{"id":31238,"date":"2015-06-23T09:27:04","date_gmt":"2015-06-23T12:27:04","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=31238"},"modified":"2023-03-29T01:49:14","modified_gmt":"2023-03-29T04:49:14","slug":"livro-amanda-palmer-e-a-arte-de-pedir","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/06\/23\/livro-amanda-palmer-e-a-arte-de-pedir\/","title":{"rendered":"Livro: Amanda Palmer e a Arte de Pedir"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-31239  aligncenter\" title=\"amanda1\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/amanda1.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>por <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/nathaliapandelocorrea\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Nath\u00e1lia Pandel\u00f3<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se h\u00e1 uma m\u00e1xima b\u00edblica que Amanda Palmer parece seguir \u00e9 \u201cpedi e recebereis\u201d. A julgar pelos jeans rasgados, os espartilhos, os coturnos e as sobrancelhas desenhadas despretensiosamente a l\u00e1pis preto, ela n\u00e3o aparenta ser uma das leitoras mais fervorosas das escrituras. O que ela aparenta \u00e9 ser uma estrela do rock, e isso ela sabe fazer muito bem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seu status de cantora indie ultrapassou as fronteiras do clubinho de bandas underground da internet e chegou \u00e0s manchetes do mundo todo quando conseguiu um feito in\u00e9dito at\u00e9 ent\u00e3o no mundo da m\u00fasica: pediu US$ 100 mil aos f\u00e3s via financiamento coletivo para lan\u00e7ar um novo disco e recebeu US$ 1,2 milh\u00e3o. Foi a primeira vez na hist\u00f3ria que um projeto desse tipo atingiu uma cifra de sete d\u00edgitos. A fa\u00e7anha deu origem \u00e0 sua palestra na s\u00e9rie de confer\u00eancias TED, \u201cA Arte de Pedir\u201d, cujo v\u00eddeo viralizou e agora chega \u00e0s m\u00e3os dos leitores brasileiros como um lan\u00e7amento da editora Intr\u00ednseca (com tradu\u00e7\u00e3o de Denise Bottmann e 304 p\u00e1ginas) com o subt\u00edtulo \u201cOu como aprendi a parar de me preocupar e deixar que os outros me ajudem\u201d. O livro \u00e9 uma tentativa de expandir o conceito que os 13 minutos do material original n\u00e3o permitem incluir: a dor e o prazer de ser um artista e viver como um profissional criativo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muitas das vezes, trabalhar com criatividade requer exatamente encontrar novas solu\u00e7\u00f5es para problemas como a legitima\u00e7\u00e3o e a monetiza\u00e7\u00e3o de algo que para muitos sequer \u00e9 um trabalho, e para outros tantos n\u00e3o passa de um produto. Com os meios de produ\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o cada vez mais a um clique de dist\u00e2ncia de qualquer artista, \u201cA Arte de Pedir\u201d prop\u00f5e a reflex\u00e3o: ao inv\u00e9s de buscarmos novas formas de obrigarem o consumidor a pagar por m\u00fasicas, filmes e outros bens criativos, por que n\u00e3o fazer do pagamento n\u00e3o um fim, e sim uma consequ\u00eancia?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Parece utopia, mas Amanda tem propriedade para falar: antes representada por uma gravadora, quando ainda fazia parte do duo The Dresden Dolls, ela foi considerada um fracasso de vendas. Seu lan\u00e7amento na \u00e9poca foi comprado por \u201capenas\u201d 25 mil pessoas. Foi exatamente esse o n\u00famero de apoiadores de seu projeto de financiamento coletivo, que contribu\u00edram com at\u00e9 US$ 10 mil cada para fazer o disco acontecer. Amparada em exemplos como o do Radiohead, que ultrapassou as expectativas de vendas do \u00e1lbum \u201cIn Rainbows\u201d (2007) permitindo que os f\u00e3s pagassem a quantia que achassem justa pelas 10 m\u00fasicas, Amanda Palmer desafia os conceitos da ind\u00fastria e prop\u00f5e que o relacionamento artista-f\u00e3 n\u00e3o \u00e9 meramente uma transa\u00e7\u00e3o comercial, e sim uma troca de experi\u00eancias e conex\u00f5es reais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A internet \u00e9 a principal ferramenta para encurtar essa dist\u00e2ncia, e Amanda destila hist\u00f3ria ap\u00f3s hist\u00f3ria de f\u00e3s que lhe ofereceram o sof\u00e1 para passar a noite, de admiradores para quem ligou para consolar ap\u00f3s uma perda, de seguidores do Twitter que a ajudaram a completar uma letra de m\u00fasica. E, embora a autora nem sempre o diga com todas as letras, o que fica claro \u00e9 que h\u00e1 sempre o elemento da conex\u00e3o humana para fazer toda a diferen\u00e7a, seja da artista para os f\u00e3s ou no sentido contr\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o que isso seja novidade. Um dos exemplos que Amanda usa no livro \u00e9 Henry David Thoreau, autor de \u201cWalden ou A Vida nos Bosques\u201d (1984). O livro \u00e9 uma esp\u00e9cie de autobiografia do escritor transcendentalista considerada um manifesto pela vida autossuficiente e livre dos costumes e do consumo da sociedade do fim do s\u00e9culo XIX. Em \u201cWalden\u201d, Thoreau se retira para viver na floresta, onde constr\u00f3i a pr\u00f3pria casa e vive apenas com o m\u00ednimo necess\u00e1rio para sua sobreviv\u00eancia. O mais curioso \u00e9 que o pr\u00f3prio autor, um basti\u00e3o da vida independente, ergueu sua cabana em terra emprestada por um vizinho, constantemente jantava na casa do tamb\u00e9m escritor Ralph Waldo Emerson e recebia da m\u00e3e e irm\u00e3 uma cesta de quitutes que inclu\u00edam, entre muitos itens assados, rosquinhas recheadas \u2013 os famosos donuts. Tudo isso para mostrar que at\u00e9 o mais independente dos homens precisa de uma ajudinha de vez em quando.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sem a pretens\u00e3o de apontar a solu\u00e7\u00e3o para um mercado que ainda busca se encontrar, Palmer volta aos seus tempos como est\u00e1tua humana em uma pra\u00e7a de Boston, quando ficava horas a fio vestida de noiva, para mostrar que existe, sim, esse quid pro quo. Seja a caminho do trabalho em uma rua movimentada, seja no palco de um show, as pessoas querem (e precisam) ser movidas, tocadas, emocionadas por algum est\u00edmulo. Pela letra de uma can\u00e7\u00e3o, pela cena de um filme, pela mulher toda vestida de branco e im\u00f3vel sobre um caixote. E quando acontece essa sinergia, muitos de n\u00f3s optam por dar algo em troca, seja um sorriso, o compartilhamento de um post no Facebook ou uma nota de R$ 20.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A verdadeira reflex\u00e3o de \u201cA Arte de Pedir\u201d est\u00e1, principalmente, em mostrar o tanto que poder\u00edamos alcan\u00e7ar e conquistar n\u00e3o fosse a nossa mania de autossufici\u00eancia e a vergonha de se expor pedindo um favor, uma ajuda, uma for\u00e7a. Ao narrar com detalhes os v\u00e1rios encontros que teve com f\u00e3s e a derrubada da parede que separa o artista de seu p\u00fablico, Amanda Palmer demonstra o quanto somos todos donos dessa escolha, certos de que se hoje \u00e9 o nosso dia de receber, amanh\u00e3 ser\u00e1 o de retribuir, em um ciclo eterno de gentileza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fosse o livro mais curto, talvez n\u00e3o desse a impress\u00e3o de uma tentativa de autopromo\u00e7\u00e3o em alguns momentos. Sem a formata\u00e7\u00e3o t\u00edpica de um conjunto de mem\u00f3rias (como muitas vezes \u201cA Arte de Pedir\u201d tenta ser), os cap\u00edtulos frequentemente d\u00e3o a sensa\u00e7\u00e3o de ser um bate-papo com a autora, daqueles em que os assuntos fluem livremente, sem qualquer compromisso com a ordem cronol\u00f3gica ou a sequ\u00eancia que o leitor espera. E, embora esse vai e vem de momentos e fases na vida da artista seja importante para compreender de onde ela veio, onde est\u00e1 e para onde quer ir, \u00e9 dif\u00edcil escapar da percep\u00e7\u00e3o de que alguns relatos est\u00e3o ali para reafirmar, constantemente (e, \u00e0s vezes, sem qualquer necessidade), a conex\u00e3o real que ela tanto faz quest\u00e3o de ter com os f\u00e3s. Em contraste, as controv\u00e9rsias que viraram quase uma consequ\u00eancia do sucesso no Kickstarter foram minimizadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, verdade seja dita, esse seria um feito quase imposs\u00edvel quando se trata de uma esp\u00e9cie de autobiografia de uma artista em pleno auge criativo. Amanda Palmer ainda tem tanto a realizar que, logo ap\u00f3s o lan\u00e7amento do livro, estreou em uma nova plataforma: o Patreon, um site onde f\u00e3s entram com o apoio financeiro e artistas e criadores diversos oferecem o que todo mundo quer: conte\u00fado. Mesmo sem um ponto final, \u201cA Arte de Pedir\u201d deixa a moral em alto e bom som: apenas aceite os donuts.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/MSeYHHOUo8Y\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/MSeYHHOUo8Y\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Nath\u00e1lia Pandel\u00f3 (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/nathaliapandelo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@nathaliapandelo<\/a>) \u00e9 jornalista, assessora de Comunica\u00e7\u00e3o e diretora de conte\u00fado na Build Up Media. Assina o blog Madeira de Deriva (<a href=\"\/\/www.nathaliapandelo.com.br)\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">www.nathaliapandelo.com.br<\/a>)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Leia tamb\u00e9m:<br \/>\n<\/strong>&#8211; Amanda Palmer estrela a s\u00e9rie \u201co amor s\u00f3 \u00e9 brega se voc\u00ea for brega\u201d (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/04\/28\/cds-charlotte-amanda-e-madonna\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Eduardo Vicente: &#8220;Crowdfundig faz parte do contexto de uma cultura mais fortalecida&#8221; (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/06\/06\/entrevista-eduardo-vicente\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Dulce Quental: &#8220;Crowdfunding est\u00e1 me mostrando o quanto \u00e9 dif\u00edcil mobilizar pessoas&#8221; (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/05\/29\/tres-perguntas-dulce-quental\/\">aqui<\/a>)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Nath\u00e1lia Pandel\u00f3\nAmanda demonstra o quanto somos donos dessa escolha, certos de que se hoje \u00e9 dia de receber, amanh\u00e3 ser\u00e1 o de retribuir\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/06\/23\/livro-amanda-palmer-e-a-arte-de-pedir\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[9],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31238"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=31238"}],"version-history":[{"count":9,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31238\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":73702,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31238\/revisions\/73702"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=31238"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=31238"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=31238"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}