{"id":30173,"date":"2015-04-14T10:36:42","date_gmt":"2015-04-14T13:36:42","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=30173"},"modified":"2023-03-28T23:04:53","modified_gmt":"2023-03-29T02:04:53","slug":"entrevista-victor-meira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/04\/14\/entrevista-victor-meira\/","title":{"rendered":"Entrevista: Victor Meira"},"content":{"rendered":"<h3 style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-30175\" title=\"victor_meira_foto3_credito_rafael-koch-rossi\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/victor_meira_foto3_credito_rafael-koch-rossi.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"401\" \/><\/h3>\n<h3 style=\"text-align: center;\"><strong>por\u00a0<a href=\"http:\/\/twitter.com\/renata_arruda\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Renata Arruda<\/a><\/strong><br \/>\ncom colabora\u00e7\u00e3o de <a href=\"https:\/\/twitter.com\/marcosxi\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Marcos Xi<\/a><\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conhecido por seu trabalho como m\u00fasico e compositor em projetos como o duo Godasadog, ao lado do produtor e Adam Matschulat Aguiar, e a banda de rock alternativo Bratislava, foi nas letras que Victor Meira iniciou seu trabalho art\u00edstico. Insatisfeito com o curso de Publicidade e incentivado por um amigo que havia se mudado para o Canad\u00e1, em 2006 Victor decidiu tentar a sorte em Toronto, onde ficou quase um ano trabalhando ilegalmente no que aparecesse: limpeza de entulho de constru\u00e7\u00e3o, landscaping para condom\u00ednios e, no final, em uma marcenaria. Enquanto isso, guardava o dinheiro recebido em esp\u00e9cie debaixo do colch\u00e3o. &#8220;Levei uma mala com uns quarenta livros, era basicamente o que eu fazia l\u00e1. Foi nessa \u00e9poca que eu arrisquei meus primeiros poemas&#8221;, conta ele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De volta ao Brasil, lan\u00e7ou dois zines e passou a frequentar saraus, onde teve contato com o pessoal do coletivo paulistano <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/maloqueirista\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Poesia Maloqueirista<\/a>, grupo independente de poetas urbanos que, dentre tantas coisas, organizou a R\u00e9cita Maloqueirista no Espa\u00e7o Parlapat\u00f5es e a publica\u00e7\u00e3o peri\u00f3dica Revista N\u00e3o Funciona. Por\u00e9m, em 2010, o poeta e contista resolveu mudar a chave da literatura para a m\u00fasica, dando in\u00edcio ao Bratislava. E descobriu que o maior desafio era escrever as letras:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Eu j\u00e1 tinha criado uma intimidade com o formato de conto e de poesia. Escrevi muita coisa de 2006 at\u00e9 2010 e a\u00ed me deparei com um formato diferente, que \u00e9 o de letra de m\u00fasica, e foi muito complicado. Achei que a intimidade com as letras ia ser um facilitador, mas foi foda; todas as letras que eu escrevia ficavam duronas. &#8216;Mapa do Deserto&#8217;, por exemplo, que t\u00e1 no &#8216;CARNE&#8217;, eu escrevi e reescrevi um trilh\u00e3o de vezes at\u00e9 chegar num ponto em que n\u00e3o estranhasse. Levou tempo pra que eu come\u00e7asse a me sentir um pouco mais \u00e0 vontade com esse formato, mas at\u00e9 hoje continuo achando minhas letras, tanto as do Bratislava quanto as do Godasadog, meio liter\u00e1rias&#8221;, reflete.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi atrav\u00e9s do envolvimento com o Poesia Maloqueirista que Victor Meira lan\u00e7ou seu primeiro livro,  &#8220;<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/bemoislivro\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Bem\u00f3is<\/a>&#8221; (80 p\u00e1ginas, R$ 20), que re\u00fane alguns dos micro-contos postados ao longo dos anos em seu blog Quadrado Vermelho. O t\u00edtulo faz parte da cole\u00e7\u00e3o\/selo Edi\u00e7\u00f5es Maloqueiristas que, contemplada pelo Programa de Valoriza\u00e7\u00e3o de Iniciativas Culturais (VAI) e com distribui\u00e7\u00e3o feita em parceria com a Editora Hedra, chegou em formato de box trazendo 26 publica\u00e7\u00f5es, entre in\u00e9ditos e reedi\u00e7\u00f5es, com corre\u00e7\u00e3o e revis\u00e3o dos poetas Heyk Pimenta e Juliana Bernardo e projeto gr\u00e1fico de Victor \u2014 que tamb\u00e9m \u00e9 designer. Em &#8220;Bem\u00f3is&#8221;, o autor buscou inspira\u00e7\u00e3o no absurdo e no fant\u00e1stico para as mini narrativas calcadas na solid\u00e3o, na confus\u00e3o e na viol\u00eancia da vida urbana e da religi\u00e3o, frequentemente acenando para o lado obscuro da vida e do ser humano. &#8220;Os contos sempre relatam situa\u00e7\u00f5es estranhas. Por exemplo, o conto que d\u00e1 t\u00edtulo ao livro come\u00e7a com um di\u00e1logo entre deus e o diabo, no qual eles conversam sobre a decad\u00eancia do cristianismo e a consequ\u00eancia fatal disso: o desaparecimento deles dois do imagin\u00e1rio do povo. Se comparam a Zeus, Poseidon e outras divindades que hoje s\u00f3 ocupam livros de mitologia, e n\u00e3o mais cultos e igrejas&#8221;, explica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Demonstrando habilidade como contador de hist\u00f3rias e pleno dom\u00ednio da narrativa, o que leva o leitor a eventualmente se frustrar com &#8220;Bem\u00f3is&#8221; \u00e9 que os contos se encerram r\u00e1pido demais \u2014 quando o leitor se prepara para imergir na hist\u00f3ria, descobre que ela chegou ao fim. &#8220;O editor da Devir disse que a leitura dos micro-contos era frustrante, porque todos t\u00eam uma promessa brilhante, uma cria\u00e7\u00e3o de situa\u00e7\u00e3o\/cen\u00e1rio\/personagem que te fisgam rapidinho, e a\u00ed, excitado, voc\u00ea veste o escafandro, aquela roupa pesada de mergulho, afivela tudo, rosqueia os encaixes imperme\u00e1veis, lacra todas as partes e quando finalmente pula no mar, descobre que era uma piscina de crian\u00e7a (inventei essa met\u00e1fora agora, ele se expressou de outra maneira)&#8221;, relembra. &#8220;Guardei com carinho esse feedback porque acho que o &#8216;Bem\u00f3is&#8217; pode proporcionar essa experi\u00eancia sim. Mas ele \u00e9 o que ele \u00e9. As hist\u00f3rias dele s\u00e3o curtas, recortes, frutos de um processo que exigia concis\u00e3o, j\u00e1 que os textos eram escritos para serem lidos em um blog&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tendo a m\u00fasica como sua principal atividade no momento e prometendo o lan\u00e7amento do segundo \u00e1lbum do <a href=\"http:\/\/www.bratislava.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Bratislava<\/a> e um EP do <a href=\"https:\/\/godasadog.bandcamp.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Godasadog<\/a> ainda para 2015, Victor Meira fala sobre &#8220;Bem\u00f3is&#8221; e literatura na entrevista a seguir:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-30174\" title=\"victor1\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/victor1.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Queria come\u00e7ar com voc\u00ea contando sobre seu envolvimento com a literatura. Quando voc\u00ea come\u00e7ou a escrever, a levar a s\u00e9rio, quando surgiu seu interesse como leitor?<\/strong><br \/>\nComecei a ler por prazer no colegial, quando um amigo me emprestou \u201cO Hobbit\u201d (1937, J. R. R. Tolkien). Foi o primeiro livro que me fascinou a ponto de eu achar que ler era prazeroso, um fim em si mesmo, e n\u00e3o uma obriga\u00e7\u00e3o ou um meio pra se obter conhecimento e sabedoria (como muita gente ensina para a gente na inf\u00e2ncia). Isso em 2002, 2003. Li outras fantasias na sequ\u00eancia, descambei em alguns \u201cSherlock Holmes\u201d, depois nos contos do Allan Poe e a\u00ed comecei a ler de tudo. Os primeiros escritos vieram em 2006, quando eu estava morando em Toronto. Tranquei a faculdade pra fazer essa viagem, morei por quase um ano l\u00e1. Trabalhava com constru\u00e7\u00e3o e marcenaria, e nas horas vagas eu lia muito. Escrever foi um desdobramento dessa experi\u00eancia, talvez uma resposta aos livros ou \u00e0 solid\u00e3o que eu sentia l\u00e1. N\u00e3o era uma solid\u00e3o ruim, eu gostava. Acho que a gente inventa maneiras de se expressar e de se relacionar com o mundo, mesmo em tempos de solid\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E que tipo de leitor voc\u00ea \u00e9? O que voc\u00ea costuma ler?<\/strong><br \/>\nGosto de ler fic\u00e7\u00f5es e romances, de prefer\u00eancia escritos a partir do come\u00e7o do s\u00e9culo passado. Acho dif\u00edcil se conectar profundamente com textos muito antigos. Dos grand\u00f5es, Cortazar, Borges, Saramago, Huxley, Sartre, Camus, Bukowski. Gosto muito dos livros e quadrinhos do Louren\u00e7o Mutarelli, dos quadrinhos do Moebius. Uma descoberta recente foi a russa\/americana Ayn Rand. \u201cFountainhead\u201d me assombrou, soou como uma ideia nova, talvez boa, perigosa. O her\u00f3i do livro \u00e9 detest\u00e1vel at\u00e9 voc\u00ea compreender a virtude dele \u2013 e isso vai acontecendo aos poucos, devagar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea contou que de 2010 pra 2011 voc\u00ea mudou de literatura para a m\u00fasica. Como foi isso?<\/strong><br \/>\nEu sempre quis ter uma banda, desde moleque. N\u00e3o foi uma mudan\u00e7a t\u00e3o objetiva, nem muito radical, mas comecei a encontrar mais prazer em fazer m\u00fasica do que em escrever poemas ou contos. Talvez isso mude novamente no futuro, n\u00e3o d\u00e1 pra saber. Comprei um Gianinni Jazz Bass de um amigo que fez um precinho camarada, eu nem estava planejando isso. Ele me vendeu o baixo + um ampli por R$ 400. Meu irm\u00e3o, Xande, j\u00e1 tocava guitarra fazia uns anos. A\u00ed come\u00e7amos a brincar de compor e a brincadeira come\u00e7ou a ficar divertida&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Uma coisa interessante \u00e9 que voc\u00ea admite ter sentido uma dificuldade inicial de escrever letras. Uma vez me pediram pra escrever a letra de m\u00fasica e como eu acho que \u00e9 necess\u00e1rio ter alguma intimidade tanto com a m\u00fasica quanto com a poesia para funcionar, achei que foi dif\u00edcil e n\u00e3o gostei muito do resultado, n\u00e3o tinha a minha voz. Como foi esse processo de encontrar a sua voz na composi\u00e7\u00e3o de uma letra?<\/strong><br \/>\nEnt\u00e3o voc\u00ea sabe exatamente como \u00e9. Nas primeiras tentativas, o gigante da autocr\u00edtica faz com que as letras fiquem quadradas, muito cuidadosas, normalmente desligadas da cama musical na qual elas est\u00e3o querendo se deitar. \u00c9 um processo cheio de receio, buscando crit\u00e9rios que ainda nem existem \u2013 e que s\u00f3 v\u00e3o existir conforme voc\u00ea for compondo, m\u00fasica sobre m\u00fasica. Leva um tempo (\u00e0s vezes, alguns discos) pra perceber isso, come\u00e7ar a criar um territ\u00f3rio, um set de crit\u00e9rios, um superego cr\u00edtico que colabore ao inv\u00e9s de vetar ou amedrontar o esp\u00edrito criativo. O primeiro release com o qual eu me senti um pouco mais confort\u00e1vel com o resultado da mescla letra\/m\u00fasica foi o \u201cHoje\u201d (2013), do Godasadog.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Muita gente acha que quem escreve \u00e9 capaz de escrever qualquer coisa, mas nem sempre \u00e9 assim. Garc\u00eda M\u00e1rquez era um roteirista de cinema med\u00edocre, por exemplo.  E h\u00e1 muitas cr\u00edticas aos livros de Chico Buarque, por exemplo&#8230;<\/strong><br \/>\nO Mill\u00f4r tem uma frase assim, &#8220;o xadrez \u00e9 um jogo chin\u00eas que aumenta a capacidade de jogar xadrez&#8221;. Acho que \u00e9 por a\u00ed. Se voc\u00ea escreve letra de m\u00fasica, voc\u00ea vai ser bom em escrever letra de m\u00fasica. O mesmo vale pra poesia, conto, texto publicit\u00e1rio, piada. Minhas piadas s\u00e3o muito ruins, imagine! S\u00f3 a Livia d\u00e1 risada delas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea pode contar mais sobre o grupo Poesia Maloqueirista e seu tabalho com ele? Como voc\u00ea chegou ao grupo?<\/strong><br \/>\nConheci o Berimba de Jesus e o Caco Pontes em 2008, acho. Nessa \u00e9poca eu escrevia mais poemas do que contos, e ao ir atr\u00e1s de saraus em S\u00e3o Paulo, me deparei com os grupos e r\u00e9citas que eles frequentavam. Comecei a arriscar uns poemas nos saraus, mas nunca fui bom de r\u00e9cita. \u00c9 preciso muita cara de pau, uma atitude que s\u00f3 poeta-poeta tem. \u00c9 uma qualidade muito foda, admiro muito. Dois poetas que s\u00e3o lindos de se ver recitando s\u00e3o o Daniel Minchoni e o Heyk Pimenta. S\u00e3o dois poet\u00f5es, t\u00eam o tipo de voz e de atitude que poeta tem que ter. Minhas tentativas de assumir essa postura eram eu imitando eles, hahaha. Nunca me senti confort\u00e1vel recitando. \u00c9 sempre uma tremedeira danada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Falando sobre o &#8220;Bem\u00f3is&#8221;, os textos foram pin\u00e7ados do seu blog e essa op\u00e7\u00e3o pelos mini contos foi algo que, na minha opini\u00e3o, funcionou bastante. Mas como voc\u00ea v\u00ea o fato de os leitores terem cada vez menos interesse em textos mais longos na internet?<\/strong><br \/>\nAcho que a internet \u00e9, em si, um lugar de experi\u00eancias r\u00e1pidas, pr\u00e1ticas, instant\u00e2neas, que satisfa\u00e7am os micro-desejos que surgem de segundo a segundo, e mudam a cada instante. Pra um texto longo ser lido na internet ele precisa ser muito relevante, ter algum aspecto pol\u00eamico, estar ligado de alguma forma \u00e0 agenda setting, aos temas &#8220;trending&#8221; daquela semana, daquele dia. Acho que nenhuma fic\u00e7\u00e3o possui esse tipo espec\u00edfico de relev\u00e2ncia. \u00c9 outro tipo de experi\u00eancia, que talvez perten\u00e7a mesmo ao impresso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Saramago uma vez declarou, a respeito do Twitter, que &#8220;de degrau em degrau, vamos descendo at\u00e9 o grunhido&#8221;. Por outro lado, Jennifer Egan j\u00e1 escreveu um livro inteiro com Tweets. Tamb\u00e9m h\u00e1 o fator da proximidade entre autor e p\u00fablico proporcionada pela internet, o que ajuda a disseminar o trabalho. No final das contas, voc\u00ea acha que redes sociais ajudam ou atrapalham a fazer literatura e formar leitores?<\/strong><br \/>\nAjudam, sempre ajudam. Como a internet atrapalharia? Criando um h\u00e1bito de ler s\u00f3 coisas r\u00e1pidas, curtas, tweets, posts? Duvido. Essa pregui\u00e7a de ler textos longos j\u00e1 existia muito antes das redes sociais. As pessoas precisam de um bom motivo pra encarar um romancez\u00e3o de 500 p\u00e1ginas, e por meio das redes voc\u00ea consegue descobrir novos autores, compartilhar experi\u00eancias das suas leituras, convidar amigos para um sarau, pra o lan\u00e7amento de um livreto, de um zine. \u00c9 uma ferramenta de ouro especialmente pra escritores iniciantes e independentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A poesia e o conto s\u00e3o dois g\u00eaneros dif\u00edceis, as editoras n\u00e3o costumam apostar muito porque, segundo elas, n\u00e3o vende. Outro dia li uma resenha da Patti Smith para um livro de contos do C\u00e9sar Aira e ela mesma comenta que n\u00e3o costuma ler muitos contos, porque eles terminam muito r\u00e1pido e bate uma sensa\u00e7\u00e3o de tristeza. O que voc\u00ea acha?<\/strong><br \/>\nPois \u00e9, isso \u00e9 verdade. Antes de lan\u00e7ar pela Poesia Maloquerista eu cheguei a enviar o \u201cBem\u00f3is\u201d para algumas editoras. Uma delas me deu um feedback que tem mais ou menos a ver com isso que voc\u00ea falou. O editor da Devir, Douglas Quinta Reis, conversou comigo por telefone e foi muito am\u00e1vel ao dispor quase uma hora do tempo dele pra me falar o que ele tinha pensado do livro, como leitor e como editor. E uma das coisas que ele disse foi que a leitura dos micro-contos era frustrante, porque todos t\u00eam uma promessa brilhante, uma cria\u00e7\u00e3o de situa\u00e7\u00e3o\/cen\u00e1rio\/personagem que te fisgam rapidinho, e a\u00ed, excitado, voc\u00ea veste o escafandro, aquela roupa pesada de mergulho, afivela tudo, rosqueia os encaixes imperme\u00e1veis, lacra todas as partes e quando finalmente pula no mar, descobre que era uma piscina de crian\u00e7a (essa met\u00e1fora eu inventei agora, ele se expressou de outra maneira). Guardei com carinho esse feedback porque acho que o \u201cBem\u00f3is\u201d pode proporcionar essa experi\u00eancia sim. Mas ele \u00e9 o que ele \u00e9. As hist\u00f3rias dele s\u00e3o curtas, recortes, frutos de um processo que exigia concis\u00e3o, j\u00e1 que os textos eram escritos para serem lidos em um blog. Autores como Charles Dickens escreveram livros volumosos e super prolixos porque ganhavam por cada palavra escrita. \u00c0s vezes a circunst\u00e2ncia define o car\u00e1ter t\u00e9cnico de uma produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. E isso passa a ser intr\u00ednseco \u00e0 obra. Quer dizer, eu jamais &#8220;estenderia&#8221; meus contos pra que se adequassem ao formato impresso. Eles s\u00e3o o que s\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea j\u00e1 chegou a arriscar escrever contos maiores, novelas?  Tem maiores pretens\u00f5es para a literatura?<\/strong><br \/>\nNunca escrevi nada muito longo. Mas, claro, tenho vontade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>No ano passado alguns escritores se uniram e organizaram a FLIPobre, um evento liter\u00e1rio online, com uma maioria de escritores independentes\/marginais, todo feito em formato de hangout. Qual a sua opini\u00e3o a respeito da praticamente inexist\u00eancia de espa\u00e7o para escritores independentes nos grandes festivais de literatura? E quais as alternativas para sobreviver nesse cen\u00e1rio? Uma sa\u00edda para um autor estreante seria se unir a um coletivo?<\/strong><br \/>\nColetivos liter\u00e1rios s\u00e3o uma \u00f3tima ideia, especialmente os mais ativos, que promovem saraus, r\u00e9citas, lan\u00e7amentos. Viram um grupo de troca, de celebra\u00e7\u00e3o da escrita, de compartilhamento. A Poesia Maloqueirista fazia a R\u00e9cita Maloqueirista, um sarau aberto no palco do Espa\u00e7o Parlapat\u00f5es, onde qualquer um podia subir e compartilhar seus versos. Escritores independentes precisam de espa\u00e7os pra mostrar sua obra e pra conhecer a de outros autores semelhantes, espa\u00e7os que promovam troca e crescimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voltando ao &#8220;Bem\u00f3is&#8221;, quando li &#8220;O Motorista&#8221;, o conto que abre o livro, a minha interpreta\u00e7\u00e3o foi para o caminho de se imaginar uma sociedade no futuro ao mesmo tempo qualificada e sem muita distin\u00e7\u00e3o de classe, em que trabalhos como o de motorista de \u00f4nibus seriam valorizados, mas li que seria uma esp\u00e9cie de cr\u00edtica \u00e0 super-especializa\u00e7\u00e3o. Poderia comentar um pouco sobre isso?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o sei se \u00e9 uma cr\u00edtica, no sentido reprovat\u00f3rio, mas um exerc\u00edcio de vis\u00e3o de um futuro poss\u00edvel, no qual o conhecimento super democratizado e super acess\u00edvel cria profissionais cada vez mais especialistas. O conto \u00e9 uma proje\u00e7\u00e3o ut\u00f3pica, se levarmos em conta as condi\u00e7\u00f5es de trabalho de um motorista de \u00f4nibus no cen\u00e1rio proposto, uma contrata\u00e7\u00e3o intelectualmente exigente e apraz\u00edvel, <em>over brandy and cigars<\/em>. Mas ele se desenrola quase no tom de um deboche sutil, como uma utopia que n\u00e3o cr\u00ea em si mesma, ou que tem consci\u00eancia de que tem cara de utopia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>No livro tamb\u00e9m \u00e9 bem recorrente as figuras de deus e do diabo, principalmente deste \u00faltimo. Religi\u00e3o \u00e9 um tema importante para voc\u00ea?<\/strong><br \/>\nFui crist\u00e3o at\u00e9 os 17 anos. Hoje a religi\u00e3o n\u00e3o me interessa mais como pr\u00e1tica pessoal, mas continua me interessando muito enquanto tema e material de estudo. Tenho amigos de inf\u00e2ncia que hoje s\u00e3o pastores, muitos outros que nunca pararam de frequentar a igreja. Meus pais abriram muito a cabe\u00e7a pra outros conceitos e acabaram criando suas pr\u00f3prias vers\u00f5es, entendimentos ou interpreta\u00e7\u00f5es da ~verdade~, mas se consideram crist\u00e3os. A fam\u00edlia da minha noiva \u00e9 bastante crist\u00e3, v\u00e3o todo s\u00e1bado \u00e0 igreja, praticam do modo que aprenderam quando eram crian\u00e7as. E ao mesmo tempo tenho muitos amigos que, como eu, perderam o interesse pela pr\u00e1tica religiosa e tem ideias em comum comigo. Ent\u00e3o \u00e9 um assunto que volta e meia se faz presente no meu cotidiano. Eu fui um crist\u00e3o ser\u00edssimo, estudava a b\u00edblia diariamente com meus pais, convers\u00e1vamos bastante. \u00c9 uma heran\u00e7a que carrego comigo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Falando um pouco sobre m\u00fasica, voc\u00ea tem dois projetos bem conceituados nos seus nichos: o Bratislava e o Godasadog. A m\u00fasica \u00e9 a sua atividade principal, hoje?<\/strong><br \/>\nSim, \u00e9 a atividade \u00e0 qual eu mais me dedico. Continuo escrevendo em menor escala e tamb\u00e9m estudo pintura realista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E quais s\u00e3o os pr\u00f3ximos projetos para as bandas e para a literatura?<\/strong><br \/>\n2015 \u00e9 um ano de muitos lan\u00e7amentos e participa\u00e7\u00f5es em projetos de outros artistas. O Bratislava est\u00e1 em processo de grava\u00e7\u00e3o do segundo \u00e1lbum da banda, e o Godasadog est\u00e1 em produ\u00e7\u00e3o de um novo EP, inteiramente produzido \u00e0 dist\u00e2ncia (j\u00e1 que Matschulat est\u00e1 morando em Berlin desde o come\u00e7o de 2014). Para a literatura os planos ainda s\u00e3o nebulosos.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-30176\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"821\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/.jpg 600w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/04-219x300.jpg 219w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span>&#8211; Renata Arruda (<\/span><a href=\"http:\/\/twitter.com\/renata_arruda\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@renata_arruda<\/a><span>) \u00e9 jornalista e assina o blog <a href=\"http:\/\/www.mardemarmore.blogspot.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Prosa Espont\u00e2nea<\/a>. A foto que abre o texto \u00e9 de Rafael Koch Rossi (Divulga\u00e7\u00e3o). A ilustra\u00e7\u00e3o acima \u00e9 de Victor Meira e est\u00e1 presente no livro &#8220;Bem\u00f3is&#8221;.<a href=\"http:\/\/www.mardemarmore.blogspot.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><br \/>\n<\/a><\/span><\/p>\n<p><strong>Mais sobre literatura:<\/strong><br \/>\n&#8211; Tr\u00eas HQs: &#8220;Vingan\u00e7a&#8221;, &#8220;Casanova: Gula&#8221; e &#8220;Justiceiro MAX: Mercen\u00e1rio\u201d (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/04\/05\/hqs-vinganca-casanova-justiceiro\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Modiano: &#8220;Dora Bruder&#8221; e o passado sinistro varrido pra debaixo do tapete (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/04\/04\/livros-dora-bruder-de-patrick-modiano\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; \u00c1lbum cl\u00e1ssico do Sonic Youth \u00e9 esmiu\u00e7ado na s\u00e9rie \u201cO Livro do Disco? (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/03\/30\/um-livro-sobre-daydream-nation\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; \u201cN\u00e3o Sou Dessas\u201d revela inexperi\u00eancia e imaturidade de Lena Dunham (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/03\/21\/livro-nao-sou-dessas-lena-dunham\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Olavo Rocha fala sobre a HQ \u201cCidade das \u00c1guas\u201d  (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/03\/23\/olavo-rocha-fala-da-cidade-das-aguas\/\" target=\"_self\" rel=\"noopener\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; \u201cGirl in a Band: A Memoir\u201d: uma intensa confiss\u00e3o de fracasso de Kim Gordon (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/2014\/12\/15\/coluna-12-livros-musicais-de-2014\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Gustavo Duarte: \u201cTemos que criar o costume da leitura aqui\u201d  (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/03\/19\/tres-perguntas-gustavo-duarte\/\" target=\"_self\" rel=\"noopener\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; \u201cA Balada de Adam Henry\u201d confirma talento de Ian McEwan (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/03\/14\/tres-livros-ellis-alonso-mcewan\/\" target=\"_self\" rel=\"noopener\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; \u201cMiddlesex\u201d, de Jeffrey Eugenides, \u00e9 um livro irretoc\u00e1vel (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/03\/03\/livro-middlesex-jeffrey-eugenides\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; \u201cO Irm\u00e3o Alem\u00e3o\u201d\u00a0 traz Chico entre o excesso de confian\u00e7a e a insipidez (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/02\/11\/livro-o-irmao-alemao-de-chico-buarque\/\">aqui<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Renata Arruda\nConhecido por seu trabalho como m\u00fasico e compositor, Victor Meira fala ao site sobre &#8220;Bem\u00f3is&#8221;, seu primeiro livro de contos\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/04\/14\/entrevista-victor-meira\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":27,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[9],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30173"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/27"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=30173"}],"version-history":[{"count":13,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30173\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":73497,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30173\/revisions\/73497"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=30173"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=30173"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=30173"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}