{"id":30038,"date":"2015-04-04T08:27:58","date_gmt":"2015-04-04T11:27:58","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=30038"},"modified":"2023-03-29T01:11:58","modified_gmt":"2023-03-29T04:11:58","slug":"livros-dora-bruder-de-patrick-modiano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/04\/04\/livros-dora-bruder-de-patrick-modiano\/","title":{"rendered":"Livros: Dora Bruder, de Patrick Modiano"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-30039\" title=\"modiano1\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/modiano1.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<h3 style=\"text-align: center;\"><strong>por\u00a0<a href=\"http:\/\/twitter.com\/renata_arruda\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Renata Arruda<\/a><\/strong><\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">No longa polon\u00eas &#8220;Ida&#8221;, vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro deste ano, a jovem personagem-t\u00edtulo est\u00e1 prestes a fazer seus votos para se tornar freira quando a madre superiora do convento lhe informa que ela tem uma tia, da qual nunca ouvira falar, e informa a Ida que ela ter\u00e1 que passar algum tempo com a tia, quase como torcendo para que a menina n\u00e3o volte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao conhecer sua \u00fanica parente, uma revela\u00e7\u00e3o: al\u00e9m de tomar ci\u00eancia de seu verdadeiro nome, a jovem tamb\u00e9m descobre pertencer a uma fam\u00edlia judia. E ent\u00e3o segue em busca de descobrir onde foram enterrados os corpos de seus pais, a fim de resgat\u00e1-los e dispensar a eles um enterro digno \u2013 tudo isso enquanto descobre outro universo, al\u00e9m dos muros do convento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A tarefa n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o f\u00e1cil: os judeus perseguidos durante os anos de ocupa\u00e7\u00e3o nazista simplesmente desapareceram, tendo seus rastros apagados, ou como diz brilhantemente Andr\u00e9 de Leones em seu pref\u00e1cio, &#8220;aqueles que foram gratuita e brutalmente esvaziados, anulados, despidos de si mesmos&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O polon\u00eas \u201cIda\u201d consegue ampliar a dimens\u00e3o do tema tratado pelo escritor franc\u00eas Patrick Modiano em &#8220;Dora Bruder&#8221;, livro de 1997 que a editora Rocco lan\u00e7ou no Brasil em 2014: o apagamento de toda uma hist\u00f3ria e o esquecimento de pessoas de quem fora roubada a dignidade e a humanidade. A inspira\u00e7\u00e3o para o livro veio quando o autor, j\u00e1 nos anos 80, se deparou com um an\u00fancio em um jornal de 1941. Dora Bruder estava desaparecida e seus pais procuravam por ela:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>&#8220;Procura-se uma jovem, Dora Bruder, 15 anos, 1,55cm, rosto oval, olhos marrom acinzentados, casac\u00e3o cinza, su\u00e9ter bord\u00f4, saia e chap\u00e9u azul-marinho,sapatos marrons. Qualquer informa\u00e7\u00e3o dirigir-se ao Sr. e \u00e0 Sra. Bruder, bulevar Ornano, 41, Paris&#8221;<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tentando imaginar o que poderia ter acontecido com a menina, Modiano ainda tentou transformar a hist\u00f3ria em fic\u00e7\u00e3o, trocando o nome de Dora para Ingrid, mas o romance n\u00e3o foi adiante. Ele decidiu ent\u00e3o fazer uma busca para tentar refazer os passos e, quem sabe, descobrir o paradeiro de Dora Bruder e \u00e9 sobre esta busca que ele baseia seu livro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em sua pesquisa de campo, Modiano consegue muito pouco: um endere\u00e7o, uma certid\u00e3o de nascimento, algumas fotografias, alguns documentos e men\u00e7\u00f5es em relat\u00f3rios e informa\u00e7\u00f5es sobre os pais de Dora. Pouco mais de 40 anos depois, Paris n\u00e3o \u00e9 mais a mesma e, ainda que a geografia n\u00e3o tenha mudado muito, o cen\u00e1rio muitas vezes est\u00e1 diferente: &#8220;Foi tudo aniquilado, para que se constru\u00edsse uma esp\u00e9cie de cidade su\u00ed\u00e7a, da qual n\u00e3o se pudesse colocar em d\u00favida sua neutralidade&#8221; (p. 130).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O autor muitas vezes faz paralelos entre fatos que envolvem a vida de Dora e sua fam\u00edlia com a sua pr\u00f3pria, principalmente no que diz respeito a seu pai \u2013 um judeu que conseguiu fugir da pris\u00e3o em um golpe de sorte \u2013, com quem perdeu contato para sempre desde a adolesc\u00eancia. Nas palavras de Andr\u00e9 de Leones, &#8220;a partir de um dado momento, a busca pelo outro acaba por se traduzir numa busca por si pr\u00f3prio, mediante sua rela\u00e7\u00e3o com a mem\u00f3ria e com a cidade&#8217;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais importante que tentar refazer os passos de Dora Bruder, o que Modiano faz \u00e9 chamar aten\u00e7\u00e3o para o quanto do passado sinistro da Fran\u00e7a foi varrido para debaixo do tapete, apagando por completo a exist\u00eancia de pessoas que viveram e trabalharam em Paris como se nunca tivessem existido \u2013 tema que ele aborda tamb\u00e9m, de maneira diferente e bem mais sutil em \u201cUma Rua de Roma\u201d (\u201cRue des Boutiques Obscures\u201d, de 1978), com seu personagem amn\u00e9sico que encontra dificuldades para descobrir seu pr\u00f3prio passado. Tudo foi destru\u00eddo, descartado, esquecido e uma outra hist\u00f3ria, menos sombria, colocada no lugar: &#8220;S\u00e3o pessoas que n\u00e3o deixam vest\u00edgios atr\u00e1s de si. Praticamente an\u00f4nimas. N\u00e3o podemos separ\u00e1-las de certas ruas de Paris, de certas paisagens de sub\u00farbio, onde descobri, por acaso, que moraram. O que sabemos delas se resume, quase sempre, a um endere\u00e7o apenas. E essa precis\u00e3o topogr\u00e1fica contrasta com o que vamos ignorar para sempre de suas vidas \u2013 esse branco, esse bloco de desconhecimento e sil\u00eancio.&#8221; (p.25)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cQuando a cada ano se pensa que os bons livros se acabaram, aparece o desconhecido de sempre ganhando o Nobel para nos lembrar de que n\u00e3o \u00e9 assim\u201d, escreveu Iv\u00e1n Thays no El Pa\u00eds. Patrick Modiano era um nome da literatura esquecido fora da Fran\u00e7a at\u00e9 o ano passado, quando teve seu trabalho reconhecido com um inesperado Pr\u00eamio Nobel de Literatura. A editora Rocco, respons\u00e1vel por lan\u00e7ar no Brasil durante os anos 80 a obra de Patrick Modiano, rapidamente relan\u00e7ou tr\u00eas de seus t\u00edtulos mais emblem\u00e1ticos: al\u00e9m de \u201cDora Bruder\u201d (1997), \u201cRonda da Noite\u201d (1969) e \u201cUma Rua de Roma\u201d (1978) completam a cole\u00e7\u00e3o de romances curtos de um autor com o importante m\u00e9rito de tentar resgatar algum fragmento de um passado nem sempre conveniente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-30040\" title=\"modiano2\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/modiano2.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p><span>&#8211; Renata Arruda (<\/span><a href=\"http:\/\/twitter.com\/renata_arruda\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@renata_arruda<\/a><span>) \u00e9 jornalista e assina o blog <a href=\"http:\/\/www.mardemarmore.blogspot.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Prosa Espont\u00e2nea<\/a><\/span><\/p>\n<p><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><br \/>\n&#8211; &#8220;Ida&#8221; prop\u00f5e uma complexa jornada de descoberta (tardia) de identidade (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/02\/15\/tres-filmes-tangerines-leviata-ida\/\" target=\"_self\" rel=\"noopener\">aqui<\/a>)<\/p>\n<p><strong>Mais sobre literatura:<\/strong><br \/>\n&#8211; \u00c1lbum cl\u00e1ssico do Sonic Youth \u00e9 esmiu\u00e7ado na s\u00e9rie \u201cO Livro do Disco? (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/03\/30\/um-livro-sobre-daydream-nation\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; &#8220;N\u00e3o Sou Dessas&#8221; revela inexperi\u00eancia e imaturidade de Lena Dunham (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/03\/21\/livro-nao-sou-dessas-lena-dunham\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Olavo Rocha fala sobre a HQ &#8220;Cidade das \u00c1guas&#8221;  (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/03\/23\/olavo-rocha-fala-da-cidade-das-aguas\/\" target=\"_self\" rel=\"noopener\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; \u201cGirl in a Band: A Memoir\u201d: uma intensa confiss\u00e3o de fracasso de Kim Gordon (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/2014\/12\/15\/coluna-12-livros-musicais-de-2014\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Gustavo Duarte: \u201cTemos que criar o costume da leitura aqui\u201d  (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/03\/19\/tres-perguntas-gustavo-duarte\/\" target=\"_self\" rel=\"noopener\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; \u201cA Balada de Adam Henry\u201d confirma talento de Ian McEwan (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/03\/14\/tres-livros-ellis-alonso-mcewan\/\" target=\"_self\" rel=\"noopener\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; \u201cMiddlesex\u201d, de Jeffrey Eugenides, \u00e9 um livro irretoc\u00e1vel (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/03\/03\/livro-middlesex-jeffrey-eugenides\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; \u201cO Irm\u00e3o Alem\u00e3o\u201d\u00a0 traz Chico entre o excesso de confian\u00e7a e a insipidez (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/02\/11\/livro-o-irmao-alemao-de-chico-buarque\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; \u201cHappy\u201d, de Grant Morrison e Darick Robertson, merece o tempo dedicado (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/02\/03\/tres-hqs-happy-astronauta-e-sandman\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; \u201cAstronauta \u2013 Singularidade\u201d, de Danilo Beyruth, quase escorrega no selo MSP (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/02\/03\/tres-hqs-happy-astronauta-e-sandman\/\">aqui<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Renata Arruda\nPr\u00eamio Nobel de Literatura de 2014, franc\u00eas Patrick Modiano tem tr\u00eas livros reeditados no Brasil pela editora Rocco. Conhe\u00e7a!\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/04\/04\/livros-dora-bruder-de-patrick-modiano\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":27,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[9],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30038"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/27"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=30038"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30038\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":73680,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30038\/revisions\/73680"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=30038"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=30038"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=30038"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}