{"id":30379,"date":"2015-04-29T12:38:18","date_gmt":"2015-04-29T15:38:18","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=30379"},"modified":"2023-03-29T01:12:12","modified_gmt":"2023-03-29T04:12:12","slug":"livro-orange-is-the-new-black-piper-kerman","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/04\/29\/livro-orange-is-the-new-black-piper-kerman\/","title":{"rendered":"Livro: Orange Is The New Black"},"content":{"rendered":"<h3 style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-30380\" title=\"piper1\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/piper1.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"647\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/piper1.jpg 450w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/piper1-208x300.jpg 208w\" sizes=\"(max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/h3>\n<h3 style=\"text-align: center;\"><strong>por\u00a0<a href=\"http:\/\/twitter.com\/renata_arruda\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Renata Arruda<\/a><\/strong><\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Piper Kerman era uma bem educada e destemida jovem de vinte e poucos anos da classe m\u00e9dia alta quando se envolveu com uma mulher mais velha e decidiu cometer crimes desnecess\u00e1rios pelos quais nunca havia sido pega at\u00e9 que, 10 anos depois, com a vida mudada, um bom emprego e um relacionamento est\u00e1vel com o escritor Larry Smith, a hist\u00f3ria mudou. Piper culpa seus erros por seu esp\u00edrito aventureiro e sua paix\u00e3o por Catherine Cleary Wolters, que trabalhava para o tr\u00e1fico internacional de drogas e a convenceu a transportar dinheiro \u2013 ainda que na vers\u00e3o de Cleary contada para a revista Vanity Fair, Kerman e ela j\u00e1 faziam viagens para o tr\u00e1fico juntas quando se envolveram romanticamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tendo seus crimes descobertos, provavelmente dedurada por Cleary, Piper se v\u00ea condenada a uma pena de 15 meses \u2013 a qual cumpriu 13 \u2013 na pris\u00e3o feminina de seguran\u00e7a m\u00ednima de Danbury, Connecticut, onde passa a conviver com mulheres de diferentes classes sociais, orienta\u00e7\u00f5es sexuais e etnias \u2013 sendo a grande maioria formada por negras e latinas vindas da classe oper\u00e1ria \u2013 e sentir na pele o descaso com que s\u00e3o tratadas as detentas pelo sistema prisional americano. &#8220;A coisa mais vil que encontrei em mim e no sistema que me mantinha prisioneira foi a indiferen\u00e7a pelo sofrimento alheio&#8221;, escreveu Piper em \u201cOrange Is The New Black\u201d (2010), livro de mem\u00f3rias sobre o tempo em que passou em Danbury, publicado em 2014 no Brasil pela Intr\u00ednseca, e que originou a s\u00e9rie de mesmo nome, cuja terceira temporada chega em junho ao Netflix.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-30381\" title=\"piper2\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/piper2.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"360\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/piper2.jpg 600w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/piper2-300x180.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na pris\u00e3o, Piper percebe que ser uma bem educada branca, loira e de olhos azuis (como frequentemente pontua) lhe garante algum tipo de privil\u00e9gio, certa simpatia e provoca at\u00e9 mesmo surpresa por parte dos agentes carcer\u00e1rios e companheiras de pris\u00e3o, e acaba se dando conta do contraste entre a sua vida e a daquelas mulheres, passando a refletir sobre como ela estava ali pelos mesmos motivos que a maioria \u2013 a liga\u00e7\u00e3o com o tr\u00e1fico de drogas \u2013 e resolve assumir uma parcela de culpa escrevendo sobre como suas a\u00e7\u00f5es contribu\u00edram para a situa\u00e7\u00e3o da maioria da popula\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria feminina que conheceu \u2013 sem chegar a fazer nenhuma reflex\u00e3o a respeito da legaliza\u00e7\u00e3o das drogas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Escrevendo como observadora em um formato que mais se assemelha a um di\u00e1rio, Piper est\u00e1 mais preocupada em humanizar as mulheres com quem conviveu do que politizar as defici\u00eancias do sistema (&#8220;Havia encontrado outras mulheres que podiam me ensinar a ser melhor&#8221;, ela chega a escrever), embora comente sobre o prec\u00e1rio atendimento m\u00e9dico, a falta de programas de educa\u00e7\u00e3o e reinser\u00e7\u00e3o das mulheres na sociedade (a maioria delas n\u00e3o tem para onde ir ou se dirige a abrigos ao sair da pris\u00e3o) e as amea\u00e7as, neglig\u00eancias e abusos de poder por parte de alguns agentes penitenci\u00e1rios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Numa passagem interessante, ela explica que em Danbury alguns agentes &#8220;n\u00e3o eram os depravados que poderiam abusar sexualmente das prisioneiras; na verdade, eles nunca confraternizariam com formas de vida inferiores como n\u00f3s, e reservavam seu esc\u00e1rnio mais ardente aos colegas que nos tratavam com humanidade&#8221;. Em geral, o tom do livro de Kerman \u00e9 positivo, com uma aus\u00eancia de conflitos muitas vezes beirando o inveross\u00edmil: todos os seus amigos e familiares a apoiaram sem grandes problemas, ela tinha dinheiro suficiente para conseguir o que quisesse, seu noivo Larry, diferente do apresentado na s\u00e9rie, foi maduro, compreensivo e companheiro durante todo o tempo e ela n\u00e3o sofreu nenhum embate importante enquanto esteve na pris\u00e3o. No \u00fanico momento em que sofre uma humilha\u00e7\u00e3o por parte de um agente durante seu trabalho como eletricista, ela consegue ser transferida para outra fun\u00e7\u00e3o sem maiores obst\u00e1culos al\u00e9m de uma longa espera.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-30382\" title=\"piper3\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/piper3.jpg\" alt=\"\" width=\"605\" height=\"340\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/piper3.jpg 605w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/piper3-300x168.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 605px) 100vw, 605px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Impress\u00e3o parecida teve Jenji Koahn, respons\u00e1vel pela adapta\u00e7\u00e3o do livro para a TV: &#8220;Ela foi para a pris\u00e3o e foi uma droga e ela conheceu pessoas muito legais. Tivemos que incrementar com um pouco mais de drama (risos)&#8221;, comentou em entrevista \u00e0 Entertainment Weekly em 2013. Adaptado livremente das mem\u00f3rias de Kerman, a s\u00e9rie tem a vantagem de poder se aprofundar neste processo de humaniza\u00e7\u00e3o das detentas, mostrando em cada epis\u00f3dio as hist\u00f3rias que levaram cada uma das personagens at\u00e9 ali, com o b\u00f4nus de reunir um afiado elenco de atrizes pouco conhecidas interpretando uma diversidade pouco vista na televis\u00e3o: mulheres de diversas ra\u00e7as e classes sociais, l\u00e9sbicas sem vi\u00e9s fetichista e uma vibrante personagem transg\u00eanero, interpretada pela atriz transg\u00eanero Laverne Cox, a primeira a estampar a capa da revista Time \u2013 todas inspiradas nas mulheres reais que conviveram com Piper, tamb\u00e9m consultora da s\u00e9rie.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez o mais importante de \u201cOrange In The New Black\u201d seja sua publica\u00e7\u00e3o em si. Ainda que estejamos falando sobre um livro cujo ponto de vista n\u00e3o seja o de uma detenta comum e onde n\u00e3o houve uma documenta\u00e7\u00e3o aprofundada das hist\u00f3rias das mulheres que realmente sofrem sem recursos para manter &#8220;luxos&#8221; como assinaturas da revista New Yorker ou comprar radinhos de pilha para acompanhar suas corridas na pris\u00e3o, a publica\u00e7\u00e3o do livro \u2013 com o importante refor\u00e7o da s\u00e9rie \u2013 joga um pouco de luz sobre o que acontece nas pouco comentadas pris\u00f5es e centros de deten\u00e7\u00f5es de mulheres americanas e tem acompanhado o ativismo de Kerman em busca de melhores tratamentos para as prisioneiras, alternativas \u00e0 reclus\u00e3o para criminosas n\u00e3o violentas e maior educa\u00e7\u00e3o e empatia do p\u00fablico: &#8220;A aus\u00eancia de empatia est\u00e1 no cerne de qualquer crime (&#8230;) mas a empatia \u00e9 a chave para trazer um ex-prisioneiro de volta ao seio da sociedade. (&#8230;) O p\u00fablico espera que as senten\u00e7as sejam punitivas, mas tamb\u00e9m reabilitadoras; no entanto, o que esperamos e o que obtemos de nossas pris\u00f5es s\u00e3o coisas completamente diferentes. A li\u00e7\u00e3o que nosso sistema prisional ensina a seus residentes \u00e9 como sobreviver como um prisioneiro, n\u00e3o como um cidad\u00e3o&#8221;, escreve ela. E em outro momento questiona: &#8220;Aos nossos carcereiros \u00e9 concedido um anonimato quase total (&#8230;). Qual o sentido, qual a raz\u00e3o para prender as pessoas durante anos, quando isso parece significar t\u00e3o pouco, at\u00e9 mesmo para os carcereiros (&#8230;)? Como um preso pode achar que sua puni\u00e7\u00e3o teve algum sentido para algu\u00e9m, quando ela \u00e9 aplicada de maneira t\u00e3o impensada e indiferente?&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/6Oe_ghEueYI\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/6Oe_ghEueYI\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p><span>&#8211; Renata Arruda (<\/span><a href=\"http:\/\/twitter.com\/renata_arruda\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@renata_arruda<\/a><span>) \u00e9 jornalista e assina o blog <a href=\"http:\/\/www.mardemarmore.blogspot.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Prosa Espont\u00e2nea<\/a><\/span><\/p>\n<p><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><br \/>\n&#8211; Tr\u00eas document\u00e1rios interessantes dispon\u00edveis no Netflix (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/04\/11\/tres-documentarios-disponiveis-no-netflix\/\" target=\"_self\" rel=\"noopener\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; 10 filmes no Netflix (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/03\/17\/cinema-10-filmes-no-netflix\/\" target=\"_self\" rel=\"noopener\">aqui<\/a>); 10 s\u00e9ries no Netflix (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/07\/04\/dez-series-no-netflix\/\">aqui<\/a>)<\/p>\n<p><strong>Mais sobre literatura:<\/strong><br \/>\n&#8211; &#8220;Funny Girl&#8221;, de Nick Hornby: leve e ilusoriamente descompromissado (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/04\/23\/livro-funny-girl-de-nick-hornby\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Victor Meira fala sobre o seu primeiro livro de contos, &#8220;Bem\u00f3is&#8221; (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/04\/14\/entrevista-victor-meira\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Tr\u00eas HQs: \u201cVingan\u00e7a\u201d, \u201cCasanova: Gula\u201d e \u201cJusticeiro MAX: Mercen\u00e1rio\u201d (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/04\/05\/hqs-vinganca-casanova-justiceiro\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Modiano: \u201cDora Bruder\u201d e o passado sinistro varrido pra debaixo do tapete (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/04\/04\/livros-dora-bruder-de-patrick-modiano\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; \u00c1lbum cl\u00e1ssico do Sonic Youth \u00e9 esmiu\u00e7ado na s\u00e9rie \u201cO Livro do Disco? (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/03\/30\/um-livro-sobre-daydream-nation\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; \u201cN\u00e3o Sou Dessas\u201d revela inexperi\u00eancia e imaturidade de Lena Dunham (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/03\/21\/livro-nao-sou-dessas-lena-dunham\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Olavo Rocha fala sobre a HQ \u201cCidade das \u00c1guas\u201d  (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/03\/23\/olavo-rocha-fala-da-cidade-das-aguas\/\" target=\"_self\" rel=\"noopener\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; \u201cGirl in a Band: A Memoir\u201d: uma intensa confiss\u00e3o de fracasso de Kim Gordon (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/2014\/12\/15\/coluna-12-livros-musicais-de-2014\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Gustavo Duarte: \u201cTemos que criar o costume da leitura aqui\u201d  (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/03\/19\/tres-perguntas-gustavo-duarte\/\" target=\"_self\" rel=\"noopener\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; \u201cA Balada de Adam Henry\u201d confirma talento de Ian McEwan (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/03\/14\/tres-livros-ellis-alonso-mcewan\/\" target=\"_self\" rel=\"noopener\">aqui<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Renata Arruda\nEscrito como se fosse um di\u00e1rio, Piper Kerman parece mais preocupada em humanizar as mulheres com quem conviveu\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/04\/29\/livro-orange-is-the-new-black-piper-kerman\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":27,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[9],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30379"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/27"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=30379"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30379\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":73681,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30379\/revisions\/73681"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=30379"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=30379"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=30379"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}