a can\u00e7\u00e3o \u201cMist\u00e9rio dos 30\u201d \u2013 comenta as duas declara\u00e7\u00f5es. Para Felipe Kautz, \u201co rock ga\u00facho j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 feito no Rio Grande do Sul h\u00e1 muito tempo\u201d, enquanto Rodrigo (que \u00e9 irm\u00e3o de Ricardo Fischmann, um dos cabe\u00e7as de outra boa banda pop ga\u00facha, a Selton) v\u00ea que \u201ca identifica\u00e7\u00e3o et\u00e1ria n\u00e3o \u00e9 uma regra, mas que depende muito mais da fase de vida do ouvinte\u201d. No embalo do tema, o trio \u00e9 um dos integrantes do tributo &#8220;Espelho Retrovisor&#8221;, em homenagem aos 30 anos dos Engenheiros do Hawaii, <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2014\/11\/11\/download-tributo-aos-engenheiros-do-hawaii\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">disponibilizado pelo Scream &amp; Yell<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outro destaque de \u201cMaravilhas\u201d \u00e9 o seu arrojado projeto gr\u00e1fico, que envelopa o disco em uma caixa de 24x24cm e traz quatro diferentes capas, que o ouvinte pode trocar ao seu pr\u00f3prio gosto. \u201cHoje, a maioria das pessoas pega um CD e nem tem onde ouvir: ou leva pra escutar no carro, ou joga num canto e acaba baixando as m\u00fasicas. Ao fazer um objeto diferente, quer\u00edamos que o ouvinte criasse uma rela\u00e7\u00e3o diferente com o objeto\u201d, explica o guitarrista. Neste segundo semestre, a Dingo Bells percorre o Brasil em turn\u00ea conjunta com os baianos da Maglore, tamb\u00e9m de disco novo na pra\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No papo a seguir, a banda fala mais sobre seu caminho at\u00e9 \u201cMaravilhas da Vida Moderna\u201d (que pode ser baixado gratuitamente <a href=\"http:\/\/www.dingobells.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">no site oficial<\/a>), explica alguns nomes, lembra como foi abrir para o beatle Ringo Starr e conta como surgiram can\u00e7\u00f5es existenciais e ganchudas como \u201cEu Vim Passear\u201d e \u201cDinossauros\u201d, pontos centrais de um disco que come\u00e7a feliz e aos poucos vai se tornando contemplativo. \u201cA melancolia \u00e9 algo que a gente aprecia bastante\u201d, avisa Rodrigo. Senhoras e senhores, apertem os cintos: esta \u00e9 mais uma viagem de bordo das maravilhas da Dingo Bells.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/C5JQgaP9mV4?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00eas s\u00e3o uma banda com mais de uma d\u00e9cada de estrada, mas s\u00f3 agora chegaram ao primeiro disco. Antes de saber por que demorou tanto tempo, quero entender a hist\u00f3ria da Dingo Bells at\u00e9 chegar no \u201cMaravilhas da Vida Moderna\u201d.<\/strong><br \/>\nFelipe Kautz: N\u00f3s tr\u00eas estudamos na mesma escola e passamos a frequentar tamb\u00e9m a mesma escola de m\u00fasica. Como era uma escola pequena, n\u00f3s t\u00ednhamos contato di\u00e1rio, e a\u00ed come\u00e7ou a rolar um interc\u00e2mbio de sons\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diogo Brochmann: A gente tinha uns 12, 13 anos, estava ali na porta do Ensino M\u00e9dio. N\u00f3s come\u00e7amos a compor, mas normalmente a gente fazia muito cover no come\u00e7o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Do que voc\u00eas costumavam fazer cover?<\/strong><br \/>\nFelipe: Led Zeppelin, Pink Floyd, Beatles. E na \u00e9poca tinham sa\u00eddo os primeiros discos do Kings of Leon, que tinha trazido uma coisa mais old school que n\u00e3o aparecia muito na \u00e9poca. Essa fase de covers foi bem breve. Logo depois come\u00e7amos a compor nossos sons, ainda que de maneira esparsa. Naquela \u00e9poca, quem compunha mais era o Rodrigo, e a gente foi percebendo que havia resposta de p\u00fablico, havia catarse nos shows, uma como\u00e7\u00e3o da galera.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rodrigo Fischmann: Olhando para tr\u00e1s, existe um marco no qual a gente decide ter uma banda e fazer shows. Em 2006, foi a fase dos covers. No ano seguinte, ficamos fora do pa\u00eds. Quando voltamos para casa, decidimos apostar numa linha autoral, bem na \u00e9poca que estava come\u00e7ando a faculdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Felipe: Na \u00e9poca, eu tinha largado Direito para entrar em Ci\u00eancias Sociais. Depois larguei a Sociais para entrar na M\u00fasica, e agora a Dingo Bells talvez me fa\u00e7a largar a M\u00fasica. (risos)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rodrigo: Sou formado em Publicidade e Propaganda, mas n\u00e3o publica isso, por favor (risos). Em 2008, nasce a nossa consci\u00eancia sobre o que era a Dingo Bells. Antes era s\u00f3 uma banda de amigos de col\u00e9gio, uns moleques que est\u00e3o aprendendo a tocar junto e trocam influ\u00eancias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diogo: \u00c9 por isso que \u00e0s vezes parece que o tempo foi muito mais longo do que realmente foi. A gente se conhece desde cedo, e a Dingo Bells foi um dos primeiros grupos de todo mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Felipe: Por outro lado, vivem questionando a gente sobre a maturidade de algumas m\u00fasicas. A resposta disso \u00e9 tempo. Tocamos juntos h\u00e1 10, 12 anos. \u00c9 natural que role um amadurecimento. Hoje a gente tem 27 anos, se n\u00e3o tivesse amadurecido nada em todo esse tempo \u00e9 porque tem algo de errado, n\u00e3o \u00e9? Sempre fomos melhores amigos, e levamos esse tempo todo para gravar um disco. Mas para n\u00f3s foi algo natural.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Se a gente parar para analisar, voc\u00eas s\u00e3o contempor\u00e2neos a bandas como Selton e Apanhador S\u00f3 \u2013 que j\u00e1 tem dois ou tr\u00eas discos na pra\u00e7a. Talvez pra quem esteja em Porto Alegre isso fa\u00e7a sentido, mas a Dingo Bells \u00e9 uma banda \u201ctotalmente nova\u201d para o resto do Brasil.<\/strong><br \/>\nRodrigo: De 2008 a 2010, nos dedicamos a tocar bastante em tudo que \u00e9 lugar em Porto Alegre. Quer\u00edamos solidificar ao m\u00e1ximo nosso entrosamento, e que isso se refletisse nas nossas pr\u00f3prias m\u00fasicas. Em 2010, gravamos um EP, e o produtor disse que basicamente queria registrar o que a gente j\u00e1 fazia ao vivo. Foi bacana, mas tudo sem muito planejamento \u2013 algo que s\u00f3 veio em 2013, quando lan\u00e7amos o single \u201cLobo do Mar\u201d. Um pouco com a ajuda da participa\u00e7\u00e3o do H\u00e9lio Flanders, mas tamb\u00e9m foi quando tivemos assessoria de imprensa e sa\u00edmos um pouco do aspecto local. Sempre tivemos consci\u00eancia de que \u00e9ramos desconhecidos fora de Porto Alegre. Mas por isso a gente quis dedicar o tempo que achasse necess\u00e1rio para ter um trabalho que valesse a pena ser lan\u00e7ado como primeiro disco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Felipe: Fomos uma banda que se desenvolveu muito ao vivo: tocando na noite, voc\u00ea come\u00e7a a pensar na sua proposta de som e em arranjos elaborados. N\u00e3o consigo pensar em uma parte de uma m\u00fasica nossa que n\u00e3o tenha sido bem trabalhada, que a gente tenha largado o arranjo para l\u00e1 e falado: \u201cok, vai assim mesmo\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rodrigo: Al\u00e9m disso, existe uma quest\u00e3o pr\u00e1tica: em outros anos, quer\u00edamos lan\u00e7ar o disco e n\u00e3o t\u00ednhamos grana. Tentamos editais, e n\u00e3o rolou. Mais ou menos na mesma \u00e9poca, surgiu o crowdfunding, o que abriu para n\u00f3s uma porta que n\u00e3o existia. Enquanto tudo isso acontecia, n\u00f3s conseguimos criar o p\u00fablico que foi a base desse financiamento coletivo.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/-0xXRRSNnnM?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Na primeira vez que ouvi falar sobre a Dingo Bells, fiquei impressionado com isso: \u201cmas como assim esses caras j\u00e1 est\u00e3o fazendo crowdfunding no primeiro disco?\u201d. Como \u00e9 que foi esse processo? Voc\u00eas viraram os chatos do Facebook na \u00e9poca?<\/strong><br \/>\nFelipe: T\u00ednhamos esse receio, mas pedimos ajuda para o pessoal da Apanhador S\u00f3 e da Selton, que passaram pelo mesmo processo antes. Por outro lado, descobrimos que se a gente ia fazer um crowdfunding, s\u00f3 pod\u00edamos trabalhar com uma \u00fanica op\u00e7\u00e3o vi\u00e1vel: vai dar certo. \u00c9 um baita trabalho psicol\u00f3gico, e com muito planejamento: come\u00e7amos a pensar no crowdfunding em outubro de 2013, e a campanha foi ao ar s\u00f3 no come\u00e7o de maio do ano seguinte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rodrigo: O que nos ajudou bastante \u00e9 que a Apanhador S\u00f3 tinha acabado de fazer o crowdfunding deles, e eles ajudaram a popularizar o conceito. Muitos dos nossos apoiadores j\u00e1 sabiam o que era financiamento coletivo quando come\u00e7amos a nossa campanha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diogo: A Apanhador ajudou a introjetar esse termo nas pessoas, e explicar que crowdfunding n\u00e3o \u00e9 esmola nem vaquinha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Isso \u00e9 bem bacana. Hoje, acho que o termo j\u00e1 est\u00e1 mais bem explicado.<\/strong><br \/>\nFelipe: Quem consome m\u00fasica independente hoje em dia sabe o que \u00e9 um crowdfunding. E se n\u00e3o souber, financiamento coletivo \u00e9 um termo que explica muito bem. Bah, \u00e9 uma ferramenta que eu recomendo muit\u00edssimo. \u00c9 muito trabalhoso, mas acaba aproximando muito as pessoas. As pessoas se sentem parte, e os apoiadores acabam se tornando polos de distribui\u00e7\u00e3o do teu trabalho, porque eles ficam quase um ano esperando o resultado daquilo com o que eles contribu\u00edram. Quando o disco chega, acaba sendo algo que eles querem dividir tamb\u00e9m com os amigos e os familiares deles.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E como foi a recep\u00e7\u00e3o dos f\u00e3s quando o disco finalmente chegou ao ar? \u2013 especialmente considerando que a Dingo Bells evoluiu bastante do primeiro EP para esse \u201cMaravilhas da Vida Moderna\u201d.<\/strong><br \/>\nRodrigo: Ao comentarem sobre o disco, o que as pessoas me passam \u00e9 mais um orgulho de ver a banda chegar l\u00e1 do que um choque sobre \u201cficar diferente\u201d. De certa forma, existe em n\u00f3s a consci\u00eancia de que o EP \u00e9 uma fase embrion\u00e1ria da banda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Felipe: Durante o processo de produ\u00e7\u00e3o, discutimos bastante com o Marcelo Fruet sobre isso. Obviamente, n\u00f3s tr\u00eas gostamos muito de m\u00fasica e \u00e9 por isso que a gente est\u00e1 nessa, entende? Sempre pensamos em fazer um disco que fosse direto, mas que tamb\u00e9m fosse para algu\u00e9m que goste de m\u00fasica. Algu\u00e9m que est\u00e1 disposto a ouvir o disco muitas vezes e descobrir os pequenos detalhes que est\u00e3o por tr\u00e1s de cada can\u00e7\u00e3o. S\u00e3o essas coisas que tornam um disco qualquer um grande disco: a possibilidade do ouvinte de retornar e perceber os detalhes, como a gente ouve no disco, sei l\u00e1, do Queens of the Stone Age que est\u00e1 na tua camiseta. Bem ou mal, estamos todos no mesmo jogo: somos m\u00fasicos fazendo m\u00fasica em 2015. A Dingo Bells est\u00e1 lan\u00e7ando o \u201cMaravilhas\u201d, e queremos que as pessoas sigam escutando o disco, porque n\u00f3s colocamos muito por tr\u00e1s das grava\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diogo: \u00c9 assim que a gente gosta de ouvir m\u00fasica: com aten\u00e7\u00e3o, usando fone de ouvido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Felipe: Essa foi a guerra que rolou sobre o conceito do disco: queremos agradar ao cara que gosta de comprar fone de ouvido para ouvir m\u00fasica em casa, mas ao mesmo tempo, queremos tocar no r\u00e1dio e soar direto e pop para algu\u00e9m que justamente n\u00e3o esteja prestando aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rodrigo: O conceito de pop \u00e9 muito perigoso. Se tu fala em pop, j\u00e1 vem muita coisa negativa para quem gosta de m\u00fasica.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/u3mW7QHlc9Q?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 engra\u00e7ado: uma can\u00e7\u00e3o pop pode ser tanto Katy Perry ou Madonna quanto ser\u2026 Beach Boys.<\/strong><br \/>\nDiogo: O pop nem \u00e9 tanto uma quest\u00e3o de concep\u00e7\u00e3o de som. \u00c9 uma quest\u00e3o de abrang\u00eancia, talvez, ou de acessibilidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 uma palavra mais f\u00e1cil de explicar. Pensando n\u00e3o no campo das possibilidades, mas sim das vontades: voc\u00eas querem tocar na novela e fazer show para 50 mil pessoas?<\/strong><br \/>\nFelipe: Eu quero ter uma abrang\u00eancia grande, claro. Mas quero que o disco fosse consumido com o mesmo cuidado que a gente fez. As coisas que chegam na novela ou no Faust\u00e3o s\u00e3o muito descart\u00e1veis e sazonais. Queremos atingir as pessoas, mas queremos que elas achem que o \u201cMaravilhas\u201d n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 mais um disco de ver\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Nesse processo de idas e vindas, quando foi o momento em que voc\u00eas se olharam e viram que as m\u00fasicas que voc\u00eas tinham rendiam um disco?<\/strong><br \/>\nDiogo: Parece um chav\u00e3o, mas o tempo acabou&#8230; passando. Pensamos um temp\u00e3o at\u00e9 gravar o single em 2013. Gravamos, mas e a grana para gravar um disco inteiro? Tentamos editais e n\u00e3o conseguimos. Paramos para pensar o crowdfunding do disco, e foram mais seis meses. Paralelamente a isso, teve a grava\u00e7\u00e3o: come\u00e7amos em janeiro de 2014, e s\u00f3 mandamos o disco para a masteriza\u00e7\u00e3o em janeiro de 2015. Por outro lado, a gente se deu a alguns luxos. O \u201cMaravilhas\u201d \u00e9 o primeiro disco que a banda gravou, e s\u00f3 quisemos lan\u00e7ar quando estiv\u00e9ssemos satisfeitos com todas as m\u00fasicas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rodrigo: Poder\u00edamos ter corrido e feito tudo com menos cuidado para lan\u00e7ar no final de 2014. Mas poxa, ia valer a pena?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diogo: Acho que n\u00f3s passar\u00edamos a vida inteira ouvindo o disco e pensando que poderia ter melhorado. N\u00e3o que a gente n\u00e3o tenha arrependimentos, mas hoje parece que n\u00e3o h\u00e1 um momento do disco que a gente n\u00e3o tenha trabalhado at\u00e9 o final.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E no que diz respeito \u00e0s composi\u00e7\u00f5es? O \u201cMaravilhas\u201d parece um disco conceitual, mas todo esse repert\u00f3rio foi feito de uma vez s\u00f3?<\/strong><br \/>\nRodrigo: A ideia do disco j\u00e1 existia antes: t\u00ednhamos umas 10 ou 12 m\u00fasicas, a maioria delas composta s\u00f3 por mim. Era uma mistura de v\u00e1rias fases da banda: de coisas da \u00e9poca do primeiro EP at\u00e9 can\u00e7\u00f5es mais recentes, p\u00f3s-2013. Era um repert\u00f3rio que parecia uma grande colcha de retalhos. Fizemos uma demo na sala de casa e apresentamos para o Marcelo Fruet, que j\u00e1 tinha feito o single com a gente. Ele escutou e falou: \u201colha, galera, t\u00e1 bem legal&#8230; mas voc\u00eas querem lan\u00e7ar um disco de 10 m\u00fasicas e est\u00e3o me mostrando 12. Isso parece um pouco prepotente! Tragam no m\u00ednimo o dobro pra gente selecionar!\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diogo: Foi um baque. Nunca t\u00ednhamos feito m\u00fasica sobre demanda, no sentido de ter um prazo espec\u00edfico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rodrigo: O que acabou acontecendo \u00e9 que a gente acabou se enfurnando na casa do Rodrigo Marroni em Porto Alegre. O Marroni \u00e9 um amigo nosso, e \u00e9 o fot\u00f3grafo que fez a arte do disco. A gente se encontrava l\u00e1 todo dia, e pela primeira vez rolou um processo diferente, com os tr\u00eas compondo juntos. Em um m\u00eas e pouco, acabamos tendo umas 20, 25 ideias, e 80% das m\u00fasicas que foram o \u201cMaravilhas\u201d acabaram vindo desse per\u00edodo.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/hSUFD1BwbUY?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O que n\u00e3o faz parte desse \u201clote\u201d?<\/strong><br \/>\nRodrigo: \u201cTodo N\u00f3\u201d, \u201cDinossauros\u201d\u2026 \u201cFuncion\u00e1rio do M\u00eas\u201d, acho que s\u00f3. Enfim: depois de acertar todo esse material, mostramos as coisas para o Fruet, e come\u00e7amos a selecionar o repert\u00f3rio que iria para o disco. Quando fechamos o tracklist, fomos para um s\u00edtio em Viam\u00e3o [regi\u00e3o metropolitana de Porto Alegre, a 32km da capital] para fazer a pr\u00e9-produ\u00e7\u00e3o e elaborar melhor as m\u00fasicas. \u201cFugiu do Dia\u201d, por exemplo, pegou a estrada s\u00f3 com duas estrofes. Voltamos do s\u00edtio com uma demo que j\u00e1 tinha a proposta do \u201cMaravilhas\u201d: havia um conceito nessas m\u00fasicas, que fala do nosso momento no mundo. Era um fio condutor que a gente n\u00e3o tinha pensado, mas que servia muito bem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cMaravilhas da Vida Moderna\u201d talvez seja um t\u00edtulo bem explicativo, mas o que era esse conceito antes dele ganhar um nome bonito assim?<\/strong><br \/>\nDiogo: O disco \u00e9 inteiro permeado por uma certa ironia. \u201cMaravilhas da Vida Moderna\u201d \u00e9 uma frase da m\u00fasica \u201cMist\u00e9rio dos 30\u201d, e \u00e9 um questionamento sobre como a gente chegou em uma certa idade e o que a gente conquistou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Felipe: \u00c9 um disco que traz as nossas inquieta\u00e7\u00f5es. N\u00f3s somos muito amigos, temos a mesma idade e somos colegas de profiss\u00e3o. Os desafios que chegam at\u00e9 n\u00f3s s\u00e3o muito parecidos. \u00c9 quase um olhar interno de como a gente enxerga as coisas externas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Apesar do disco ter sido concebido em um ambiente rural, eu vejo o \u201cMaravilhas\u201d como um \u00e1lbum essencialmente urbano. \u00c9 de prop\u00f3sito?<\/strong><br \/>\nRodrigo: Mais ou menos rural, n\u00e9? Viam\u00e3o faz parte da Grande Porto Alegre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Felipe: Mas tinha estrada de terra para chegar l\u00e1, e \u00e0s vezes a gente tinha que tomar cuidado para n\u00e3o atropelar uma galinha (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diogo: A gente vive em uma cidade \u2013 de maneira que \u00e9 natural compor sobre isso. O campo \u00e9 um lugar muito bom para o processo criativo, e quando falamos do s\u00edtio, n\u00e3o fazemos apologia a uma coisa buc\u00f3lica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rodrigo: Talvez de forma inconsciente, a gente tenha sa\u00eddo da cidade para refletir sobre o que \u00e9 a vida na cidade. Mas n\u00e3o foi uma busca. Se isolar no campo \u00e9 o ideal para o processo criativo \u2013 pelo menos o nosso, sem celular por perto nem nada que incomodasse.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>H\u00e1 algum tempo, voc\u00eas foram parte de uma reportagem d\u2019O Globo sobre a \u201cnova m\u00fasica ga\u00facha\u201d. Como \u00e9 essa tal de \u201cnova m\u00fasica ga\u00facha\u201d? O que ela tem a ver com o que a gente conhece do rock do Rio Grande do Sul?<\/strong><br \/>\nRodrigo: Acho que a gente n\u00e3o se prop\u00f5e a fazer nada que seja \u201crock ga\u00facho\u201d. O rock ga\u00facho \u00e9 um conceito j\u00e1 formado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O que \u00e9 rock ga\u00facho pra voc\u00ea?<\/strong><br \/>\nRodrigo: Rock ga\u00facho \u00e9 a heran\u00e7a de bandas como TNT, Cascavelettes\u2026 naquela mistura de Beatles com Rolling Stones com um clima de rock\u2019n\u2019roll, \u201cvamos beber cerveja e fazer barulho\u201d e trocadilhos ruins. Mas vamos l\u00e1: alguns dos nossos professores de m\u00fasica foram os caras do rock ga\u00facho. Tivemos aula de m\u00fasica com o Carlo Pianta e com o Frank Jorge, da Graforreia, mas era uma \u00e9poca diferente. O que aquelas bandas dos anos 1980 faziam era uma coisa de liberdade juvenil. Isso foi herdado por uma segunda gera\u00e7\u00e3o do rock ga\u00facho, como Bid\u00ea ou Balde, ou Video Hits, mas a heran\u00e7a acabou sendo mais uma quest\u00e3o de localidade do que pelo som parecido. Quanto \u00e0s bandas da nossa gera\u00e7\u00e3o, o que nos identifica \u00e9 a busca por uma identidade. N\u00e3o buscamos um som em espec\u00edfico, mas queremos uma m\u00fasica nova. Talvez hoje a \u201cnova m\u00fasica ga\u00facha\u201d se uma muito mais na identifica\u00e7\u00e3o das mesmas dificuldades de carreira, mas n\u00e3o necessariamente em uma identidade sonora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diogo: N\u00e3o sei muito bem explicar porque, mas parece que existe uma grande tara no Rio Grande do Sul pelos anos 1960. Claro, h\u00e1 outras coisas l\u00e1, mas esse lance existe e acaba formando um r\u00f3tulo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Felipe: Sim. N\u00f3s vimos Porto Alegre se transformar de uma cidade pacata em uma cidade ca\u00f3tica&#8230; n\u00e3o sei, n\u00e3o acho que hoje exista um compromisso sonoro espec\u00edfico. Cada um quer achar o seu som: n\u00f3s fomos fazer um disco em Viam\u00e3o, tem gente que grava na cidade. Acho at\u00e9 que esse pr\u00f3prio ran\u00e7o do rock ga\u00facho que se fala h\u00e1 30 anos \u00e9 um incentivo para que as bandas achem seu pr\u00f3prio lance. O rock ga\u00facho j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 feito no Rio Grande do Sul h\u00e1 muito tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rodrigo: Mas ainda \u00e9. E alimentam isso. \u00c0s vezes, tu vai a algum lugar ou vai falar com algum jornalista, e esse tema sempre aparece de uma forma como se a gente tivesse de se orgulhar do passado. Quase n\u00e3o te d\u00e3o escolha: \u201ctu tens uma banda que toca com guitarras? Ah, tu faz rock ga\u00facho!\u201d \u00c9 o famoso bairrismo do Rio Grande do Sul.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diogo: \u00c9 algo que tem muito mercado l\u00e1, especialmente no interior do estado\u2026 Nada contra, mas a Dingo Bells quer ser uma banda brasileira, no sentido de ir al\u00e9m do Rio Grande do Sul.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/bHuLSMe7L08?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00eas querem fazer o interior do RS assim como querem fazer o interior de S\u00e3o Paulo, por circular e mostrar o som.<\/strong><br \/>\nRodrigo: \u00c9 isso! Sem nenhuma diferen\u00e7a de import\u00e2ncia!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Felipe: Sinceramente, eu prefiro ir para o Nordeste a ir para o interior do Rio Grande do Sul. (risos)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00eas bateram na tecla sobre o momento em que decidiram que iam viver de m\u00fasica. E como funciona isso hoje?<\/strong><br \/>\nFelipe: N\u00f3s tocamos com a Dingo Bells, tocamos com outros artistas, damos aulas de instrumentos e fazemos outros projetos musicais. Entrar de cabe\u00e7a era a nossa \u00fanica op\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rodrigo: Com a Dingo Bells, ainda estamos criando esse norte e entendendo como a coisa vai funcionar. Queremos circular bastante, criar muito p\u00fablico e trabalhar a receita cl\u00e1ssica: apostar em merchandising, venda de produtos e, com um pouco mais de estrutura e tendo sa\u00eddo na m\u00eddia, buscar editais com bala na agulha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Felipe: \u00c9 foda: quando se trata de m\u00fasica independente, o sucesso \u00e9 no fio do bigode. Podemos fazer sucesso no corpo a corpo, usando uma linguagem que fala com as pessoas. A partir do momento em que a pessoa se toca com algo que ouviu, a chance dela querer passar aquilo adiante \u00e9 maior.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Algo que me chamou a aten\u00e7\u00e3o foi a \u00eanfase que voc\u00eas deram para a participa\u00e7\u00e3o do Marcelo Fruet na concep\u00e7\u00e3o do disco. Por que ele era o cara certo para ser o produtor do \u201cMaravilhas\u201d?<\/strong><br \/>\nFelipe: Fora a experi\u00eancia que n\u00f3s j\u00e1 tivemos com ele em 2013, quer\u00edamos algu\u00e9m que a gente pudesse confiar, mas que fosse externo a n\u00f3s. A banda \u00e9 muito pr\u00f3xima e aprendeu a tocar junto, de maneira que temos alguns v\u00edcios entre n\u00f3s. A solu\u00e7\u00e3o pode estar pr\u00f3xima \u2013 e nesse caso, algu\u00e9m de fora como o Fruet ajuda a gente a enxergar as coisas melhor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diogo: Al\u00e9m disso, ele \u00e9 muito ativo. Tem muitos produtores que costumam se focar s\u00f3 na parte de timbres, na t\u00e9cnica de grava\u00e7\u00e3o mesmo. J\u00e1 o Fruet sabe tirar muito bem o som, mas tamb\u00e9m d\u00e1 pitaco na parte art\u00edstica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rodrigo: Quer\u00edamos algu\u00e9m que fosse capaz de mexer na nossa m\u00fasica, a ponto de dizer para n\u00f3s que uma determinada can\u00e7\u00e3o estava vetada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Muito bom. Voc\u00eas comentaram que o rock ga\u00facho tem uma tara pelos anos 1960. No disco de voc\u00eas, eu senti que estava entrando num t\u00fanel do tempo direto para os anos\u2026 1970.<\/strong><br \/>\nRodrigo: P\u00f4, conseguimos avan\u00e7ar dez anos! (risos)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 de prop\u00f3sito? As influ\u00eancias de voc\u00eas v\u00eam dos anos 1970 ou isso \u00e9 s\u00f3 impress\u00e3o minha?<\/strong><br \/>\nDiogo: N\u00e3o, acho que faz muito sentido. Talvez, no EP, por exemplo, voc\u00ea escutasse mais uma coisa um pouco anos 1960. Mas na \u00e9poca do disco, tinha muito a ver com o que a gente escutava na \u00e9poca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O que voc\u00eas estavam escutando na \u00e9poca da grava\u00e7\u00e3o do disco?<\/strong><br \/>\nRodrigo: Steely Dan. Muito Clube da Esquina, Milton Nascimento em carreira solo, Chic, Talking Heads. S\u00e3o as coisas dos anos 1970.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Felipe: Os sons de bateria e os sons de baixo s\u00e3o muito calcados nos anos 1970. O baixo de \u201cEu Vim Passear\u201d \u00e9 muito inspirado no que o Bernard Edwards fazia no Chic. Foi a minha grande refer\u00eancia na hora de gravar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Eu ou\u00e7o \u201cEu Vim Passear\u201d e penso em Dirty Projectors, nessa turma do Brooklyn\u2026<\/strong><br \/>\nFelipe: Que afud\u00ea! O Dirty Projectors \u00e9 uma banda muito afud\u00ea.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/r4qBagJpTps?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O disco tem tamb\u00e9m uma pegada filos\u00f3fica, meio existencial-espacial, que para mim tem tudo a ver com os anos 1970. De onde veio isso?<\/strong><br \/>\nDiogo: Tem dois temas recorrentes no disco: o espa\u00e7o e o mar. O encarte interno mostra o mar, e esses dois \u201ctemas\u201d acabam sendo os ambientes mais amplos que a gente conhece hoje. S\u00e3o coisas vastas, que a gente se perde meio sem limite frente a nossa pequenez.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rodrigo: S\u00e3o coisas que voc\u00ea v\u00ea no seu dia a dia de maneira f\u00e1cil, e que te ajudam a te dar conta de como tu (e o ser humano) \u00e9 pequeno. Essa pequenez do homem traz v\u00e1rias indaga\u00e7\u00f5es que s\u00e3o base para o conceito do \u201cMaravilhas\u201d. Isso est\u00e1 muito presente em \u201cAn\u00e9is de Saturno\u201d e \u201cDinossauros\u201d. N\u00f3s sempre gostamos desse tipo de imagem, mostrando que o espa\u00e7o \u00e9 maior do que qualquer coisa que tu pode querer ser.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Queria saber como \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o de voc\u00eas com a Selton\u2026<\/strong><br \/>\nRodrigo: (interrompe). Bem, a minha \u00e9 familiar. Mas acho que voc\u00ea pode ligar pra minha m\u00e3e e perguntar melhor disso a\u00ed (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mais do que s\u00f3 isso (risos), vejo a Selton e a Dingo Bells como duas bandas muito pr\u00f3ximas: talvez nem tanto na quest\u00e3o sonora, mas muito na maneira como encaram a m\u00fasica e a postura em frente ao pop.<\/strong><br \/>\nFelipe: A Selton \u00e9 uma banda muito pr\u00f3xima mesmo. Tem duas coisas que s\u00e3o importantes nessa proximidade: uma \u00e9 a quest\u00e3o das harmonias vocais, e outra \u00e9 a maneira como n\u00f3s pensamos a m\u00fasica, que \u00e9 uma maneira muito direta, no sentido da can\u00e7\u00e3o ser acess\u00edvel. A Selton se prop\u00f5e a fazer m\u00fasica pop, at\u00e9 enquanto g\u00eanero.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>As harmonias vocais da Dingo Bells talvez sejam uma das coisas que eu mais gosto na banda. Como isso apareceu?<\/strong><br \/>\nRodrigo: S\u00e3o coisas que vieram de muito do que a gente j\u00e1 escutava. Afinal de contas, Beach Boys e Beatles ensinaram quase tudo o que a gente tinha que aprender na m\u00fasica pop. Al\u00e9m disso, as harmonias vocais t\u00eam a ver com o fato de n\u00f3s termos tocado muito tempo como power trio na noite. O que diferenciava a Dingo Bells da crueza ou do peso das guitarras da maioria das bandas era colocar o elemento das vozes harmonizando tudo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Felipe: \u00c9 dif\u00edcil \u00e0s vezes fazer m\u00fasica s\u00f3 com tr\u00eas caras. Da\u00ed, se tu coloca tr\u00eas vozes, tu j\u00e1 est\u00e1 dobrando o n\u00famero de instrumentos! (risos)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rodrigo: Acho que tamb\u00e9m \u00e9 uma busca por um diferencial, mesmo. Voc\u00ea quase n\u00e3o v\u00ea bandas de rock com bons vocalistas ou que se preocupam com a parte vocal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O jornal ga\u00facho Zero Hora chamou o \u201cMaravilhas da Vida Moderna\u201d de um disco para quem est\u00e1 entre os 25 e os 35 anos. Quando voc\u00eas estavam compondo, voc\u00eas pensaram nessa quest\u00e3o geracional?<\/strong><br \/>\nFelipe: \u00c9 dif\u00edcil essa pergunta. Hoje, a gente est\u00e1 com 27\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rodrigo: Inclusive, nos deram outro dia uma explica\u00e7\u00e3o muito louca, de que aos 27 anos Saturno come\u00e7a a dar a volta, e tudo na vida da gente muda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Eu n\u00e3o entendo nada de astrologia, mas n\u00e3o \u00e9 aos 29? Tem a m\u00fasica da Legi\u00e3o Urbana, \u201cVinte e Nove\u201d, at\u00e9\u2026<\/strong><br \/>\nFelipe: Putz, faltou ouvir mais Legi\u00e3o Urbana\u2026 n\u00e3o, n\u00e3o faltou n\u00e3o! T\u00e1 bom assim! (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Poxa&#8230; mas voltando \u00e0 quest\u00e3o geracional?<\/strong><br \/>\nFelipe: Acho que \u00e9 algo natural quando tu fazes uma m\u00fasica que se chama \u201cMist\u00e9rio dos 30\u201d, questionando uma s\u00e9rie de desafios que aparecem quando voc\u00ea tem nessa idade. A gente vive um momento de transi\u00e7\u00e3o hoje: estamos tentando no firmar no mundo, na nossa idade. Talvez quem j\u00e1 tenha vencido algumas das nossas d\u00favidas, algu\u00e9m mais velho, por exemplo, n\u00e3o se surpreenda tanto com o nosso som. Sei l\u00e1: eu li \u201cSidarta\u201d, do Hermann Hesse, com 18 anos, e pirei. Na \u00e9poca, todo mundo disse que \u201cO Lobo da Estepe\u201d ia ser muito mais foda e tudo mais. Fui tentar ler h\u00e1 dois anos e n\u00e3o me bateu, porque eram coisas que eu j\u00e1 tinha superado. Talvez funcione assim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 como o \u201cO Apanhador no Campo de Centeio\u201d, que \u00e9 um livro certo para voc\u00ea ler quando tem 15 anos.<\/strong><br \/>\nDiogo: \u00c9 como ouvir Iron Maiden! Se voc\u00ea vai ouvir Iron Maiden com 30 anos, n\u00e3o pega!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas tem muito cara de 50 ouvindo Iron Maiden\u2026<\/strong><br \/>\nDiogo: Mas \u00e9 porque ouviu com 15! E ficou l\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rodrigo: Acho que a identifica\u00e7\u00e3o et\u00e1ria n\u00e3o \u00e9 uma regra, mas depende muito mais da fase da vida da pessoa. Se voc\u00ea j\u00e1 concluiu muitas dessas coisas que a gente est\u00e1 questionando, beleza, talvez o disco n\u00e3o funcione. N\u00e3o tem a ver com idade, mas tem a ver com a pessoa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diogo: Casualmente, a gente est\u00e1 chegando aos 30, mas n\u00e3o necessariamente isso se une com a idade que o ouvinte vai ter.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rodrigo: Inclusive, a m\u00fasica \u201cMist\u00e9rio dos 30\u201d surgiu de uma conversa que a gente estava tendo sobre a ideia que corre por a\u00ed que \u201cos 30 s\u00e3o os novos 20\u201d, e que os 40 seriam os novos 30, e assim por diante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diogo: Tem especialistas que defendem que isso estava atrapalhando a vida de muita gente, que deixava para se preocupar com o futuro quando j\u00e1 estava chegando aos 25, 27&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rodrigo: \u00c9 foda voc\u00ea chegar aos 30 e ver que n\u00e3o construiu nada porque&#8230; bem, porque os 30 s\u00e3o os novos 20.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-31652\" title=\"dingo2\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/dingo2.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"471\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/dingo2.jpg 600w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/dingo2-300x235.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quando peguei a vers\u00e3o f\u00edsica do \u201cMaravilhas\u201d pela primeira vez na m\u00e3o, fiquei impressionado com o encarte, especialmente pela possibilidade de mudar a capa, e pelo formato n\u00e3o-usual. Como foi a concep\u00e7\u00e3o desse projeto gr\u00e1fico, ainda mais levando em considera\u00e7\u00e3o que ele serve a um disco pago com crowdfunding \u2013 e que tudo tem um pre\u00e7o?<\/strong><br \/>\nFelipe: N\u00f3s quer\u00edamos provocar essa rea\u00e7\u00e3o de surpresa quando o ouvinte pegasse o disco na m\u00e3o. Desenvolvemos o conceito do projeto com o Rodrigo Marroni, o L\u00e9o Lage e o Lipe Albuquerque, que s\u00e3o os tr\u00eas artistas que botaram a m\u00e3o na massa para criar o projeto. O Marroni e o Lipe t\u00eam um trabalho muito legal mesclando fotografia anal\u00f3gica em P&amp;B com desenho, algo que se encaixava muito bem com o nome Maravilhas da Vida Moderna: s\u00e3o dois processos antigos unidos digitalmente. A partir disso, come\u00e7amos a pirar: toda a quest\u00e3o da customiza\u00e7\u00e3o e da personaliza\u00e7\u00e3o dos nossos dias tamb\u00e9m est\u00e1 presente no projeto gr\u00e1fico do disco. Se voc\u00ea pode escolher o teu mate com ou sem a\u00e7\u00facar e batido com dez mil frutas diferentes, tu tamb\u00e9m pode escolher a capa do disco. Voc\u00ea escolhe qual das quatro capas traduz melhor o clima do disco para ti.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas quando voc\u00eas mandam o disco para um servi\u00e7o de streaming, por exemplo, s\u00f3 d\u00e1 para escolher uma capa. Por que voc\u00eas escolheram a do \u201cdinossauro\u201d pegando fogo?<\/strong><br \/>\nDiogo: Tenho a impress\u00e3o de que essa capa n\u00e3o foi colocada ali para ser \u201ca capa do dinossauro\u201d. A maioria das pessoas n\u00e3o entende que aquilo que est\u00e1 pegando fogo ali \u00e9 um dinossauro. Por outro lado, por ser uma foto mais ampla, ela acaba se encaixando melhor no disco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rodrigo: No fim das contas, a gente tinha que escolher uma para estar na frente. \u00c9 a capa que deixa mais coisas em aberto e a que entrega menos sobre o que a gente quer dizer com &#8220;Maravilhas da Vida Moderna&#8221;. Cada um sabe o que \u00e9 a maravilha da vida moderna: tem gente que faz um uso muito saud\u00e1vel do celular, e tem gente que s\u00f3 se fode com ele!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diogo: J\u00e1 que a gente tinha que fazer uma capa e um projeto gr\u00e1fico para o disco, a gente queria fazer algo diferente. Hoje, a maioria das pessoas pega um CD e nem tem onde ouvir: ou leva pra escutar no carro, ou joga num canto e acaba baixando as m\u00fasicas. Ao fazer um objeto diferente, quer\u00edamos que o ouvinte criasse uma rela\u00e7\u00e3o diferente com o objeto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Eu queria perguntar sobre a origem de algumas m\u00fasicas. A primeira delas \u00e9 \u201cEu Vim Passear\u201d, que pelo menos aqui em S\u00e3o Paulo poderia ser um grande manifesto a favor das ciclovias e do prefeito\u2026<\/strong><br \/>\nRodrigo: P\u00f4, vamos lan\u00e7ar a campanha! \u00c9 a m\u00fasica oficial do tr\u00e2nsito de S\u00e3o Paulo (risos)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Felipe: Come\u00e7amos a conceber essa m\u00fasica como o relato de algu\u00e9m que chega na Terra e observa as coisas, vendo a invers\u00e3o da nossa vida. O refr\u00e3o da m\u00fasica \u00e9 super claro: \u201ctanta gente buzinando \/ se esqueceu de andar \/ veio ao mundo por engano \/ eu vim passear\u201d. Tem tanta coisa incr\u00edvel acontecendo, mas \u00e0s vezes voc\u00ea est\u00e1 mais preocupado em infernizar a vida de algu\u00e9m e bater a m\u00e3o numa buzina porque o cara da frente te fechou e por isso ele \u00e9 um filho da puta. O mundo se transforma naquilo, quando na verdade tem coisas bem mais importantes acontecendo ao teu redor. Voc\u00ea pode ver trag\u00e9dia e salva\u00e7\u00e3o onde quiser, a quest\u00e3o \u00e9 s\u00f3 mirar certo. \u201cEu Vim Passear\u201d n\u00e3o \u00e9 um manifesto a favor da ciclovia (risos), mas sim um manifesto para voc\u00ea olhar ao redor das coisas que importam e que s\u00e3o bacanas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rodrigo: Esse conceito de que algu\u00e9m que veio de fora, um alien ou um astronauta, \u00e9 especialmente importante em alguns versos. \u201cDisseram que a vida nesse lugar \/ depende da temperatura do ar\u201d, que no caso, \u00e9 o ar condicionado, \u201ctelevis\u00e3o, teto solar para ver \/ cerveja e cama para sobreviver\u201d, como se fosse uma receita desse estilo de vida moderno.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Eu tenho que ter um carro, tenho que ter TV, cerveja e cama, e tenho que comer direitinho\u2026 essa \u00e9 a receita?<\/strong><br \/>\nRodrigo: A gente brinca toda hora com o sal: \u00e0s vezes ele \u00e9 o vil\u00e3o, \u00e0s vezes ele \u00e9 o her\u00f3i da nossa alimenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Desculpa interromper, mas o que voc\u00eas acharam daquela capa da Veja sobre\u2026 o ovo?<\/strong><br \/>\nFelipe: T\u00e1 liberado o ovo agora! Uhul!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rodrigo: A gente vai trocar essa parte da m\u00fasica por ovo nos shows agora! (risos)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E como surgiu \u201cDinossauros\u201d, provavelmente a minha favorita do disco?<\/strong><br \/>\nRodrigo: \u00c9 uma das poucas m\u00fasicas que \u00e9 mais minha do que da banda, e pertence a um primeiro lote de composi\u00e7\u00f5es. A letra \u00e9 clara: \u201cDinossauros\u201d fala sobre algu\u00e9m que se sente \u00e0 beira da extin\u00e7\u00e3o, \u00e0 beira de uma trag\u00e9dia, como se o fim estivesse pr\u00f3ximo. Por outro lado, n\u00e3o \u00e9 uma letra depr\u00ea: \u00e9 uma letra de questionamento. \u201cCheguei aqui, mas e agora?\u201d. O refr\u00e3o surgiu da dificuldade de explicar (e das outras pessoas entenderem) um momento meu e da banda, que foi quando a gente resolveu que ia viver de m\u00fasica. As pessoas t\u00eam problemas que elas consideram reais, e \u00e0s vezes n\u00e3o conseguem enxergar a import\u00e2ncia que os problemas dos outros t\u00eam \u2013 mesmo que eles possam parecer menores. \u00c9 da\u00ed que vem o verso \u201ca sua imagina\u00e7\u00e3o esteja t\u00e3o limitada por problemas reais\u201d. Obviamente, isso \u00e9 uma ideia minha que j\u00e1 teve milh\u00f5es de interpreta\u00e7\u00f5es\u2026 n\u00e3o sei nem se os guris da banda concordam. \u00c9?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diogo: (sil\u00eancio)&#8230; \u00e9 por a\u00ed!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rodrigo: A m\u00fasica acaba trazendo um pouco mais para o ch\u00e3o todas essas met\u00e1foras, fazendo a liga\u00e7\u00e3o com o dinossauro e com o astronauta \u201cde frente para a Lua\u201d. E \u00e9 engra\u00e7ado, porque logo depois que eu compus essa m\u00fasica, o Fleet Foxes lan\u00e7ou \u201cHelplessness Blues\u201d, que tem uma tem\u00e1tica bem parecida, essa quest\u00e3o existencial.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/CWfdo6RtvRY?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A gente j\u00e1 falou sobre como voc\u00eas talvez n\u00e3o se encaixem na ideia do \u201crock ga\u00facho\u201d, mas ainda assim \u00e9 uma surpresa a exist\u00eancia de uma m\u00fasica chamada \u201cBahia\u201d no repert\u00f3rio de voc\u00eas.<\/strong><br \/>\nDiogo: N\u00e3o \u00e9 por causa do bar da Augusta, viu? (risos)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Por que \u201cBahia\u201d, ent\u00e3o?<\/strong><br \/>\nFelipe: \u00c9 um pouco a ideia do clima. Por mais que a m\u00fasica seja super ir\u00f4nica, ao chamar esse lugar ideal de \u201cBahia\u201d, acho que \u00e9 quase um abra\u00e7o nosso na Bahia. \u00c9 um lugar muito legal que a gente acha que se encaixou perfeitamente na m\u00fasica, mas mais \u00e9 uma ideia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rodrigo: No Rio Grande do Sul, existe esse imagin\u00e1rio de que a Bahia seja um lugar incr\u00edvel. N\u00e3o sei, talvez porque a gente passe muito frio, e as pessoas s\u00e3o mais fechadas. A Bahia \u00e9 um para\u00edso no mundo, apesar de poder ser uma men\u00e7\u00e3o a qualquer lugar especificamente tropical. \u00c9 uma imagem: p\u00f4, algu\u00e9m mentiu para mim, fiquei chateado\u2026 vou embora pra Bahia, que l\u00e1 \u00e9 o lugar perfeito, vou beber \u00e1gua de coco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Por que essa fixa\u00e7\u00e3o pelo calor? (risos)<\/strong><br \/>\nDiogo: \u00c9 pela falta de calor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rodrigo: Poxa, mas em Porto Alegre faz muito calor!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Felipe: Talvez seja algo inconsciente que a gente n\u00e3o conseguiu tra\u00e7ar ainda. Durante a pr\u00e9-produ\u00e7\u00e3o e a grava\u00e7\u00e3o, estava muito calor. A gente s\u00f3 conseguia entrar no est\u00fadio que a gente montou depois que baixava o sol, porque antes era fora de condi\u00e7\u00e3o. Mas n\u00e3o acho que tenha sido algo consciente\u2026 \u00e9 uma suposi\u00e7\u00e3o total isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>(sil\u00eancio). T\u00e1 bom, vamos falar do nome da banda. Era a primeira pergunta que eu deveria ter feito, mas ia ficar chato come\u00e7ar uma entrevista assim.<\/strong><br \/>\nDiogo: P\u00f4, estava s\u00f3 cozinhando a gente\u2026 \u00c9 que a explica\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 muito legal, n\u00e9?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rodrigo: Era uma brincadeira da \u00e9poca do col\u00e9gio, que foi quando a banda come\u00e7ou. Foi ficando, foi ficando\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E voc\u00eas nunca pensaram em mudar de nome?<\/strong><br \/>\nDiogo: Quisemos v\u00e1rias vezes, mas j\u00e1 era tarde demais. Chegamos a ter uma reuni\u00e3o s\u00f3 para isso, mas todos os nomes que a gente prop\u00f4s eram t\u00e3o ruins quanto. N\u00e3o foi um projeto que foi para frente\u2026 Quando o nome de uma banda come\u00e7a a circular, aquele conjunto de palavras come\u00e7a a remeter muito mais ao conceito da banda e ao som dela do que o significado original.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 engra\u00e7ado, porque nesse momento que voc\u00eas est\u00e3o come\u00e7ando de novo, eu imagino que um monte de gente olhe com o nariz torto e n\u00e3o leve a s\u00e9rio a proposta da banda.<\/strong><br \/>\nRodrigo: Isso n\u00e3o tem acontecido tanto. J\u00e1 passamos por isso no RS, e agora nem tem sido algo t\u00e3o forte. As pessoas n\u00e3o comentam mais o nome, mas comentam s\u00f3 o disco. Acho que a gente conseguiu ressignificar o nome Dingo Bells.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diogo: Uma dificuldade que rola muito ainda \u00e9 o lance da grafia. A gente sempre se policia para soletrar o nome da banda em todas as entrevistas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Eu tive esse problema <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/05\/19\/podcast-confraria-scream-yell-22\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">quando a gente gravou o podcast do Scream &amp; Yell<\/a>, e a solu\u00e7\u00e3o que eu achei foi dizer que era que nem Ringo, s\u00f3 que com D no come\u00e7o.<\/strong><br \/>\nRodrigo: Baaaaaaah! Muito boa (risos). Isso \u00e9 um grande favor! (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Felipe: Ou Bingo, que \u00e9 mais f\u00e1cil ainda. (risos)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas Ringo \u00e9 mais legal, at\u00e9 porque d\u00e1 para contar a hist\u00f3ria de quando voc\u00eas abriram para o Ringo Starr. Ali\u00e1s, como foi isso?<\/strong><br \/>\nRodrigo: Foi legal, mas a gente descobriu na pele que um beatle tem muitas frescuras. Ningu\u00e9m chega perto dele! E pior: o Ringo sai direto do palco para a van que vai embora, ainda no meio da \u00faltima m\u00fasica. Nem deu chance da gente ir l\u00e1 e pedir um aut\u00f3grafo (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diogo: Ele pediu o nosso disco para a produ\u00e7\u00e3o do show. O pedido foi bem claro: \u201clevem s\u00f3 o disco, n\u00e3o levem eles\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Felipe: Mas foi a primeira vez que a gente se deparou com um p\u00fablico grande. Eram mais ou menos 8 mil pessoas, e quando tu nunca encarou nada perto disso, \u00e9 uma multid\u00e3o infinita. Foi muito legal, porque a gente se matou ensaiando e foi uma \u00f3tima apresenta\u00e7\u00e3o. Tem uma m\u00fasica nossa que tem um \u201clararar\u00e1\u201d no final, e o p\u00fablico cantou\u2026 foi incr\u00edvel!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Hora da pergunta Mar\u00edlia Gabriela do dia: \u201cMaravilhas da Vida Moderna\u201d \u00e9 um termo carregado de ironia. Agora, sem ironia nenhuma: quais s\u00e3o as maravilhas da vida moderna para voc\u00eas?<\/strong><br \/>\nDiogo: \u00c0s vezes, s\u00e3o as mesmas que as ir\u00f4nicas. A tecnologia \u00e9 um grande exemplo disso: tudo que faz bem tamb\u00e9m pode fazer mal. Uma vez, li um texto que dizia que o avan\u00e7o tecnol\u00f3gico \u00e9 muito mais r\u00e1pido do que o avan\u00e7o moral. N\u00e3o \u00e9 por falta de tecnologia que a gente n\u00e3o est\u00e1 muito bem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rodrigo: Estamos falando de tecnologia, mas acho que tudo que a gente v\u00ea cabe nessa ideia. Voc\u00ea poderia potencializar o lado humano com qualquer coisa \u201cmaravilhosa\u201d, mas muitas vezes isso s\u00f3 potencializa o lado negativo. \u201cTodo N\u00f3\u201d finaliza o disco com essa import\u00e2ncia: a gente falou um monte de coisa que tu pode entender de uma forma ruim e depr\u00ea, mas n\u00e3o \u00e9 bem assim. Existe um lado bom para tudo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diogo: Apesar da gente questionar muito a vida contempor\u00e2nea, a impress\u00e3o que eu tenho &#8212; e que a gente quis passar &#8212; \u00e9 que o Maravilhas n\u00e3o \u00e9 um disco depressivo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>N\u00e3o \u00e9: um disco que come\u00e7a com \u201cEu Vim Passear\u201d n\u00e3o \u00e9 um disco depressivo. Mas o que eu sinto \u00e9 que o disco vai se tornando melanc\u00f3lico ao longo das m\u00fasicas.<\/strong><br \/>\nRodrigo: A melancolia \u00e9 algo que a gente aprecia bastante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E o futuro?<\/strong><br \/>\nDiogo: Que ele seja uma maravilha!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rodrigo: Queremos lan\u00e7ar mais um clipe at\u00e9 o final do ano, e queremos lan\u00e7ar o Maravilhas em vinil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Felipe: Estamos muito felizes e orgulhosos do disco, e achamos que ele pode tocar as pessoas. Sabemos da dificuldade de circular como banda independente, mas queremos levar a mensagem adiante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rodrigo: E naturalmente, enquanto corremos estrada, come\u00e7aremos a pensar num pr\u00f3ximo trabalho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Alguma estimativa de tempo para esse pr\u00f3ximo disco? Dois, tr\u00eas, dez anos?<\/strong><br \/>\nRodrigo: N\u00e3o sei, n\u00e3o sei. Acho que agora as pessoas j\u00e1 sabem como a gente funciona\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diogo: Fazer um disco demora um pouco mais do que fazer um tweet, n\u00e9? (risos).<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/lZ-kkTL7gwo?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Bruno Capelas (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/#%21\/noacapelas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@noacapelas<\/a>) \u00e9 jornalista e assina o blog\u00a0<a href=\"http:\/\/pergunteaopop.blogspot.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Pergunte ao Pop<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/category\/musica\/\"><strong>LEIA MAIS TEXTOS, ENTREVISTAS E REPORTAGENS SOBRE M\u00daSICA<\/strong><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Bruno Capelas\n&#8220;Queremos agradar ao cara que gosta de comprar fone de ouvido para ouvir m\u00fasica em casa, mas queremos tocar no r\u00e1dio&#8221;\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/07\/20\/entrevista-dingo-bells\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":14,"featured_media":48039,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[2457],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31649"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/14"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=31649"}],"version-history":[{"count":13,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31649\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":31654,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31649\/revisions\/31654"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/48039"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=31649"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=31649"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=31649"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}