{"id":30293,"date":"2015-04-23T12:55:20","date_gmt":"2015-04-23T15:55:20","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=30293"},"modified":"2018-02-23T09:33:43","modified_gmt":"2018-02-23T12:33:43","slug":"livro-funny-girl-de-nick-hornby","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/04\/23\/livro-funny-girl-de-nick-hornby\/","title":{"rendered":"Livro: Funny Girl, de Nick Hornby"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-30294\" title=\"funnygirl\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/funnygirl.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<h3 style=\"text-align: center;\"><strong>por <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/marcelo.costa.5855\" target=\"_blank\">Marcelo Costa<\/a><\/strong><\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para infelicidade de muitos, Nick Hornby segue firme em seu processo de amadurecimento. Por mais que essa constata\u00e7\u00e3o possa assustar os pobres adultescentes que transformaram \u201cAlta Fidelidade\u201d (1995) em uma b\u00edblia pop, e assimilaram seus outros livros como se fosse cerveja na beira da praia em dia de sol, o an\u00fancio da maturidade do escritor s\u00f3 fez bem ao seu texto, como comprova \u201cFunny Girl\u201d (2014, edi\u00e7\u00e3o nacional da Companhia das Letras), seu s\u00e9timo romance (excluindo \u201cFebre de Bola\u201d, de 1992, um genial di\u00e1rio biogr\u00e1fico romanceado), ainda que n\u00e3o v\u00e1 ser agora que a ala intelectual v\u00e1 abra\u00e7ar o escritor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os sinais j\u00e1 estavam pelo caminho, como pequenas entradas na lateral da testa anunciando uma prov\u00e1vel futura calv\u00edcie, sensa\u00e7\u00e3o que mais denota o passar do tempo do que adianta um futuro Telly Savalas: partindo de uma trilogia impec\u00e1vel que focava as d\u00favidas do homem pop moderno frente aos relacionamentos e a monogamia (\u201cAlta Fidelidade\u201d, 1995; \u201cUm Grande Garoto\u201d, 1998) para, enfim, declarar amor \u00e0 fam\u00edlia (\u201cComo Ser Legal\u201d, 2001), Nick Hornby parecia ter esgotado o tema, e precisava se reinventar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O livro seguinte, \u201cUma Longa Queda\u201d, de 2005, soava dividido em dois: na primeira parte, tendo como mote uma reuni\u00e3o de candidatos a suicidas (repleta de certeiras piadas inglesas), Hornby discutia inadequa\u00e7\u00e3o, mas do ponto de vista pessoal, de quem acorda, olha para o espelho e n\u00e3o se reconhece no mundo que construiu (ou que constru\u00edram) para si. Na segunda metade, a hist\u00f3ria se amplia (e a inadequa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m), discute fama, jornalismo de celebridades, e a narrativa se perde diante da vontade de abra\u00e7ar o mundo restando uma conclus\u00e3o brega.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cSlam\u201d (2007) foi ignorado, e ainda que o tema fosse (seja) relevante (gravidez adolescente), Hornby trafegava perigosamente entre a discuss\u00e3o (disfar\u00e7ada, o que faz muito bem) de quest\u00f5es morais com a sensa\u00e7\u00e3o de autoajuda. Era preciso se reinventar, e nada melhor que voltar ao universo pop que tanto conhece, mas com um sorriso malicioso no canto dos l\u00e1bios: \u201cJuliet Naked\u201d (2009), o brilhante livro seguinte, sacaneava de forma certeira todos aqueles que elevaram Hornby ao status de grande escritor pop em \u201cAlta Fidelidade\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cJuliet Naked\u201d foi o primeiro sinal de que algo estava mudando no universo de Nick Hornby, e ainda que a autocritica (cheirando a vingan\u00e7a) pudesse soar como um acerto de contas com alguns personagens de seu romance mais famoso (todos no centro de um alvo para deleite de intelectuais com dardos nas m\u00e3os em um pub), o livro abria novos caminhos para o escritor, o que influencia diretamente \u201cFunny Girl\u201d, ainda que o dilema moral (mais uma vez) esteja entrincheirado nickhornbyanamente nas entrelinhas da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cFunny Girl\u201d homenageia o filme hom\u00f4nimo de William Wyler, que rendeu um Oscar de Melhor Atriz para Barbra Streisand em 1968. A trama de Hornby tamb\u00e9m se passa nos anos 60 e tem como personagem principal Barbara, uma garota sonhadora do nordeste (da Inglaterra), mais precisamente Blackpool, que planeja se mudar para Londres e ser uma comediante t\u00e3o famosa quanto Lucille Ball, a atriz norte-americana que fez fama no sitcom \u201cI Love Lucy\u201d, s\u00e9rie de sucesso que ficou no ar entre 1951 e 1960.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para conquistar seus sonhos, Barbara precisa enfrentar as artimanhas do pai e um \u201cgrande problema\u201d pessoal: ela \u00e9 bonita \u201cdemais\u201d, o que faz produtores a procurarem para an\u00fancios de biqu\u00edni, e reclamarem quando ela diz que quer atuar \u2013 o trecho em que uma colega descreve o que faria para ficar com um pouco de sua beleza \u00e9 sanguinariamente hil\u00e1rio. Felizmente, Barbara encontra sua turma em Londres e estrela uma sitcom de sucesso na BBC, para desespero da ala intelectual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o espere profundidade, dilemas morais e grandes revela\u00e7\u00f5es da personagem central (ainda que a grande deixa das mais de 400 p\u00e1ginas do livro seja de um pensamento cr\u00edtico dela). Nick Hornby distrai o leitor de forma inteligente focando nas d\u00favidas da equipe de roteiristas, do diretor, do empres\u00e1rio, do cr\u00edtico, de Jim (o par rom\u00e2ntico de Barbara na s\u00e9rie de TV \u00e9 o homem pop da vez assustado com a monogamia) e de outros personagens enquanto Barbara curte uma lua de mel descompromissadaconsigo mesma vivendo a vida que sempre sonhou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dos momentos luminosos de \u201cFunny Girl\u201d se passa num \u201cprograma s\u00e9rio\u201d de TV, em que um cr\u00edtico intelectual e f\u00e3 de Shakespeare tenta arrasar o produtor da s\u00e9rie de sucesso de B\u00e1rbara em um debate (da mesma forma que tentaria fazer com Nick Hornby diante do sucesso de \u201cAlta Fidelidade\u201d, trinta e poucos anos depois). Em entrevista ao Guardian (<a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2014\/12\/1565116-em-funny-girl-nick-hornby-revisita-londres-dos-1960.shtml\" target=\"_blank\">traduzida pela Folha<\/a>), Hornby provocou: \u201cN\u00e3o quero que o cr\u00edtico no livro tenha raz\u00e3o, e ainda acredito que ele esteja errado sobre muito do que diz, mas algumas das coisas est\u00e3o certas\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De forma delicada (e nickhornbyanamente genial), ele parece ter escrito um livro para discutir (e entender) a si mesmo, como se as palavras colocadas no papel o fizessem refletir melhor sobre sua fun\u00e7\u00e3o de escritor, no particular, e a do entretenimento no mundo moderno, em geral \u2013 e os sentimentos de Barbara em rela\u00e7\u00e3o ao tema s\u00e3o tanto um alento quanto um risco, pois alimentam a d\u00favida sobre os limites do que \u00e9 ou n\u00e3o critic\u00e1vel e aceit\u00e1vel na cultura de massa (num momento da hist\u00f3ria em que absolutamente tudo \u00e9 mercadoria).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o deixa de ser interessante Hornby optar por uma s\u00e9rie televisiva (dos anos 60, ok) como mote de an\u00e1lise de discurso exatamente no momento em que as s\u00e9ries s\u00e3o o que de melhor a ind\u00fastria cultural produz criticamente na atualidade \u2013 j\u00e1 que a m\u00fasica pop parece ref\u00e9m de uma acelerada linha de montagem que n\u00e3o permite aprofundamento (optar por um disco soa culpadamente deixar de ouvir outros 200, 300, a fila n\u00e3o para), os livros de autoajuda se multiplicam como praga e o cinema (anglo-sax\u00e3o) tropece em suas pr\u00f3prias f\u00f3rmulas de sucesso e legitima\u00e7\u00e3o (antes que algu\u00e9m erga a voz: sim, h\u00e1 exce\u00e7\u00f5es).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Leve e ilusoriamente descompromissado, \u201cFunny Girl\u201d mant\u00e9m a literatura de Nick Hornby em uma posi\u00e7\u00e3o de destaque (no momento em que o escritor parece se dedicar mais a roteiros de cinema do que a livros: ele escreveu \u201cEduca\u00e7\u00e3o\u201d, em 2009; \u201cLivre\u201d, em 2014, e \u201cBrooklyn\u201d, que estreia nos Estados Unidos em novembro deste ano), o que n\u00e3o deixa de ser elogioso para um escritor que est\u00e1 comemorando 20 anos de seu livro de maior sucesso. Mais do que isso, \u201cFunny Girl\u201d abre possibilidades tem\u00e1ticas interessantes para o futuro do escritor, mas isso o leitor ter\u00e1 que aguardar: Nick Hornby amadurece lentamente. Segue o jogo (play nas s\u00e9ries)&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/07TC-EJAizI\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/07TC-EJAizI\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Marcelo Costa (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/screamyell\" target=\"_blank\">@screamyell<\/a>) \u00e9 editor do Scream &amp; Yell e assina a\u00a0<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/\" target=\"_blank\">Calmantes com Champagne<\/a><\/p>\n<p><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><br \/>\n&#8211; &#8220;Uma Longa Queda&#8221;, de Nick Hornby, incomoda muito mais do que diverte (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2006\/03\/17\/livro-uma-longa-queda-nick-hornby\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Falando sobre Nick Hornby e &#8220;Alta Fidelidade&#8221;, por Marcelo Costa (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/2013\/08\/10\/sobre-nick-horby-e-alta-fidelidade\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; &#8220;Uma Longa Queda&#8221;: no fim das contas, o filme supera o livro (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2014\/06\/03\/cinema-uma-longa-queda\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211;  \u201cFebre da Bola\u201d, o filme: a vers\u00e3o americana com\u00a0 Jimmy Fallon e Drew Barrymore (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/cinemadois\/amoremjogo.htm\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; \u201cFebre da Bola\u201d, o filme: a vers\u00e3o inglesa com Colin Firth (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/secoes\/febredabola.html\" target=\"_blank\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; \u201cUm Grande Garoto\u201d \u00e9 romance urgente, daqueles que retratam uma \u00e9poca (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/literatura\/grndgrt.htm\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; \u201cUm Grande Garoto\u201d, o filme, surge po\u00e9tico em algumas partes e pat\u00e9tico em outras (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/cinema\/umgrandegaroto.html\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; \u201cComo Ser Legal\u201d, de Nick Hornby, \u00e9 uma extens\u00e3o da \u201cteoria das calcinhas velhas\u201d (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/literatura\/comoserlegal.htm\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Guilherme Weber fala sobre a pe\u00e7a &#8220;A Vida \u00e9 Cheia de Som e F\u00faria&#8221; (<a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/mais\/somefuria.html\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; \u201cHowdy!\u201d, do Teenage Fanclub, por Nick Hornby (<a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/secoes\/teenage.html\" target=\"_blank\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Doce Mis\u00e9ria &#8211; A suaviza\u00e7\u00e3o de Nick Cave, por Nick Hornby (<a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/musica\/nomoreshall.html\" target=\"_blank\">aqui<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Marcelo Costa\nLeve e ilusoriamente descompromissado, \u201cFunny Girl\u201d mant\u00e9m a literatura de Nick Hornby em uma posi\u00e7\u00e3o de destaque\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/04\/23\/livro-funny-girl-de-nick-hornby\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[9],"tags":[2439],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30293"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=30293"}],"version-history":[{"count":10,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30293\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":30719,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30293\/revisions\/30719"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=30293"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=30293"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=30293"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}