{"id":30921,"date":"2015-06-06T10:54:32","date_gmt":"2015-06-06T13:54:32","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=30921"},"modified":"2023-03-28T23:05:11","modified_gmt":"2023-03-29T02:05:11","slug":"entrevista-eduardo-vicente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/06\/06\/entrevista-eduardo-vicente\/","title":{"rendered":"Entrevista: Eduardo Vicente"},"content":{"rendered":"<h3 style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-30922\" title=\"vitrola1\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/vitrola1.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"675\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/vitrola1.jpg 450w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/vitrola1-200x300.jpg 200w\" sizes=\"(max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/h3>\n<h3 style=\"text-align: center;\"><strong>por <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/marcia.scapaticio\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Marcia Scapaticio<\/a><\/strong><\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Professor do Departamento de Cinema, R\u00e1dio e TV da ECA\/USP, Eduardo Vicente tra\u00e7a um panorama bastante completo da ind\u00fastria e do mercado fonogr\u00e1fico brasileiro em \u201cDa vitrola ao iPod \u2013 Uma hist\u00f3ria da ind\u00fastria fonogr\u00e1fica no Brasil\u201d (2015), livro que nasceu como resultado do doutorado de Eduardo, defendido em 2002, e que chega \u00e0s livrarias agora via <a href=\"http:\/\/www.alamedaeditorial.com.br\/da-vitrola-ao-ipod\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Alameda Editorial<\/a> \u2013 Eduardo \u00e9 graduado em M\u00fasica Popular e mestrado em Sociologia pela Unicamp.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cA inten\u00e7\u00e3o inicial do trabalho era a de discutir o cen\u00e1rio da ind\u00fastria fonogr\u00e1fica no Brasil a partir dos anos 80\u201d, ele conta na introdu\u00e7\u00e3o do livro, mas o recorte temporal pretendido foi extrapolado durante a pesquisa resultando em cinco cap\u00edtulos que abordam desde a organiza\u00e7\u00e3o do mercado fonogr\u00e1fico brasileiro a consolida\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria no pa\u00eds, a subsequente crise e a restrutura\u00e7\u00e3o dos anos 80 e a subsequente segmenta\u00e7\u00e3o e massifica\u00e7\u00e3o dos anos 90.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O \u00faltimo cap\u00edtulo apresenta a din\u00e2mica dos segmentos musicais no Brasil (1965\/99), gravadoras e suas associa\u00e7\u00f5es, mostrando as gravadoras importantes que existiram no pa\u00eds e as entidades que as reuniam passando por todos os estilos musicais (do funk ao rock, do hip hop at\u00e9 a m\u00fasica religiosa) e englobando majors e independentes. Na conversa abaixo, Eduardo relaciona sua an\u00e1lise hist\u00f3rica a quest\u00f5es contempor\u00e2neas importantes, como o streaming, o financiamento coletivo, a concentra\u00e7\u00e3o cultural e a reconfigura\u00e7\u00e3o da cena independente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O modelo de trabalho criado pela Abril Music acabou de vez com o fim da MTV em TV aberta.  Mas a gravadora durou 5 anos e reuniu artistas importantes. Como podemos entender a atua\u00e7\u00e3o desse tipo de conglomerado midi\u00e1tico? \u00c9 ruim para as bandas e bom para a ind\u00fastria?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o fiz um trabalho espec\u00edfico sobre a Abril Music, mas olhei para ela dentro da ind\u00fastria dos anos 90. Ela teve duas grandes apostas que eu me lembre: a revitaliza\u00e7\u00e3o do rock dos anos 80 e o forr\u00f3 universit\u00e1rio. Achou que as bandas dos anos 80 poderiam voltar e usou muito o ac\u00fastico MTV para fazer isso. Exatamente porque ela acabou eu n\u00e3o sei. Um coment\u00e1rio frequente \u00e9 que a Abril Music aumentou muito os custos de divulga\u00e7\u00e3o e o controle sobre as r\u00e1dios, inflacionando o jab\u00e1. E o colapso veio logo no come\u00e7o da crise da ind\u00fastria. Foi um sintoma de que a ind\u00fastria do disco estava entrando em decl\u00ednio ap\u00f3s anos sensacionais. 1996 foi o melhor da hist\u00f3ria. Podemos dizer que a Abril chegou um pouco tarde na festa pretendendo ser uma \u201cmajor\u201d \u2013 n\u00e3o vejo a Abril como independente \u2013, e n\u00e3o conseguiu segurar a onda nesse momento que era ruim para o mercado. De um modo geral, esse tipo de concentra\u00e7\u00e3o promovida pelo conglomerado \u00e9 sempre ruim para o mercado, fazendo com que poucos artistas se evidenciem e que t\u00e3o poucos g\u00eaneros musicais apare\u00e7am. A grande ind\u00fastria pode, ocasionalmente, ter um perfil mais diversificado, distribuir mais m\u00fasica e at\u00e9 ajudar a formar cenas interessantes fonograficamente, o que chegou a acontecer no in\u00edcio dos anos 90, mas de modo geral a concentra\u00e7\u00e3o \u00e9 ruim para o mercado musical como um todo e ruim para os artistas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Das gravadoras indies, quais as mais emblem\u00e1ticas que existiram (ou existem) no pa\u00eds?<\/strong><br \/>\nSe eu voltar para o passado a Elenco (gravadora do Alu\u00edsio de Oliveira), que vai ser um dos grandes espa\u00e7os de lan\u00e7amento da bossa nova; a Marcos Pereira, que gravou e recuperou tradi\u00e7\u00f5es regionais no Brasil; a Eldorado que seguiu os passos da Marcos Pereira e gravou m\u00fasica erudita. A Gravadora Festa, de um cara chamado Irineu Garcia, que gravava poesia e gravou o primeiro disco de bossa nova em 1958. E mais contemporaneamente a essas, mais m\u00e9dias do que indies, como a Trama e a Biscoito Fino e outros projetos muito interessantes de gravadoras que tentavam lan\u00e7ar discos antigos em CD, relan\u00e7amentos at\u00e9 outras pr\u00f3ximas de cenas locais. \u00c9 dif\u00edcil definir mais nomes, mas se partirmos da minha proposi\u00e7\u00e3o de que o som de cada \u00e9poca \u00e9 o som que algu\u00e9m em algum momento decidiu gravar naquele per\u00edodo, quanto mais voltarmos no tempo, mais importante ser\u00e1 a atua\u00e7\u00e3o de uma \u201cindie\u201d, pois eram momentos com poucas alternativas de registros musicais. Outra gravadora importante de S\u00e3o Paulo foi a Lira Paulistana, o grande momento da cena paulista no come\u00e7o dos anos 70.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E sobre as majors. O status e as fun\u00e7\u00f5es s\u00e3o diferentes na ind\u00fastria brasileira e na inglesa, por exemplo?<\/strong><br \/>\nEu falaria de ecossistemas. As majors inglesas est\u00e3o dentro de um mercado mais estruturado, ent\u00e3o colaboram com a diversidade musical ou ocupam um espa\u00e7o muito espec\u00edfico dentro disso. Por exemplo, os artistas hoje em dia t\u00eam que se auto administrar, construir seus p\u00fablicos e cuidar de si mesmos, podendo gravar seus primeiros fonogramas\/discos sozinhos ou com gravadoras e produtores independentes. Caso o interesse por isso for crescendo, uma major pode contratar a banda e dar a ela outro n\u00edvel de proje\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea n\u00e3o depende de uma grande gravadora para iniciar sua carreira e entrar no mercado fonogr\u00e1fico, mas se for do seu interesse e da gravadora te tornar um artista de repercuss\u00e3o nacional \/mundial, ela est\u00e1 l\u00e1 para desempenhar esse papel. O que acontece no Brasil \u00e9 que n\u00f3s n\u00e3o temos esse ecossistema e um mercado t\u00e3o mais diversificado. As grandes gravadoras est\u00e3o interessadas apenas em gravar pouqu\u00edssimos artistas e pouqu\u00edssimos g\u00eaneros musicais e, neste sentido, representaram a morte da diversidade. Na Inglaterra o mercado independente \u00e9 muito forte. As majors n\u00e3o promovem a diversidade, mas tamb\u00e9m n\u00e3o determinam o seu fim. No Brasil, o problema \u00e9 a falta de um ecossistema estruturado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>No livro voc\u00ea comenta a import\u00e2ncia do \u201cSgt. Pepper\u2019s Lonely Hearts Club Band\u201d, dos Beatles. Recentemente foi publicado um estudo brit\u00e2nico dizendo que em vez do pop (Beatles e Stones) o hip hop teria \u201crevolucionado o \u00edndice orientador do pop mundial\u201d, considerando \u201cas mudan\u00e7as nos rumos musicais das paradas americanas\u201d. S\u00f3 como exerc\u00edcio, o que voc\u00ea acha dessa an\u00e1lise e da import\u00e2ncia da ind\u00fastria do hip hop?<\/strong><br \/>\nS\u00e3o momentos hist\u00f3ricos muito diferentes. Eu n\u00e3o acho que o hip hop seria poss\u00edvel sem os Beatles, mas n\u00e3o quer dizer que os Beatles sejam mais importantes do que o hip hop. Beatles e Stones representam o momento de inven\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria fonogr\u00e1fica como conhecemos. N\u00e3o \u00e9 uma ind\u00fastria de discos para pessoas mais velhas tocando as m\u00fasicas do cinema ou cantores rom\u00e2nticos. Mudou para uma ind\u00fastria voltada ao p\u00fablico jovem ligado \u00e0 ideia da contesta\u00e7\u00e3o. O capitalismo \u00e9 uma coisa fant\u00e1stica. Voc\u00ea compra um disco para dizer o quanto voc\u00ea n\u00e3o gosta do capitalismo, o quanto voc\u00ea se op\u00f5e ao mundo que est\u00e1 a\u00ed, ao regime vigente e aos valores. Voc\u00ea precisa gastar dinheiro para ser contra os valores mercantilistas da sociedade. O rock estava nesse momento de constru\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria da m\u00fasica em outros termos: para se expressar e afirmar sua identidade dependeu da m\u00fasica de uma maneira nunca vista antes na hist\u00f3ria do mundo do disco. Num primeiro momento \u2013 talvez mais Beatles do que Stones \u2013, deram uma densidade intelectual para o rock que ainda n\u00e3o existia. Antes era uma brincadeira de adolescentes. Com eles assumiu outro status, a vincula\u00e7\u00e3o com movimentos art\u00edsticos diversos e outra inser\u00e7\u00e3o social, uma postura mais engajada, ou seja, \u00e9 a inven\u00e7\u00e3o do que o rock se tornou. Tudo de bom e de mau que o rock tem hoje surgiu nesse momento. J\u00e1 o hip hop trata de outro instante. Eu estudei um pouquinho o hip hop e li mat\u00e9rias muito legais de como o g\u00eanero estava contestando a propriedade intelectual. As grandes a\u00e7\u00f5es na justi\u00e7a contra rappers que estavam sampleando trechos de m\u00fasicas, todo aquele contexto foi muito importante. Quando ouvi pela primeira vez o Ice T cantando \u201cColors\u201d, no filme \u201cColors \u2013 As Cores da Viol\u00eancia\u201d (1988) foi um soco no estomago, mas n\u00e3o d\u00e1 para negar que independente da atitude contestadora do hip hop, questionamentos sobre os direitos autorais e muitos dos valores de afirma\u00e7\u00e3o \u00e9tnica e da periferia, n\u00e3o d\u00e1 para dizer que n\u00e3o foi incorporado pela ind\u00fastria e represente hoje talvez a grande fonte de lucro da ind\u00fastria norte-americana. Sempre tem um potencial demolidor, mas o capitalismo, no fim das contas, sempre vence de alguma maneira. Mesmo quando ele perde ele vence. \u00c9 essa a minha vis\u00e3o n\u00e3o muito otimista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea comenta que a \u201crecupera\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria ocorreu muito mais atrav\u00e9s da venda massificada de uns poucos artistas do que de um fortalecimento da cena musical como um todo\u201d. Sei que \u00e9 a an\u00e1lise de uma crise espec\u00edfica dos anos 90, mas ela pode ser aplicada atualmente ou esse tipo de recupera\u00e7\u00e3o (pautada em grandes artistas) \u00e9 dif\u00edcil de acontecer no nosso contexto?<\/strong><br \/>\nSim. Sabe, apesar de toda essa conversa sobre a democratiza\u00e7\u00e3o, a internet, sobre como as grandes gravadoras s\u00e3o fraquinhas, desde os anos 80 eu n\u00e3o vejo alguns poucos artistas terem o tamanho da repercuss\u00e3o que uma Lady Gaga, Beyonce, Katy Perry tiveram recentemente. \u00c9 incr\u00edvel como esses artistas se afirmaram. Houve at\u00e9 a volta de clipes megaloman\u00edacos.  Acho que os v\u00eddeos estavam meio em baixa, mas temos outros momentos a analisar. N\u00f3s t\u00ednhamos a MTV e hoje temos o You Tube, h\u00e1 outros espa\u00e7os de diferencia\u00e7\u00e3o musical que d\u00e3o um peso importante. Acho que n\u00e3o devemos comprar a ideia de que a ind\u00fastria se enfraqueceu e atrav\u00e9s das redes sociais os artistas conseguem conquistar seus p\u00fablicos e ter carreiras aut\u00f4nomas. Isso tamb\u00e9m ocorre, mas devolvo a pergunta para quem diz isso: E quantos desses artistas sobreviveram? Quantos dos artistas de grande sucesso hoje come\u00e7aram em estruturas assim e continuaram nelas? Quantos artistas da internet continuam l\u00e1 e tem carreiras expressivas e produ\u00e7\u00f5es novas? Ent\u00e3o o cen\u00e1rio reflete a concentra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica. Se a gente come\u00e7ar a pensar nisso perceberemos melhor o tamanho da import\u00e2ncia da Warner, Sony, Universal. Elas possuem menos relev\u00e2ncia no mundo da m\u00fasica, por outro lado o Google, o iTunes, a Amazon, talvez sejam as novas majors. Em qualquer caso isso n\u00e3o implica dizer que o contexto da concentra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica acabou ou diminuiu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O impacto do rock dos anos 80 \u00e9 muito lembrado, mas o poder desse grupo se refletiu na ind\u00fastria? Tratando especificamente sobre rock, houve no Brasil algum momento melhor para o g\u00eanero que conciliasse o sucesso de p\u00fablico e cr\u00edtica?<\/strong><br \/>\nNos anos 90. Gosto de pensar \u2013 numa brincadeira minha \u2013 que o rock dos anos 80 foi branco e dos anos 90 foi mesti\u00e7o, um rock n\u00e3o tanto das capitais, mas das periferias. Cada cena tem sua import\u00e2ncia. A MPB tinha uma vis\u00e3o idealizada do Brasil, uma coisa id\u00edlica, apesar da crise era s\u00f3 a repress\u00e3o pol\u00edtica que prejudicava a nossa vida. O resto estava tudo bem. O rock dos anos 80 mostra que n\u00e3o \u00e9 bem isso. A corrup\u00e7\u00e3o, as mazelas sociais estavam muito al\u00e9m da censura e do que a volta da democratiza\u00e7\u00e3o resolveria num primeiro momento. E o rock dos anos 90 est\u00e1 ligado a esse movimento de autoafirma\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria e local que eu acho do caramba. N\u00e3o vi um movimento forte assim nos anos 2000. Me incomoda um pouco ouvir falar do Fora do Eixo \u2013amigos do exterior falam muito do Fora do Eixo, parece que eles fazem mais sucesso l\u00e1 do que aqui \u2013 como um espa\u00e7o mais politizado, de defesa de uma arte que se livre das garras do poder econ\u00f4mico, teoricamente as bandas mais livres, a autogest\u00e3o. Confesso que uma das coisas que me incomoda \u00e9 de como a arte n\u00e3o expressa o discurso pol\u00edtico. Digo, voc\u00ea pode descobrir que tem uma m\u00fasica de um movimento social que n\u00e3o \u00e9 muito boa, por exemplo, eu acho que uma m\u00fasica do MST seria uma m\u00fasica do MST. Falando de quest\u00f5es da terra, valores deles. N\u00e3o vejo no Fora do Eixo e nem em outros movimentos coletivos uma m\u00fasica que expresse isso. A \u00fanica m\u00fasica atual que eu ouvi mais de perto e que pra mim ainda tem esse tipo de significado \u00e9 o hip hop. Os artistas com vis\u00e3o interessante s\u00e3o os caras do rap, principalmente de S\u00e3o Paulo, que \u00e9 de onde eu estou mais perto. Do rock, infelizmente eu n\u00e3o vejo isso momento. Pode existir, mas eu n\u00e3o vi.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ainda nesse sentido, foi lan\u00e7ado neste ano um livro chamado \u201cCulture Crash \u2013 The Killing of the Creative Class\u201d, no qual o autor contraria as previs\u00f5es otimistas da democracia digital, evidenciando uma concentra\u00e7\u00e3o cultural. Em sua opini\u00e3o, a teoria do pesquisador se reflete na situa\u00e7\u00e3o atual da ind\u00fastria fonogr\u00e1fica?<\/strong><br \/>\nO livro expressa coisas nas quais eu acredito. A crescente concentra\u00e7\u00e3o, pois apesar do discurso \u00e9 o que n\u00f3s estamos vendo. Vemos poucos artistas chegarem a essa posi\u00e7\u00e3o de destaque. Reflete claramente a tend\u00eancia da ind\u00fastria fonogr\u00e1fica. N\u00f3s vivemos no Brasil \u2013 isso \u00e9 invis\u00edvel, as pessoas n\u00e3o falam disso \u2013, uma situa\u00e7\u00e3o que para mim \u00e9 a seguinte: uma ind\u00fastria como a da m\u00fasica sertaneja vive de investidores. N\u00e3o \u00e9 uma cr\u00edtica \u00e0 m\u00fasica (sertaneja) em si. Voc\u00ea precisa ter um investidor na sua dupla, algu\u00e9m que coloque dinheiro. De um modo geral come\u00e7a assim. Voc\u00ea precisa de um investimento inicial em luz, som, caminh\u00e3o, divulga\u00e7\u00e3o, figurino. Se n\u00e3o tiver um apoiador e uma estrutura n\u00e3o chega a lugar nenhum. Para voc\u00ea tocar num circuito como o do SESC, que \u00e9 a salva\u00e7\u00e3o para muitas bandas e artistas mais interessantes do pa\u00eds, voc\u00ea tamb\u00e9m precisa ter chegado num n\u00edvel de autoprodu\u00e7\u00e3o significativo. Para chegar aos editais, por exemplo, voc\u00ea precisa conhecer a din\u00e2mica, saber como escrev\u00ea-los. Essa talvez seja a qualidade do Fora do Eixo. Ent\u00e3o \u00e9 um mundo onde os espa\u00e7os s\u00e3o cada vez mais demarcados, mesmos os teoricamente desmercantilizados t\u00eam seus filtros. Nesse mundo da m\u00fasica mais comercial e do sucesso isso \u00e9 muito claro. Eu n\u00e3o acho que em S\u00e3o Paulo tenha alguma r\u00e1dio que toque m\u00fasica independente de S\u00e3o Paulo. Se a gente come\u00e7a a pensar nisso \u2013 embora as pessoas tendam a considerar a internet mais importante \u2013, a m\u00eddia tradicional \u00e9 um filtro poderos\u00edssimo. E o fim da MTV em TV aberta piorou a situa\u00e7\u00e3o. L\u00e1 havia programas independentes para o rap e para outros estilos. N\u00f3s n\u00e3o temos uma cr\u00edtica musical que ajude a pin\u00e7ar e valorizar alguns nomes desse caldeir\u00e3o infinito da internet. O fim das lojas de discos representou o fim desses espa\u00e7os. J\u00e1 o fim das grandes ind\u00fastrias tamb\u00e9m foi o fim de muitos empregos. As revistas musicais e as lojas de discos ofereciam uma proximidade com especialistas, gente que te mostrava m\u00fasicas diferentes. N\u00f3s fomos perdendo esses intermedi\u00e1rios que poderiam nos mostrar o novo, dar uma ideia do que estava rolando. Esse \u00e9 um aspecto pouco visto da crise e do momento em que vivemos, no qual parece que as pessoas sozinhas v\u00e3o encontrar na internet tudo que elas desejam e talvez, ao fazerem essa pesquisa descubram que 70% do views do You Tube est\u00e3o ligados a 30 cliques diferentes ou de nomes produzidos e super bombados com muito dinheiro ou outros que s\u00e3o assistidos s\u00f3 porque s\u00e3o rid\u00edculos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>No cap\u00edtulo sobre os anos 1990 (segmenta\u00e7\u00e3o e massifica\u00e7\u00e3o) voc\u00ea diz que \u201coutro fator a marcar o in\u00edcio de d\u00e9cada foi a substitui\u00e7\u00e3o do LP pelo CD\u201d. De certa forma, hoje vivemos o fluxo contr\u00e1rio. Comercialmente, qual o futuro desse movimento tanto para a ind\u00fastria quanto para os artistas?<\/strong><br \/>\nSe voc\u00ea menciona o fluxo contr\u00e1rio com o LP voltando e o CD desaparecendo, com toda sinceridade, n\u00e3o dou a m\u00ednima import\u00e2ncia para isso. Acho que o LP est\u00e1 voltando a ocupar um espa\u00e7o, mas \u00e9 sempre um espa\u00e7o insignificante para o que \u00e9 a ind\u00fastria. Acho que em certos espa\u00e7os e segmentos musicais o LP tem um impacto, mas eu n\u00e3o vejo isso. Embora seja muito bonito, charmoso e rom\u00e2ntico, o LP n\u00e3o \u00e9 democr\u00e1tico. Esse \u00e9 um primeiro ponto. Custa muito caro e o equipamento reprodutor custa mais caro ainda. Eu n\u00e3o dou muita import\u00e2ncia a esse fluxo, embora percentualmente digam que de um ano para o outro as vendas aumentaram em 300%. Na verdade, significa que foi de 0,002% para 0,005% ent\u00e3o, em termos de ind\u00fastria, n\u00e3o levo o vinil a s\u00e9rio. Ele pode funcionar e ser importante num espa\u00e7o espec\u00edfico. Se o contr\u00e1rio \u00e9 \u201cn\u00f3s tivemos a chegada do CD e agora ele est\u00e1 indo embora e o que isso significa para a ind\u00fastria e para os artistas\u201d, bem, essa \u00e9 a pergunta de um milh\u00e3o de d\u00f3lares. Um aspecto importante \u00e9 que a m\u00fasica virou um servi\u00e7o em vez de um objeto. Vamos dizer que \u00e9 a ideia de quem acredita nos servi\u00e7os por assinatura de streaming. Eu tenho um orientando que estuda esse processo e at\u00e9 onde eu saiba nenhum desses neg\u00f3cios efetivamente deu lucro at\u00e9 agora. Ent\u00e3o n\u00e3o sei se o futuro da ind\u00fastria est\u00e1 a\u00ed. O futuro da ind\u00fastria est\u00e1 em v\u00e1rias coisas, mas, basicamente, no controle sobre os direitos autorais, porque essa ind\u00fastria pode n\u00e3o vender tantos discos, por\u00e9m \u00e9 dona de todo o repert\u00f3rio de nossas vidas, da vida da minha e da sua gera\u00e7\u00e3o.  As gravadoras s\u00e3o donas de milh\u00f5es de fonogramas que n\u00e3o aparecem em games\/filmes regravados por novos artistas por acaso. \u00c9 um jogo para valorizar essa propriedade intang\u00edvel e incalculavelmente valiosa. As gravadoras tamb\u00e9m s\u00e3o donas ou parceiras dos canais de distribui\u00e7\u00e3o. \u00c9 por elas que se chega aos lugares que d\u00e3o visibilidade, desde os filmes at\u00e9 as s\u00e9ries. A ind\u00fastria pode ter perdido o controle sobre a distribui\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que a m\u00fasica est\u00e1 sendo distribu\u00edda de forma mais irregular. Mesmo isso eu acredito que mudou. As pessoas est\u00e3o come\u00e7ando a aceitar o fato de pagar um valor para ter o arquivo digital da m\u00fasica. Isso n\u00e3o \u00e9 necessariamente ruim, na verdade \u00e9 bom. Agora, se essas novas formas de escuta ir\u00e3o se firmar, se as pessoas v\u00e3o ouvir servi\u00e7os de streaming e se a partir desses espa\u00e7os o novo poder\u00e1 surgir, pode ser um caminho. Mas a \u00fanica resposta que eu tenho para dar \u00e9: ningu\u00e9m sabe. A gente s\u00f3 n\u00e3o pode se iludir. O mais importante \u00e9 n\u00e3o acreditar no censo comum, na historinha de que o futuro ser\u00e1 democr\u00e1tico, coletivo e brilhante porque as redes sociais assim o s\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E sobre o aumento do uso do financiamento coletivo para a grava\u00e7\u00e3o de discos? Ningu\u00e9m aponta nada de negativo nesse processo. Em sua opini\u00e3o \u00e9 isso mesmo? \u00c9 um recurso v\u00e1lido e altamente positivo?<\/strong><br \/>\n\u00c9 um caminho legal, mas n\u00e3o \u00e9 uma solu\u00e7\u00e3o. Na Inglaterra \u2013 onde estudei um pouco mais a ind\u00fastria e comparei a cena de l\u00e1 com a daqui \u2013, voc\u00ea n\u00e3o s\u00f3 tem outro contexto, mas outra cultura de engajamento do f\u00e3 com o artista. L\u00e1 n\u00e3o temos a ideia: ah, n\u00e3o vou comprar o CD oficial, vou comprar o CD pirata porque quando compro o CD dou o dinheiro para a gravadora. Ao comprar o CD voc\u00ea est\u00e1 acolhendo o seu artista. \u00c9 a ideia de apoiar. O crowdfunding tamb\u00e9m \u00e9 ligado a isso e a outros lugares de exibi\u00e7\u00e3o. L\u00e1 existem centenas de lugares para shows em cada cidade, desde pubs, por\u00f5es de igrejas, &#8211; com uma programa\u00e7\u00e3o cultural super diversificada -, e outros espa\u00e7os p\u00fablicos e privados. H\u00e1 um circuito independente muito mais robusto no \u00e2mbito do mercado e as pessoas pagam para assistir aos shows em todos esses espa\u00e7os. O crowdfundig \u00e9 uma solu\u00e7\u00e3o e \u00e9 muito legal, mas faz parte do contexto de uma cultura mais fortalecida. Eu acho que n\u00f3s estamos no caminho oposto do que acontece l\u00e1 ou desse processo. O fortalecimento do independente aqui est\u00e1 muito ligado \u00e0 ideia do coletivo e a um discurso de desmercantiliza\u00e7\u00e3o da m\u00fasica, que a m\u00fasica deve estar nos espa\u00e7os p\u00fablicos, em espa\u00e7os como o SESC ou em festivais financiados pelo governo. Na Inglaterra o discurso \u00e9 bem distinto, embora voc\u00ea n\u00e3o tenha um apoio t\u00e3o claro para esse tipo de iniciativa, o pessoal se organiza de outro modo. Em S\u00e3o Paulo, por exemplo, o circuito do hip hop funciona assim. Eles se utilizam do espa\u00e7o p\u00fablico, bibliotecas e centros culturais, mas a partir de uma organiza\u00e7\u00e3o interna. Acho que a rela\u00e7\u00e3o do f\u00e3 com a banda \u00e9 outra, o pessoal compra a m\u00fasica, vai ao show, principalmente neste sentido de apoiar. N\u00f3s olhamos pouco para a estrutura da cena. Falamos sobre um artista ou outro, contudo n\u00e3o pensamos nas bases econ\u00f4micas e culturais desse tipo de produ\u00e7\u00e3o musical. Acho que a periferia tem uma resposta mais aut\u00f4noma e menos dependente do estado. Esse \u00e9 um caminho a se pensar, tendo em vista como as atividades culturais v\u00eam sido financiadas pelo estado e pelas leis de incentivos fiscais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como voc\u00ea analisa a empreitada dos m\u00fasicos montando suas pr\u00f3prias gravadoras e organizando festivais?<\/strong><br \/>\nNo exterior h\u00e1 muitos festivais independentes que se tornaram marcas importantes e eu acredito nesse circuito. A ideia de termos um circuito mais internacionalizado no Brasil seria muito boa para os independentes. Tivemos esse debate no come\u00e7o dos anos 90 com as bandas discutindo se iam cantar em ingl\u00eas ou n\u00e3o, porque o grunge levou a esse caminho, j\u00e1 que antes da internet essas coisas tamb\u00e9m aconteciam. H\u00e1 o nascimento de cenas locais, muita gente gravando em novos est\u00fadios. Dessa forma surgiu o Mangue Beat e as bandas de rock dos anos 90.  Temos que pensar um pouco nisso, pois a internacionaliza\u00e7\u00e3o j\u00e1 est\u00e1 evidente h\u00e1 algum tempo.  \u00c9 um bom momento para repensar essa quest\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-30923\" title=\"vitrila2\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/vitrila2.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"375\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/vitrila2.jpg 600w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/vitrila2-300x187.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/p>\n<div id=\"singlepostcontent\">\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; M\u00e1rcia Scapaticio (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/03\/31\/entrevista-martin-mendonca\/www.facebook.com\/marcia.scapaticio\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">www.facebook.com\/marcia.scapaticio<\/a>) \u00e9 jornalista e mant\u00e9m o <a href=\"http:\/\/zunindo.tumblr.com\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">zunindo.tumblr.com<\/a>. Confira outros trabalhos da M\u00e1rcia no <a href=\"http:\/\/issuu.com\/mscapaticio\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/issuu.com\/mscapaticio<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><br \/>\n&#8211; Luiz Valente: &#8220;O fim das f\u00e1bricas de vinis no Brasil foi muito cruel&#8221; (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/08\/26\/entrevista-luiz-valente-vinyl-land\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Turismo: onde encontrar CDs e vinis em Amsterdam (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/07\/20\/turismo-lojas-de-discos-em-amsterdam\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Andr\u00e9 Midani libera gratuitamente livro &#8220;Do Vinil ao Download&#8221; (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/2012\/12\/28\/download-o-livro-de-andre-midani\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Mercado de vinil na Argentina vive momento de euforia (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/04\/02\/o-mercado-do-vinil-na-argentina\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Turismo: onde encontrar CDs e vinis em Amsterdam (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/07\/20\/turismo-lojas-de-discos-em-amsterdam\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Comprando vinis com Robert Crumb em S\u00e3o Paulo (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/2010\/08\/11\/comprando-vinis-com-robert-crumb\/\">aqui<\/a>)<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Marcia Scapaticio\nAutor fala do livro &#8220;Da Vitrola ao iPod&#8221;, que tra\u00e7a um panorama da ind\u00fastria musical e do mercado fonogr\u00e1fico brasileiro\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/06\/06\/entrevista-eduardo-vicente\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30921"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=30921"}],"version-history":[{"count":10,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30921\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":73498,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30921\/revisions\/73498"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=30921"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=30921"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=30921"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}