{"id":30930,"date":"2015-06-07T12:30:58","date_gmt":"2015-06-07T15:30:58","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=30930"},"modified":"2025-03-08T00:23:02","modified_gmt":"2025-03-08T03:23:02","slug":"de-portugal-conheca-tiago-cavaco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/06\/07\/de-portugal-conheca-tiago-cavaco\/","title":{"rendered":"Entrevista: de Portugal, conhe\u00e7a Tiago Cavaco, criador do selo FlorCaveira, cujo lema \u00e9 Religi\u00e3o e Punk Rock"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>por <a href=\"https:\/\/twitter.com\/noacapelas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Bruno Capelas<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o \u00e9 todo dia que se v\u00ea um roqueiro citar os Bad Brains e as cartas de S\u00e3o Paulo em uma mesma can\u00e7\u00e3o. Mas Tiago Cavaco, um dos principais nomes do rock portugu\u00eas da atualidade, sempre esteve um pouco \u00e0 margem dos que o cercaram. Criador da FlorCaveira (<a href=\"http:\/\/www.florcaveira.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">www.florcaveira.com<\/a>), selo independente que desde 1999 ostenta o lema \u201cReligi\u00e3o e Panque Roque\u201d e lan\u00e7ou artistas como B Fachada, Samuel \u00daria e Pontos Negros, Cavaco \u00e9 um roqueiro e letrista de m\u00e3o cheia. Seu \u00faltimo lan\u00e7amento, \u201cSou Imortal At\u00e9 Que Deus Me Diga Regressa\u201d (2015), \u00e9 uma grande prova de seu fino trato com a palavra \u2013 dom que tamb\u00e9m exerce todos os domingos ao pregar na Igreja Batista da Lapa, na zona oeste de Lisboa, no qual \u00e9 pastor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dono de t\u00edtulos provocativos como \u201cAinda N\u00e3o \u00c9 Tempo de Morrer\u201d ou \u201cSugiro a Minha Sepultura para Capital da Cultura\u201d, Cavaco explica a liga\u00e7\u00e3o do rock com a f\u00e9 de uma maneira simples \u2013 talvez com a facilidade de quem j\u00e1 teve de dissertar sobre o tema muitas vezes. \u201cA minha vida \u00e9 melhor quando ou\u00e7o o The Clash dizendo que n\u00e3o vai desistir. Com isto, n\u00e3o quero defender que \u00e9 evidente que o rock pede f\u00e9, mas que n\u00e3o ser\u00e1 assim t\u00e3o for\u00e7ado dizer que o rock pode pedir esperan\u00e7a\u201d, diz ele em entrevista por email, depois de ter se empolgado com <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/05\/22\/entrevista-tiago-monteiro\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">a recente reportagem com o pesquisador Tiago Monteiro<\/a> sobre a m\u00fasica portuguesa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para se entender a carreira de Tiago Cavaco, formado em Ci\u00eancias da Comunica\u00e7\u00e3o pela Universidade Nova de Lisboa, uma das mais modernas de Portugal, \u00e9 preciso passar por uma pequena aula de nomes. Desde 1999 ele faz discos com a FlorCaveira, inicialmente com o nome art\u00edstico Guillul (que significa \u201ccavaco\u201d em hebraico). \u201cFicou dif\u00edcil quando a maioria passou a conhecer o Tiago Guillul sem conhecer o Tiago Cavaco, por volta de 2010, na mesma \u00e9poca em que minhas responsabilidades na igreja come\u00e7aram a ficar mais s\u00e9rias\u201d, explica. A partir da\u00ed, Cavaco passou a assinar discos como Tiago Lacrau (solo ou ao lado dos Lacraus) ou como o Rapaz do Sul do C\u00e9u, deixando seu nome de batismo para o cidad\u00e3o Cavaco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar de acreditar que o rock nunca poderia ter nascido no mediterr\u00e2neo (\u201co portugu\u00eas \u00e9 um sujeito sereno e pouco dado \u00e0 provoca\u00e7\u00e3o\u201d) e que \u201cem Portugal voc\u00ea se torna um poeta quando ningu\u00e9m percebe o que voc\u00ea quer dizer\u201d, Cavaco acredita que tudo tem salva\u00e7\u00e3o. \u201cPara que aconte\u00e7a alguma coisa realmente boa com a cultura portuguesa, h\u00e1 muitas outras que primeiro t\u00eam de ser mortas e enterradas. Minha f\u00e9 acha que a salva\u00e7\u00e3o pede primeiro a sua morte, e s\u00f3 depois a sua ressurrei\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na entrevista a seguir, Cavaco fala sobre \u201cSou Imortal At\u00e9 Que Deus Me Diga Regressa\u201d, lan\u00e7ado com a alcunha de Tiago Lacrau, e dispara farpas para a m\u00fasica portuguesa de ontem e de hoje. \u201cS\u00f3 vou me interessar mais pela m\u00fasica portuguesa quando uma grande parte dela for destru\u00edda pelos seus pr\u00f3prios m\u00fasicos\u201d, diz. Considerado pela cr\u00edtica como um dos respons\u00e1veis pela volta da can\u00e7\u00e3o lusa em portugu\u00eas, o criador da FlorCaveira d\u00e1 de ombros: \u201cN\u00e3o canto em portugu\u00eas para louvar a cultura portuguesa. Canto em portugu\u00eas porque sou portugu\u00eas. \u00c9 como ser filho dos meus pais \u2013 \u00e9 um fato e acabou-se\u201d. Ent\u00e3o, vamos a isto.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Tiago Lacrau &quot;Sou Imortal At\u00e9 Que Deus Me Diga Regressa&quot;\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/T64aLx6Ii90?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Lacrau, Cavaco ou Guillul? Qual a diferen\u00e7a entre os tr\u00eas Tiagos com o qual voc\u00ea se apresenta ao p\u00fablico?<\/strong><br \/>\nEra f\u00e1cil quando apenas uma pequena minoria que conhecia o Tiago Cavaco conhecia o Tiago Guillul. Ficou dif\u00edcil quando a maioria passou a conhecer o Tiago Guillul sem necessariamente conhecer o Tiago Cavaco. Em 2010, senti que a figura musical Guillul n\u00e3o deveria atrapalhar o cidad\u00e3o Cavaco, e por isso tentei convergi-los largando o Guillul. Foi na mesma \u00e9poca em que as minhas responsabilidades na igreja come\u00e7aram a ficar mais s\u00e9rias. Por outro lado, manter nomes paralelos (como Tiago Lacrau ou Rapaz do Sul do C\u00e9u) permitia continuar a fazer discos mais subterr\u00e2neos \u2013 que j\u00e1 existiam antes do Guillul \u2013 ganhar mais notoriedade. A quest\u00e3o dos nomes ainda n\u00e3o est\u00e1 completamente resolvida dentro de mim, mas, no geral, aplico o Lacrau a discos mais rock e o Rapaz do Sul do C\u00e9u a discos mais hip-hop. E Guillul que descanse em paz (apesar de, ironicamente, as pessoas do meio musical continuarem usando o nome).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E por que este &#8220;Sou Imortal At\u00e9 Que Deus Me Diga Regressa?&#8221; \u00e9 assinado com Lacrau?<\/strong><br \/>\nPorque este \u00e9 um disco claramente de rock, n\u00e3o muito distante do que fa\u00e7o com os Lacraus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O <a href=\"https:\/\/florcaveira.bandcamp.com\/album\/amamos-duvall-disco-1\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Amamos Duvall<\/a>, teu \u00faltimo projeto, era bastante ousado, cheio de samplers e fus\u00f5es com o rap. Este &#8220;Sou Imortal&#8221;, por outro lado, soa bem cru como o melhor do punk-rock. Por que esse retorno a algo mais b\u00e1sico?<\/strong><br \/>\nSou um m\u00fasico de ciclos. H\u00e1 fases que ando mais excitado com o hip-hop, h\u00e1 outras que ando mais excitado com o rock. Sendo amores que permanecem para sempre, por vezes um pesa mais que outro na hora de gravar um disco novo. O &#8220;Amamos Duvall&#8221; foi uma oportunidade \u00fanica de explorar o tr\u00e2nsito entre maquetes gravadas em casa e a sua transforma\u00e7\u00e3o em est\u00fadio \u2013 nesse sentido, \u00e9 um disco para experimentar coisas. O &#8220;Sou Imortal&#8230;&#8221; \u00e9 um disco de can\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas gravadas de um modo b\u00e1sico tamb\u00e9m, de n\u00e3o pensar tanto em produ\u00e7\u00e3o, mas mais em registrar r\u00e1pido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>&#8220;Sugiro a Minha Sepultura para Capital da Cultura&#8221; \u00e9 talvez a minha m\u00fasica favorita do disco. Como ela nasceu, e por que ela tem este sentimento t\u00e3o forte quanto \u00e0 realidade portuguesa?<\/strong><br \/>\nSou um portugu\u00eas estrangeirado. Um protestante em Portugal nunca consegue ser portugu\u00eas de maneira normal. Os meus sentimentos perante a cultura portuguesa (independentemente dos conceitos que temos sobre ela) s\u00e3o bastante amb\u00edguos: por um lado ela pertence-me, por outro n\u00e3o. Da\u00ed que sinta que o melhor que posso fazer pela cultura portuguesa seja enterr\u00e1-la. No fundo, tem a ver tamb\u00e9m com a minha f\u00e9 crist\u00e3, de achar que a salva\u00e7\u00e3o de uma coisa pede sempre primeiro a sua morte, e s\u00f3 depois a sua ressurrei\u00e7\u00e3o. Para que aconte\u00e7a alguma coisa realmente boa com a cultura portuguesa, h\u00e1 muitas outras que primeiro t\u00eam de ser mortas e enterradas. Uma das coisas que me irrita em Portugal \u00e9 que voc\u00ea se torna um poeta quando ningu\u00e9m percebe o que voc\u00ea quer dizer. A l\u00f3gica \u00e9 que se ele fala dif\u00edcil, \u00e9 porque deve ser muito inteligente. Ser poeta em Portugal \u00e9 mais um estatuto intelectual que um trabalho concreto. N\u00e3o suporto isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Aqui no Brasil parece-nos curioso \u00e0s vezes a fus\u00e3o da religi\u00e3o com o rock proposta pela FlorCaveira &#8211; em &#8220;Ainda N\u00e3o \u00e9 Tempo de Morrer&#8221;, por exemplo, voc\u00ea cita o Bad Brains ao lado das ep\u00edstolas de S\u00e3o Paulo, e faz men\u00e7\u00e3o ao Kiss na faixa-t\u00edtulo. Como \u00e9 que esta liga\u00e7\u00e3o funciona para voc\u00ea? O rock pode ser a can\u00e7\u00e3o da f\u00e9?<\/strong><br \/>\nPara mim o rock tem um lado fundamental de liberta\u00e7\u00e3o. N\u00e3o de liberta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, mas de liberta\u00e7\u00e3o individual. Mesmo quando era crian\u00e7a, sempre reagi ao rock porque sentia que um rocker podia fazer em palco aquilo que na vida normal n\u00e3o poderia fazer. E isso \u00e9 fant\u00e1stico. Mas, por outro lado, a partir do momento em que te libertas em palco, tamb\u00e9m te libertas nos ouvidos dos que te ouvem: elas podem ouvir aquilo que tu queres dizer (mesmo que n\u00e3o concordem contigo). \u00c9 por isso que acho que o rock pode ser a can\u00e7\u00e3o da f\u00e9. Hoje as m\u00fasicas que mais me continuam a comover s\u00e3o as m\u00fasicas que afirmam esperan\u00e7a contra tudo e contra todos. Ainda nesta manh\u00e3, ouvia o The Clash a cantar &#8220;I&#8217;m not down, I&#8217;m not down&#8221; e continuo a ter dificuldade em explicar como \u00e9 que a repeti\u00e7\u00e3o dessas palavras em m\u00fasica me pode dizer tanto. A minha vida \u00e9 melhor quando ou\u00e7o o The Clash dizendo que n\u00e3o vai desistir. Com isto n\u00e3o quero defender que \u00e9 evidente que o rock pede f\u00e9, mas que n\u00e3o ser\u00e1 assim t\u00e3o for\u00e7ado dizer que o rock pode pedir esperan\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ainda no tema religioso: imagino que boa parte do teu p\u00fablico e do p\u00fablico da FlorCaveira em Portugal n\u00e3o seja batista ou at\u00e9 mesmo religioso. Como v\u00ea a recep\u00e7\u00e3o das pessoas \u00e0s suas mensagens pelo rock?<\/strong><br \/>\nO portugu\u00eas \u00e9 um sujeito sereno e pouco dado \u00e0 provoca\u00e7\u00e3o. O rock nunca poderia nascer no mediterr\u00e2neo. A provoca\u00e7\u00e3o \u00e9 uma coisa das culturas protestantes onde a palavra realmente importa \u2014 as culturas cat\u00f3licas t\u00eam uma rela\u00e7\u00e3o mais distante com a palavra e est\u00e3o mais virados para a imagem. Logo, as pessoas tomam-me em grande parte como um provocador, como uma personagem estranha. Elas t\u00eam dificuldade em integrar no mesmo universo a cren\u00e7a na palavra (do cristianismo protestante) e o uso dessa cren\u00e7a na palavra como um ingrediente para fazer m\u00fasica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>&#8220;Pr\u00eamio Blitz&#8221;, por outro lado, mostra certa insatisfa\u00e7\u00e3o com a cr\u00edtica musical \u2013 algo que me lembra tamb\u00e9m &#8220;Senna&#8221;, dos Pontos Negros. \u00c0s vezes voc\u00ea acredita que o p\u00fablico (e especialmente a cr\u00edtica) n\u00e3o entenda bem o seu trabalho?<\/strong><br \/>\nA cr\u00edtica musical em Portugal perpetua a serenidade cat\u00f3lico-mediterr\u00e2nica que \u00e9 t\u00edpica daqui. Os cr\u00edticos portugueses sabem muito melhor procurar figuras que possam servir de mob\u00edlia \u00e0 pequena aldeia enquanto poetas do s\u00edtio do que ouvir discos e avali\u00e1-los independentemente dos seus atributos sociol\u00f3gicos. A cr\u00edtica descobriu a FlorCaveira e nunca soube lidar com ela porque procurou na FlorCaveira o que ela nunca foi: uma reprodu\u00e7\u00e3o em pequena escala da mentalidade nacional. A FlorCaveira est\u00e1-se nas tintas para criar novos Jos\u00e9s M\u00e1rios Brancos ou novos Zecas Afonsos. N\u00f3s nunca fizemos m\u00fasica por causa deles (mesmo que eles nos possam inspirar aqui e ali). A FlorCaveira grava discos porque gosta de rock, n\u00e3o porque se sente na obriga\u00e7\u00e3o de dar mais poetas \u00e0 cultura portuguesa. We couldn&#8217;t care less about that. Os cr\u00edticos portugueses n\u00e3o percebem isto porque o credo deles \u00e9 diferente do nosso. Somos de pa\u00edses diferentes, apesar de morarmos no mesmo. O \u201cPr\u00e9mio Blitz\u201d \u00e9 uma can\u00e7\u00e3o sobre o modo como tu consegues antecipar como a Revista Blitz escolhe discos preferidos, n\u00e3o pelo que eles valem, mas por causa do que esses discos permitem enquanto criam uma nova decora\u00e7\u00e3o da aldeia de sempre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9s um pastor batista em um pa\u00eds de cat\u00f3licos, assim como \u00e9s um f\u00e3 de punk em um pa\u00eds conservador e foste um religioso numa faculdade de Comunica\u00e7\u00e3o. \u00c0 dist\u00e2ncia, me parece que sempre esteve um pouco \u00e0 margem de tudo. Como se sente quanto a isto?<\/strong><br \/>\nTalvez exista o mito do inadaptado como o her\u00f3i p\u00f3s-moderno. Eu n\u00e3o tenho paci\u00eancia para her\u00f3is p\u00f3s-modernos, mas \u00e9 um fato que vivo nos lugares sem nunca me sentir completamente em casa neles.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>&#8220;Sou Imortal&#8230;&#8221; \u00e9 tamb\u00e9m um disco de participa\u00e7\u00f5es de amigos. Como \u00e9 que voc\u00ea se juntou a estes compositores no disco \u2013 e em especial, ao Tiago Bettencourt e ao Manuel F\u00faria?<\/strong><br \/>\nTenho duas maneiras de fazer discos quanto \u00e0 presen\u00e7a de amigos: h\u00e1 discos que gravo sozinho, em recolhimento, e h\u00e1 aqueles que gravo chamando os amigos para qualquer coisa. O &#8220;Sou Imortal&#8221; pertence ao segundo tipo. O Tiago Bettencourt \u00e9 um gajo incompreendido em Portugal e cuja maldi\u00e7\u00e3o foi ter um hit enorme (com uma can\u00e7\u00e3o chamada &#8220;Carta&#8221;). Apesar de eu n\u00e3o ser um f\u00e3 dos assuntos das can\u00e7\u00f5es do Tiago (ele escreve quase s\u00f3 sobre encontros e desencontros amorosos), acho que o Tiago \u00e9 um escritor de can\u00e7\u00f5es \u2013 e eu tamb\u00e9m sou. Tenho vindo a ganhar admira\u00e7\u00e3o por ele e nos tornamos amigos nos \u00faltimos anos. A can\u00e7\u00e3o que ele canta comigo \u00e9 uma can\u00e7\u00e3o de amor e achei que ele ficava bem l\u00e1. O Manuel F\u00faria \u00e9 mais que amigo, \u00e9 um companheiro \u2013 e um irm\u00e3o na f\u00e9. A minha vida n\u00e3o seria a mesma sem o Manel e por isso estou sempre pronto para meter o Manel nos meus discos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Qual \u00e9 a percep\u00e7\u00e3o que tens da m\u00fasica brasileira? <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2011\/12\/11\/entrevista-os-lacraus\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Em uma entrevista ao Scream &amp; Yell anteriormente<\/a>, falaste sobre os Novos Baianos, e no disco novo, tens uma m\u00fasica que versa sobre Tom Z\u00e9. Como funciona isto para ti, afinal?<\/strong><br \/>\nAmo a m\u00fasica brasileira. Os primeiros brasileiros que amei musicalmente foram os Ratos de Por\u00e3o. Samplei-os (com a autoriza\u00e7\u00e3o deles!) na can\u00e7\u00e3o &#8220;Contigo Sou Sempre Agradecido&#8221; (mod\u00e9stia \u00e0 parte, uma das minhas melhores can\u00e7\u00f5es) e tenho super orgulho disso. Depois veio o disco &#8220;Caetano e Chico Juntos e ao Vivo&#8221;, que mudou a minha maneira de perceber como a m\u00fasica poderia ser. E depois continuo incessantemente a ouvir e a descobrir coisas novas, mesmo quando s\u00e3o antigas. O Tom Z\u00e9 \u00e9 um dos meus her\u00f3is, seguido pelo Jorge Ben e do Tim Maia. Recentemente descobri o disco &#8220;Alucina\u00e7\u00e3o&#8221;, do Belchior \u2013 que maravilha! Viva o Youtube!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Em meados dos anos 2000, quando a FlorCaveira surgiu, o selo foi saudado como um dos principais respons\u00e1veis pelos m\u00fasicos portugueses voltarem a cantar em portugu\u00eas. Quase dez anos depois de tudo isto, como v\u00ea esse momento? Cantar na l\u00edngua p\u00e1tria \u00e9 t\u00e3o importante assim?<\/strong><br \/>\nComo regra, ser portugu\u00eas e cantar em ingl\u00eas me parece algo tolo \u2013 haver\u00e1 uma ou outra exce\u00e7\u00e3o que aprecio. N\u00e3o canto em portugu\u00eas para louvar a cultura portuguesa. Canto em portugu\u00eas porque sou portugu\u00eas \u2013 \u00e9 a minha l\u00edngua independentemente da rela\u00e7\u00e3o que tenho com ela. \u00c9 como ser filho dos meus pais \u2013 \u00e9 um fato e acabou-se. A gera\u00e7\u00e3o dos anos 80 que fez o rock cantado em portugu\u00eas percebia isto melhor que todos os jovens que vieram a seguir. Cantar rock em portugu\u00eas n\u00e3o tem a ver com seres embaixador da tua p\u00e1tria, tem a ver com quereres cantar com o que tens \u00e0 tua disposi\u00e7\u00e3o. Portugal te deu a l\u00edngua, os anglo-sax\u00f3nicos te deram o ritmo&#8230; Pronto! A ironia \u00e9 que a gera\u00e7\u00e3o da m\u00fasica portuguesa dos anos 90 mandou a l\u00edngua \u00e0s favas, mas quis ser diplomata nacional. Tu tens cantores portugueses que cantam em ingl\u00eas e que acreditam que o Estado lhes deveria dar subs\u00eddios porque est\u00e3o representando a na\u00e7\u00e3o no estrangeiro. A FlorCaveira continua a ser a \u00fanica seta que a gera\u00e7\u00e3o dos anos 80 lan\u00e7ou para o futuro \u2013 todo o resto (cantando em portugu\u00eas ou ingl\u00eas) perpetua a maldi\u00e7\u00e3o do poeta enquanto her\u00f3i nacional. A gera\u00e7\u00e3o dos cantores de interven\u00e7\u00e3o dos anos 70 nesta mat\u00e9ria s\u00f3 inspirou oportunistas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ainda sobre a FlorCaveira: o selo foi respons\u00e1vel por fazer aparecer alguns dos mais interessantes artistas da m\u00fasica pop tuga dos \u00faltimos anos, como os Pontos Negros, o B Fachada ou o Samuel \u00daria, al\u00e9m de servir de exemplo para outras pequenas editoras fonogr\u00e1ficas, como a Az\u00e1fama ou a Amor F\u00faria. Como se sente quanto a isto?<\/strong><br \/>\n\u00c9 uma coisa excelente. Por exemplo, o Samuel \u00daria \u00e9 o artista mais completo de Portugal (porque faz can\u00e7\u00f5es e sabe dar show) e os Pontos Negros est\u00e3o parados, mas o rock que eles fizeram continua a mexer. A Amor F\u00faria \u00e9 uma editora irm\u00e3 nossa e com quem temos trabalhado no \u00faltimo ano. O meu \u00faltimo disco \u00e9 co-edi\u00e7\u00e3o FlorCaveira e Amor F\u00faria e criamos o Clube do Crime El\u00e9ctrico, que s\u00e3o concertos mensais em Lisboa no clube de rock Sabotage. A Az\u00e1fama \u00e9 a casa de amigos nossos como o Martim e os Tr\u00eas Por Cento e me sinto elogiado se de alguma maneira associarem o que eles fazem bem ao que n\u00f3s fazemos bem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como v\u00eas a atualidade da can\u00e7\u00e3o pop portuguesa? Que nomes gostaria de indicar para o ouvinte brasileiro, hoje?<\/strong><br \/>\nNo geral a atualidade da can\u00e7\u00e3o pop portuguesa continua a ser uma chatice. Se houve pessoas que acharam que a FlorCaveira ia salvar a m\u00fasica nacional, foi s\u00f3 porque n\u00e3o perceberam que a m\u00fasica que fazemos n\u00e3o pertence a esta na\u00e7\u00e3o. \u00c9 f\u00e1cil pensar que a FlorCaveira foi uma moda que passou, mas o que passou n\u00e3o foi a FlorCaveira. A FlorCaveira j\u00e1 existia antes das pessoas darem conta da sua exist\u00eancia. O que passou foi o breve momento em que as pessoas deram conta da exist\u00eancia da FlorCaveira. E, num certo sentido, ainda bem. Com isto n\u00e3o quero soar ingrato: gosto do reconhecimento dos outros. Mas o neg\u00f3cio da FlorCaveira \u00e9 fazer rock e can\u00e7\u00f5es que servem para a vida das pessoas fazer mais sentido quando as ouvem. O neg\u00f3cio da m\u00fasica pop portuguesa \u00e9, a pretexto das can\u00e7\u00f5es, fazer com que a m\u00fasica pop portuguesa fa\u00e7a sentido. S\u00f3 me vou interessar mais pela m\u00fasica portuguesa quando uma grande parte dela for destru\u00edda pelos seus pr\u00f3prios m\u00fasicos. Para isso, verifiquem o Bruno Morgado, o Filipe da Gra\u00e7a, o Deserto Branco, o \u00c9me, o C\u00e3o da Morte, os HMB, os Chibazqui, e todos aqueles que, para fazerem algo novo, destroem alguma coisa.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Triplo Teledisco do Tiago Lacrau\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/LnXl4fiSu8A?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"O Rapaz do Sul do C\u00e9u Celebra C.S. Lewis\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/AufycqhZmpg?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Bruno Capelas (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/#%21\/noacapelas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@noacapelas<\/a>) \u00e9 jornalista e assina o blog <a href=\"http:\/\/pergunteaopop.blogspot.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Pergunte ao Pop<\/a>.<\/p>\n<p><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><br \/>\n&#8211; Ou\u00e7a: 15 can\u00e7\u00f5es do pop portugu\u00eas (de Sergio Godinho a Legendary Tigerman) (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/02\/24\/ouca-15-cancoes-do-pop-portugues\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Tiago Monteiro fala sobre seu livro que mapeia a nova cena portuguesa (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/05\/22\/entrevista-tiago-monteiro\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Download: \u201cProjeto Visto 2? une artistas portugueses e brasileiros em EP gratuito (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2014\/12\/14\/download-projeto-visto-2\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Os Lacraus: &#8220;Porque n\u00e3o uma m\u00fasica de rock abordar a quest\u00e3o da esperan\u00e7a?&#8221; (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2011\/12\/11\/entrevista-os-lacraus\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; TV Rural: &#8220;Sentimos que &#8216;Sujo&#8217; \u00e9 o nosso disco mais homog\u00e9neo, coeso&#8221; (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/05\/26\/de-portugal-conheca-o-tv-rural\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Tr\u00eas discos de 2015: Capit\u00e3es da Areia, Cap\u00edcua e Diabo na Cruz\u00a0 (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/04\/30\/cds-capitaes-capicua-e-diabo-na-cruz\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Legendary Tigerman: &#8220;O rock e a dan\u00e7a devem ser momentos de liberta\u00e7\u00e3o&#8221; (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2014\/05\/06\/entrevista-the-legendary-tigerman\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Capicua: \u201cGostaria que o meu trabalho ajudasse a divulgar o hip-hop e o rap\u201d (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2014\/05\/24\/a-nova-cena-portuguesa-capicua\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Rita Braga: \u201cO prop\u00f3sito era fazer um disco em S\u00e3o Paulo\u201d (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/03\/13\/a-nova-cena-portuguesa-rita-braga\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Em\u00e9: \u201cA m\u00fasica n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de l\u00edngua, mas sim de linguagem\u201d (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/01\/28\/a-nova-cena-portuguesa-eme\/\">aqui<\/a>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"N\u00e3o \u00e9 todo dia que se v\u00ea um roqueiro citar Bad Brains e as cartas de S\u00e3o Paulo numa mesma can\u00e7\u00e3o, mas Tiago Cavaco&#8230;\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/06\/07\/de-portugal-conheca-tiago-cavaco\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":14,"featured_media":87998,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[1809,47,1783],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30930"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/14"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=30930"}],"version-history":[{"count":9,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30930\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":31097,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30930\/revisions\/31097"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/87998"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=30930"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=30930"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=30930"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}